CAPÍTULO 2 – O caminho seguido: um estudo de caso etnográfico
2.1 A escolha da escola e da professora
2.1.2 A professora Lolla
A professora Lolla é nascida na cidade de Rio Claro, tem atualmente 47 anos de idade, é casada e mãe de duas filhas. Lolla formou-se em Educação Física por uma universidade pública desta mesma cidade em 1987. Mesmo não tendo sido sua primeira opção (sua primeira opção era arquitetura), o curso de Educação Física lhe parecia bastante interessante pela compreensão que a mesma tinha do curso na época: “[...] eu gostava da Educação Física, ... não da parte da competição, mas gostava muito da área de mexer com o corpo, ... me dava bem com as atividades”.
Sempre morou nesta mesma cidade e sobre sua infância ela destaca as brincadeiras de rua na companhia de seus dois irmãos. Ela relata uma infância bastante feliz e com maior liberdade numa época sem “muita violência”. As brincadeiras de “escolinha” eram frequentes nessa época. Seus pais possuíam uma loja de roupas, sendo que seu pai passava longos períodos viajando, enquanto que sua mãe estava sempre trabalhando na loja. A mãe era bastante severa com as questões escolares e não a deixava faltar.
Da pré-escola até a 4ª série, a professora cursou numa mesma escola, da qual ela se lembra que gostava das brincadeiras da escola, embora as melhores lembranças sejam das brincadeiras de rua. Da 5ª a 8ª séries, a professora destaca nas aulas de Educação Física, que eram no período inverso das demais aulas, as situações de “exclusão”. Segundo ela, por não saber jogar nada específico (alguma modalidade esportiva), ou ela era dispensada das aulas nos dias em que havia treinos para alguma competição, ou fazia “ginástica” junto com outras colegas, como, por exemplo, a realização de voltas no quarteirão da escola.
[...] quando precisou de gente, porque tinha alguns doentes, assim, vamos supor, alguém tá doente, então chamava alguém para jogar, perguntava quem quer? Ah, então é você! Então você treinava uma semana, a pessoa que estava doente se recuperava e você ia pro banco de novo, porque você ia jogar? Claro que não, né, tem o oficial (professora Lolla).
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Assim, a professora Lolla fala com certa negatividade da Educação Física vivenciada nos quatro últimos anos Ensino Fundamental pelos momentos em que se sentia excluída das aulas. No Ensino Médio ela aponta que não houve muitas mudanças, apesar de não reconhecer tanta ênfase na participação em campeonatos, como no Ensino Fundamental. A divisão no Ensino Médio se dava a partir do gênero e não mais pela aptidão esportiva. Nos três anos deste nível escolar, ela se recorda de ter havido uma professora para as meninas e um professor para os meninos. Algumas aulas incluíam a prática de modalidades esportivas, mas na maior parte do tempo havia para as meninas a prática de ginásticas como a localizada e as corridas, sendo que para os meninos a prática se restringia ao futebol.
Sobre sua formação na graduação, a mesma guarda boas recordações das aulas e dos professores. Cita o nome de vários professores e avalia que o curso lhe ofereceu boa formação para a sua prática profissional. No ano seguinte à sua formatura, em 1988, ela iniciou sua carreira docente como professora eventual em algumas escolas da rede pública estadual de São Paulo, no próprio município de Rio Claro. Neste mesmo ano ela também ingressou num curso de pós-graduação lato sensu em Educação Física Escolar, em uma universidade pública de Campinas/SP. Curso este que ela veio a finalizar em 1989. Enquanto atuava como professora eventual, foi aprovada em um concurso público para se efetivar como professora de Educação Física na rede municipal de Rio Claro. Na época, chegou a assumir o cargo, mas logo em seguida se exonerou para poder inaugurar juntamente com sua irmã uma escola de Educação Infantil. Foi proprietária desta escola infantil por quase 18 anos, período no qual ela se dedicou integralmente às funções de proprietária e professora neste nível de ensino, o qual ela afirma gostar muito.
Em 2005 a professora realizou novo concurso público, agora promovido pela rede estadual paulista para o provimento de cargos de professores efetivos em todo o estado. Tendo sido aprovada, a professora Lolla fez sua escolha por uma escola estadual no município de Limeira/SP, cidade próxima de Rio Claro. Com seu ingresso na rede estadual no início de 2006, a professora Lolla optou por vender sua escola infantil, passando a se dedicar exclusivamente ao cargo assumido na rede estadual.
Então, no início do ano de 2006, já como professora efetiva da rede estadual paulista, a professora Lolla descobriu que estava doente e que precisava realizar uma cirurgia que a afastou das aulas por três meses. Voltou a trabalhar ainda naquele ano e lecionou pelos sete meses restantes. A respeito desse período ela relata muitas dúvidas sobre continuar ou não na
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rede pública paulista. Alguns aspectos pesavam muito para que ela pensasse em não se manter como professora da rede estadual paulista, como a quantidade de alunos por classe (na sua experiência com ensino infantil as salas tinham bem menos alunos), a falta de materiais e uma inadequada estrutura física para as aulas (as condições da quadra e o fato de ela não ter cobertura) e a indisciplina dos alunos (ela citou a ocorrência de agressões verbais por parte de alguns alunos que não queriam seguir as orientações dadas durante as aulas). Estes pontos, somados à ocorrência de sua doença, contribuíram para um profundo questionamento sobre sua continuação ou não no magistério paulista.
Já em 2007, a professora precisou realizar outra cirurgia e o período de afastamento para o tratamento se estendeu por praticamente todo aquele ano. Em 2008, já restabelecida de sua doença, a professora retornou às aulas desde o início do ano. Neste ano, ela pôde acompanhar desde o começo a entrega dos materiais curriculares da PC-SP à escola e as discussões e ações tomadas para a implementação da PC-SP em todo o Estado de São Paulo. Sobre esse período, a professora relatou durante a primeira entrevista uma conversa que teve com sua coordenadora acerca dos materiais curriculares naquele início de 2008: “[...] quando chegou o currículo, a minha coordenadora falou ‘Não era o que você queria?’, eu falei ‘exatamente, era isso que eu queria’ [...]”. Tal comentário da coordenadora, segundo a própria professora, se dava em virtude de sua cobrança junto à coordenação acerca de parâmetros ou orientações sobre como desenvolver as aulas de Educação Física nas diferentes séries para as quais lecionava. É preciso lembrar que a professora esteve afastada por um longo período do trabalho com as séries do Ensino Fundamental e Médio no período em que foi proprietária de escola infantil, o que, segundo ela mesma, lhe causava preocupação por não saber ao certo como “sistematizar” suas aulas quando ingressou na rede estadual em 2006.
Ainda nesta escola, em Limeira, a professora Lolla lecionou nos ano de 2009 e 2010. Em 2010, ela pôde ingressar em outro curso de pós-graduação lato sensu em Educação Física Escolar, agora oferecido pela própria SEESP para os professores da rede estadual, o curso REDEFOR38, que ela veio a terminar em dezembro de 2011. O que mais a motivou para se inscrever e concorrer a uma vaga nesse curso foi a dificuldade sentida na sua própria prática docente a partir da implementação da PCEF-SP em 2008. Embora tenha avaliado de maneira
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O REDEFOR – Rede São Paulo de Formação Docente é um programa criado pela SEESP em parceria com o governo estadual e universidades públicas paulistas para oferecer cursos gratuitos de pós-graduação aos docentes da rede estadual. Maiores informações podem ser conseguidas no site da SEESP: http://www.educacao.sp.gov.br/
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positiva a implementação do referido currículo, ela faz críticas ao fato de não terem sido oferecidas capacitações aos professores para subsidiar o trabalho com os materiais curriculares. Ela relata a dificuldade em realizar pesquisas sobre os temas propostos na proposta curricular que realmente a ajudassem nas aulas. Com o curso REDEFOR, a mesma afirmou ter conseguido dirimir várias das dúvidas que a acompanhavam nas aulas, principalmente a partir da troca de experiência com outros professores da rede estadual por meio de fóruns realizados no curso. Segundo ela, durante a realização do curso, os fóruns permitiam à professora, aos demais colegas e a tutora da turma, a discussão dos temas estudados e a troca de informações sobre as práticas desenvolvidas em situações reais de aula. Assim ela ficava sabendo de outros colegas que haviam passado por situações parecidas em suas práticas e que haviam encontrado soluções para os problemas enfrentados.
Também em 2010, a partir do meio do ano, ela iniciou uma segunda graduação, agora em Pedagogia, oferecida para docentes da educação básica na mesma instituição na qual ela se formou em Educação Física. A professora Lolla viu na realização do curso de Pedagogia a possibilidade de conhecer melhor a organização escolar, o trabalho de coordenação, a produção curricular etc. Apesar de gostar de dar aulas, ela tem o interesse de atuar de outras formas na escola. Para isso ela visa a realização de concursos para cargos administrativos, tendo como principal meta o cargo de supervisão.
Em 2011 removeu-se para a sua atual sede, no município de Rio Claro, a Escola Estadual Rio Claro, onde está atualmente em seu terceiro ano como docente. Ainda em 2011 ela precisou complementar sua carga em outra escola da rede estadual, atuando portanto naquele ano em duas escolas. Em 2012 ela atuou apenas na sua sede. E no presente ano (2013), ela optou, no início das aulas, por apenas 20 horas no período da manhã, lecionando para os 9º anos do Ensino Fundamental e os anos do Ensino Médio. A escolha por uma carga menor que nos outros anos deu-se pela expectativa de ser chamada para assumir como professora de Educação Física na rede municipal de Rio Claro. Embora tenha iniciado as aulas somente com a carga horária da rede estadual, logo em seguida ela foi convocada para assumir aulas na rede municipal para as séries iniciais do Ensino Fundamental. Na primeira conversa tida com a professora, na sexta-feira anterior ao início da pesquisa, ela me disse que estava estudando a possibilidade de “acumular” os dois cargos, de manhã pela rede estadual e no período da tarde pela rede municipal, o que veio a se concretizar durante a realização do estudo.
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Assim, na época em que as observações da pesquisa de campo ocorreram, a professora Lolla atuava como docente efetiva da rede estadual de São Paulo na Escola Estadual Rio Claro no período da manhã (há pouco mais de sete anos na rede estadual e em seu terceiro ano nesta mesma escola), docente recém contratada da rede municipal de Rio Claro no período da tarde e cursava o último semestre de Pedagogia (ela veio a terminar em agosto de 2013, logo após o término das observações).
Como já indicado, o objetivo tido com a apresentação destas informações sobre a professora Lolla emergem da necessidade em conhecermos seu ‘lugar’ sociológico/histórico (FONSECA, 1999). O conhecimento sobre a trajetória traçada pela professora Lolla, nos possibilita uma melhor compreensão de sua prática docente no cotidiano das suas aulas.
Feita esta apresentação inicial da escola em que a pesquisa se deu e da professora colaboradora com este estudo, daremos continuação à descrição do caminho percorrido na realização do trabalho de campo. As observações realizadas no trabalho de campo ocorreram entre 5 de março e 18 de junho de 2013, e foram complementadas pelas duas entrevistas ocorridas nos dias 25 e 26 de junho, na própria escola, logo após o final das observações.