2 METODOLOGIA DE PESQUISA 4
3.2 A ESCOLA CATÓLICA NO ATUAL CONTEXTO EDUCACIONAL 60
3.2.3 A Escola Católica e o Mercado Educacional 72
Com base na movimentação financeira, noticiada pela imprensa, vê-se que o setor privado de educação no Brasil virou um negócio muito lucrativo, o que evidencia que os principais beneficiados com a política de educação nos últimos governos, no Brasil, foram os grandes empresários da educação.
A revista Veja, de julho de 2010, noticiou a compra do Sistema Anglo pelo grupo Abril Educação. Essa transação comercial, segundo a reportagem, faria do grupo Abril Educação a segunda maior rede de sistemas de ensino do país, somando-se às mais de 500 escolas associadas ao Anglo as 350 que já faziam parte do Sistema de Ensino SER. O objetivo dessa empresa, de acordo com a Veja, é alcançar a liderança no mercado.
Em 06 de junho de 2011, o jornal Valor Econômico noticiava que o grupo Pearson PLC dobrou sua presença no Brasil com a compra do Sistema Educacional Brasileiro (SEB) por 533,6 milhões de dólares e considera a expansão no Brasil um modelo a ser seguido pela empresa em outros países.
A notícia mais recente, de 24 de abril de 2013, na Folha de São Paulo, é a compra da Anhanguera pelo grupo Kroton por cinco bilhões de reais. Com essa transação, se aprovada pelo CADE (Conselho de Defesa Econômica), esse grupo passará a ser líder mundial, com um milhão de alunos, valor de mercado em 13 milhões de reais, o dobro da chinesa New Oriental que passou a vice-líder no mercado.
Esse novo grupo educacional passaria a ter 289 mil alunos na educação básica, 485 mil alunos no ensino superior (presencial), 445 mil alunos no ensino superior (a distância) e 70 mil em cursos livres (a distância). A educação básica corresponde a 4% de seu faturamento. Na entrevista à repórter Marianna Aragão que assina a matéria, o presidente da Anhanguera afirmou seu posicionamento na busca de alunos da classe C e D, contando com os investimentos do FIES e "querendo apoiar o governo no objetivo de levar a penetração do ensino superior no Brasil de 14,6% para 33% da população até 2020".
Na mesma reportagem, um ranking dos maiores grupos educacionais do mundo é apresentado, no Brasil, a Estácio e Abril já figuravam entre as maiores e agora o grupo Kroton passou a ocupar a liderança. Estados Unidos, China e Brasil são os gigantes da educação em termos de valores de mercado. (ARAGÃO, M. Caderno Mercado, Folha de São Paulo, 23/04/2013).
O cenário competitivo desafiou as escolas particulares, em especial as escolas católicas, a reverem seu sistema de gestão porque, “se antes a receita era praticamente garantida, dada a pequena quantidade de concorrentes, o aumento da oferta abriu mais alternativas ao cliente” (TREVISAN e TREVISAN, p. 189). Trevisan e Trevisan (2010) constatam que essa grande transformação no cenário educacional significou uma grande ameaça às instituições tradicionais e uma grande oportunidade de diversificação de investimentos e de crescimento e citam, como exemplo, o caso de instituições de ensino que “souberam organizar-se para esse novo contexto” (p. 190), referindo-se às escolas que abriram seu capital para a entrada de novos sócios. Essa tendência de abrir o capital a novos sócios se realiza mediante abertura da constituição societária da empresa ou para poucos e conhecidos sócios, fundos de participação, pessoas físicas, empresas ou ainda abertura do capital da empresa na bolsa de valores. Quatro grupos educacionais, ao abrirem seu capital na bolsa de valores, em 2007, conseguiram solidez financeira
para serem os responsáveis pela maior parte das aquisições no mercado educacional (TREVISAN e TREVISAN, 2010).
Em relação especificamente às instituições confessionais, Steinberg e Marcatti (2010) lembram que “é preciso ter capital para poder fazer o bem”. Os autores, em serviço de consultoria a mantenedoras de ensino confessional, testemunham que “vê-las revitalizadas, firmes na continuidade de suas atividades e no controle de seu destino é extremamente gratificante para quem se dedica a esse trabalho” (STEINBERG E MARCATTI, 2010, p.271). Afirmam, ainda, que “o setor não terá como fugir a uma nova configuração que já se estabelece globalmente” (p.271). Os autores não veem outro caminho para a sobrevivência das escolas confessionais senão o de se assumirem como uma empresa e, assim, buscarem apoio, com ferramentas do mercado, para profissionalizarem a gestão da escola, aproximando-a do que denominam “governança coorporativa”.
A exposição do cenário do mercado da educação torna mais evidente o descompasso da escola católica nesse cenário. Enquanto os empresários da educação percebem oportunidades de expansão, apesar da competitividade, o que parece não assustá-los, os dirigentes de escolas católicas ainda estão retraídos e confusos sem saber se permanecem ou não nesse ramo e como enfrentarão os desafios. Desse modo, a escola católica vem se "reinventando" e buscando meios de manter o mesmo padrão de qualidade, de forma economicamente sustentável e que seja coerente com o carisma fundacional e com o que a Igreja Católica pede e espera dessas obras apostólicas.
O mercado da educação coloca as escolas católicas em uma situação bastante delicada e, às vezes, gera ou acirra o conflito entre a dimensão pedagógica e filosófica com a dimensão financeiro-administrativa na instituição. Com a finalidade de realinhar o modelo de gestão das escolas muito se tem investido em consultores de planejamento estratégico, avaliação institucional e utilização de ferramentas empresariais de gestão, especialmente o modelo de gestão coorporativa, para tornar possível o sonho, o carisma, o ideal de evangelizar por meio da educação. Porém, essa iniciativa por parte dos responsáveis pela administração das escolas católicas, em grande parte os superiores de ordens religiosas, provinciais e conselhos provinciais, não são, a princípio, bem recebidos ou compreendidos pelos que trabalham nas escolas e também universidades. Ocorre, nesse processo, um conflito
quase óbvio. A incompatibilidade entre uma administração utilitarista e uma organização humanista cristã. A linguagem e recursos teóricos utilizados pelos especialistas e consultores de gestão trazem a influência da teoria utilitarista. o que muito destoa dos referenciais teóricos e ideológicos predominantemente humanistas que fundamentam as práticas pedagógicas e os ideais de educação cristã. Esse é um conflito previsível, mas não sem possibilidade de solução. Quanto maior a clareza em torno do carisma fundacional, o que se quer com a escola, quais eram as razões que levaram à sua fundação e quais os motivos pelos quais vale a pena se investir em sua continuidade, maior será a lucidez em utilizar as ferramentas de gestão tanto quanto elas possam ajudar, como meios eficazes para a obtenção dos fins últimos a que as escolas católicas são chamadas a existir.
O reconhecimento das escolas católicas na Constituição Federal de 1988 (art. 22, XXIV, e LDB, art. 9o, VII) posiciona-as em pé de igualdade com todas as outras escolas privadas. As escolas privadas com fins lucrativos expandem seus negócios. As escolas católicas, que também são privadas mas, sem fins lucrativos e filantrópicas, vêm buscando meios de equilibrar o compromisso com o carisma e a qualidade da educação com uma gestão financeiramente sustentável.
A figura do gestor e o modelo de gestão, nesse cenário, parecem ser estratégicos. Não basta ser o padre, a irmã ou o irmão, é preciso entender de administração; não basta ser um bom administrador se não entender o carisma da congregação ou a cultura específica da escola.
3.3 DADOS QUANTITATIVOS SOBRE A ATUAL PRESENÇA DAS ESCOLAS