CAPÍTULO 3: Metodologia da pesquisa
3.2. A escolha da escola
3.2.2. A Escola do Cabassango II
A escola do 1º Ciclo de Ensino Secundário de Cabassango II BENCON é categorizada como do nível médio alto, requalificada para atender o programa da reforma educativa. O bairro em que ela se localiza está em grande crescimento em termos de popularidade pelo fato do mesmo ser habitado predominantemente por pessoas das classes média e alta que anteriormente viviam na zona urbana da cidade.
A escola possui uma infraestrutura composta por quatro pavilhões: A, B, C e D, num total de 24 salas de aulas, tendo 22 a funcionar, uma improvisada como sala de professores e outra como sala de informática. Tem três gabinetes e uma secretaria (Figura 4). Neste momento, a escola funciona em três períodos: matinal, vespertino e noturno. Tem 24 funcionários, dos quais um Diretor geral, um subdiretor administrativo, um subdiretor pedagógico, dois datilógrafos um guarda e dois auxiliares de limpeza, além dos 224 professores.
Figura 4: Pavilhão B, o central do espaço escolar, a casota ao fundo é direção e secretaria da Escola.
Como mostram algumas imagens a seguir, a escola tem vedação, iluminação elétrica nas salas e em alguns cantos dos corredores. A água canalizada não chega aos banheiros (casa de banho) e não tem uma cantina. Algumas salas de aulas se encontram sem portas e com quadros negros em condições precárias, o que dificulta a escrita do professor e, consequentemente, há dificuldade de compreensão do conteúdo escrito para os alunos que se sentam por trás das salas. Tem banheiros (um para professores e outro para alunos - masculino e feminino), mas não em seu pleno funcionamento por falta de sanidade, empurrando muitas das vezes os alunos do período noturno a urinarem ao ar livre nos contornos da vedação da escola, que é sem iluminação. Não tem campo para a prática do desporto, principalmente para a prática de Educação Física, uma disciplina que faz parte do programa escolar. Também a escola não possui uma biblioteca nem laboratório para as suas aulas práticas (BARATA, 2009, p.19).
Figura 5: Pavilhão C da escola, primeiro dia de pausa pedagógica. Vendedoras largam as bancadas junto do quintal da escola.
A área em que a escola se localiza é bastante movimentada, pelo fato de fazer vizinhança com uma unidade da Polícia de Viação e Trânsito, o que origina muita movimentação de viaturas e um aglomerado de gente na parte externa entre a escola e o edifício da polícia. Esse movimento é originado pelos elementos em conflito com a lei de Viação e Trânsito, que aguardam pela resolução dos seus problemas, os moradores, os alunos de outros turnos, os vendedores ambulantes (que abandonam suas barracas – Figura 5) e pequeno mercado dos populares na parte frontal da escola. Todas essas pessoas, de formas diferentes, convivem com os alunos e provocam uma agitação na hora do recreio/intervalo prolongado pelos alunos. Pequenos bares, quiosques e um mini mercado dos populares ao redor do morro da escola também contribuem para essa agitação da escola (ver figura 9). Na hora do recreio/intervalo registra-se também a presença de vários jovens que fazem parte da comunidade e outros provenientes de outros bairros vizinhos, que frequentam os bares existentes ao redor da escola. Esses jovens e adolescentes entram em contato com os alunos na hora do recreio. De igual modo, registra-se a presença de outra classe de comerciantes composta pelas crianças, adolescentes e vendedores ambulantes e as senhoras vendedoras ao longo do morro da escola, mantendo conversas e comercializando com alunos que se encontram no interior do pátio escolar e no espaço externo, ou melhor fora do recinto escolar (Figura 6). Nesta altura, os Professores reúnem-se numa sala buscando repousar e merendar.
Figura 6: Parte externa da escola, movimento de populares, alunos e crianças na compra de produtos no mercado junto ao quintal da Escola.
A escola é apetrechada com o quadro de Professores que, na sua maioria, é formado no Instituto Superior de Ciências de Educação (ISCED Cabinda). Ela tem um vínculo forte com o ISCED pelo fato de ter acolhido um bom número de Estudantes estagiários do Ensino Superior em Ciências de Educação.
A escola carece de espaços de recreio e lazer. As aulas de educação Física, na Segunda Reforma, passaram a ser dadas no turno oposto. Na falta de campo ou salão desportivo na escola, a disciplina de educação física tem sido administrada em espaços das escolas vizinhas que têm as mínimas condições para o efeito.
Como nos referimos acima, o recinto escolar é composto por quatro pavilhões (A, B, C e D). O Pavilhão A é onde se localiza a sala dos professores. Este tem um espaço aberto em relação aos outros pavilhões, onde foi posta uma tabela de basquetebol que se encontra degradada e em uma área em que o chão não tem pavimento, tal como vemos na imagem a seguir (Figura 7).
Figura 7: Espaço projetado para aulas de educação física, com uma tabela de basquetebol.
Para compreender melhor a situação da escola, procuramos trazer aqui uma fala do Diretor, Professor Francisco José Puati. Como seu depoimento nos pareceu bastante esclarecedor e, em alguns pontos, traz novidades quanto ao funcionamento da escola, optamos por trabalhar a entrevista em seus diversos aspectos. A fala do diretor nos servirá para analise dos dados no próximo capítulo. Para isso, levantamos quatro pontos que nos parecem elucidativos: (a) a percepção sobre o recreio escolar, os sentidos atribuídos pelo diretor a essa prática; (b) a merenda escolar e a relação dos alunos com os vendedores externos à escola; (c) o processo de aprendizagem dos alunos; (d) o planejamento das aulas pelos professores.
Sendo essa uma escola modelo, há um grande esforço por parte da direção e dos professores para que o processo pedagógico tenha sucesso. Mesmo assim, observamos pela fala do diretor, certo desânimo porque, em sua percepção, os alunos não respondem ao esforço que o corpo docente tem feito para realizar um ensino de qualidade. O que estaria acontecendo com os estudantes que não é visível ao diretor? Que elementos estariam faltando para se completar o quebra-cabeça do fracasso escolar?
Para responder essas questões voltamos novamente com fala da pesquisadora Canhici (2014). Segundo ela, existem diversos fatores que estão na base dessa problemática e que podem ser resumidos da seguinte maneira:
a) insuficiência de material didático, bibliotecas e laboratórios;
b) inadequação de metodologias usadas no ensino das diversas disciplinas; c) falta de formação dos professores em áreas específicas, principalmente da Reforma Educativa em sistema de monodocência;
d) a não capacitação sistemática do corpo docente;
e) superlotação das salas de aula, como fruto da reforma obrigatória. (CANHICI, 2014, p. 127-128)
O contexto histórico-cultural da formação do professor e sua seleção, as condições econômicas das famílias, as condições físicas e a organização das escolas em Angola especificamente em Cabinda, são fatores a levar em consideração. Um dos estudos que serviu de base para a investigação da pesquisadora foi a monografia de Barata (2009) relativa à Escola do I Ciclo de Ensino Secundário de Cabassango II, de onde fazem parte os sujeitos da nossa pesquisa.