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CAPÍTULO 2 – O caminho seguido: um estudo de caso etnográfico

2.1 A escolha da escola e da professora

2.1.1 A escola

Como já informado, a Escola Estadual Rio Claro localiza-se em um bairro periférico na cidade de Rio Claro, distante cerca de cinco quilômetros do centro. Conforme informações encontradas no documento “Plano de Gestão – quadriênio 2012-2015”, a escola foi inaugurada no ano de 1988 com a intenção de atender a crescente população do bairro em que se localiza e atualmente atende à aproximadamente 1000 alunos, com idade entre 11 e 18 anos, todos estudantes do Ensino Fundamental – Ciclo II e Ensino Médio. São 28 classes em funcionamento nos três períodos (manhã, tarde e noite).

Segundo esse documento, os estudantes atendidos são provenientes, em sua maioria, do próprio bairro em que a escola se situa e de bairros adjacentes. Destaca-se que há um número expressivo de alunos oriundos de outros estados brasileiros, principalmente de estados do Nordeste. Dentre as poucas informações fornecidas por esse documento, dá-se atenção ao fato de que considerável parcela dos alunos reside com avós e tios e que aproximadamente 60% dos pais e responsáveis estudaram apenas até o Ensino Fundamental, 30% concluíram o Ensino Médio e somente 4% possuem diploma do Ensino Superior. Entre os 6% restantes, 1% são analfabetos e 5% não concluíram o Ensino Fundamental.

Em relação à estrutura física do prédio da escola, tem-se uma construção em dois pisos. No piso inferior, a partir do portão de entrada, há a Secretaria com uma janela para o atendimento ao público, a sala da direção e a da coordenação diretamente ligadas, dois banheiros de uso dos funcionários, uma sala de informática, a sala de vídeo34 e o pátio interno com uma escada que dá acesso ao piso superior. Atravessando o pátio vê-se uma cantina e a cozinha onde são preparadas e servidas as refeições. Seguindo por um corredor entre estas duas, passa-se pela

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Apesar de ser usado para esse fim, inclusive em algumas das aulas observadas, este espaço abrigava também o acervo de livros da escola e materiais curriculares recebidos da DEL.

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sala de materiais de Educação Física35, o banheiro masculino e feminino, a sala dos professores, uma sala de despensa e mais duas salas de aula ao final do corredor. No piso superior são encontradas oito salas de aula e uma sala de almoxarifado. À direita da escada, no sentido de quem a sobe, encontram-se as três salas de aula utilizadas pelos três 9º anos que foram acompanhados no estudo. As demais salas de aula e o almoxarifado ficam no lado oposto da escada. Posicionada ao lado do prédio há a quadra descoberta, um pátio descoberto e uma área destinada ao estacionamento dos professores e funcionários. A ilustração a seguir apresenta imagem aérea da escola36.

Ilustração 1 – Imagem aérea da escola

No que diz respeito aos espaços utilizados para as aulas de Educação Física, destaco que durante as aulas observadas, além da quadra (ilustração 2), outros espaços também serviram à realização das mesmas. Foram esses a própria sala de aula, o pátio externo (ilustração 3) localizado ao fundo da quadra, separado desta por uma grade com o portão de acesso à quadra, o pátio interno da escola (ilustração 4) onde uma mesa de tênis de mesa ficava sempre armada e

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Esta sala não deve ter mais do que 12 m² e além dos materiais de Educação Física, que ficam acondicionados em armários e prateleiras, também ficavam guardados outros materiais não relativos à disciplina, o que por vezes motivou críticas por parte da professora.

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Os números na imagem se referem a 1.prédio principal com as salas de aula, direção etc; 2.quadra; 3.pátio externo; 4.entrada e estacionamento dos professores.

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vários bancos e mesas de merenda, e a sala de vídeo (ilustração 5). Esses espaços são mostrados nas ilustrações abaixo junto com algumas informações adicionais.

Ilustração 2 – A quadra e a arquibancada

Como é possível ver nas imagens acima, a quadra (ilustração 2) não possuía cobertura e seu piso apresentava várias irregularidades, além de uma aspereza que causava várias quedas e arranhões aos alunos, segundo a professora. O calor em determinados horários do dia também foi apontado como motivador de várias reclamações por parte dos alunos para a participação nas aulas, inclusive tendo sido visto isso durante as observações. Ao lado da quadra, a arquibancada se constituía como espaço importante nas aulas. Nela, os alunos ouviam as explicações da professora ou esperavam para participar da atividade desenvolvida e também era o local onde um ou outro aluno ficava, no caso de não querer participar das atividades das aulas. Por estar sempre com sombra, mesmo nas últimas aulas da manhã, professora e alunos ficavam nele durante as explicações. No mês de abril ainda foram fixados algumas mesas e bancos de concreto entre as árvores, que foram bem aceitos pelos alunos. Esse espaço é todo cercado por grades, embora em várias partes existam “passagens” nos locais onde o arame foi cortado. Pelo que percebi, essas passagens cumprem facilitar a recuperação da bola quando esta cai para além do alambrado dentro ainda dos muros da escola. Lembro ainda que este espaço era restrito às aulas de Educação Física e os alunos não tinham acesso em outros momentos da rotina escolar.

Apesar do pátio externo (ilustração 3) não ser, a princípio, um “espaço” para as aulas de Educação Física, por se destinar à circulação dos alunos nos momentos de entrada, intervalos e saída, em alguns momentos das aulas era utilizado por alguns alunos. Normalmente

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este espaço era utilizado para a prática de jogos de voleibol (na maior parte das vezes, os alunos jogavam em círculo e em apenas duas ocasiões a rede de voleibol foi fixada neste local). Após a construção de algumas mesas de concreto próximas às árvores, esse espaço também passou a receber alguns alunos para jogarem Damas. Em apenas um dia esse espaço foi ocupado pelos garotos para jogarem futebol.

O pátio interno (ilustração 4) também era costumeiramente usado para as aulas. Nos dias de chuva, esse era o único espaço que a professora podia usar para as vivências corporais. Em uma das aulas ele foi usado para a prática da roda de capoeira e em outro os alunos realizaram alguns movimentos do hip-hop. Mas o uso mais comum para esse espaço era no final das aulas quando os alunos jogavam Damas nas mesas de refeição e podiam jogar tênis de mesa na mesa que estava sempre armada no pátio, já que somente durante as aulas a professora fornecia bolinhas, raquetes e redes37.

Ilustração 3 – O pátio externo

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A princípio somente os alunos que estavam em aula de Educação Física podiam jogar nessa mesa, mas no mês de maio, em virtude do grande número de alunos no pátio sem aula por conta da falta de professores, a inspetora da escola passou a fornecer esses materiais para os alunos jogarem mesmo não estando em aula.

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Ilustração 4 – O pátio interno (refeitório)

A sala de vídeo foi utilizada em várias ocasiões para as aulas, como nas aulas em que foram passados filmes de hip-hop, propagandas e regras sobre o futebol de campo e para as apresentações realizadas pelos próprios alunos sobre seus times de Futebol. O espaço consistia em uma sala adaptada para esta finalidade, pois num primeiro momento ela era usada como sala de realização dos ATPCs, para guardar os materiais curriculares que eram enviados pela Diretoria de Ensino até que fossem utilizados no bimestre e local onde o acervo de livros da biblioteca podia ser acessado.

Ilustração 5 – Sala de vídeo

Por cerca de uma semana seu uso foi proibido, sendo que os professores deveriam montar os equipamentos de áudio e vídeo nas salas de aula, caso precisassem usá-los. Mas depois de um tempo, após reunião entre professores e gestores, esse espaço voltou a ser

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disponibilizado, com uma organização que facilitou seu uso, inclusive com o agendamento dos horários.

A demonstração dos espaços em que as aulas ocorreram ao longo das observações visa a facilitar o entendimento das descrições que serão feitas na sequência do trabalho. Além disso, como bem aponta Dayrell (1996), a arquitetura escolar não é neutra.

A arquitetura e a ocupação do espaço físico não são neutras. Desde a forma da construção até a localização dos espaços, tudo é delimitado formalmente, segundo princípios racionais, que expressam uma expectativa de comportamento dos seus usuários. Nesse sentido, a arquitetura escolar interfere na forma da circulação das pessoas, na definição das funções para cada local (DAYRELL, 1996, p.12).

As condições dos espaços onde as aulas se deram influenciaram a realização das mesmas. A reclamação dos alunos sobre excesso de calor e luz do sol não ocorreria se as condições da quadra fossem melhores. A chuva foi determinante para o desenvolvimento das aulas, impedindo sua realização como previsto e forçando adaptações. O isolamento da quadra por meio de grades e a proibição do uso pelos alunos durante outros momentos que não fossem os da aula de Educação Física (o intervalo por exemplo) delimitava o “lugar” onde as aulas deveriam ocorrer.

A professora relatou em entrevista que por algumas vezes precisou encerrar a realização de alguma atividade por conta de uma bola que caiu no estacionamento, bateu na janela da cozinha etc. O uso dos pátios interno e externo também não ocorria sem certa “tensão”. De acordo com a professora, havia certo desconforto com o uso destes espaços durante as aulas, pois extrapolava a função definida para eles. Conforme suas palavras, havia certo entendimento de que as aulas deveriam se dar apenas na quadra e na sala de aula, pois esses eram os lugares “reservados” para elas. Além disso, os alunos em aula se misturavam com alunos que estavam sem aula, o que tornava difícil para a professora controlar a sua participação.

A ampliação e a limitação das possibilidades de realização das aulas por conta das condições físicas e de materiais é uma questão latente que precisa ser considerada. Há um limite para a capacidade e possibilidade de adaptações por parte dos professores e, por mais boa vontade que se tenha, a dimensão educativa acaba sendo restringida pela estrutura escolar (DAYRELL, 1996).

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Assim, tendo descrito e mostrado por meio de algumas fotos a escola onde o trabalho de campo ocorreu, passamos à apresentação de algumas informações sobre a professora Lolla.

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