CAPÍTULO III. METODOLOGIA E ANÁLISE DOS DADOS
1. A METODOLOGIA
1.1 A escola
Fundada por uma sociedade de imigrantes alemães em 1878, a Escola trabalha com um currículo brasileiro (Currículo A) e outro alemão (Currículo B), com vistas a uma formação plurilingüística e pluricultural, que conta com aulas em português, alemão, inglês e espanhol. No currículo brasileiro, o aprendizado de alemão tem iníciona 3ª série do ensino fundamental, o de inglês, na 5ª série, e o de espanhol, na 8ª série. Com quatro unidades de ensino, instaladas em espaços com áreas verdes e situadas em duas cidades do Estado de São Paulo, essa estrutura educacional, que é composta de mais ou menos 10.500 alunos e 550 professores, é amparada por uma Fundação Educacional que tem como principal propósito aproximar e manter em inter- relação as culturas brasileira e alemã.
Em seus informativos de divulgação na Internet, são apresentadas indicações sobre a estrutura de ensino, como as seguintes:
a) o Colégio mantém uma infra-estrutura que busca garantir um processo educativo de desenvolvimento integral do aluno, da Educação Infantil à 3ª série do Ensino Médio;
b) os referenciais, as diretrizes e os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), publicados a partir da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), têm sido objeto de estudo criterioso, como parte da preocupação em oferecer não só uma grade curricular diferenciada, mas também experiências de aprendizagem significativa e contextualizada;
c) o projeto pedagógico do Colégio inclui uma rede de recursos materiais e humanos, de apoio educacional e pedagógico e de reflexão e reestruturação permanentes;
d) no aspecto disciplinar, o Colégio adota uma diretriz pela qual se guiam as normas e os limites: o respeito. Educa-se para o respeito, nos níveis individual e coletivo, para os
princípios e para os valores que incluem a ética, a pluralidade cultural, étnica, religiosa e social, a liberdade, a autonomia e a integridade de caráter.
O currículo brasileiro, por ela instituído, atende às exigências do Ministério de Educação e Cultura brasileiro e o currículo alemão às exigências tanto do MEC quanto do órgão competente para a supervisão da educação na Alemanha. Ou seja, a instituição do Currículo Bilíngüe (português-alemão), por eles denominado de Curriculum B, é reconhecida pelos governos brasileiro e alemão, com concessão do diploma de “Abitur”33, que habilita o aluno a
freqüentar universidades na Alemanha e em vários outros países. Todas as conclusões de cursos são reconhecidas pelas respectivas autoridades educacionais de ambos os países.
O Curriculum B exige desempenho diferenciado de seus alunos, que têm de cumprir dois currículos reciprocamente adaptados. Esse fato determina também uma carga horária semanal mais elevada que a usual tanto no Brasil quanto na Alemanha. Para exemplificar, os alunos têm aula de História, Biologia ou Matemática em português, com professores brasileiros, que seguem o programa brasileiro, e em alemão, com professores alemães, enviados pelo governo alemão, que seguem o programa alemão.
Com o objetivo explícito de formar futuras lideranças, cujo papel social fundamenta- se no senso do dever cumprido e na responsabilidade por si e pelos demais, esses mesmos informativos atribuem elevada importância tanto à sensibilização para os aspectos sociais, como para um relacionamento humano orientado por normas éticas e valores morais. Essas peças informativas mostram ainda que após a conclusão da 3a série do Ensino Médio, aproximadamente
33 Os alunos do Curriculum B precisam, depois de cursar dois anos letivos complementares em alemão, após o
término do terceiro ano do Ensino Médio, fazer uma prova especial de conhecimentos gerais e específicos, em alemão, denominada "Abitur". A nota alcançada nesta prova, somada a algumas médias dos últimos dois anos do ensino complementar, determinará as possibilidades de ingresso nas diversas áreas do Ensino Superior daquelas Universidades. Para se pleitear uma vaga em uma Faculdade de Medicina na Alemanha, por exemplo, é necessário que a média acima explicada seja das mais altas, beirando a nota 10 (no sistema alemão, que atribui notas de 1 a 6, sendo 1 a nota máxima, o aluno deverá ter nota 1).
um terço dos alunos inicia o ensino que leva ao “Abitur”, e quase a totalidade dos demais presta exames vestibulares para poder iniciar um estudo superior no Brasil.
Já a partir da 3a série do ensino fundamental, os alunos do currículo A dessa escola
têm cinco aulas semanais de alemão como primeira língua estrangeira. Os grupos formados para a aprendizagem do alemão são menores do que as classes normais ― em média 15 alunos por classe. Na 6a série, acontece uma divisão em grupos de níveis diferentes: L1 (os melhores da
série), L2 (intermediários) e N (desempenho regular/baixo)34. Os grupos L1 têm uma aula a mais
por semana do que os outros grupos. No final da 8a série, todos os alunos fazem a prova "ZDP1"35.
No Ensino Médio, só os alunos dos grupos L1, do segundo ano, fazem a prova do "DSD1"36. Os
alunos dos grupos L1, do terceiro ano, fazem a prova do "DSD2"37. Os alunos dos grupos L2 e N
participam da prova "ZDP2"38 no final do terceiro ano letivo. É necessário frisar que os grupos L1,
L2 e N não são fixos, podendo haver mudanças de nível no final de cada ano letivo.
A divisão em níveis atribuída aos grupos, e acima registrada, segue a tendência dos tratamentos inatistas genericamente detectados na educação alemã. Assim, a macro-divisão da educação na Alemanha prevê a possibilidade de os alunos serem encaminhados alternativamente para uma formação técnica elementar, para uma formação técnica mais específica e aprimorada ou para os estudos universitários, dependendo do desempenho nas avaliações que ele obtenha ao longo da sua educação formal. Na esteira desses raciocínios é que os alunos são divididos em níveis para a aprendizagem do alemão como língua estrangeira nas escolas alemãs além-mar: pelo desempenho, de acordo com a sua aptidão.
34 L1 e L2: Leistungsgruppe 1 e 2 → grupos avançados de aprendizagem; N: Normalgruppe → grupos de
desempenho regular.
35 Zentrale Deutschprüfung 1: prova de conhecimentos básicos em alemão.
36 Deutsches Sprachdiplom 1: Diploma de língua alemã, reconhecido pelo governo alemão como a prova de maior
importância feita nas escolas alemãs do exterior.
37 Deutsches Sprachdiplom 2: Diploma de língua alemã de nível mais sofisticado que o anterior. 38 Zentrale Deutschprüfung 2: prova de conhecimentos intermediários em alemão.
É necessário frisar que, no início a instalação do Curriculum B, na escola alvo desta pesquisa, se destinou ao atendimento de alunos filhos dos funcionários alemães que vinham trabalhar em empresas alemãs na região durante um certo período de tempo, para depois retornarem ao seu país natal, dando continuidade aos estudos que aqui empreenderam. Com o passar do tempo, a procura desse tipo específico de clientela caiu. É que, em função de transformações nas economias brasileira e mundial, ficou muito oneroso para as multinacionais manterem tais técnicos especialistas em suas empresas no exterior e elas preferiam, assim, preparar mão de obra local para exercer as funções especializadas, a um menor custo e com ótima qualidade e desempenho. Tal determinação afetou, naturalmente, a procura dos alemães nativos pelo Curriculum B, que passou, então, a atender aos descendentes brasileiros de alemães que vivem na região, aos filhos de brasileiros que moraram na Alemanha, a trabalho ou a estudo, e também aos agora mais raros alemães filhos de funcionários de empresas alemães em período transitório no Brasil.