CAPÍTULO 4 Competitividade Empresarial (Organizacional)
4.7. A engenharia e as competências funcionais nas empresas
Este estudo ao assumir uma direção que relaciona a Educação e Tecnologia com o Tecido Empresarial procura contribuir para a melhoria da eficiência e eficácia no desempenho individual e coletivo dos colaboradores das empresas. Entende-se este paradigma como condição necessária para garantir uma competitividade empresarial que enfrente a globalização com sucesso. Como já foi referido atrás, a globalização, o outsourcinge o desenvolvimento tecnológico obrigam as empresas a organizarem-se e encontrarem soluções que envolvam a inovação, diferenciação,
partilha de competências e qualificação dos seus Recursos Humanos. No âmbito da sua função profissional, considera-se que os engenheiros, através das competências que reúnem, têm a obrigação de identificar soluções que contribuam para a resolução de problemas concretos das empresas, garantindo-lhes um crescimento económico ambientalmente sustentável e competitivo. Drucker (2011: 64) considera que a engenharia industrial tem a responsabilidade de elaborar projetos que trabalhem as coisas certas para tornar o trabalho intelectual eficaz. Entende que a eficácia é a tecnologia específica do trabalhador do conhecimento dentro da organização e não pode ser esperada automaticamente.
Bozorgmanesh et al. (2012) dizem que a aprendizagem ao longo da vida exige a construção contínua de habilidades e conhecimentos que ocorrem num indivíduo mediante as experiências formais (formação, acompanhamento, tutoria, orientação, aprendizagem, ensino superior) ou informais (experiências, situações). Consideram que desta forma se melhora a inclusão social, a cidadania ativa, a competitividade e a empregabilidade, mostrando ainda que a permanente atualização de competências origina um auto aperfeiçoamento necessário para se obter um desempenho eficiente e eficaz.
Alic et al. (1982), no artigo “Engenharia, Educação e Competitividade”, defendem que a engenharia e a educação desempenham uma função necessária ao desenvolvimento da economia dos países para poderem enfrentar os desafios da competitividade. Justificam que, para o efeito, é necessária uma cooperação entre os estabelecimentos do ensino superior e a indústria, aumentando a empregabilidade dos diplomados em engenharia.
Para Guo et al. (2012) existe uma correlação positiva entre o capital humano e uma carreira de sucesso. Consideram que a medição do sucesso de uma carreira profissional sugere que o conhecimento envolva quatro dimensões: (i) a educação, (ii) a experiência do trabalho, (iii) a capacidade de aprendizagem e (iv) a capacidade de formação, dependendo a carreira de sucesso da competitividade interna e externa da organização e da satisfação profissional.
Segundo Bayless e Robe (2010), a capacidade de competir e inovar depende das soluções encontradas pelos engenheiros com a sua capacidade de liderança. O seu trabalho mostra que a interdependência de resolução de problemas técnicos e socioeconómicos obrigam os engenheiros a melhorarem permanentemente as suas soft skills para poderem enfrentar a resolução dos problemas com sucesso competitivo.
Considera-se oportuno indicar as conclusões obtidas por um estudo apresentado por Ngai et al. (2007), revelando os fatores críticos de sucesso para implementação de um sistema eficaz de apoio à monitorização numa empresa de engenharia de aeronaves em Hong Kong. O trabalho mostra que é necessário respeitar os seguintes itens: Criar motivação interna e externa forte para a melhoria; despertar o desejo de manter a par da mais recente tecnologia para a competitividade global; trabalhar para implementar cruzamento organizacional; evitar mudanças
de processos que sejam importantes; facilitar o investimento aos fornecedores de equipamentos; usar materiais (recursos) reutilizáveis; desenvolver habilidades envolvendo soluções de transferência; e conhecimento repartido entre a universidade e a empresa.
Sunthonkanokpong (2011), ao indicar uma visão global do futuro do ensino da engenharia, mostra que o novo papel dos engenheiros mudará em função dos aspetos que cumpre salientar: Globalização da indústria e da prática da engenharia; mudança de emprego de engenharia de grandes empresas para pequenas e médias empresas; ênfase crescente no empreendedorismo; economia baseada no conhecimento; oportunidade crescente para a utilização de tecnologia na educação e no trabalho de engenharia. Este mesmo estudo, apresentado pelo autor, mostra também que os graduados em engenharia só estarão bem preparados em 2020 se respeitarem os seguintes atributos de sucesso: Serem estudantes ao longo da vida; desenvolverem a capacidade de resolução de problemas colocando-os em contexto social, técnico e operacional; serem dinâmicos, ágeis, resistentes, flexíveis; possuírem elevados padrões éticos, bom senso no profissionalismo, boa capacidade de comunicação e habilidades de liderança.
Cao et al. (2010) apresentam um artigo que foca o projeto de engenharia orientado para o processo de fabricação na empresa, tendo como base a chamada engenharia simultânea e a tecnologia. Com este estudo defendem que é prioridade permanente reduzir os custos ao longo do ciclo de vida do produto, tendo a engenharia simultânea um contributo para essa redução. Para o efeito deve reunir multidisciplinarmente todas as competências ligadas à engenharia do produto, gerindo em simultâneo as condições operacionais para o trabalho.
De acordo com Valette e Savourie (2008), a educação deve ser apresentada como um sistema global e não como uma sucessão de módulos independentes. No estudo que apresentam, indicam que o atual contexto industrial deve desenvolver produtos inovadores mais baratos e mais competitivos. Para o efeito, as empresas necessitam de recursos humanos qualificados e imediatamente operacionais. Mostram que o departamento de Engenharia Mecânica de Produção do politécnico Angers-Chalet, na França, propõe soluções pedagógicas com projetos concretos nos dois primeiros anos, de acordo com o programa oficial e estabelecem estratégias para fomentar a curiosidade e inovação entre os estudantes. Cada projeto é um projeto multidisciplinar, nomeadamente na conceção, no fabrico, no controlo de gestão e na comunicação em inglês.
Brennan (2006) mostra um estudo de caso, envolvendo engenheiros e técnicos de uma empresa de consultoria, que foca as práticas de gestão de operações como solução para os problemas e dificuldades encontradas nas empresas. O estudo desenvolve aspetos com base num paradigma de produção flexível, concluindo que, além da necessidade de outras melhorias operacionais, é necessário desenvolver uma habilidade generalizada e definida entre os funcionários das empresas, equilibrar a carga de trabalho em toda a organização, desenvolver de forma
deliberada gerentes de projeto e aplicar modelos operacionais para prever o impacto dos sistemas de alocação de recursos.
Michael e Christopher (2012) apresentam um estudo que revela uma melhoria da eficácia do ensino baseado nos recursos utilizados na ética da engenharia. O artigo descreve um simulador de segunda geração sobre a ética na educação da engenharia, indicando que o modelo se baseia em experiências reais dos engenheiros envolvidos em situações éticas. É oportuno indicar as conclusões de um estudo feito por Mudrack e Bloodgood (2012) sobre as implicações éticas na competitividade individual. O artigo examina algumas implicações éticas de duas orientações individuais competitivas e diferentes. Mostra que ganhar é crucialmente importante em
hipercompetitividade, enquanto que uma perspetiva de desenvolvimento pessoal considera a
concorrência como um meio de autodescoberta e autoaperfeiçoamento. O estudo revelou ainda que as pessoas hipercompetitivas tendem a ser maquiavélicas ao ponto de não considerarem errado ganhar à custa dos outros. Pelo contrário, os concorrentes da vertente do desenvolvimento pessoal possuem ética elevada e não são maquiavélicos. Segundo Ismael (2011), os engenheiros devem ter uma formação técnica e humanista excelente para contribuírem para a resolução dos problemas complexos que têm que enfrentar permanentemente.
Os novos desafios do desenvolvimento económico e social foram tratados no XVIII Congresso da Ordem dos Engenheiros (OE) realizado nos dias 4 e 6 de novembro de 2010, na cidade de Aveiro, subordinado ao tema “A Engenharia no Século XXI – Qualificação, Inovação e Empreendedorismo”. Considera-se oportuno indicar três conclusões que estão inseridas no contexto desta investigação (in Ingenium – janeiro/fevereiro 2011: 10-11):
(i) A inovação na economia real carece de uma estreita e permanente ligação à Escola e aos estabelecimentos de investigação, desenvolvimento e inovação. Contudo, deve ser centrada na satisfação das necessidades das empresas para ir ao encontro das expectativas do mercado;
(ii) A Engenharia e os Engenheiros têm um papel fulcral no novo paradigma do desenvolvimento económico e na garantia da sua sustentabilidade;
(iii) A atual crise económica e financeira é uma oportunidade para corrigir erros que vêm sendo praticados, possibilitando novas formas de organização e de entendimento entre os agentes económicos. Os Engenheiros, tal como o fizeram no passado, demonstraram neste Congresso que têm soluções e que estão à altura dos desafios que a sociedade portuguesa tem de enfrentar. É nas situações difíceis que se desenham as grandes mudanças; as futuras gerações não nos perdoarão se falharmos.
Nesta linha de orientação, os trabalhos do XIX Congresso Nacional da OE, realizado no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, nos dias 19 e 20 de outubro de 2012, com o tema “Sociedade, Território e Ambiente – a intervenção do engenheiro”, concluíram, entre outros importantes aspetos, que (in Ingenium novembro/dezembro 2012: 62-63):
(i) Urge proceder a uma análise profunda, quantitativa e qualitativa, do sistema de ensino de Engenharia e Tecnologia, para inventariar as necessidades, regular a oferta e
consolidar a qualidade. O interesse nacional e a racional aplicação dos recursos devem prevalecer de modo inequívoco sobre interesses e particularidades setoriais ou locais;
(ii) A Ordem dos Engenheiros reitera a disponibilidade incondicional de colaborar com entidades públicas ou com movimentos da Sociedade Civil, na procura das melhores soluções nacionais para as questões de desenvolvimento económico sustentável e de interesse social, onde o planeamento, a Engenharia e a Tecnologia tenham papel relevante.
Algumas das conclusões indicadas dos últimos dois congressos da Ordem dos Engenheiros foram mencionadas neste estudo, tendo em conta que as políticas públicas de desenvolvimento devem estar em concordância com os objetivos da política económica, articulado com o facto de o Estado delegar poderes de decisão nas Associações Públicas Profissionais.
Na presença do exposto, parece poder afirmar-se que os profissionais de engenharia, utilizando as competências que possuem, promovem e desenvolvem, são uma alavanca fundamental e decisiva no processo de desenvolvimento empresarial competitivo e sustentável. Com a identificação de soluções potenciam o crescimento do conhecimento funcional com a responsabilidade de operacionalizar produtos e sistemas aplicados no mundo real. Neste contexto, o engenheiro, sendo um gestor de recursos humanos e de produtos, deve conhecer conceitos de gestão, economia, inovação, empreendedorismo, relações laborais e assumir e
promover uma cultura geral com atualização permanente.
Perante o que foi referido, poder-se-á eventualmente concluir que a competitividade no exercício profissional é uma garantia acrescida para as soluções do desenvolvimento e crescimento sustentado das empresas e das organizações em geral, face aos desafios da globalização. Os novos paradigmas sociais estabeleceram uma dinâmica de competitividade que exige de todos os cidadãos, nomeadamente dos profissionais de engenharia, um compromisso sério com padrões de elevação relacionados com a mudança de atitude que vá ao encontro da literacia da disciplina, do crescimento, da inovação, da qualidade e da coesão social. Para o efeito, será necessária uma educação que promova a formação contínua e uma energia criadora permanente que valorize o esforço competitivo e o desempenho organizacional de todos os colaboradores de modo a garantir um output com eficiência e eficácia que assegure a sustentabilidade desejada. Só assim será possível contribuir para a construção de uma sociedade mais robusta, com um modelo económico mais competitivo e consequentemente um país mais sustentável. Neste contexto, os engenheiros, enquanto grupo profissional dotado de competências técnicas reconhecidas, têm a obrigação académica e moral de contribuírem para o desenvolvimento de cidadãos civicamente empenhados e profissionalmente determinados na melhoria das competências operacionais no domínio da sua atividade.