CAPÍTULO 3. OS EMBAIXADORES DE D AFONSO V
3.2. OS EMBAIXADORES AFONSINOS
3.2.2. A elite de sangue
A nobreza, um dos principais grupos da sociedade medieval, não constituía uma homogeneidade e nem era pautada por divisões internas rígidas. De acordo com Oliveira Marques, as estimativas apontam para a existência de umas 5000 ou 6000 pessoas nos séculos XIV e XV, equivalendo a 1% da população do reino. A sua estratificação ficou mais complexa ao longo do período, em especial pelas medidas restritivas da realeza, pela dependência acentuada das mercês régias – expressa nas “tenças” pagas pela coroa aos
360 NIETO SORIA, José Manuel. Iglesia y Génesis del Estado Moderno en Castilla (1369-1480). Madrid:
vassalos do rei, em geral ricos-homens, cavaleiros e escudeiros – e pelo exercício de cargos na administração. Soma-se ainda a nobilitação conseguida por estratos inferiores da nobreza e mesmo não nobres durante tais séculos. Em linhas gerais, considera-se que a divisão interna do grupo se dava, basicamente, em três subgrupos: grande, média e pequena nobreza361.
Ao elaborar a distribuição dos embaixadores observa-se que o maior contingente de enviados relaciona-se com essa elite de sangue, somando 38,6% do total. Não obstante, o levantamento das famílias nobres que tiveram representantes na diplomacia suscita algumas indagações.
Quadro 8. Famílias nobres relacionadas aos embaixadores de D. Afonso V
Fonte: Elaboração própria a partir do Catálogo prosopográfico.
Nota-se que por mais que o conjunto seja representativo do quadro geral da nobreza portuguesa, não há homogeneidade nas famílias encontradas. Linhagens da alta nobreza, como os Braganças, os Castros e os Sousas, aparecem ligadas aos embaixadores do período assim como famílias mais modestas e, por vezes, de recente nobilitação, como os Silveiras, os Távoras e os Teixeiras. Ao sair do âmbito familiar e tomar como fio condutor o perfil dos personagens, a variação se amplia, por exemplo, com os embaixadores JOÃO FOGAÇA e JOÃO DE SOUSA, que carregando o patronímico de famílias da nobreza cortesã quatrocentista, não apresentam trajetórias ligadas à corte, relacionando-se, por outro lado, com as ordens militares.
José Augusto Pizzarro pontuou a dificuldade de se estabelecerem critérios para a distinção entre as linhagens da nobreza. Ressalta que o cerne do problema se concentra no patamar intermediário do grupo, que por vezes agrega famílias com disparidades acentuadas.
361 MARQUES, A. H. de Oliveira. Portugal na Crise dos séculos XIV e XV. Idem, p.242-251. Ver ainda:
MORENO, Humberto Carlos Baquero. Estado, Nobreza e Senhorios. In: COELHO, Maria Helena da Cruz & HOMEM, Armando Luís de Carvalho. A Gênese do Estado Moderno no Portugal Tardo-medievo. Lisboa: Universidade Antónoma de Lisboa, 1999, p.257-267.
Albuquerque Almeida Alvarenga Ataíde Barros
Bragança Castro Figueiredo Fogaça Fonseca
Galvão Gomide Leitão Lucena Malafaia
Meneses Moura Silva Silveira Sousa I e II
Discordando da distribuição entre alta, média e baixa nobreza comumente utilizada na historiografia, Pizarro tomou como base algumas características das linhagens por ele estudadas – estatuto, patrimônio, alianças, mobilidade, cargos e contato com o meio cortesão – e estabeleceu a divisão das famílias em dois grandes grupos: nobreza de corte e nobreza regional362. Acredita-se que os apontamentos do autor oferecem um instrumento para a análise e distribuição das famílias relacionadas à diplomacia, que serão aqui também divididas em
Nobreza cortesã e Nobreza Regional363.
No limite dessas categorias encontram-se os membros e parentes diretos da família real, que pela relação de sangue com a realeza quase ultrapassam a definição de nobreza cortesã e compõem o grupo cimeiro da nobreza. É interessante notar que desde finais do século XIV, período da ascensão da dinastia de Avis, os familiares do rei aparecem utilizados nos assuntos diplomáticos. Alguns exemplos são emblemáticos dessa prática. Na primeira década do século XV, após o casamento de D. Beatriz na Inglaterra, o conde de Barcelos, filho bastardo de D. João I, fez uma viagem percorrendo importantes cidades do norte e do sul da Cristandade. Posteriormente, entre 1425 e 1428, o infante D. Pedro refez uma parte do trajeto do irmão, deixando marcas da contribuição da viagem para as relações externas de Portugal, tanto na Borgonha, como no Império, no papado e nos reinos ibéricos364. Essa foi a última participação de um membro direto da família real na diplomacia, no entanto, na célebre embaixada portuguesa ao concílio de Basiléia, observa-se a comitiva encabeçada pelo conde de Ourém, filho de D. Afonso, conde de Barcelos, e sobrinho do rei D. Duarte. No restante do período constata-se o afastamento dos familiares régios nas missões e mesmo em viagens com características diplomáticas, sendo a exceção, a comitiva que acompanhou o casamento de D. Leonor, composta por D. Fernando, irmão do rei, e pelo próprio conde de Ourém, mesmo que as negociações e os tratos tenham sido feitos por JOÃO FERNANDES DA SILVEIRA.
362 PIZARRO, José Augusto de Sotto Mayor. Linhagens Medievais Portuguesas. Genealogias e Estratégias (1279-1325). Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, dissertação de doutoramento, 1997, Vol. II,
p.1139-1141.
363 Como o central dos problemas da tese e do presente capítulo não se concentram no estudo aprofundado do
comportamento e da mobilidade nobiliárquica quatrocentista – sendo essas questões apenas o horizonte que nos permitirá compreender melhor as relações entre nobreza e diplomacia nesse item –, as características estabelecidas por Pizarro não serão tomadas plenamente, mantendo-se das proposições do autor, dois critérios: a relação com o meio cortesão e os cargos desempenhados.
364 Cf.: CUNHA, Mafalda Soares da. Linhagem, parentesco e poder. A casa de Bragança (1384-1483). Lisboa:
Fundação da Casa de Bragança, 1990; LIMA, Douglas Mota Xavier de. O infante D. Pedro e as Alianças
Externas de Portugal (1425-1449). Idem, p.120-194; ROGERS, Francis. The Travel of the Infante Dom Pedro of Portugal. Cambridge Massachusetts: Harvard University Press, 1961.
Desse reduzido estrato da nobreza, apenas ÁLVARO DE BRAGANÇA365 atuou como embaixador de D. Afonso V. Um dos nove descendentes de D. Fernando, conde de Arraiolos, Marquês de Vila Viçosa e 2º duque de Bragança, e D. Joana de Castro, foi um membro menos ilustre da prole do conde de Arraiolos, o que se esclarece na comparação aos irmãos, por exemplo: D. Fernando, 3º duque de Bragança, e D. João, marquês de Montemor-o-Novo. ÁLVARO DE BRAGANÇA manteve-se na posição de senhor e ocupou importantes ofícios na corte: regedor da Casa da Suplicação (1473), Chanceler-mor (1474-1483) e presidente do conselho real. Sua atuação na diplomacia afonsina se restringe ao contexto da guerra luso- castelhana, quando acompanha o monarca e RUI DE SOUSA nas negociações ocorridas em Zamora (1476).
O exemplo de ÁLVARO DE BRAGANÇA direciona a atenção para um elemento específico que marca a maior parte dos embaixadores nobres: a presença dessas linhagens na Corte e no serviço régio. O personagem, um Bragança, exerceu funções de destaque, tanto na Casa da Suplicação, como na Chancelaria e no próprio Conselho, prática comum aos membros das grandes famílias366. Não obstante, se a posição social do indivíduo/família responde à presença do mesmo nos ofícios, não resolve a sua presença na diplomacia. ÁLVARO DE BRAGANÇA foi escolhido em meio à guerra, acompanhou um encontro entre monarcas beligerantes, exercendo, desta forma, o papel reservado para a grande nobreza nesses contextos.
Na obra A Corte dos Reis de Portugal no final da Idade Média, Rita Costa Gomes sublinha acerca do comportamento da nobreza que:
Para a época mais recuada, observamos uma preferência por alguns cargos palatinos e posições de prestígio, em especial os de mordomo e aio mas, também, o de meirinho ou de alferes e, de um modo geral, pelos cargos da hoste régia, que vão ser partilhados pela constelação familiar descrita, cujas raízes mergulham, nalguns casos, na sociedade de corte do século XIII. Mas a centúria de Quatrocentos vai alargar espantosamente as modalidades da participação nobiliárquica em todos os âmbitos da organização curial, sendo de sublinhar que muitas das velhas famílias da nobreza de corte não desdenham as novas posições ligadas ao desenvolvimento das Finanças régias e do Desembargo, como sucede exemplarmente no caso dos Castros, dos Cunhas ou ainda dos Silvas367.
365 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico. 366
Esse também foi o caso de D. Fernando da Guerra, D. Rodrigo de Noronha e de Afonso de Vasconcelos de Meneses, igualmente chanceleres e regedores.
Esse processo pode ser observado ao acompanhar as inserções familiares e mesmo as trajetórias individuais dos embaixadores afonsinos. Uma parcela desse grupo liga-se à alta nobreza, mas também se divide pela chamada nobreza de serviço, e pela nobreza nova, caracterizada por famílias com origem nos estratos inferiores da própria nobreza ou no funcionalismo régio.
Tabela 4. Embaixadores nobres
CATEGORIA FAMÍLIAS EMBAIXADORES
N obrez a c ort es ã
Alta nobreza Bragança 1
Sousa I 3 Meneses 1 Albuquerque 1 Castro 1 Pereira 2 Silva 1 Total 7 10
Nobreza de serviço Moura 1
Ataíde 2
Fonseca 1
Távora 1
Teixeira 1
Total 5 6
Nobreza nova Almeida 2
Alvarenga 1 Figueiredo 1 Barros 1 Galvão 1 Gomide 1 Lucena 1 Malafaia 1 Silveira 3 Total 9 12 N obrez a re gi on al Fogaça 1 Leitão 1 Sousa II 1 Tinoco 1 Total 4 4 Total 25 32
Fonte: Elaboração própria.
Rita Costa Gomes identificou “cerca de uma trintena de famílias que se encontra presente, de modo praticamente ininterrupto, na corte”. Nesse estrato da nobreza a autora destacou oito das principais famílias da nobreza medieval portuguesa: os Sousas, os Meneses, os Albuquerques, os Pachecos, os Castros, os Pereiras, os Cunhas e os Silvas. Nessa alta
nobreza encontra-se a seguinte distribuição de embaixadores: Sousa368 (3), Meneses (1), Albuquerque (1), Castro (1), Pereira (2), Silva (1). A mesma autora tratou de outras famílias consideradas “em posição hierarquicamente inferior ao restante do conjunto de famílias nobres”, mas que também apresentaram continuidade na corte369
. Dentre elas, identificadas aqui como o subgrupo nobreza de serviço, tiveram embaixadores as famílias: Moura (1), Ataíde (2), Fonseca (1), Távora (1) e Teixeira (1). Rita Gomes lembra ainda o fenômeno característico da época: o surgimento de uma nobreza nova370. Articulando famílias com origens em estratos modestos da nobreza – especialmente nos escudeiros –, nos meios clericais, nas elites citadinas, ou mesmo no funcionalismo – a nobreza de toga –, esse grupo de famílias também aparece representada entre os embaixadores afonsinos. Esse é o caso dos Almeida (2), Alvarenga (1), Barros (1), Figueiredo (1), Galvão (1), Gomide (1), Lucena (1), Malafaia (1) e Silveira (3). Por fim, existem alguns embaixadores nobres que não se enquadram na nobreza cortesã. É o caso de JOÃO FOGAÇA, JOÃO DE SOUSA, MARTIM LEITÃO e NUNO FERNADES TINOCO, que serão classificados como nobreza regional, seguindo a perspectiva de José Augusto Pizarro.
*
A família dos Sousas I encontra-se presente na corte portuguesa desde meados do século XIV e concentra o maior número de embaixadores entre as principais famílias da nobreza cortesã. Na corte do período, os Sousas estiveram representados por diferentes segmentos da linhagem, o ramo que descende de Martim Afonso de Sousa Chichorro (SOUSA I) e o ramo descendente de Afonso Dinis (SOUSA II). Rita Gomes pontua que será a descendência de Álvaro Dias “a parte da família votada a maior destaque após o relativo declínio de finais de Trezentos”371
. Não obstante, considerando os embaixadores, o interesse recai sobre o primeiro ramo dos Sousas, linhagem na qual se inserem três dos enviados de D. Afonso V.
Martim Afonso de Sousa II foi senhor de Mortágua e casou-se com Violante de Távora, irmã de MARTIM DE TÁVORA, também embaixador de D. Afonso V. Dessa união nasceram Fernão de Sousa, RUI DE SOUSA, PERO DE SOUSA, o Seabra, Vasco Martins
368 Existe ainda um quarto embaixador de sobrenome Sousa, João de Sousa, porém durante o levantamento da
filiação deste não foi possível estabelecer relações com os demais membros da família presentes na corte régia. Por esse motivo, será tratado a parte.
369
GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p.65. Os Abreus são uma das famílias citadas. Encontramos um embaixador com esse sobrenome, Vasco Nunes de Abreu, no entanto não conseguimos informações sobre a filiação do personagem e nem mesmo dados acerca da trajetória profissional do mesmo.
370 GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p.104-108, 129-151. 371 GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p.65-66.
Chichorro e Brites de Sousa. RUI DE SOUSA372 foi Vedor da rainha D. Isabel, mas o central de sua atuação se deu na proximidade e no exercício de funções junto ao príncipe D. João – sendo meirinho-mor e almotacé-mor (1481-1490) – e na presença e destaque nos conflitos marroquinos e castelhanos. Foi um dos especialistas da diplomacia afonsina, somando cinco (5) embaixadas entre o reinado de D. Afonso V e D. João II, sendo a mais ilustre a missão que assinou o Tratado de Tordesilhas (1494). Seu irmão, PERO DE SOUSA373, exerceu funções na casa real, sendo membro do conselho, vedor e mordomo-mor de D. Afonso V. Suas três missões se deram em 1476, no contexto da guerra luso-castelhana e da viagem do monarca a França.
O terceiro embaixador dos Sousas, CIDE DE SOUSA374, é primo bastardo dos citados até então, sendo filho ilegítimo de Gonçalo Anes de Sousa. O personagem expressa um grupo periférico da linhagem, o que não exclui o fato de permanecer ligado à Corte. De acordo com Baquero Moreno, CIDE DE SOUSA era próximo da rainha D. Leonor, para quem prestou serviços em Castela nos anos 40. Após a morte da rainha passou a trabalhar para o rei de Aragão e parece ter voltado a Portugal após Alfarrobeira. Em 1453, é mencionado como fidalgo da casa real e capitão dos navios enviados a Guiné e, em 1457, foi designado como vedor e contador da casa da infanta D. Joana, a Beltraneja375.
A família Pereira caracteriza-se como uma das mais extensas e importantes linhagens da nobreza cortesã, e dela provieram dois embaixadores: MARTIM MENDES BERREDO e AFONSO PEREIRA. O primeiro é um dos bastardos de Gonçalo Pereira das Armas, e sabemos apenas que foi fidalgo de D. Afonso V e fronteiro do castelo de Leiria (1448). Após servir em Roma durante a regência376, sua atuação na diplomacia concentra-se nos anos 50, quando foi enviado ao rei de Aragão (1455 e 1457). Ao concluir a segunda missão, direcionou-se ao reino da França e, ao desembarcar em Aigues-Mortes, a duas léguas de Montpellier, MARTIM MENDES BERREDO377 foi aprisionado e acabou falecendo na prisão. O segundo representante da família Pereira consta como um dos membros de difícil precisão nas linhas de descendência da linhagem378. AFONSO PEREIRA379 aparece
372 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico. 373
Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
374 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
375 MORENO, Humberto Carlos Baquero. A Batalha de Alfarrobeira. Idem, Vol. I, p.177-178. 376
Antes disso, durante a regência, aparece desempenhando funções de protonotário pontifício em Roma, onde presta serviços ao infante D. Pedro. Cf.: MORENO, Humberto Carlos Baquero. A Batalha de Alfarrobeira.
Idem, vol.2, p.735; PINA, Rui de. Chronica de El-Rey D. Affonso V. Idem, capítulo LXXXIX; LEÃO, Duarte
Nunes. Crónica e vida del Rey D. Affonso V. Idem, capítulo XVI.
377
Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
378 GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p.80.
mencionado em duas embaixadas a Castela, sendo a primeira datada de 1449, na sequência de Alfarrobeira e com o intuito de expor a posição de D. Afonso V para a corte vizinha. Foi reposteiro-mor de D. Afonso V, casou-se com D. Maria Lobato e acreditamos que seja filho de João Mendes da Guarda (Aguado) e D. Isabel Pereira.
As demais grandes famílias da alta nobreza apresentam cada uma um representante como embaixador de D. Afonso V. Destacam-se os casos da família Silva e Albuquerque. DIOGO DA SILVA380, filho bastardo de João Gomes da Silva, alferes-mor de D. João I e membro do seu conselho381, foi cavaleiro da casa do monarca e tesoureiro de D. Afonso V (1456-1466). Participou de duas missões diplomáticas entre meados dos anos 50 e a década seguinte, sendo a primeira ao Império. LOPO DE ALBUQUERQUE382, filho de João de Albuquerque e D. Catarina Pereira, foi camareiro e guarda roupa de D. Afonso V (1463), recebendo o ofício de camareiro-mor em 1471, cargo ocupado até então pelo tio, D. Álvaro de Castro, que foi conde de Monsanto. Participou de três missões diplomáticas no contexto da guerra luso-castelhana. Nesse período, a proximidade com o Africano justifica tanto a escolha de LOPO DE ALBUQUERQUE como embaixador em missões de suma importância em meio à guerra, como a elevação do mesmo a primeiro conde de Penamacor, em 1475.
Do segundo grupo de famílias cortesãs indicadas por Rita Gomes, a nobreza de serviço, a que mais teve embaixadores foram os Ataídes, com dois representantes. De acordo com a autora:
No exemplo dos Ataídes, vemos a sua influência crescer à sombra dos Teles no período fernandino, de modo tal que vêm a integrar o grupo dos “grandes” na corte joanina e, ocupando uma multiplicidade de posições junto dos infantes, acabam por constituir um importante elemento da nobreza cortesã de Quatrocentos383.
Ambos os embaixadores ligados a essa família, MARTINHO DE ATAÍDE384 e ÁLVARO DE ATAÍDE385, são filhos de D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, 1º conde de Atouguia, e D. Guiomar de Castro. O pai esteve ligado à corte de D. João I como membro do conselho, sendo ainda governador da casa do infante D. Pedro e aio de D. Afonso V. Soma-se o fato da mãe ter sido aia da infanta D. Leonor, o que reforça a presença e a importância da Apêndice – Quem foi Afonso Pereira?
380
Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
381 GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p. 85. 382 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
383
GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p. 92.
384 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico. 385 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
família na corte de meados do século XV e em torno dos filhos de D. Duarte. Rui de Pina descreve que D. Álvaro Gonçalves de Ataíde e seus filhos permaneceram ao lado do monarca no contexto de Alfarrobeira, posicionamento e fidelidade que explicam a afirmação familiar ao longo do reinado de D. Afonso V expressa no recebimento de diversas doações régias pelos descendentes do conde de Atouguia e nas alianças matrimoniais estabelecidas.
D. MARTINHO DE ATAÍDE tornou-se o 2º conde de Atouguia e alcaide-mor de Coimbra em 1452, D. João de Ataíde e D. Vasco de Ataíde foram priores do Crato, e ÁLVARO DE ATAÍDE, mesmo sem uma trajetória de destaque, constava como cavaleiro da casa real desde 1462. A observação das escolhas matrimoniais reforça o movimento de afirmação familiar na segunda metade do século XV. Entre os homens, D. MARTINHO DE ATAÍDE casou pela primeira vez com D. Catarina de Castro (c.1452), filha de D. Fernando de Castro, governador da casa do infante D. Henrique, tendo como segunda esposa, ainda nos anos 50, D. Filipa de Azevedo, filha de LUÍS GONÇALVES MALAFAIA; ÁLVARO DE ATAÍDE casou-se com D. Leonor, filha de Pero Vaz de Melo, conde de Atalaia, e teve como segunda esposa D. Violante de Távora, filha de PERO DE SOUSA. As quatro filhas também tiveram bons casamentos, com D. Joana casando-se com o marechal D. Fernando Coutinho, alcaide-mor de Pinhel; D. Filipa casando-se com D. João de Noronha, alcaide-mor de Óbidos; D. Leonor casando-se com Gonçalo de Albuquerque, senhor de Vila Verde; e D. Mécia casando-se com Fernão de Sousa, irmão de RUI DE SOUSA e PERO DE SOUSA. Constata- se a maior aproximação dos Ataídes com os Sousas, movimento que se deu através de dois casamentos, e a ligação com esse núcleo principal da nobreza cortesã ampliada nos enlaces com os Albuquerques e Castros. As quatro outras famílias presentes nesse feixe matrimonial caracterizam-se por apresentar uma trajetória ascensional parecida com os Ataídes, os Coutinhos, Malafaias, Melos e Noronhas386.
Os Mouras e os Teixeiras são caracterizados por Rita Gomes como famílias de condição modesta que viviam na órbita da corte, sendo raramente localizadas em outros campos da sociedade do período387. A presença dos Mouras na corte régia remonta ao reinado de D. Dinis e D. Afonso IV na figura de Gonçalo Vasques de Moura. É interessante que tanto