Afinando a busca em função da delimitação temática, foi possível detectar a amplitude e abrangência significativa da evolução epistemológica do desenvolvimento do conhecimento científico. As principais categorias eleitas e correlacionadas que compõem sua rede de significações são evolução, mudanças e
processo científico, classificação e fragmentação das ciências, conteúdo, estrutura e natureza do conhecimento científico, paradigmas, programas de pesquisa e tradições de pesquisa, racionalidade, relativismo, realismo e verdade, disciplina,
entre outros, que fazem parte de muitas discussões contemporâneas em vários domínios científicos e acadêmicos, sendo os principais Epistemologia, Filosofia da Ciência, História da Ciência, Estudos Sociais da Ciência, Sociologia da Ciência e do Conhecimento Científico.
Partimos da premissa de que, além das problemáticas elencadas por Godoy (2011) – as circunstâncias que possam garantir a produção do conhecimento
“verdadeiro” e a conflituosa relação sujeito-objeto29 –, na evolução epistemológica, constatamos que as principais temáticas abordadas ao longo dos últimos 50 anos apresentaram a germinação de novos temas, avanços, retomadas e
reinterpretações, mas não observamos propriamente rupturas abruptas ou definitivas
em relação às principais problemáticas, tais como: as implicações dos fatores
externos e internos no desenvolvimento do conhecimento científico ou na evolução do conhecimento científico; o questionamento da existência ou não da racionalidade nas escolhas teóricas e metodológicas dos pesquisadores; a atuação e consequências dos valores sociais e cognitivos no fazer científico, na avaliação e na natureza do conhecimento ou das teorias científicas; se existe continuidade ou
descontinuidade, ou ambos, no progresso científico; a questão da
incomensurabilidade na comparação entre duas ou mais teorias; o papel atribuído aos domínios científicos que trabalham com a temática, como Sociologia da Ciência e do Conhecimento Científico, Filosofia da Ciência, História da Ciência e Estudos Sociais das Ciências; e se este papel (dos domínios) é normativo, prescritivo, descritivo ou ilustrativo em relação aos objetivos dos estudos, entre outras
ponderações
Destarte, foi possível detectar que estas problemáticas e seus temas correlatos perpassam, informam e são reinterpretadas constantemente na celeuma das discussões teóricas que compõem redes de significações teóricas sobre o desenvolvimento científico. Com isso, foi possível sistematizá-los em cinco diferentes gerações dos coletivos de pensamento científico, cujos elos evolutivos principais foram as contribuições, as retomadas, os esclarecimentos e as críticas. Isto porque fazem parte do arsenal discursivo de várias suposições diretivas de qualquer concepção histórica, seja progressista, desenvolvimentista ou evolucionária do conhecimento científico.
No entanto, frequentemente emergem e são utilizadas abordagens e concepções de ciências diferentes, o que implica conteúdos, contornos e valores divergentes no núcleo das práticas discursivas das gerações anteriores, por vezes, sob o olhar de um ou mais domínios do saber, gerando ou retomando embates
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científicos tradicionais, criando ou autorizando novos direcionamentos, introduzindo e legitimando novas teses, conforme veremos ao longo desta seção.
Barra (2011) nos informa que, mesmo antes de 1960, tradicionalmente os estudos sobre a História do desenvolvimento do conhecimento científico foram marcados por duas perspectivas metodológicas de análise. Uma perspectiva internalista, com fundamentos estabelecidos no idealismo transcendental de Kant e no positivismo lógico, defendendo o ponto de vista de que as mudanças científicas são oriundas das condições internas ao fazer científico. E a perspectiva externalista, fundada na “tradição historiográfica marxista”, que atribui como causa das revoluções científicas “os compromissos políticos, ideológicos e econômicos dominantes.” (BARRA, 2011, p. 75)
Segundo o ponto de vista do autor, as duas implicações mais danosas desta controvérsia foram: 1) uma notória “pobreza dos referenciais de análise epistemológica adotada por autores partidários dos enfoques externalistas”, (p. 76), alegando que os estudos sobre a ótica na perspectiva externalista deixaram de considerar as oportunas e profícuas críticas endereçadas aos fundamentos do positivismo lógico e, consequentemente, ao “incontido preconceito a toda forma de análise tipicamente epistemológica”, e esta foi praticamente desconsiderada. 2) Como consequência da primeira implicação, os vieses atribuídos a tais fundamentos funcionaram como germinadores das análises tipicamente sociológicas, sem qualquer articulação entre tais análises.
Nos estudos sob o olhar da Sociologia, basicamente Robert Merton é considerado o fundador da primeira geração (SHINN; RAGOUET, 2008). Embora suas teses tenham sido alvo de muitas críticas negativas, suas contribuições ainda figuram como ligações evolutivas nos estudos contemporâneos sobre o desenvolvimento científico. Vejamos na fala dos autores:
As investigações de Merton sobre a ciência concentram-se na ciência como organização social. As conexões entre o conteúdo da ciência e os fatores sociais são intencionalmente desconsideradas, já que são todas elas formas de reflexão epistemológica ou filosófica. Com poucas exceções, Merton também se distancia das análises acerca da ciência e da cultura. Quando ele inclui os fatores culturais em seu pensamento é em conexão com o conhecimento, e as ligações entre o conhecimento em geral e a ciência recebem pouca atenção. [...] A exploração sociológica mertoniana da ciência como organização social autoriza certos parâmetros e deslegitima outros. (SHINN; RAGOUET, 2008, p. 256)
Para os autores, o estilo de pensamento de Merton introduz proposições significativas para a concepção progressista e faz parte das principais orientações consideradas sobre a temática atualmente, tais como: a ciência é tomada como
objeto de estudo da Sociologia, e como um subsistema social quase autônomo, mas diferente de outros subsistemas como a economia e a religião; o marco da profissionalização da ciência se dá a partir da sua institucionalização pela academia Royal Society Londrina; a existência da comunidade científica com papéis definidos, com normas internas e sistema de premiação, serviu como indutora do progresso científico; e a concepção de que as descobertas experimentais e as teorias científicas não apresentam conexões com as condições iniciais explicariam o avanço da ciência (SHINN; RAGOUET, 2008).
Os elos evolutivos do estilo de pensamento de Merton podem ser observados no que Shinn e Ragouet (2008) designam como “perspectiva sociológica diferenciacionista”. De cunho basicamente funcionalista, nessa perspectiva: I) a ciência é tomada como um sistema com normas reguladoras das práticas e recompensas para os atores, conforme critérios estabelecidos pela comunidade científica; II) a análise sociológica deve ter como foco elucidar as condições sociais da atividade científica, III) à Filosofia da Ciência cabe analisar os fatores explicativos do pensamento científico e de sua evolução; IV) os conteúdos cognitivos das ciências são domínios da epistemologia, não da investigação sociológica; V) a ideia da influência dos fatores sócio-históricos externos à ciência sobre os conteúdos dos enunciados teóricos bem como das técnicas experimentais de investigação é rechaçada e, finalmente, VI) o progresso científico (contínuo) está vinculado ao estatuto de notoriedade e ao sistema de “estratificação da honra na ciência”, através da maior produtividade de comunicação científica publicada.
Nas conjecturas da “perspectiva diferenciacionista”, mesmo sendo “reducionista” da atividade científica, continuísta e cumulativa em relação ao “progresso científico”, foram fornecidas ligações evolutivas não só sob o olhar da Sociologia da Ciência, mas da Sociologia do conhecimento científico e dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia para uma abordagem de “concepção produtivista e economicista da ciência”, cujo foco principal dos embates teóricos sobre a atividade de investigação é a quantificação da produção científica. A perspectiva adotada é que o indicador do desenvolvimento da ciência seja estabelecido pela
cumulatividade do conhecimento, o que institui a cientrometria “como instrumento de medida, [...] e gestão dos processos de estratificação nas ciências [...] que permite elaborar sistemas de avaliação das universidades, dos laboratórios de pesquisa, das revistas, dos indivíduos e das ciências nacionais” (SHINN; RAGOUET, 2008, p. 44).
Não existe dúvida de que essa concepção progressista da Sociologia da Ciência, que germina na primeira geração da História das Ideias, converge com o coletivo de pensamento da preocupação cientificista de mensuração da realidade objetiva, isto conforme o princípio da “redutibilidade da linguagem teórica a condições observáveis”, como critério principal para validação do conhecimento científico, assim como reinterpreta e legitima as ideias do sistema filosófico funcionalista, segundo nos revelam Shinn e Ragouet (2008, p. 45):
É preciso ver nisso a influência de uma ideologia particular, [...] de uma concepção de ciência que repousa sobre duas teses. A primeira é a ideia da autonomia universitária – os pesquisadores universitários são livres e as universidades autônomas. A segunda assimila a ciência à pesquisa ‘pura’ – a ciência é um bem público que não pertence àqueles que o produzem. Essa ideologia não deixa de lembrar certos aspectos da sociologia funcionalista, teve dois efeitos práticos: pôr em novo centro as enquetes governamentais sobre P&D industrial e governamental; revelar o caráter inoportuno da mediação dos resultados da pesquisa universitária, [...] não são produtos como os outros e devido à falta de métodos pertinentes para medir as atividades dos próprios pesquisadores. Esse fato como uma consequência da aplicação cada vez mais geral dos modelos econômicos de previsão, assentados na mão de obra e nos recursos investidos, o que conduziu a considerar os inputs antes que os outputs.
Para os autores, tais acepções ideológicas, além de afetarem o fazer científico, propagam as concepções, propósitos e valores que fundamentam a História das Ideias e acarretam implicações não só na autonomia universitária, mas principalmente por estabelecer e legitimar a “cultura do produtivíssimo científico”, pois, muitas vezes, potencializa determinados aspectos (domínios científicos, temáticas “prioritárias”, procedimentos técnicos etc.) em detrimento de outros, cria incoerências teórico-metodológicas para atender às demandas contemporâneas, econômicas, principalmente, e amplia dualidades como quantidade x qualidade, pesquisa aplicada x pura, ciências naturais e exatas x ciências humanas e sociais, estruturando uma organização social não só na ambiência universitária, mas em todo circuito da produção científica, que utiliza e legitima um modelo de produção de ciência e tecnológica para “os usos sociais das ciências”, em função de interesses
ideológicos, nem sempre explícitos, mas subjacentes ao modo de produção capitalista contemporâneo, pois:
O sistema de medida da ciência tornou-se complexo. Ao lado dos atores supranacionais, tais como OCDE, apareceram outros produtores de estatísticas: as organizações estatísticas nacionais, as instâncias ministeriais, as agências ligadas ao campo da ciência e da tecnologia [...], os pesquisadores universitários [...] e as empresas [...]. Cada um desses atores arrogou-se um papel no campo da cientometria: os ministérios e as organizações estatísticas nacionais procedem à medida de inputs a partir de enquetes, a fim de produzir dados suscetíveis de ajudá-los a tomar decisões em matéria de políticas científicas; os universitários e as firmas privadas procedem a medidas de outputs a partir de dados provindos de bancos produzidos para outros fins (principalmente bibliográficos). (SHINN; RAGOUET, 2008, p. 46)
Destarte, são acepções ideológicas que passaram a permear e orientar as políticas públicas de financiamento e instrumentalização da ciência, afetando de forma significativa os propósitos e valores (sociais e cognitivos) que transitam e informam suas práticas discursivas. E, consequentemente, implicando as dimensões axiológicas, metodológicas, ontológicas e epistemológicas que estruturam a dinâmica científica, pois “As universidades brasileiras, [...] vivem um momento de estresse quantitativista. [...] são avaliadas pelas métricas [...] da produtividade docente que compõem os índices que irão creditar e classificar os programas de pós-graduação” (LEITE, et. al, 2014, p. 292). Para Leite et al. (2014) e Shinn e Ragouet (2008), embora os indicadores da cientometria venham sendo paulatinamente revisados e substituídos por outros mais afinados com os propósitos atentos para o “desenvolvimento científico, ético e social” ao longo dos anos, ainda assim, não deixa de ser fato que a “cientometria é historicamente um produto do diferenciacionismo” (SHINN; RAGOUET, 2008, p. 46), oriundo da concepção histórica progressista da ciência e de um processo discursivo econômico, pois “trata- se de uma medida da produtividade que irá influir no status internacional de uma instituição a partir do micro contexto individual-local” (LEITE et al., 2014, p. 292). Para Corrêa (2018), a mercantilização dos processos acadêmicos podem ser percebidos no âmbito da Ciência Geográfica, através das seguintes práticas:
Aumento do número de orientandos e de trabalhos publicados, especialmente em periódicos internacionais. Isso tem levado a que se publique o mesmo texto, ou pequenas variações dele, em vários periódicos, aumentando, assim, a pontuação do pesquisador.
Utilização do trabalho de seus orientandos e bolsistas para amplicar e diversificar a produção por meio do artifício da coautoria. O orientador passa a ser coautor nato, mesmo que não tenha orientado ou que a orientação seja parte de sua tarefa (lembrar-se que, mesmo sem a coautoria, o
orientador ganha muito intelectualmente com um bom trabalho de seu orientando). Com isso o orientador pode apresentar oito ou dez trabalhos em um único congresso, aumentando sua pontuação.
Estabelecimento de rede de trocas envolvendo convites para cursos ou congressos fora do lugar de origem, aumentando assim o desempenho do programa de pós-graduação em questões como extensão universitária e relações internacionais. A qualidade dos temas abordados é de natureza secundária e não avaliável. (CORREA, 2018, p. 320)
Para o autor são estratégias que vêm permeando e influenciando o contexto dos programas do pós-graduação, e que, ao nosso ver, coloca a evolução científica vinculada às demandas contemporâneas que reflete o avanço do capitalismo no âmbito da produção científica e remodela a função social das universidades, uma vez que produz o que os autores denominam de “capitalismo acadêmico”. Citamos:
O redesenho capitalista das universidades [...] e a contingência do capitalismo acadêmico sobre o pesquisador deslocaram a produção de conhecimento desinteressado. O deslocamento pode ter dado lugar a inovações, [...] porém contribuiu bastante para ampliar o conhecimento cumulativo, o conhecimento decorrente e derivado do conhecimento anterior, o conhecimento sobre o estado da arte em determinado subcampo, mantendo a performance medíocre da pesquisa pela pesquisa de forma a dar continuidade ao financiamento do pesquisador. Veio também a despertar o interesse em originar produtos, processo e patentes comercializáveis. A universidade redesenhada deu espaço para a pós- universidade empreendedora [...] e nela se aninhou o pesquisador empreendedor de si mesmo. (LEITE; CAREGNATO; MIORANDO, 2018, p. 36)
Os autores apresentam aspectos negativos oriundos do império do “produtivismo”, que vem ampliando significativamente o volume, o fluxo e a qualidade da produção científica contemporânea. O fato é que é possível conceber também avanços, reinterpretações e retomadas em relação às contribuições da matriz intelectual de Merton, no sentido de que possam ser utilizadas para elucidar a dinâmica científica na contemporaneidade. Na ótica de um processo discursivo científico, destaca-se a fala de Trindade Lima (2002, p. 152):
[...] Robert Merton apresenta as limitações da perspectiva estrutural- funcionalista de que participa, sua abordagem sobre o mundo moderno (caracterizado pelo conflito de valores e pela ambiguidade de motivações) pode ser vista como uma contribuição, inclusive pela crítica à redução do ator social ao homo economicus. Ao abordar a contribuição de Merton para a sociologia do conhecimento e da ciência, identifico como um dos temas mais relevantes o privilégio da ambivalência, característica básica das sociedades contemporâneas e da atividade científica em particular. [..], com a retomada de uma agenda de pesquisa, relevante e atual, sem pretender apresentar uma defesa do conjunto de seus julgamentos e conclusões
sobre o tema, em relação aos quais muitas das críticas de que sua obra foi objeto são pertinente.
Observe que autora propõe que no debate sobre a ciência no mundo contemporâneo sejam retomadas e situadas as contribuições de Robert Merton, principalmente com o intuito de superar as dualidades – comunidade X mercado e valores X interesses – que marcam atualmente as controvérsias científicas na área. Paradoxalmente, a ideia é que, ao reconhecer a influência e revisar a “adesão” direta aos valores cognitivos e sociais “na análise da atividade científica”, o pesquisador viabilize a possibilidade de superá-los. O que para a autora constitui-se numa lacuna presente nas abordagens da Sociologia e da História da Ciência. Trindade Lima (2008), com uma concepção histórica mais próxima da perspectiva desenvolvimentista, aponta que o intento deve ser o de questionar a tese contemporânea “de que o desenvolvimento científico é uma prática social racional e de natureza essencialmente instrumental”, daí a necessidade de “situar a atividade científica no âmbito de um debate mais amplo, que diz respeito ao conjunto da produção sociológica e que está presente na origem das ciências sociais” (TRINDADE LIMA, 2008, p. 152).
Kuhn (2011) também retoma essa problemática e faz menção a Merton, esclarecendo que os embates iniciais, que marcam as discussões sobre o desenvolvimento científico nos estudos da ciência do século XVII, giravam em torno da “sobreposição de duas teses” ou conjecturas da “chamada tese de Merton”. A primeira é a tese de que “os novos problemas, dados e métodos”, são oriundos do contexto historiográfico e seus problemas práticos, com isso, alude às “principais razões da transformação substancial sofrida por diversas ciências ao longo do século XVII” em relação ao movimento da ciência baconiana (KUHN, 2011, p. 137). A segunda tese relaciona o “puritanismo” como principal influência ideológica para justificar a introdução do “tom empírico, instrumental e utilitário”, que identifica a ciência institucionalizada no período. Kuhn (2011), sem descartar a retomada das teses sobre as implicações dos fatores externos e internos no desenvolvimento científico, refuta as proposições mertonianas, alegando que as evidências históricas da época caminham em direção contrária, afirmando que “em versões mais cuidadosas e detalhadas”, que devem incluir esclarecimentos imprescindíveis, as teses apresentam “argumentos que são convincentes apenas até certo ponto [...] pois os aspectos que transformaram a teoria científica no século XVII” não estão
diretamente relacionados às ideias balconianas, o que põe “por terra” tais teses (KUHN, 2011, p. 137).
Na década de 1960, além das ligações evolutivas estabelecidas pelas ideias de Robert Merton, que já transitava nas teorias sobre desenvolvimento do conhecimento científico, estas ideias ganharam novos domínios, conteúdos e contornos nas práticas discursivas, com a introdução de novas orientações, circunscrevendo a segunda geração. Embora tenham acontecido rupturas epistemológicas (principalmente em relação ao positivismo) e evolução em relação à germinação de conteúdos, não houve propriamente rupturas em relação às problemáticas, isso porque,
No início dos anos 60, algumas novas teorias da ciência foram desenvolvidas como alternativas ao positivismo; trata-se dos trabalhos de N.R. Hanson, P. Feyerabend, S. Toulmine, acima de tudo, T. Kunh. Essas contribuições, ainda que problemáticas em suas teses positivas, puseram termo efetivamente à hegemonia do positivismo ao revelarem que suas doutrinas centrais (tais como a cumulatividade da ciência, a redutibilidade da linguagem teórica à observacional) conflitam radicalmente com a prática real da ciência. Kuhn destacou-se [...], como figura dominante dos anos 60. Na reação a Kuhn, entrou em cena nos anos 70 uma nova geração de teóricos: I. Lakatos, L. Laudan, G. Holton, M. Hesse, J. Sneed, E. McMullin, I.B. Cohen [...]. Todos esses autores desenvolveram modelos de mudanças e progresso científico que, segundo eles, estavam baseados no, e apoiados pelo estudo empírico das obras da ciência real, por oposição aos ideais lógicos ou filosóficos de garantia epistêmica enfatizados pela tradição positivista. Por todos eles, a filosofia da ciência foi caracterizada como uma disciplina responsável por sua história. (LAUDAN et. al., 1993, p. 8)
Além da primeira geração de pensamento científico já mencionada, considerando a fala de Laudan (1993), podemos identificar mais duas gerações das principais referências teóricas que apresentaram avanços em relação às “conjecturas existentes e específicas sobre os processos de mudanças científicas”. Na segunda geração, eram notórias as vinculações ao neopositivismo, especificamente pela participação dos principais expoentes do Círculo de Viena, tinha também forte cunho crítico ao positivismo lógico e estreita aproximação com o relativismo radical. Nessa direção, destacam-se os estilos de pensamento de P. Feyerabend e de T. Kunh.
Consideramos que o embate profícuo das ideias de Thomas S. Kuhn e Karl Popper marcou o período de transição entre as teorias da evolução epistemológica da primeira geração para a segunda e, consequentemente, de uma concepção histórica progressista para uma desenvolvimentista. Contemporâneos,
ambos pertenciam ao contexto de afinidade da epistemologia anglo-saxônica, mais especificamente no cerne do sistema filosófico do empirismo lógico, que tinha como pilares a experimentação e a lógica e como foco o intento de “livrar o discurso