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CAPÍTULO 2 A escola a empresa e o desenvolvimento de competências funcionais

2.5. A escola a empresa e as competências profissionais

A primeira fase da educação é naturalmente assegurada pela família, a nível afetivo, cognitivo, valores e normas. Depois surge a integração no sistema escolar com a educação pré-escolar até aos vários níveis de escolaridade. No entanto, a educação é também influenciada pelo espaço social da comunidade onde se vive (religiosa, política, etc.). Segundo a Comissão sobre a Educação para o século XXI (Delors, 1998: 62-63), quando se entra no mundo do trabalho, a empresa é também um espaço de educação. Então, pode afirmar-se que a educação deve exercer a sua função articulando as dinâmicas de inovação e desenvolvimento que se estabelecem nas organizações. No contexto da globalização, os novos desafios da gestão empresarial exigem mudanças na formação dos seus colaboradores para que a competitividade proporcione mais qualidade e menor custo. Surge então a necessidade de apostar na qualificação profissional utilizando os variados meios que estão disponíveis para a melhoria do conhecimento.

Segundo Gadotti (2000), “os sistemas educacionais ainda não conseguiram avaliar suficientemente o impacto da comunicação audiovisual e da informática”. A utilização das novas tecnologias criou novos espaços do conhecimento, uma vez que as pessoas têm acesso ao ciberespaço da formação e da aprendizagem integrando a sociedade do conhecimento. Neste contexto, cabe à escola “organizar um movimento global de renovação cultural, aproveitando-se de toda essa riqueza de informação. Hoje é a empresa que está a assumir esse papel inovador. A escola não pode ficar a reboque das inovações tecnológicas. Ela precisa ser um centro de inovação. Temos uma tradição de dar pouca importância à educação tecnológica, a qual deveria começar já na educação infantil”. Para Dowbor (1998: 259, cit. por Gadotti), a escola deixa de ser “lecionadora” para ser “gestora do conhecimento”, permitindo que a educação seja determinante sobre o desenvolvimento. À escola cabe o papel de construir o futuro. A empresa deve assumir um papel de responsabilidade educacional e social que garanta aos seus trabalhadores uma formação que contemple

qualidades humanas que se manifestem nas relações interpessoais mantidas no trabalho, tais

como: “saber trabalhar coletivamente, ter iniciativa, gostar do risco, ter intuição, saber

Para Miron (2009), na nova era da globalização, sendo o conhecimento uma vantagem competitiva, o papel das universidades deve alterar-se no sentido de se tornar mais empresarial, especialmente com a otimização dos ativos intangíveis. Segundo este autor, a ligação entre a educação, formação e inovação são a chave do crescimento, do desenvolvimento económico e da competitividade. Segundo James (2012), a aprendizagem de conceitos e criação de conhecimento, habilidades e competências ligadas à economia, devem ser obtidos através da educação formal e da formação em contexto real, centrando-se assim na relação entre empresas, regiões e instituições. Thomas (2012) sustenta a contribuição das Universidades no comportamento inovador do setor privado através das elites empresariais, considerando também que estas desempenham um papel fundamental na transferência de conhecimento com as instituições do ensino superior. Para Guerrero (2012), as Universidades empreendedoras desempenham um papel importante na produção de conhecimento baseado no empreendedorismo que é a força motriz do crescimento económico, da criação de emprego e da competitividade. Nejati et al. (2009) consideram que as Universidades e Institutos do ensino superior, na qualidade de arautos da criação de conhecimento e bases de partilha de conhecimentos, devem procurar processos de gestão do conhecimento que resulte na oferta de educação com mais qualidade profissional. Isto, porque o conhecimento se tornou a principal fonte de competitividade organizacional, que origina a considerar a gestão como fundamental para melhorar o desempenho. Knight (2011) defende que apesar dos países terem diferentes objetivos, prioridades e abordagens para se desenvolverem, devem promover centros de educação para a excelência do ensino superior, do conhecimento e da economia. Estes centros, entendidos como polos de educação, devem ter interação na educação, formação, produção de conhecimento e inovação. Yildirim e Askun (2012) dão grande importância à educação em tecnologia e gestão da inovação nos países em desenvolvimento. Indicam que é necessária uma força de trabalho altamente qualificada que seja capaz de inovar em tecnologia e gestão para obter recursos tecnológicos que permitam vantagens competitivas sustentáveis.

De acordo com a Comissão sobre a Educação para o século XXI, cabe ao ensino superior a missão de assumir a motorização do desenvolvimento económico nas sociedades modernas, pelo facto de ser depositário e criador de conhecimentos. É, por isso, a ferramenta fundamental na “transmissão da experiência cultural e científica acumulada pela

humanidade” e considerado o principal polo da educação ao longo de toda a vida já que “devido à inovação e ao progresso tecnológico, as economias exigem cada vez mais profissionais competentes, habilitados com estudos de nível superior”. Além disso, a

valorização dos recursos cognitivos, responsáveis pelo desenvolvimento, dão cada vez mais importância a um “conjunto de funções tradicionais associadas ao progresso e à transmissão

do saber: investigação, inovação, ensino e formação, educação permanente (…) e a cooperação internacional” (Delors, 1998: 119-125).

Estas e outras funções contribuem para um desenvolvimento sustentável e, por isso, as instituições do ensino superior têm obrigação científica, cultural, cívica e moral de ajudar as sociedades a resolver os problemas com que se deparam em cada momento, nomeadamente a nível local. Para melhorar a qualidade prestada pelas instituições do ensino superior, estas

“devem abrir as portas a professores oriundos do setor económico e doutros setores da sociedade, de modo a facilitar as trocas entre estes setores e o da educação” (id.).

O ensino superior acompanha a evolução do mercado de trabalho e, por isso, tem que se adaptar constantemente a novos cursos que respondam às necessidades da sociedade. Assim sendo, as universidades “constituem o conservatório vivo do património da humanidade,

património sem cessar renovado pelo uso que dele fazem professores e investigadores” tendo

ainda como missão a responsabilidade de participação nos debates que envolvem processos de transformação da sociedade e da internacionalização da investigação, das conceções, das atividades, das atitudes e da tecnologia, originando condições para que os países mais pobres se possam desenvolver mais rapidamente. Esta é “uma das tarefas urgentes, às quais deve

fazer face a comunidade universitária nas regiões mais ricas [para] desenvolver os meios que levem a acelerar a cooperação e ajudar a reforçar as capacidades de investigação dos países menos desenvolvidos” (ibidem). É com base nestes pressupostos que se valoriza a partilha de

conhecimentos científicos e a livre circulação de estudantes e de professores, o lançamento de sistemas de comunicação, formação de redes interuniversitárias e criação de centros regionais de excelência.

O novo modelo de organização do ensino superior – designado por Processo de Bolonha – foi

implementado pelo XVII Governo Constitucional5 através do DL nº 74/2006, de 24 de março e

do DL nº 107/2008, de 25 de junho. Tem como principal desiderato garantir a qualificação dos portugueses no espaço europeu tal como refere o preâmbulo do DL nº 74/2006 que sustenta que é “uma oportunidade única para incentivar a frequência do ensino superior, melhorar a

qualidade e a relevância das formações oferecidas, fomentar a mobilidade dos nossos estudantes e diplomados e a internacionalização das nossas formações”.

Pode afirmar-se que, de uma forma sucinta, se pretende uma nova organização do ensino superior, tendo em conta os aspetos seguintes:

 Criação de condições para que todos os cidadãos tenham acesso à aprendizagem ao

longo da vida;

 Organização do ensino superior em três ciclos;

 Mudança de paradigma de ensino de um modelo passivo para um modelo baseado no

desenvolvimento de competências;

5 Legislatura iniciada em 2005.

 Assegurar condições de equidade na formação, no conteúdo, duração e integração profissional, dos estudantes portugueses, perante os restantes Estados que integram o espaço europeu;

 Diferenciação dos objetivos entre os subsistemas politécnico e universitário, num

contexto de igual dignidade e exigência, mas de vocações diferentes;

 Estabelecimento de parcerias internacionais geradoras de sinergias entre as

instituições e optimizadoras da utilização dos recursos existentes (in “Preâmbulo do DL nº 74/2006”).

É se salientar que o papel da Educação na Europa Comunitária, que congrega vários países para a concretização do chamado Processo de Bolonha, está a operacionalizar grandes mudanças no ensino superior. Segundo o DL nº 107/2008, uma das metas do Processo de Bolonha é “a transição de um sistema de ensino baseado na transmissão de conhecimentos

para um sistema baseado no desenvolvimento das competências dos estudantes, em que as componentes de trabalho experimental ou de projeto, entre outras, e a aquisição de competências transversais devem desempenhar um papel decisivo”.