UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Chegamos aos estudos das teorias que circulam na América Latina. Depois que conheceu as correntes de pensamento norte-americanas e as europeias, agora vai saber que também temos uma linha de estudos.
As ideias que permeiam nossas pesquisas são o resultado de estudos das teorias desenvolvidas em diferentes locais. A cultura é um ponto importante das investigações de autores latino-americanos. É importante que relacione as formas de abordagem das teorias e dos conceitos que estudou até agora. Vamos caminhar mais um pouco.
Vamos apresentar os estudos latino-americanos de comunicação, com o objetivo de mostrar a luta desses países frente às pesquisas que privilegiavam os Estados Unidos e a Europa e utilização dos meios de comunicação.
2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
Os estudos latino-americanos da comunicação surgiram com o objetivo de analisar o fenômeno de dependência dos países da América Latina em relação às principais potências do mundo. E, principalmente, como essa superioridade em relação a esses países se refletia nos meios de comunicação de massa.
FIGURA 13 - AMÉRICA LATINA
FONTE: <http://expanmais.com.br/2017/07/12/expansao-na-america-latina/>. Acesso em: 21 nov. 2019.
É importante entender o cenário da América Latina, com suas características próprias: o multiculturalismo, a grande variedade cultural que temos nesses países; os momentos políticos que resultaram em movimentos de luta do povo;
as constantes crises econômicas; a modernização, a globalização frente ao subdesenvolvimento. Essas questões levam os pesquisadores ao encontro de dois pontos: a busca por uma identidade própria e o sentimento de luta e resistência dos povos latinos.
As transformações políticas ocorridas neste período em alguns países, como no Chile e no Peru, exerceram grande influência nos pesquisadores da comunicação apontando para a possibilidade de a pesquisa deixar de ser uma atividade abstrata para se transformar em instrumento eficaz no processo de mudança social. Vivendo no Chile neste período, o pesquisador belga Armando Mattelart, criticou a utilização do modelo norte-americano de comunicação entre a população rural, fazendo uma interpretação estrutural-marxista sobre os meios. Exilado também no Chile, o educador brasileiro Paulo Freire contestou o modelo proposto pela difusão de inovações e anunciou novos princípios para o desenvolvimento da comunicação alternativa (DALLA COSTA; SIQUEIRA; MACHADO, 2001, p. 5).
A ideia de resistência presente nos países latino-americanos, como consequência da sua luta contra a colonização, a dependência política e econômica e a soberania dos países desenvolvidos leva à construção de uma identidade própria. E, nessas bases, as teorias de comunicação se desenvolvem e buscam seu fortalecimento frente aos estudos tradicionais.
Autores latino-americanos como Eliséo Verón, Armand Mattelart, Luís Beltrão e José Marques de Melo, num primeiro momento, e autores como Nestor Garcia Canclini, Jesus Martin Barbeiro e Guilherme Orozco, além de textos complementares de Paulo Freire, Teixeira Coelho que embora não estejam diretamente ligados à pesquisa em comunicação, deram a ela importantes contribuições (DALLA COSTA;
SIQUEIRA; MACHADO, 2001, p. 9-10).
FIGURA 14 - REPRESENTANTES DA ESCOLA LATINO-AMERICANA DE COMUNICAÇÃO
FONTE: <https://pt.slideshare.net/jennyffermesquita/estudos-latino-americanos-em-comunicao1>. Acesso em: 24 nov. 2019.
As pesquisas ganharam força quando entraram nas universidades. E para que esses estudos tivessem início e o propósito de difundir as investigações, assistimos à criação de núcleos de aprendizagem e de divulgação científica.
O Ciespal (Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para América Latina) teve início em 1959, em Quito, no Equador. O objetivo era oferecer cursos para aperfeiçoamento na área de comunicação.
FIGURA 15 - CIESPAL
FONTE: <http://nateoriaoenapratica.blogspot.com/2015/11/educacao-ciespal.html>. Acesso em:
21 nov. 2019.
Acreditamos ser possível verificar a atuação do CIESPAL sob diversos prismas. Quer sejam de compreensão da pluralidade, da interdisciplinaridade, da transdisciplinaridade, da epistemologia dos contextos singulares e, ao mesmo tempo, tão amplos das áreas de interesses latino-americanos. Mas não podemos reduzir toda essa experiência a uma herança unívoca, calcada apenas pela irreverência das pesquisas emergentes, inspiradas das demandas sociais de uma época tão plural quanto conturbada (GOBBI, 2007, p. 20).
O Ciespal chegava para modificar os rumos dos estudos da comunicação e propor novos modelos, objetos e metodologias próprias adequadas às neces-sidades dos países com características tão peculiares. Ensinavam jornalismo e propaganda para que os profissionais soubessem como lecionar os conteúdos teóricos e práticos aos alunos nos recém-criados cursos de graduação nas facul-dades brasileiras.
Halliday descreve o ambiente, as aulas, os conteúdos ensinados e as atividades realizadas: havia presença de professores de países como Estados Unidos, França e Índia; no curso se defendia que poderia haver desenvolvimento e integração na América Latina por meio do uso dos Meios de Comunicação Coletiva e dos agentes de Comunicação; viam a “investigação científica de informação” se baseando, entre várias ideias, em prever resultados [...] e em efetuar planos de ação dos meios de Comunicação [...] (ARAGÃO, 2017, p. 349).
As pesquisas latino-americanas passaram a retratar a realidade do povo desse continente. E as ideias de representação da cultura e do comportamento das pessoas diante dos meios de comunicação passam a valer em nossos estudos.
Marques de Melo (2005) garante que embora sofrendo pela escassez de recursos econômicos e pela instabilidade política, os pesquisadores latino-americanos assumiram uma postura que ultrapassou a fronteira do nacional, desenvolvendo mecanismos capazes de consolidar a escola latino-americana de pesquisa em comunicação, com a criação de entidades como a Alaic, em 1978, preocupadas em resgatar o conhecimento comunicacional, criando bases documentais em diversos países da América Latina (GOBBI, 2007, p. 23).
O aporte teórico mais significativo tendo como ponto central a questão da cultura na América Latina está na obra do espanhol naturalizado colombiano, Jesús Martín-Barbero, autor que forneceu os elementos para pensar a recepção a partir das mediações. Para Martín-Barbero, a comunicação se desenvolve a partir de cadeias de relação ou de relacionamento, nas quais as ações dos produtores, produtos e receptores, propiciam deslocamentos de significados.
Como nos Estudos Culturais europeus, no trabalho deste autor há um deslocamento da questão da produção e do conteúdo para aspectos relacionados à recepção, que passa a ser entendida como o espaço no qual ocorre uma ressignificação dos sentidos sociais. As mediações funcionam como elementos de apoio para integração da cultura aos processos comunicativos da vida cotidiana, dando à própria cultura uma dinâmica comunicativa. As mediações dinamizam a cultura, recriando sentidos funcionalizados pela comunicação e assim sucessivamente, em uma permanente retroalimentação. Desse ponto de vista impossível dissociar comunicação e cultura, uma vez que comunicação é um processo simultâneo e codependente das formações culturais. Assim, seus elementos básicos (emissor, receptor, canal e mensagem) só podem ser compreendidos a partir dos contextos culturais nos quais estão inseridos (TEMER; TONDATO, 2014, p. 3).
FONTE: <http://nomespesquisacomunicacao.com.br/verbetes/jesus-martin-barbero/>.
Acesso em: 24 nov. 2019.
FIGURA 16 - JESÚS MARTÍN-BARBERO
DICAS