Fazendo luz as ideias já apresentadas, Levy et. Al (1994) aborda, que um regime é composto pela convergência de expectativas de determinados atores em uma área temática específica através da delimitação de princípios, normas e regras.
Assim sendo, efetividade do regime pode ser mensurado em âmbito legal, político e em uma visão orientada por objetivos.
Para que seja analisada a efetividade do regime de combate ao narcotráfico estabelecido na América do Sul, são levados em consideração os três métodos, referidos no capítulo anterior, de maneiras distintas. Desta forma, pode-se ter uma ideia mais nítida de que a efetividade de um regime não está condicionada a apenas um fator em detrimento dos demais, o que propõe uma análise mais apurada dos efeitos causados pelo regime aos Estados participantes.
Os acordos previam a responsabilidade dos membros no fomento ao combate ao narcotráfico, entretanto, a busca pelos interesses individuais dos mesmos, não estava limitada pelas regras estabelecidas, a exemplo disso temos algumas alterações no regime, como a descriminalização do porte de drogas para consumo pessoal, a regulamentação da maconha para fins recreativos, bem como a saída e readesão da Bolívia à Convenção Única de 1961, mantendo uma reserva referente à legalidade do uso tradicional da folha de coca em território boliviano.
40 Por sua vez, a visão orientada por objetivos está relacionada ao estabelecimento de metas e ao ajustamento de políticas para obtê-las, fato esse que pode ser explicado pela tentativa de implementação do Plano Colômbia7, que acabou trazendo danos à sociedade, por exemplo, em seus primeiros cinco anos de aplicação. Como exemplo, cita-se o aprofundamento da violência social e aumento da quantidade de desabrigados, criando situações de miséria ao redor das principais cidades, e a migração de pessoas dentro do território (Enciclopédia Latino-americana , 2012)
A visão política, enfim, leva em consideração a capacidade de o regime afetar o comportamento dos atores em criar novos padrões de interação, fato percebido através de que, após mais de 50 anos do regime de controle de drogas, existe um sentimento crescente de que é necessária uma nova abordagem para o problema das drogas (CARVALHO, 2014). Portanto, a efetividade do regime vem sendo questionada ao longo de um processo de avanços e de retrocessos até meados do século XXI.
7 Criado pelo governo dos Estados Unidos em 2000, destina-se oficialmente para combater produção e o tráfico de cocaína na Colômbia, porém tem o também propósito de desestruturar as guerrilhas de esquerda, como as FARC, com ajuda financeira e militar dos EUA ao governo colombiano.
41 3.3 OS EFEITOS DO REGIME NA AMÉRICA DO SUL
Existem motivos pelos quais os regimes contra as drogas não tiveram tanta eficácia. Apesar dos esforços dos EUA e da comunidade internacional em apoiar governos como os da Bolívia, Colômbia e Peru, o cultivo da folha de coca e a produção de cocaína permaneceram estáveis ao longo da última década, como ilustra o seguinte gráfico:
Gráfico 2: Produção global de cocaína (1990-2008)
Fonte: UNODC, 2010
Segundo dados da UNODC, até 2012, países como Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Chile e Venezuela ainda eram responsáveis por quase 100% da produção mundial de cocaína apesar de pequenas variações na produção de cada país.
Efetivamente, o que as evidências tem demonstrado com relação à repressão à produção de drogas em um dado país é que, como consequência, há uma migração para outro lugar, resultando no conhecido efeito balão, que é responsável pela manutenção do equilíbrio da produção regional (The Economist, 2013).
Entende-se também que, devido à sua localização estratégica entre a América do Norte e Europa Ocidental, muitos países da América Latina e do Caribe também são afetados negativamente pelo trânsito de drogas ilícitas. Grande parte das estimativas disponíveis sugerem que mais de 90% de toda a cocaína consumida nos EUA vem da Colômbia e é transportada através da América Central e do México. Além disso, as atividades antinarcóticos na América do Sul resultaram em uma expansão das rotas de tráfico pelos países vizinhos, aumentando a corrupção e, expandindo a violência nas várias sub-regiões.
42 Por isso, tendo como base uma perspectiva regional para se avaliar a eficácia da política de drogas, pesquisas confirmam que as políticas “bem-sucedidas”
destinadas a combater o narcotráfico e reduzir a violência em um país podem gerar efeitos negativos em outros, fazendo com que a necessidade de se realizar abordagens integradas para não se repetir os fracassos do passado (Castillo et al., 2012).
Enfatiza-se ainda, o fracasso dos esforços internacionais na área de redução da demanda como estratégia para combater o narcotráfico. No ano de 2015, entre 200 e 300 milhões de pessoas usaram alguma substância ilícita pelo menos uma vez (UNODC, 2016), o que demonstra que os níveis de consumo estão aumentando ou e estabilizando ao invés de diminuir.
Na América do Sul, estudos realizados revelam que a tendência de consumo de cocaína, por exemplo, tem aumentado gradativamente. Segundo a ONU, A taxa de prevalência da droga na região passou de 0,7% da população em 2010 - com 1,8 milhões de usuários - para 1,2% em 2012, um total de 3,3 milhões de pessoas.
Atualmente, as taxas sul-americanas são três vezes a média mundial
Assim sendo, entende-se que, o consumo e o tráfico geram violência. Dessa forma, os esforços para combater a oferta, o trânsito e o consumo de drogas na América do Sul têm gerado danos colaterais em termos de corrupção, prisões e violações dos direitos humanos. De fato, as prisões e as cadeias na maioria dos países da América do Sul estão superlotadas, operando muitas vezes acima da sua capacidade. Na obra “Systems Overload: Drug Laws and Prisons in Latin America”
estudo sobre a relação entre as leis de drogas e a população carcerária na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Uruguai concluiu que a aplicação de leis severas para delitos relacionados às drogas resultou em um enorme aumento do número de processos, em prisões superlotadas e no sofrimento de dezenas de milhares de pessoas por pequenos delitos ou simples posse de droga, muitas vezes pela primeira vez (HERNÁNDEZ, 2011).
A resposta punitiva aos traficantes e usuários também resultou em penas excessivas e repressão desqualificada, o que quase sempre contribui para a violação dos direitos humanos básicos. E como o negócio da droga prosperou, o crime organizado ampliou seu alcance e hoje constitui uma grande ameaça para a
43 autoridade e a legitimidade do Estado, o que prejudica o processo democrático e o crescimento econômico (UNODC, 2007).
Posto isso, a guerra contra as drogas contribuiu para a ascensão da América Sul, se estendo à toda América Latina, como a região mais violenta do planeta, medida pelos níveis de homicídios e execuções, execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias e pela falta de acesso a serviços básicos de saúde (Count the Costs, 2012). Os conflitos gerados pela disputa sobre a produção e a distribuição de drogas ilícitas - incluindo não só aqueles entre os cartéis de drogas pelo trânsito de entorpecentes, mas também entre os governos nacionais e os narcotraficantes - foram devastadores (Comissão Global de Política sobre Drogas, 2011; REDMOND, 2012; RAWLINS, 2011).
Durante o período 2004-2009, 25% de todas as mortes violentas globais ocorreram em países como Colômbia e Venezuela (Krause et al., 2011). A América Latina também registra a taxa de homicídio juvenil mais alta do mundo, superando a de países e regiões em guerra (WAISELFISZ, 2008; 2012). Uma pesquisa realizada em 2008 analisou as taxas de homicídio de jovens em 83 países em todo o mundo e verificou que as maiores taxas estão nas regiões que abrangem a América Latina.
Logo, o que se vê é que direitos à liberdade, à segurança individual e a um julgamento justo são sistematicamente violados em países da América do Sul como consequência da política de guerra às drogas. A prática de execuções extrajudiciais, ou seja, o assassinato de indivíduos pelas autoridades fora do âmbito dos processos judiciais regulares é assustadoramente comum. No Brasil, há muitos relatos de execuções extrajudiciais cometidas por membros das forças de segurança durante as grandes operações antidrogas em favelas urbanas (UNOHCHR, 2008)8
Nesse contexto, a implementação de intervenções antidrogas, não produziu melhorias tangíveis na segurança. Em vez disso, resultou em um aumento da violência, da corrupção das instituições do Estado, das populações carcerárias e da sistemática violação dos direitos humanos.
8 As principais vítimas da brutalidade policial são jovens do sexo masculino afro-brasileiros com idades entre 15 e 19 anos, que geralmente são rotulados como traficantes de drogas nas favelas (UNECOSOC, 2004). Em muitos casos, a gravidade do problema é camuflada por meio de sistemas de classificação ambíguos. Muitas dessas mortes não são investigadas pela polícia, ao invés disso são justificadas como atos de legítima defesa por membros das forças de segurança contra membros de organizações criminosas. Um relatório da ONU de 2007 sobre execuções extrajudiciais, sumárias ou arbitrárias no Brasil concluiu que a polícia estava frequentemente matando suspeitos de crimes ao invés de investigá-los e prendê-los, e que um grande número de suspeitos de crimes e inocentes estavam sendo mortos durante operações policiais nas favelas (HARLEY, 2013).
44
45 CONCLUSÃO
Nesta monografia buscou-se delinear os aspectos concernentes ao regime de combate ao narcotráfico no que se refere ao processo de formação, consolidação e eficácia entre os Estados da América do Sul entre 1988 e 2015. Para avaliar estas questões, foram assinaladas as premissas de Levy, Young e Zurn sobre regimes internacionais que, permeiam o escopo de atuação deste campo de estudos.
Levando-se em consideração o problema exposto, a construção de um regime de combate ao narcotráfico foi fator que propiciou a transformação dos padrões de interação entre os Estados da América do Sul quanto ao tema, fornecendo um foro de diálogo entre os participantes.
Assim sendo, o surgimento de um conjunto de normas e regras ocorreu com a criação das Convenções sobre o tema, como explanado, marcos normativos importantes dentro deste processo. O debate sobre a questão surgiu da necessidade em estipular um conjunto de regras acerca da ascensão global do narcotráfico, que, consequentemente, influenciava o aumento de outras variáveis, como a violência.
Tendo isto em vista, e retomando a pergunta de pesquisa colocada sobre a eficiência dos regimes de combate ao tráfico de drogas na América do Sul, viu-se que ao se analisar tratados, acordos e suas devidas consequências, entende-se que os regimes assumiram um papel importante, muito embora não tão eficazes para o processo de combate do mesmo.
Dessa forma, a partir da contribuição de Levy, Young e Zurn, entende-se que, para demonstrar uma plena eficiência, os regimes devem ser acordados com base na convergência de expectativas dos atores e no grau de formalidade entre eles.
Nesse sentido, quando aplicado ao estudo de caso, percebe-se que o regime de combate ao narcotráfico na América do Sul é classificado através dessas questões.
Quando os atores possuem uma formalidade alta, o que é demonstrado pelo número de tratados assinados, porém a convergência de expectativas é baixa, o que é comprovado pelo fato de que países não fronteiriços não possuírem tantos tratados assinados, o regime pode vir a ser caracterizado como sendo de letra morta, por exemplo.
46 Assim, com relação à hipótese apresentada de que quanto maior for a internalização de normas, maior a chance da efetividade do regime, vemos que a afirmativa foi parcialmente confirmada. Os regimes possuem certa eficiência, porém, necessitam da convergência de interesses entre os atores para uma melhor aplicabilidade.
Nesse contexto, o aspecto global da questão das drogas demanda a atuação conjunta e articulada entre os atores envolvidos, diante da desterritorialização da sua produção e da transnacionalização das atividades criminosas relativas ao narcotráfico. Se a “guerra contra as drogas” não surtiu o efeito esperado, haja vista o aumento do tráfico e do consumo no mundo todo, importa buscar outras políticas e práticas, que sejam mais efetivas no enfrentamento do narcotráfico, na forma de abordagem e no tratamento de usuários e dependentes de drogas, levando em conta a cultura e a realidade de cada nação ou região, sem perder de vista o caráter sistêmico e multilateral das ações de segurança.
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