CAPÍTULO II. REVISÃO DE LITERATURA
5. Interação (comunicação) intercultural
Embora prefiramos chamar de interação intercultural o contato face-a-face, estabelecido entre sujeitos de culturas variadas em sala de aula, necessário se faz, para que possamos abordá-lo mais pontualmente, que nos reportemos a trabalhos que buscam mapeá-lo em ângulos mais diversos, como o fazem Louise Damen (1987) e Volker Hinnenkamp (1994), a primeira nos Estados Unidos e o segundo na Alemanha, e que levam em consideração a maior abrangência do fenômeno, designando-o pelo termo genérico de "comunicação intercultural".
Na busca de uma circunscrição caracterizadora da comunicação intercultural, Hinnenkamp questiona se ela se refere a todas as situações de contato em que pessoas de culturas diferentes participam ou se é necessário descobrir variações interativas que se baseiam no contato intercultural31. Antes dele, já em 1987, Damen lançava perguntas com o mesmo objetivo
caracterizador, questionando se a comunicação intercultural seria a comunicação entre duas pessoas ou grupos que não compartilham modelos culturais parecidos ou seriam atos de comunicação, experimentados por indivíduos identificados com grupos que exibem variações intergrupais em modelos culturais e sociais compartilhados32. Depois de lançar hipóteses que
buscam delinear cada uma das situações apresentadas, ambos os pesquisadores chegam à conclusão de que não é fácil delimitar o campo da comunicação intercultural, porque ele exige, para o seu reconhecimento específico, tratamentos multidisciplinares. Por exemplo, se
31 Variações interativas que, segundo ele, são produzidas pelos contatos na língua ⎯ tanto em situações específicas
quanto em contatos prolongados ⎯ e que são vivenciadas, por exemplo, em trocas de códigos ou na fala estrangeira, como acontece na sala de aula de língua estrangeira.
quiséssemos simplificar a sua conceituação, estabelecendo que a comunicação intercultural é a que acontece face-a-face entre membros de culturas diferentes, ainda assim, teríamos que problematizar qual seria a fronteira entre as culturas ou então definir onde termina uma cultura e começa a outra, função que se revela árdua.
Uma forma de delinear a fronteira entre culturas, reflete Hinnenkamp (1994:52), poderia ser buscada, por exemplo, no senso comum, que intui que ela acontece quando nos deparamos com a alteridade, com o estranho, com a diferença, com o "não é um de nós". Quando se fala em outra cultura, olha-se para parâmetros triviais distintivos, como língua, aparência e comportamento. Não interessa se essas são diferenças normativas ou cognitivas. Cultura, nesse sentido, é ligada à estranheza, à diferença e ao fato de não se pertencer ao grupo. Desse universo abrangente, entretanto, Hinnenkamp estabelece como certa a ponderação de que a cultura não pode ser tratada como um todo. Para ele, ela não necessita de consenso nacional ou social; não é dada às pessoas e nem é um sistema de valores internacionais. Em verdade, ela tem muitas facetas e formas de expressão desfocadas e não demarcadas. O que precisa estar claro, contudo, alerta o autor, para a designação do que seja interação ou comunicação intercultural, é que língua e cultura são indissociáveis tanto na comunicação quanto na interação, sendo o termo “comunicação” aplicado aqui de forma genérica, e o termo “interação”, reservado àquelas situações específicas, como as vivenciadas na sala de aula de língua estrangeira.
Problematizando a aquisição/aprendizagem de cultura fora dos moldes normativos, como reivindica Hinnenkamp, Damen propõe que a aprendizagem de cultura é um processo natural no qual o ser humano internaliza o conhecimento necessário para desempenhar o seu papel num determinado grupo social. Segundo Damen (1987:140), ela pode ocorrer em contextos nativos, e recebe aí o nome de enculturação, ou em contextos não-nativos, e será chamada de aculturação. A enculturação constrói um senso de identidade cultural ou social, uma rede de
valores e de crenças, formas padronizadas de viver e, numa maior medida, etnocentrismo, ou crença no poder e na correção dos modelos nativos. A aculturação, por sua vez, envolve o processo de mudança de ponto de vista da primeira cultura, aprendendo novas formas de resolver velhos problemas.
O processo de enculturação se dá durante a infância e é moldado pela família, pelas instituições nativas e pelas experiências individuais. Isso porque, mesmo que os indivíduos cresçam numa mesma cultura, não terão as mesmas experiências pessoais, sendo a identidade cultural adquirida em parte pelas experiências privadas e em parte pelas experiências compartilhadas. Já o processo de aculturação envolve a lida com novas formas de crenças e de padrões de um grupo cultural não familiar. De uma forma simplificada, o termo se refere ao ajustamento individual ao novo e ao estranho.
Numa perspectiva ampliadora da visão da comunicação intercultural, Janzen (2005) postula, em uma vertente que se afasta da dos dois autores acima citados, que a visão etnocêntrica e estereotipada da cultura-alvo pode gerar posições distorcidas, parciais e mesmo assimétricas nos sujeitos, podendo neles desencadear um movimento de rejeição a esta. Buscando caracterizar o que designa como hibridismo cultural, o autor entende que a cultura resulta, essencialmente, de um movimento intra- e intercultural de estranhamento e de aproximação entre o estável e o dinâmico e o conhecido e o estranho, o que redesenha e hibridiza a formação da identidade cultural dos indivíduos. Segundo ele, se na visão tradicional de cultura os indivíduos procuram criar fronteiras delimitadoras com o estranho/ estrangeiro, uma perspectiva multicultural e pluridiscursiva concebe o estranhamento e o distanciamento cultural como inerentes ao movimento intercultural. Nesse diapasão, muitos elementos culturais vão sendo re-elaborados a partir de novas construções de sentido e as marcas culturais vão sendo constantemente relativizadas, reconfigurando identidades culturais. Baseando-se na obra de Bakhtin, intitulada
Estética da Criação Verbal, Janzen tem como central para as suas reflexões o postulado de que
“formulamos a uma cultura alheia novas perguntas que ela mesma não se formulava; buscamos
nela uma resposta a pergunta nossas, e a cultura alheia nos responde, relevando-nos seus aspectos novos, suas profundidades novas de sentido” (Bakhtin,2000:368). Dessa forma, o que
mais profundamente caracteriza o hibridismo cultural é a alteridade, como condição de identidade. Daí a importância da exotopia cultural (o enxergar de fora) na introdução de elementos novos na construção de sentido da própria cultura.
Nos dizeres de Bakhtin (id. ibiden), “na cultura, a exotopia é o instrumento mais
poderoso da compreensão”. Para ele, a cultura alheia só se revela em sua completude e em sua
profundidade aos olhos de outra cultura (e não se entrega em toda a sua plenitude, pois virão outras culturas que verão e compreenderão ainda mais). Um sentido revela-se em sua profundidade ao encontrar e tocar outro sentido, um sentido alheio. Estabelece-se entre eles como que um diálogo que supera o caráter fechado e unívoco, inerente ao sentido e à cultura considerada isoladamente.
Depois de ter apresentado, neste Capítulo II, diferentes facetas de como se processa a interação, em que abordamos o estado da arte dos estudos em interação (depois de fazer uma revisão sobre os primeiros estudos efetuados na área), a relação entre contexto e interação (nas perspectivas de Hymes (1974) e Kramsch (1996)), bem como a interação dialógica em sala de aula e postulados atinentes à interação/ comunicação intercultural, recorreremos, no Capítulo III, ao “corpus” da presente pesquisa, em busca de situações que respaldem os raciocínios aqui desenvolvidos. Cumprida essa etapa, centraremos foco, então, nas características dessa interação específica de sala de aula em situação de DFU, levantadas pela análise efetivada, em busca de sintetizações e de conclusões que definam aspectos apropriados para uma interação significativa em DFU.