• Nenhum resultado encontrado

2. Uma Lenta e Inacabada Compreensão

2.2 A Escola de Frankfurt e a Crítica da Modernidade

Ainda no período entre guerras, Felix Weil criou o Instituto de Pesquisas Sociais na esperança de um dia entregá-lo a um Estado Soviético Alemão triunfante, o que nunca ocorreu. O instituto, dirigido a partir de 1930 por Max Horkheimer e, posteriormente, por seu principal colaborador Theodor Adorno, efetuou ao longo do século XX importantes contribuições sobre a crítica ao positivismo, a psicanálise, o marxismo, a questão judaica e a análise do

57 Terceiro Reich no marco da modernidade. No entanto talvez sua mais importante contribuição para o estudo dos crimes contra a humanidade tenha sido sua critica da civilização e da racionalidade moderna. A partir de uma crítica radical da sociedade inspirada em Freud e Marx, impactados pela ascensão do nazismo na Alemanha, os membros do Instituto devem se transferir para os Estados Unidos onde operam sua transformação, de estudos baseados numa perspectiva sobre a revolução alemã frustrada passa à da “civilização frustrada”, ou a crítica racional da racionalidade como Adorno a definiu nos anos sessenta. 55 A partir dos estudos realizados durante a guerra Adorno passa a interpretar o desenvolvimento da humanidade no quadro da civilização ocidental e descreve como a consciência mítica, proveniente de uma natureza onipotente vai se enfraquecendo com a gradual compreensão sobre as leis de funcionamento desta natureza, o que dá origem ao iluminismo, a grande ruptura da racionalidade com a consciência mítica que se opera no mundo ocidental e que determina o curso da modernidade, por meio da expansão do capitalismo moderno.

A crítica ao desenvolvimento civilizacional surge na obra “A Dialética do

Iluminismo”,na qual se questionam porque “a humanidade mergulha num novo tipo de barbárie em vez de chegar a um estado autenticamente humano”. Esta

linha de pensamento também aparece na obra “Mínima Moralia” onde Adorno reflete sobre a racionalidade da civilização ocidental que engole o próprio sujeito, evocando a nulidade do sujeito demonstrada pelo campo de concentração.56

Logo após a noite dos cristais, Horkheimer e Adorno tentam conseguir apoio a um projeto sobre o antissemitismo que, no entanto, só se concretizou nos anos quarenta durante a guerra. O presidente Roosevelt se negou a abrandar a política de quotas e permitir a imigração de judeus da Alemanha, já evidentemente perseguidos. No entanto a “solução final” realizada de forma acelerada após a invasão da União Soviética não permaneceu secreta e o extermínio em massa nos territórios ocupados foi veiculado por meio da

55

WIGGERSHAUS, Rolf, A Escola de Frankfurt, História, Desenvolvimento Teórico, Significação Política; 2ª Edição, Difel, 2006, pp 357

56

ADORNO, Theodor; Minima Morália, Reflections from a Damaged Life, Ed. Verso, London 2005, pp 16

58 imprensa mundial, ainda que muitos ainda manifestassem sua incredulidade, sobre as crueldades indizíveis que ocorriam detrás das linhas alemãs no leste. O New York Times chegou a noticiar em 28 de outubro de 1941 que a profecia de Hitler de janeiro de 1939 sobre a eliminação completa dos judeus da vida da Europa estava se tornando realidade. A política de imigração dos Estados Unidos não mudou em nada.57 O projeto sobre o antissemitismo ganhou força e em 1944 foi apresentado o resultado as pesquisas de Adorno sobre o antissemitismo e a propaganda fascista. O volume “Anti-Semitism. A Social

Disease” foi editado em 1946, que foi seguido pelo mais detalhado “Freudian Theory and the Pattern of Facist Propaganda” em 1951. As pesquisas

revelaram que o antissemitismo era mais profundo do que se pensava e, tinha implicações para a democracia como uma negação implícita.

Com o final da guerra o instituto organizou uma série de conferências sobre o totalitarismo e a crise da cultura europeia, que rapidamente se expandiu para englobar o estudo sobre o significado do terror nazista e a crise da civilização na Europa, a cultura de massas e a massificação cultural operada pelo nazismo. Os estudos sobre o antissemitismo foram publicados em cinco volumes em visão ampliada do problema como “Estudies on

Prejudice”, englobando as manifestações do preconceito como “doença” social

e definindo os traços da “personalidade autoritária” indicada por suas pesquisas. Na volta à Alemanha nos anos cinquenta o Instituto se envolve na publicação dos Estudos sobre Freud “Eros and Civilization” de Herbert Marcuse, onde ele aponta os elementos destrutivos da sociedade moderna, enquanto que Adorno aprofunda seu pessimismo com relação à esta mesma sociedade por seu caráter violento e dominador por meio da técnica e da racionalidade instrumental. Em sua teoria sobre a “dialética negativa” se propõe a libertar o homem da razão alienante do positivismo.

Jürgen Habermas tenta superar o pessimismo de seus antecessores, profundamente marcados pela desilusão com a modernidade no marco da experiência nazista e do Holocausto, no qual o extermínio industrial, racional e metódico operado em Auschwitz constituiu um marco inescapável. Com sua

57

59 teoria da razão comunicativa Habermas tenta superar a racionalidade iluminista aprisionada pela lógica instrumental e resgatar o conteúdo de emancipação do projeto moderno, aproximando-se da comunicação e da ética, como fundamentos de uma racionalidade não autoritária. Habermas se aproxima da ciência política e do direito ao aplicar sua teoria da razão comunicativa a temas concretos como universalismo, cidadania e multiculturalismo, assim como os direitos humanos, democracia e estado de direito. O tema da identidade e da alteridade, assim como, de forma pioneira, o da “intervenção humanitária”, são abordados sob este prisma apontando para a superação do estado nacional. 58 Habermas enfatiza o aspecto humanista da obra crítica de Marx e defende uma concepção Kantiana da racionalidade. A escola foi à primeira em abordar a contradição decorrente do imenso potencial destrutivo proporcionado pela racionalidade moderna e a moderna tecnologia. Posteriormente com Habermas busca-se uma reconciliação da racionalidade moderna com a ética e o humanismo. O legado das contribuições da Escola de Frankfurt para o estudo dos crimes contra a humanidade e suas respostas permanece amplamente inexplorado.