Capítulo 4 - A Produção do Conhecimento e do Saber na EJA:
4.3 Relação com o saber e as figuras do aprender
O desafio é de buscar explicitar os conceitos de saber e de
aprender, que implicam uma ação, uma atividade concreta, ou uma relação
com o mundo, com as pessoas e consigo mesmo. O que é o saber? Que
relações existem entre o aprender e o saber? Como e onde se adquirem
saberes ou conhecimentos? E como os sujeitos são imbricados nessas
relações com o saber? Qual o significado das relações com o saber na
Educação de Jovens e Adultos.
O foco teórico e epistemológico da pesquisa é a relação com o saber
que no entendimento de Charlot (2000) é a relação de um sujeito com o
mundo, com ele mesmo e com os outros. É relação com o mundo como
conjunto de significados, mas também, como espaço de atividades se
inscrevendo no tempo.
A questão para Charlot é de compreender como se opera a conexão
entre um sujeito e um saber, ou, mais genericamente, como se desencadeia
um processo de aprendizagem, uma entrada no aprender. “Se o sujeito já está
em atividade, a questão é compreender o que sustenta e garante sua
mobilização frente o saber e frente a sua atividade”. (Charlot: 2001:19). Mas
qual é a definição de saber? E de que saber se está falando? E o que significa
aprender esses saberes?
Aprender pode significar adquirir um conhecimento, no sentido
estrito da palavra, um conteúdo intelectual, em alguma área do conhecimento.
Mas, também significa adquirir alguma capacidade “prática” um saber fazer
algo. Aprender alguma técnica de trabalho, por exemplo. Também se
aprendem valores, conceitos, comportamentos. Enfim, são saberes que se
aprendem, em situações diversas.
Aprender também pode ser a capacidade do sujeito de apropriar-se
do mundo ou a capacidade de projetar e realizar seus projetos, desenvolvendo
suas estratégias frente às várias relações que possa vir a estabelecer.
De qualquer forma, saber, enquanto uma ação, é uma forma
específica de relação com o mundo. As relações dos homens e mulheres com
o mundo são mais amplas que a relação de saber, mas elas implicam, de uma
forma ou de outra, um processo de aprendizagem de um saber. A idéia de
saber supõe e implica um sujeito, sua atividade e uma relação do sujeito com
ele e com os outros. O produto dessa relação – um conhecimento produzido –
pode entrar na “ordem do objeto”, tornando-se assim um “produto
comunicável”, uma informação disponível para outrem. (Charlot, 2000:61).
Esse saber, conceituado como resultado de uma atividade do sujeito
em relação com, é diferente da noção de informação, que são dados externos
ao sujeito, armazenada, estocada, por exemplo, em livros ou em bancos de
dados. Para Charlot, saber sempre supõe uma relação específica, não
autônoma, do sujeito consigo, com o mundo, com os outros – uma atividade do
sujeito de saber. Essa ação será, no entanto, produto de relações
epistemológicas entre os seres humanos.
O saber é construído em uma história coletiva que é a da
mente humana e das atividades do homem e está submetido a
processos coletivos de validação, capitalização e transmissão...
não obstante, os homens mantêm com o mundo e entre si
relações que não são apenas epistemológicas. Assim sendo,
as relações de saber são, mais amplamente relações sociais.
(Charlot, 2000:63)
A palavra chave, portanto, entre saber, aprender e o sujeito do saber
é relação. “A definição do homem enquanto sujeito de saber se confronta à
pluralidade das relações que ele mantém com o mundo”. (Charlot, 2000:60).
Uma relação com um saber-objeto. Saber, nessa forma, é uma
atividade de apropriação de um saber que não se possui, mas cuja existência é
depositada em objetos, locais, pessoas, projetos. Aqui o sujeito toma posse de
um saber. Charlot também chama esse processo epistêmico de
objetivação-denominação, que constitui, em um mesmo movimento, um saber-objeto e um
sujeito consciente que se apropria de tal saber. O saber existe em si, fora do
sujeito, e parece ter se constituído autonomamente sem uma relação de saber
anterior.
Passar ao domínio de uma atividade. Aprender é dominar uma
atividade ou capacitar-se para utilizar um objeto de forma pertinente. Esse
processo não gera um produto, um saber-objeto que pudesse ser nomeado
sem referência a uma atividade. Charlot chama essa relação de “imbricação”
do Eu na situação, o processo epistêmico em que o aprender é o domínio de
uma atividade “engajada” no mundo. Pode ser uma atividade de trabalho como
qualquer atividade no cotidiano da vida, como nadar, andar de bicicleta, etc. A
descrição de qualquer dessas atividades, por mais simples que seja, é
diferente do fazer, da ação de fazer. O aprendizado da atividade é diferente da
enunciação da atividade. Mesmo a apropriação do enunciado da atividade, por
mais exaustiva que seja, nunca é equivalente ao domínio da atividade.
Por fim, aprender é tornar-se capaz de regular a relação consigo
próprio, através da relação com os outros. Significa entrar em um dispositivo
relacional, de negociação da realidade. Aprender é ser capaz de distanciar-se
da realidade, dos outros, capaz de perceber seu meio e se relacionar,
aprendendo a regular e negociar as relações. O sujeito epistêmico é um sujeito
afetivo, efetivo e relacional. É uma aprendizagem de valores, de culturas, de
condutas, comportamentos, de ações sociais e políticas.
Nas três figuras apresentadas há uma atividade, existe um sujeito,
enquanto forma de consciência, o indivíduo “controla” suas ações e relações,
está mergulhado na situação, mas não se dissolve nela, tem consciência. Essa
consciência, esse saber, está presente nas 3 figuras do aprender.
A noção de saber abrange um campo muito mais vasto do que
aquele vinculado estreitamente a uma lógica de apreender conhecimentos
dentro de um processo educativo. Saber podemos afirmar, nesse primeiro
momento, vai além da capacidade de fazer algo, incluir a capacidade de gerir,
de fazer escolhas, de arbitrar valores diferentes, e às vezes, contraditórios. Não
é somente um elenco de habilidades para este ou aquele posto de trabalho ou
para determinada atividade. Aprender algo envolve o sujeito e os sujeitos em
uma relação complexa com o saber, em todas as suas acepções.
A dificuldade que aqui se apresenta está em verbalizar a sabedoria
já adquirida pela experiência e o saber aprendido no processo educativo.
Trata-se, portanto, de determinar o processo educativo, o processo
de aprendizagem e não de avaliar os conhecimentos e os possíveis progressos
de um indivíduo nesse ou naquele “conteúdo” de saber. Não se trata de
categorizar os indivíduos pelo seu conhecimento, ou pelos deslocamentos
sociais que eles possam ter realizado em função de inserções formativas, ou
de avaliar se os conhecimentos adquiridos nessas inserções interferiram
diretamente em sua competência.
Um outro ingrediente da relação com o saber e com o aprender diz
respeito à comunicação e à linguagem, ao discurso sobre a atividade de
trabalho. Refere-se à possibilidade ou não de transmissão e registro de
saberes. É o momento de verificação da possibilidade e dos meios utilizados
na transformação dos saberes construídos em serviço em patrimônio, herança
e nas formas coletivas de ajuda mútua e de transmissão de heranças e
experiências adquiridas.
Existe uma outra dimensão da aprendizagem que é a capacidade do
indivíduo em incorporar em sua história, em maior ou menor medida, os
currículos e saberes anteriores ao seu saber da experiência de vida, uma
capacidade de fazer confluir o patrimônio adquirido na sua experiência. É a
capacidade de lançar mão de sua aprendizagem, no momento adequado, nas
situações reais de vida. Significa também um esforço pessoal na aquisição
desse saber e desse poder.
De acordo com Schwartz (1998:129), essas recorrências nos levam
ao campo das condições da relação ao saber.
Que valor tem o meio? Quais são seus horizonte de uso para
que a pessoa deseje apropriar-se das ferramentas formais
(embora parciais) de seu domínio? Trabalhos recentes
exploraram esse campo, principalmente a propósito das
trajetórias escolares. (B. Charlot, E. Bautier, J.Y. Rocheix,
Ecole et savoir dans les banlieues et ailleurs, A. Colin, 1992) ou
das constatações de que a inserção em situação de trabalho
de jovem egresso do sistema escolar, sem bagagem aparente,
modificava positivamente sua relação inicialmente negativa aos
aprendizados formalizados.
Por fim, a forma epistêmica relacional apresentada por Charlot, mais
abrangente, que envolve, mas não exclui as outras formas, nas relações de
trabalho ou em alguma atividade implica a capacidade dos indivíduos de se
relacionarem, de estabelecerem negociações e de serem capazes de registrar
e transmitir informações, experiências, análises, adquirir heranças e
transformar os saberes em patrimônio social.
Como conclusão, podemos afirmar que esses conceitos aqui
apresentados perpassam hoje a educação de jovens e adultos, e que faz parte
do programa educativo da nossa época a construção da confiança no valor da
cultura e no da educação. Essa idéia de que todo ser humano é portador do
direito à educação e a realização desta através da escolarização universal,
motivo pela qual a carrega de conteúdos, “constituye una de las realizaciones
más relevantes para caracterizar las transformaciones ocurridas en las
sociedades durante el siglo XX”. (Sacristán,1998:179)
Assim ao falar de escola, de educação escolarizada, nos situamos
diante de fenômenos que vão além da transmissão “desinteressada” da cultura
como um conjunto de significados abstratos, universais. Esses significados se
referem a necessidades de um tipo específico de sociedade, a determinados
modelos de vida, a formas reais de organização da economia e da política e a
uma certa hierarquia de valores. Sacristán (1998) afirma, portanto, que as
escolas que conhecemos e mesmo a que se projetam são produtos históricos,
uma amálgama de diferentes interesses e práticas variadas. Portanto, o debate
essencial da educação é sobre a que projeto cultural, político, econômico
queremos que ela sirva. Para nós ficam as questões: que EJA queremos e
para qual sociedade? Quais valores culturais queremos construir? Qual o
projeto cultural que determina as opções estruturais da EJA? Ou melhor a EJA
pode contribuir na construção de qual projeto cultural?
4.4 Apresentação e análise de experiências de EJA em Belo Horizonte
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 112-116)