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3. O Estado e o Nacionalismo

3.3 O Papel do Poder

Leo Kuper criticou vigorosamente a ausência do extermínio de grupos políticos ou sociais na definição de genocídio da Convenção de 1948 definindo- o como um crime de governos;

“The liquidation of political groups is a speciality of governments, though not their exclusive prerogative. The line between these forms of annihilation is quite arbitrary, more particularly since political motives usually enter into the genocides against ethnical, racial or religious groups”122

.

121

BRONWEN, Manby. Struggles for Citizenship in Africa, Zed Books, London, 2009

122

94 Efetivamente como podemos observar no caso de Ruanda que o genocídio pode ser considerado, sobretudo instrumental uma vez que o objetivo principal era a manutenção do poder nas mãos da Elite Hutu, no contexto de um regime autoritário e racista. O fato do extermínio físico da oposição política Hutu corrobora esta ideia. Definiam-se em termos de oposição aqueles que se opunham ao próprio genocídio como solução política, ou seja, do mesmo grupo dos agentes do genocídio, classificando-os de “traidores” e que, precedeu os massacres da minoria Tutsi,. Em apenas 36 horas começando pelo dia 6 de abril de 1994 o massacre da oposição política começou tendo-se prolongado dia e noite onde ao redor de 1500 pessoas listadas especialmente, como políticos, diplomatas, ativistas de direitos humanos e outras personalidades influentes foram assassinados pela guarda presidencial.

O exemplo da Alemanha também é ilustrativo, a repressão começa com os opositores e outros indesejáveis, socialistas, sindicalistas, homossexuais, etc. Este fator nos leva a considerar que é freqüente a construção violenta de um consenso que levará a um padrão de violência superior. Kuper afirma que o genocídio é sempre político, mas não chega a afirmar que o extermínio da oposição é uma pré-condição ao genocídio do grupo alvo como tal. Em Ruanda a tomada do poder político num golpe de estado, era parte da estratégia dos extremistas para desencadear os massacres contra os Tutsis.

Alguns pesquisadores continuando o debate lançado por Hannah Arendt nos anos cinqüenta se debruçam sobre o problema da gênese moderna do genocídio, ou seja, as anormalidades e contradições do moderno estado nacional e sua relação com a violência massiva, como o fazem Omer Bartov, Marie Fleming e Eric Weitz123, que se enfoca na modernidade do genocídio seguindo a linha de Yehuda Bauer e Zygmund Bauman.

Isabel Hull de forma original aborda os aspectos relacionados à cultura militar moderna e o aparecimento das políticas de “soluções finais” para o

123

WEITZ, Eric D. A Century of Genocide, Utopias of Race and Nation; Princeton University Press, 2003

95 conceito de “populações problema”124

. Robert Gelatelly analisa também uma variante deste fenômeno no conceito de “engenharia populacional” como uma ideologia potencialmente genocida no marco da modernidade dos regimes revolucionários125, lembrando que o apoio político é um elemento essencial destas políticas.

Confrontando estas formulações com os fatos em Ruanda, por exemplo, aparece que toda a dimensão do poder político da identidade de grupo, e o papel essencial da ideologia que toma a forma de incitação à violência em momentos cruciais de confrontação pelo poder do estado. Com efeito, tanto Gelatelly como Fleming, assim como Helen Fein e outros admitem que o genocídio assim como outros crimes contra a humnidade são crimes bastante complexos demandando uma grande mobilização de recursos humanos e econômicos, tendo que superar desafios práticos, sociais e psicológicos antes que se torne viável numa determinada situação histórica de conflito. Eles tendem a admitir que são fenômenos políticos e, usualmente são acompanhados de uma ideologia de raça e poder, apontando para uma utopia de homogeneidade étnica ou política do Estado-nação.

Não há estudos amplamente conhecidos sobre os aspectos econômicos do Genocídio ou dos crimes contra a humanidade. Não se pesquisou o custo dos recursos envolvidos numa limpeza étnica ou num extermínio. Esta questão pode parecer cínica, mas é importante para determinar que organizações estatais ou para-estatais são capazes de cometer estes crimes graves, ou se o estrangulamento ou boicote econômico pode ter um efeito preventivo. O discurso da Al-Qaeda, por exemplo, é um discurso extremamente violento, mas, nunca teve a capacidade de transcender seus atentados terroristas, que ainda que destrutivos não alcançassem o caráter sistemático e amplo dos crimes contra a humanidade, a exceção dos atentados contra as torres gêmeas. Por outro lado, quando envolvendo um estado, o processo se torna mais complexo e evolve outras realidades e, em geral, uma capacidade de mobilização de recursos muito maior. Em Ruanda, por exemplo, entre 1990 e

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HULL, Isabel V.; Military Culture and the Production of Final Solutions in the Colonies: An example of Wilhelminian Germany. In Gelaterly & Kierman, editors; The Specter of Genocide; Mass Murder in Historical Perspective, Cambridge University Press, 2003.

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96 1994 as importações aumentaram de 23 para 38 bilhões de francos ruandeses e a dívida externa saltou de US$ 452 milhões em 1986, para $ 736 m em 1990 atingindo a marca de 1 bilhão por volta de 1993 devido, quase que exclusivamente, à gastos militares. O Orçamento do Ministério da Defesa aumentou de 3,155 para 8,885 Francos Ruandeses. Um aumento de 181%126. O esforço de guerra também atuou como catalisador do extermínio.

O genocídio não é possível para qualquer pessoa, a qualquer tempo é, de fato um crime muito difícil de ser praticado. Esta discussão foi abordada em uma das câmaras julgadores no Tribunal Penal para a Ex-Iugoslávia onde discutiram sobre a hipótese do “genocida maníaco e solitário” no caso Jelesic e terminou por concluir que “the existence of a plan or policy is not a legal

ingredient of the crime”127. Com certeza, na formalidade da dogmática jurídica pode ser assim, no entanto, as ciências sociais libertas da formalidade legal tendem a considerá-lo um ingrediente sine que non da realidade, relacionado com a possibilidade material de cometer um genocídio ou um crime contra a humanidade destas proporções inevitavelmente elevadas.

Por outro lado no caso Stakic também no Tribunal para Iugoslávia o problema dos meios para cometer o genocidio foi discutido. A câmara de apelações retirou a denúncia por genocídio na localidade Bósnia de Prijedor, apesar do grande número de vítimas, porque considerou que o meio para exterminar a todos, ou uma parte substancial do grupo, existia naquele momento, e o extermínio em massa não ocorreu: “Had the aim been to kill all

Muslins, the structures were in place for this to be accomplished128”. No

entanto os juízes não estudaram os meandros políticos do momento de conflito, e a grau de consenso que havia entre os sérvios, comandantes e combatentes assim como população local. Estas questões permanecem sem resposta.

Grande parte destes estudos conclui que o genocídio acontece em situações de enfrentamento político e militar pelo poder num contexto de uma

126

Ibid.

127

SCHABAS, Willian A. An Introduction to the International Criminal Court, Second Edition, Cambridge University Press, 2005, pg 39

128

Prosecutor vs Milomir Stakic, Judment in the Appeals Chamber, paragraph 41. www.un.org/icty.

97 política racializada ou marcada pela clivagem religiosa ou identitária. Mais de cem mil pessoas participaram como agentes cúmplices ou facilitadores durante o genocídio de Ruanda, e dois milhões abandonaram o país voluntariamente ou coagidos, seguindo os líderes hutu, no que parece sugerir a mobilização de massas de um movimento político. Quem poderia fornecer armas, treinamento e organizar uma empresa desta monta com todas estas pessoas? O aspecto da participação de um aparato de estado pode não ser fundamental (atores não estatais, são gradualmente mais poderosos em conflitos recentes), no entanto, tem sido essencialmente instrumentais, devido à magnitude do crime e das tarefas que envolvem sua execução.

O monopólio da violência pelo estado, na formulação de Weber, a licença para cumprir a lei, pela força se necessário, para proteger seus sujeitos é deliberadamente subvertido, e a lei se torna um mandato para matar, e o estado tem o poder de absolver o mal praticado.129 Este processo foi chamado por Scott Straus de “The Order of Genocide” em sua análise sobre Ruanda onde aponta três fatores causais; identidade étnica, ideologia e doutrinação (incitação) por meio de meios de comunicação de massas. Strauss desafia as interpretações anteriores e aponta a intimidação e a violência intraétnica (entre hutus) como o fator determinante da massiva participação. A obra de Straus reforça uma tendência dos estudiosos do genocídio de Ruanda ao afirmar que a incitação é um fator fundamental como mecanismo que ajuda a forjar o necessário consenso genocida que esta na raiz da possibilidade real de cometer um crime destas dimensões. Não está claro e a experiência anterior demonstra que o genocídio ainda é uma empresa de estado ou sancionada pelo estado, uma vez que, sem a mobilização de recursos do estado, ele provavelmente não é materialmente viável.130 A mobilização de imensos recursos, materiais, humanos e técnicos (aspectos objetivos) para vencer as tarefas logísticas do crime, assim como o ambiente político favorável, por meio do consenso social e apoio ideológico em torno de um poder constituído sobre

129

HATZFIELD, Jean, Uma Temporada de Facões, Companhia das Letras, 2003, copyright Editions du Seuil, Une Saison de Machetes, Récits, 2003.

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STRAUS, Scott. The Order of Genocide, Race, Power and War in Rwanda, Cornell University Press, Ithaca, 2008

98 o extremismo racial (aspecto subjetivo) aparece como fatores sine qua non dificilmente alcançáveis fora do controle do poder do estado num contexto de crise violenta, guerra ou revolução.

O Consenso violento, por meio do convencimento, coerção, intimidação, violência ou extermínio, de qualquer que se oponha a “solução final” internamente aparece como jogando um papel fundamental na concretização da possibilidade do extermínio ou expulsão em massa como um objetivo político dos agentes. A incitação a cometer crimes contra a humanidade ou genocídio emerge como um instrumento preparatório prévio ao extermínio sintetizando os aspectos ideológicos, na expressão subjetiva da construção sócio-histórica da solução final. Obtido o consenso a incitação passa a incluir elementos de coesão organizacional para a empresa exterminadora, como foi visto em Ruanda. Esta coesão foi alcançada a custa de propaganda massiva e muita violência intragrupal, neste caso entre os hutus, ou seja, para exterminar o grupo alvo foi necessário exterminar parte do próprio grupo. Assim também ocorreu na Alemanha onde anos de repressão e extermínio interno, assim como o programa de eutanásia exterminou milhares de alemães no processo que levou ao extermínio de outros grupos, principalmente judeus, ciganos e eslavos.

Voltando a Ruanda, a incitação foi fundamental para garantir apoio popular e homogeneidade política para a elite e seu projeto de institucionalizar a prática do extermínio por meio da organização de corpos de execução. O partido CDR foi o corpo político do genocídio para que o MNRD não se envolvesse diretamente na empresa de sangue e pudesse continuar no poder após o genocídio. A milícia Interahamwe atuou como executora para que o exército pudesse negar sua participação na suposta “guerra tribal”. Este aspecto faz sentido, no fato da coerção intratribal, uma vez que a interahamwe tinha a política deliberada de tornar pessoas passivas, neutras ou neutralizadas em ativos participantes. A execução pública de “traidores” (oponentes do genocídio) a propaganda de massas e a coerção tiveram esta função de viabilizar a efetividade logística e coesão sócioideológica para o extermínio. Esta tomou a forma de um “pacto de sangue” entre todos os hutus como um

99 tributo à salvação messiânica da nação por meio da violência extrema na defesa do estado racial.

4. Os Dilemas Teóricos do Pós Guerra Fria; Os Conflitos Étno-