Capítulo 2 - A Educação de Jovens e Adultos: para além da Escola
2.6 A EJA e a emergência de novos personagens
Apesar de toda repressão e mesmo por causa dela, os movimentos
populares, a partir da década de 1970, começaram a se organizar de forma
defensiva. Buscaram se organizar alicerçados em laços diretos entre as
pessoas, baseados na confiança e na solidariedade diante do clima social de
medo que imperava. Surgiram associações comunitárias, lutando por direitos
como esgoto, água, transporte, melhoria de ruas. Emergiram grupos de
mulheres que, aqui e ali, iam discutindo sua condição de mulher, lutando por
melhores condições de atendimento à saúde, ou lutando contra o aumento
exagerado do custo de vida por causa da alta inflação. Comissões de fábrica
começaram a se organizar dentro dos locais de trabalho.
Essas ações populares e outras que aconteceram no Brasil vieram
demonstrar a capacidade política de ação e reação da sociedade organizada.
Reafirmaram o valor da solidariedade pessoal e política presente no seio da
população brasileira, apesar do medo, da repressão, dos desrespeitos aos
direitos humanos. E mostrou a inteligência de homens e mulheres que
souberam e sabem reorganizar-se, reagir e agir diante de situações políticas
adversas. Foi o momento de um recuo tático e de avaliação da democracia,
principalmente nas formas de organização de várias entidades, como
sindicatos, partidos, grupos de vanguarda. Mas, também era o momento de
desobediência, de resistência, de rupturas com uma ordem autoritária.
Ressurgiram do seio da "base" os movimentos sociais e os
movimentos dos trabalhadores para a surpresa inclusive de pesquisadores,
que avaliaram que a organização popular havia sido totalmente destruída pelo
golpe militar de 1964. Os movimentos de trabalhadores, até então obrigados ao
silêncio, ressurgiram dentro dos locais de trabalho, por todo país, com uma
notável autonomia, em relação aos tradicionais partidos políticos e aos grupos
clandestinos de esquerda
15.
Foi a partir de meados de 1975 que esses movimentos ressurgiram
como que do "nada", pelo menos do ponto de vista de quem estava de fora dos
movimentos populares. Grupos populares os mais diversos irromperam na
cena pública reivindicando seus direitos e, principalmente, reivindicando o
direito de exigir direitos. Em 75 criou-se a Comissão Pastoral da Terra (CPT),
lutando pela terra e pela reforma agrária. Associações e movimentos
comunitários foram recriados em todas as partes do Brasil, exigindo moradia,
creches, escolas, saúde, transporte, saneamento. Em meados de 80, surgiu a
Articulação Nacional de Movimentos Populares e Sindicais (ANAMPOS). Em
1980, aconteceu a fundação do Partido dos Trabalhadores e em 1983 foi
fundada a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Em 1984, realizou-se em
15 Para uma análise mais detalhada desse período - 1970 a 1980 ver São Paulo: O povo em movimento. Paul Singer e Vinícius Caldeira Brant (orgs.). Petrópolis: Vozes e SADER, Eder. Quando novos personagens entram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo 1970-1980. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.
Paraná, o primeiro Encontro Nacional dos Trabalhadores sem Terra. Inúmeros
outros movimentos poderiam ser citados, oriundos desse período histórico.
Quando todos esses movimentos eclodiram já estava sendo
preparada, com inteligência, criatividade e autonomia, uma rede de mobilização
e solidariedade popular entre os trabalhadores e trabalhadoras urbanos e
rurais, e entre os moradores de bairros. E vinha-se desenvolvendo com muita
força o valor da autonomia de seus movimentos, reafirmando sua capacidade
de pensar, de elaborar políticas e de organizar-se.
A Central Única dos Trabalhadores (CUT), fundada em 1983, em
seu estatuto de fundação, afirma a autonomia das organizações populares e a
democracia das organizações dos trabalhadores:
A Central Única dos Trabalhadores é uma organização sindical
de massas em nível máximo, de caráter classista, autônomo e
democrático, cujos fundamentos são o compromisso com a
defesa dos interesses imediatos e históricos da classe
trabalhadora, a luta por melhores condições de vida e trabalho
e o engajamento no processo de transformação da sociedade
brasileira em direção à democracia e ao socialismo.
Defende que os trabalhadores se organizem com total
independência frente ao Estado e autonomia em relação aos
partidos políticos, e que devem decidir livremente suas formas
de organização, filiação e sustentação material... Desenvolve
sua atuação e organização de forma independente do Estado,
do governo e do patronato, e de forma autônoma em relação
aos partidos e agrupamentos políticos, aos credos e
instituições religiosas... Considera que a classe trabalhadora
tem na unidade um dos pilares básicos que sustentarão suas
lutas e suas conquistas. Defende que esta unidade seja fruto
da vontade e da consciência política dos trabalhadores. [...] E
assume o compromisso de lutar pela emancipação dos
trabalhadores como obra dos próprios trabalhadores... (grifos
meus)
A novidade em relação aos movimentos pré-1964 estava na
capacidade, manifestada pelas classes populares, de se constituírem como
sujeitos coletivos autônomos, criando estruturas de negociação e de mediação
com os vários setores da sociedade e do Estado. Estes sujeitos faziam sua
própria análise da realidade, e intervenções no cenário político brasileiro
gerando assim grupos organizados autonomamente (Paludo, 2001 e Sader,
1988).
Além disso, esses movimentos se constituíram como um espaço de
formação humana, espaços educativos – espaços e tempos da Educação de
Adultos. Vários desses movimentos criaram, de forma organizada, com
projetos estruturados, centros de formação de seus militantes, centros de
formação política e cultural. Na região do Vale do Aço, por exemplo, surgiu em
1981 a Fundação Casa do Trabalhador, com sede na cidade de João
Monlevade
16, com o objetivo de fazer formação política e sindical e de
assessorar os trabalhadores da região na formação de suas associações
sindicais e seus sindicatos.
A CUT, por exemplo, criou, a partir de 1986, uma Rede Nacional de
Formação, inclusive construindo estruturas físicas nas várias partes do país, as
Escolas Sindicais, constituindo uma equipe de formadores e formadoras que
trabalhavam de forma orgânica e articulada nacionalmente, discutindo,
estudando, analisando os temas de interesse da classe trabalhadora.
Foi um processo de formação de educadores populares e de
sindicalistas comprometidos com os interesses da classe trabalhadora. Esse
movimento aconteceu, simultaneamente, em quase todo Brasil.
Como diria Sader (1988): novos personagens entraram em cena.
Surgiram novos sujeitos políticos, associados a um projeto comum, com um
forte componente de autonomia, entendido como a elaboração da própria
identidade e de projetos coletivos de mudança social a partir das próprias
experiências. Sader (1988:55) define muito bem esse sujeito político coletivo:
Quando uso a noção de sujeito político é no sentido de uma
coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam
práticas através das quais seus membros pretendem defender
seus interesses e expressar suas vontades, constituindo-se
nessas lutas.
A Educação de Adultos adquiria visibilidade dentro dessa
efervescência e vinha sendo construída no cerne do surgimento desses novos
personagens, individuais e coletivos. A EJA foi, assim, fortemente marcada, em
seus objetivos, pelos valores que são construídos desde a década de 1960 na
educação popular e recebeu em seu interior toda a força e mística dessa luta
que marcou o Brasil após os anos 70.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 58-62)