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1 INTRODUÇÃO

2.4 A ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES DE NATAL

Em 3 de janeiro de 1910, entrou em funcionamento a Escola de Aprendizes Artífices de Natal no prédio do antigo Hospital da Caridade Juvino Barreto, situado à Rua Presidente Passos, Cidade Alta, local onde atualmente funciona a Casa do Estudante de Natal.

Como proposta inicial, às Escolas de Aprendizes Artífices caberia a oferta de oficinas de trabalho manual ou mecânico e dois cursos noturnos obrigatórios: Primário, para os discentes que não soubessem ler e escrever e contar, e ainda a disciplina de Desenho, como fundamentos para o exercício satisfatório do ofício (MEDEIROS, 2011). As oficinas eram: sapataria, alfaiataria, marcenaria, serralharia e funilaria.

Conforme o decreto de criação supracitado, só poderiam ser admitidos na Escola de Aprendizes Artífices adolescentes que não sofressem de moléstias infecto contagiosas nem tivessem defeitos que os impossibilitassem o aprendizado do ofício.

A instituição funcionava em regime de semi-internato e de acordo com o que relata Medeiros (2011) os pequenos aprendizes com idade entre 12 e 16 anos eram envolvidos numa rotina diária de atividades de quatro a seis horas, entre as quais se incluía aula de primeiras letras, desenho, aritmética e produção de artefatos nas oficinas da Escola.

Uma das orientações do ato de criação era a de que os cursos oferecidos deveriam ser os mais convenientes e necessários, tendo sempre como referência as indústrias locais. Vale salientar que nesse período o Rio Grande do Norte era predominantemente agrícola, tendo como foco a produção de algodão. Assim,

Ao que parece, o cenário econômico evidencia que não há correlação entre uma proposta desenvolvimentista e a criação da Escola, nem tampouco, qualquer relação entre o fenômeno da Revolução Industrial e os cursos oferecidos em regime de oficinas por profissionais desses ofícios, recrutados como fator trabalho na comunidade local (MEIRELES, 2010, p. 32).

No entanto, a Escola se apresentava naquele momento histórico como uma alternativa aos filhos dos trabalhadores: era gratuita e o habilitaria em um ofício, do qual poderia sobreviver. Não obstante as vantagens oferecidas pela instituição recém-criada, inicialmente, o número de matrículas era insignificante e constatava-se muita evasão.

O prédio em que funcionava a Escola não era próprio, mas uma cessão do governo do Estado. Conforme Medeiros (2011) entre as férias escolares de 1913 e o início do ano letivo de 1914 a Escola de Aprendizes Artífices se instalara no antigo Natal Clube e logo após foi transferida para um novo prédio situado à Avenida Rio Branco, 743, no centro da capital, espaço onde atualmente funciona o Campus Natal Cidade Alta.

No ano de 1914 houve uma diminuição do fluxo imigratório e a substituição do modelo de economia baseada na importação em função da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Reclamava-se então a cooperação de uma mão de obra em potencial da Instituição.

A direção da Escola de Aprendizes Artífices de Natal, em manifestação aos alunos, lembra a importância desse estabelecimento também para a defesa do país, conforme manifestação do então diretor Silvino Neto.

Com a presença dos corpos administrativo e docente dei, no dia 10 de novembro uma ligeira explicação aos alumnos sobre a situação do Brazil em face do conflicto europeu demonstrando a importância da contribuição que poderão dar, si preciso, os próprios aprendizes artífices na defesa da pátria, com o seu trabalho, que será valioso, na confecção de artefactos, como fardamento, calçados e vários outros utensílios que a efectivação do estado de guerra reclamará com abundância (ESCOLA DE APRENDIZES ARTÍFICES DO RIO GRANDE DO NORTE, 1917).

Medeiros (2011) ressalta que para que os discentes estivessem aptos a essa missão seria necessário às Escolas de Aprendizes Artífices “uniformizar procedimentos, sistematizar programas de ensino, unificar metodologia pedagógica industrializar as oficinas e aumentar- lhes a produtividade.” Essas mudanças tiveram que esperar.

Em 1917, em virtude de um atraso no repasse da verba destinada à execução de obras de reparação no prédio, as aulas só iniciaram em 20 de julho. Em consequência desse atraso, apenas 55 (cinquenta e cinco) dos 107 (cento e sete) alunos matriculados naquele ano, permaneceram na Instituição.

Em 1918, o então Presidente da República, Venceslau Brás, aprovou um novo regulamento para as Escolas de Aprendizes Artífices através do Decreto nº 13.064 de 12 de junho de 1918. Nesse novo regulamento, ressaltou a manutenção do regime de externato e o aprendizado das oficinas em 4 anos (BRASIL, 1918).

Numa tentativa de melhor instrumentar as Escolas de Aprendizes Artífices, o Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio criou em 1920 a Comissão de Remodelação do Ensino Técnico Profissional.

Os maiores obstáculos a essa remodelação consistiam na inexistência de professores e mestres qualificados, na falta de aparelhamento das oficinas e na inadequação dos prédios onde funcionavam as escolas. Nesse processo de remodelação constatou-se o baixo índice de conclusão dos cursos pelos alunos da Escola em Natal. Conforme aponta o relatório a primeira causa era a situação de pobreza em que viviam as famílias dos mesmos. Muitos alunos assim que aprendiam um mínimo necessário ao ofício, abandonavam a Escola para trabalhar e ajudar no sustento da casa.

Como essa remodelação não fora uma ideia que partira do interior das escolas, mas das instâncias superiores, alguns diretores se opuseram às mudanças. A solução encontrada para esse impasse foi a nomeação de inspetores, advindos da Escola de Engenharia de Porto Alegre ou do Instituto Parobé3. Esses se revezavam na direção das instituições de educação profissional do país.

3 Uma das escolas técnicas mais antigas do país, destinada inicialmente à formação de meninos de famílias pobres

Nesse ínterim a Escola de Aprendizes Artífices de Natal recebeu obras traduzidas de diversas disciplinas. A partir de então a educação industrial passou a fundamentar-se pelo conjunto de ideias apresentados no Relatório Luderitz 4 (NAGLE, 1974).

Os princípios do relatório obedeciam à racionalidade técnica, nada mais era do que o Taylorismo na escola. Segundo o relatório era necessário

Cuidar do preparo das elites técnicas, porque a capacidade produtiva do operário é atribuída à sua cultura técnica [...] a educação do proletariado nacional é um meio de defesa da administração superior do país [...] o que interessa, indubitavelmente ao indivíduo, como elemento social componente de uma nacionalidade, é poder produzir, não lhe bastando os conhecimentos das primeiras letras (NAGLE, 1974, p.166).

Esse relatório proporcionou uma modificação no currículo da Escola de Aprendizes Artífices de Natal transformando as oficinas em seções de ofícios com suas respectivas especializações.

Segundo Cunha (2000) as ideias de Luderitz inspiraram a Consolidação dos Dispositivos Concernentes às Escolas de Aprendizes Artífices, cujo documento trazia como principais mudanças a elevação de quatro para seis anos na duração dos cursos e o desdobramento de cada oficina em seções de ofícios correlatos.

As obras de remodelação da sede da Escola de Aprendizes Artífices de Natal foram interrompidas algumas vezes por falta de verbas. Em 1930, por ocasião da instalação do governo provisório de Getúlio Vargas, a comissão de remodelação foi extinta e substituída pela Inspetoria do Ensino Profissional Técnico, órgão esse vinculado ao recém-criado Ministério da Educação e Saúde Pública.

Esse ministério constatou os mesmos problemas que anteriormente haviam sido percebidos pela comissão de remodelação: não havia professores qualificados, faltava aparelhamento e os prédios eram inadequados. Em relatório assim se posicionou o ministro da Educação e Saúde Pública [...] Hoje, que cada cidadão vale o que produz, não é possível que a educação industrial continue a marchar a passos tardos [...].

Nos anos 1930 o aluno aprendiz da Escola de Aprendizes Artífices deveria ali cursar a 3ª e 4ª séries e ainda cumprir uma jornada entre 18 e 24 horas/aula nas oficinas. Essa rotina foi

4 João Lüderitz era engenheiro chefe do Instituto Parobé. Este foi enviado à Europa e Estados Unidos com a incumbência de visitar instituições semelhantes e dar ao Instituto Parobé a organização almejada. Dessas viagens surgiram o relatório, que então servia de norte para as demais escolas de aprendizes artífices.

suspensa entre os dias 28 e 31 de outubro de 1935. Eclodira em Natal a Intentona Comunista e o prédio da Instituição foi transformado em presídio de guerra para mais ou menos 50 rebelados.