CAPÍTULO 3. OS EMBAIXADORES DE D AFONSO V
3.2. OS EMBAIXADORES AFONSINOS
3.2.3. A elite do trabalho
FERNÃO ÁLVARES BALDAIA414 é um dos embaixadores que não se enquadra na nobreza e nem no quadro do oficialato régio, sendo um bom exemplo da articulação entre as
elites citadinas e a diplomacia. O romance histórico A última dona de S. Nicolau (1899), apoiado no livro de Vereações do Porto entre 1475 e 1484, diz que:
Fernando Álvares Baldaia, vereador muitas vezes e ainda agora n’este anno, do senado do Porto, era um dos mais abastados negociantes da cidade, onde era bemquisto e estimado pelas suas excellentes qualidades e decidido amor pela sua terra natal; e respeitado não só pelos seus muito capitaes, virtudes e sisudez, mais tambem pela sua intima amizade com el-rei D. Affonso V, com quem tanto privava, que foi, em 1476, o escolhido por elle, para ir a França, como seu agente particular, levar a Luiz XI o tratado feito por D. Alvaro de Ataide acerca da guerra com Castella, tratado de que foi mais tarde resultado a desgraçada ida d’aquelle nosso bravo mas ingenuo monarcha a corte do mais torpe e refalsado tyranno, que o seculo XV produziu415.
A narrativa de Arnaldo Gama mostra o rico mercador como uma figura de destaque na elite do Porto e próximo de D. Afonso V. Neto do contador do almoxarifado do Porto e filho do mercador e escrivão da Casa da Moeda da cidade, FERNÃO ÁLVARES BALDAIA aparece como escudeiro (1463) e cavaleiro do rei a partir de 1470, período que exercia o cargo de Vedor dos vassalos da cidade do Porto e seu termo. Como investigou Ivo Carneiro de Sousa, os Baldaias, com destaque para o mercador e embaixador afonsino, tiveram negócios e residência na rua Nova, o que expressa os privilégios em torno da família416. FERNÃO ÁLVARES BALDAIA recebeu novas nomeações em 1476, ano que foi designado como embaixador a França, missão na qual teve como objetivo informar a Luís XI da viagem de D. Afonso V417. Essa participação, mesmo que não tenha se dado numa ilustre comitiva, marcou a trajetória do mercador-cavaleiro, como fica evidente na narrativa de Arnaldo Gama, e pode ter contribuído para a aproximação da família com o meio cortesão, expressa no filho do embaixador que foi pajem de D. João II.
Outro mercador presente na diplomacia afonsina é FERNÃO LUÍS. Tal como Baldaia, era uma figura portuense de prestígio e também habitava e tinha negócios na Rua Nova. Filho de um ourives, FERNÃO LUÍS esteve presente na tomada de Arzila, sendo nomeado coudel da cidade do Porto em 1475, ano em que foi enviado a Inglaterra levando uma mensagem de D. Afonso V e aparece como cavaleiro régio. De acordo com Dias Dinis, é possível que sua
415
GAMA, Arnaldo. A última dona de S. Nicolau. Episódio da história do Porto no século XV. Lisboa: Livraria Editora, 2ª edição, 1899, p.72-73.
416 SOUSA, Ivo Carneiro de. A fortuna de Fernão Álvares Baldaia: mercador, embaixador e cavaleiro do Porto.
In: Humanidades: revista trimestral da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do
Porto, nº 3, Abril de 1983, p.47-72.
417 DIAS DINIS, António Joaquim. Dois embaixadores de el-rei D. Afonso V. Separata da Revista Itinerarium.
missão envolvesse as tréguas entre os reinos da França e da Inglaterra e uma possível ajuda militar inglesa na guerra luso-castelhana418.
Fora esses dois casos de mercadores, existe um conjunto de dez (10) embaixadores que não se enquadram no meio clerical e, mesmo apresentando relações com os estratos inferiores da nobreza, não se insere na elite de sangue. Contudo, estes personagens têm no funcionalismo um elemento agregador, e será esse o fio de análise do referido subgrupo. Como lembra Rita Gomes, mostra-se difícil a reconstituição da biografia de indivíduos e famílias de servidores não nobres ou de estratos inferiores da nobreza419. Nessas circunstâncias, os estudos acerca da burocracia régia quatrocentista, em especial sobre o reinado de D. Afonso V, contribuíram para sanar ao menos a trajetória desses personagens como oficiais régios.
Sem ascendência clara, ÁLVARO PIRES VIEIRA420 foi um dos que se destacou através do funcionalismo, porém não há indícios de que sua descendência tenha se afirmado na nobreza. Atuou como corregedor da Corte entre 1453 e 1463, ano que aparece como desembargador das petições, cargo que ocupou até 1466. Nesses anos é ainda mencionado como corregedor de Lisboa em 1460. Em 1471, alcançou a posição de chanceler da Casa do Cível, ofício que exerceu até 1480. A intensa atuação na burocracia e a formação acadêmico- profissional podem ter contribuído diretamente para a sua escolha como embaixador em três oportunidades, porém as missões que participou são obscuras e deixam a relação estabelecida dificultosa.
Por outro lado, é possível afirmar de forma mais segura que a ocupação e a formação estiveram relacionadas à escolha de PERO FALEIRO421 como embaixador. Presente em duas embaixadas ocorridas na primeira metade da década de 50, foi enviado a Castela e a Inglaterra, sendo que na missão ao reino inglês teve o importante objetivo de expor as infrações dos súditos ingleses aos tratados entre os reinos (1455). Nesse período, PERO FALEIRO já tinha exercido o ofício de corregedor da cidade de Lisboa (1448-1451) e era desembargador da Casa do Cível (1451-1460). Nos anos seguintes, aparece ainda como desembargador do paço e das petições (1460), chanceler da Casa do Cível (1463) e desembargador do rei (1468).
418 DIAS DINIS, António Joaquim. Dois embaixadores de el-rei D. Afonso V. Separata da Revista Itinerarium.
Braga: Editorial franciscana, Cadernos Históricos, 1955, p.33-47.
419
GOMES, Rita Costa. A Corte dos reis de Portugal no final da Idade Média. Idem, p. 130.
420 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico. 421 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
Entre esse grupo de embaixadores, FERNÃO LOURENÇO DE GUIMARÃES422 consta como um dos que conseguiu se projetar na nobreza, mesmo que sua trajetória seja de mapeamento dificultoso. Seu caso também é singular por ter sido enviado ao duque de Bragança, missão anotada como embaixada na Fazenda Real423. De acordo com Felgueiras Gayo, foi escrivão da Fazenda e tesoureiro-mor, e consta como feitor da Casa da Índia e Mina no reinado de D. Manuel, mesmo período que se tornou senhor de Gatasso e Penajoya.
Atuando como procurador desde os anos 60, a trajetória de JOÃO DE ELVAS424 merece maior destaque nas décadas de 70 e 80. Nesses anos esteve presente em três embaixadas, duas a Inglaterra (1472 e 1482) e uma a França (1475), e todas as missões tiveram uma importância acentuada. Em 1472, teve como objetivo reclamar a restituição dos roubos feitos pelos ingleses contra naus portuguesas, situação que não excluía a via armada para a resolução do impasse. Em 1475, recebeu plenos poderes para tratar, fazer e assentar paz, amizade e aliança com o rei da França, conseguindo que o tratado de liga ofensiva com Luís XI fosse assinado em 08 de setembro, assim como a confirmação dos tratados anteriores. Em 1482, teve como missão confirmar os pactos de aliança entre Portugal e Inglaterra e fazer reconhecer a soberania portuguesa na Guiné. O destaque dado a essas décadas na vida do personagem é acrescentado ainda pelas menções de JOÃO DE ELVAS como Licenciado (1471) e doutor em Leis (1476), e como corregedor da Corte e desembargador da Casa do Cível.
Escrivão desde os anos 40, ANTÃO GONÇALVES425 participou de uma missão diplomática a Roma na qual consta como “secretário”426
. O exercício dessa função não aparece em levantamentos biográficos sobre os oficiais da corte427, porém se sabe que o personagem ocupou a escrivaninha da Câmara entre 1462 e 1475 e foi provido feitor das “almaduvas” do Cabo Espichel em 1473. Ainda que a atuação de ANTÃO GONÇALVES como secretário não seja plenamente definida, chama atenção que outros três embaixadores tenham ocupado tal função de tamanha confiança e proximidade régia. AFONSO GARCEZ foi escrivão entre 1453 e 1490, e nomeado escrivão da Câmara em 1471, aparecendo como
422
Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico
423 FARO, Jorge. Receitas e Despesas da Fazenda Real entre 1384 e 1481 (subsídios documentais). Idem, p.81. 424 Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico.
425
Ver: Apêndice – Catálogo prosopográfico
426
FARO, Jorge. Receitas e Despesas da Fazenda Real entre 1384 e 1481 (subsídios documentais). Idem, p.79.
427 BRITO, Isabel Carla Moreira de. A burocracia régia tardo-afonsina. A Administração central e os seus oficiais em 1476. Dissertação de mestrado. Porto: Universidade do Porto, 2001, Vol. II, p.126-127; DURÃO,
Maria Manuela. 1471 – Um ano africano no desembargo de D. Afonso V. Dissertação de mestrado. Porto: Universidade do Porto, 2002, Catálogo, p.117-119; MONTEIRO, Helena Maria. A Chancelaria régia e os seus
notário em 1481. Foi enviado duas vezes a Castela, sendo uma das missões o acompanhamento das vistas de Fonte Rabia (1463). Outro secretário foi PERO GONÇALVES, que exerceu o cargo entre 1449 e 1464, juntamente com a escrivaninha da Câmara. Participou de duas missões nesse período, uma a Roma (1450) e outra a Inglaterra (1455). Por fim, o terceiro foi o cavaleiro e comendador ÁLVARO LOPES CHAVES, um dos servidores que se destacaram na diplomacia. Com cinco missões diplomáticas, o personagem foi escrivão da Câmara (1462-1508) e secretário régio (1475-1481), chegando a notário geral em 1481.
Outros dois casos compõem esse conjunto de embaixadores que tiveram no exercício de ofícios a principal característica comum. Destaca-se que ambos eram membros da casa do príncipe D. João e estiveram presentes na comitiva que assinou o Tratado das Alcáçovas (1479). Falamos de JOÃO GARCEZ, escrivão da Fazenda e notário geral, e PERO BOTELHO, com atividades relacionadas à justiça, especialmente na cidade de Lisboa, sendo desembargador, recebedor das “távolas do aver do peso” da cidade e juiz da alfândega lisboeta.
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Em linhas gerais, percebe-se que a própria definição da categoria já aponta para a importância que o exercício de ofícios na administração central exercia para a escolha dos embaixadores afonsinos. Não obstante, os dois casos de mercadores presentes em missões diplomáticas do reinado, assim como a trajetória de PERO BOTELHO, conduzem mais uma vez nossa observação para a questão da proximidade dos embaixadores com a casa régia e a casa dos demais membros da família real.