CAPÍTULO VI – A ESCOLHA DO MIGRANTE BRASILEIRO PELO
6.2 A Escolha do migrante pelo Pentecostalismo
A religiosidade do migrante internacional segue uma lógica própria que pode ser diferente da lógica que o mesmo seguiria se estivesse em seu país de origem, embora, como afirma Droogers (2006, p. 161), ―Ao migrarem, as pessoas trazem sua religião com elas. O processo de migração por si só vem com as dificuldades que podem reforçar a necessidade do migrante por um lar religioso‖111. No caso dos migrantes indocumentados brasileiros, há uma
mudança substancial em muitos casos de escolha e vivência religiosa.
Igrejas migrantes, pentecostais ou não, oferecem este lar (religioso). Elas estão direcionadas a situação nova e frequentemente precária do indivíduo, provendo não só apoio espiritual mas também ajuda material. Elas servem como pontos de referência moral na nova situação com todas as suas opções e oportunidades. Para migrantes ilegais, elas podem oferecer (...) estratégias alternativas, tais como casar sem o consentimento do estado mas com a bênção da igreja. Além do mais, elas frequentemente trazem alguma forma de continuidade com a situação anterior a migração, apesar das rupturas e mudanças que fazem parte da experiência do migrante. Elas oferecem uma nova família estendida, uma forma de parentesco artificial de novos irmãos e irmãs. O fato de elas cumprirem esta função só explica em parte o seu sucesso. Em outras palavras: eles não só ajudam os migrantes a encontrar o seu caminho através do novo jogo de poder com suas novas regras, como é jogado no novo país. Eles também oferecem significado à nova realidade. - Uma mensagem específica, que caracteriza uma igreja particular como única. Tal igreja é mais que uma solucionadora instantânea de problemas, até por que as pessoas permanecem nela depois que o problema é resolvido. Elas representam uma
feelings. Moreover, the idea of reversed mission may nourish this attitude. If the established churches fail to criticize the negative sides of secularized, modernized society, the Christians from abroad are ready to do so. The supposedly weak party thereby presents itself as the stronger party. If elements such as hospitality, community life and church participation are added to the scale, the migrant churches have more to offer than the mainline churches – and perhaps also more than the ‗autochthonous‘ Pentecostal churches, even though the latter will share in some aspects of the inversion mentioned, especially the experience of the Spirit.‖ (DROOGERS, 2006, p. 163).
111 In migrating, people bring their religion with them. The migration process itself comes with hardships that
visão de mundo. Cada igreja apesar de cumprir a mesma função terá seu próprio
nicho no mercado religioso(DROOGERS, 2006, p. 161). 112
As afirmações de Droogers estão em sintonia fina com a situação dos brasileiros indocumentados com quem tive contato. A ênfase das pregações no tema da prosperidade e da condição de indocumentado, especialmente a constante lembrança dos problemas comuns aos brasileiros (moradia, trabalho, saudades) são possivelmente um dos pontos altos da atuação da igreja e ao mesmo tempo um importante elemento de atração de fiéis. Por outro lado, deve-se ter cuidado ao pensar que a igreja oferece uma ―nova família estendida‖. De acordo com as muitas conversas e testemunhos e com as poucas entrevistas, os informantes davam importância enorme às relações familiares que tinham no Brasil e que cultivavam à distância. Além disso, a ideia de isolamento e dificuldade de se criar e manter amizades na Holanda com os compatriotas foi praticamente unânime. Todos relataram terem pouquíssimos ou nenhum amigo realmente próximo. Aliás, mesmo no Brasil muitos me contaram não ter muitas amizades formadas na igreja (IURD e IIGD), com exceção dos mais jovens. Além das ideias mencionadas por Droogers, as igrejas funcionam também como uma espécie de ―pedacinho do Brasil‖, onde eles podem assistir cultos com pregações, testemunhos músicas em português além da interação com outros brasileiros na saída do culto.
A origem social dos migrantes brasileiros é um dos fatores importantes para entender a escolha religiosa deles, como Freston (2008, p. 189) observa:
O que é necessário olhar? Evidentemente, a composição da população diaspórica pode afetar a maneira em que o campo religioso é transplantado. A composição social em termos de classe, estrutura etária, gênero e cor – todos esses fatores poderão alterar o grau em que o campo religioso do país de origem é transplantado ou não para a diáspora. Uma tarefa, portanto, é comparar o campo religioso da diáspora brasileira com o campo religioso no Brasil. Em segundo lugar, é possível comparar o campo religioso diaspórico entre os vários países de destino (por exemplo, entre os EUA, a Inglaterra, o Japão e o Paraguai), buscando explicar as diferenças observadas. Outra questão é como a religião afeta os fluxos migratórios. Será que determinadas religiões incentivam a migração porque oferecem novas
112 Migrant churches, whether Pentecostal or not, offer such a home. They address the person‘s new and often
precarious situation, providing not only spiritual but also material help. They serve as moral points of reference in the new situation with all its options and opportunities. To illegal migrants, they may offer an alternative, accepting those who are refused by the officials of the host country and even offering alternative strategies, such as to marry without the state‘s consent but with the blessing of church. In addition, they often bring some form of continuity with the pre migration setting, despite the ruptures and changes that are part of the migrant‘s experience. They offer a new extended family, a form of artificial kinship of new brothers and sisters. The fact that they serve this function only partly explains their success. In other words: they not only help the migrant in finding his or her way through the new power game with its new rules, as played out in the new country. They also offer meaning to the new reality. – a specific message that characterizes a particular church as unique. Such a church is more than an instant problem-solver, not least because people stay on after the problem is solved. They represent a world-view. Each church despite serving the same function will therefore have its own niche in the religious market.
perspectivas, constróem redes de recrutamento, reduzem os custos econômicos e psicológicos da emigração e influenciam a escolha do destino? E, por outro lado, qual é o efeito da migração em si sobre a religiosidade? Boa parte da literatura clássica sugeria que a condição migratória diminuía a religiosidade, sobretudo quando o país de destino era mais secularizado do que o país de origem. O migrante se perde no anonimato e na anomia e acaba secularizando-se. Ou, por outro lado, será que a condição migratória acentua a religiosidade como forma de defesa cultural? Ou apenas faz com que a religiosidade mude de expressão? Ou não muda em nada a religiosidade do migrante?
A primeira questão levantada por Freston na citação anterior parece fazer bastante sentido no contexto da imigração brasileira em Amsterdã. Afinal, é visível a adesão de brasileiros às igrejas pentecostais em uma proporção maior113 a que é no Brasil. Além disso, percebe-se também certo reavivamento individual da prática religiosa, uma vez que várias pessoas me contaram que antes de ir para a Holanda eram católicos não praticantes e que começaram a frequentar igrejas evangélicas pouco tempo depois levados por amigos ou familiares. Enfim, há fortes indícios de que não há apenas uma simples transferência do campo religioso brasileiro, há uma transformação. Eu acompanhei de perto cultos de igrejas pentecostais, principalmente da IURD em Amsterdã e ficou evidente naquele contexto a preferência dos brasileiros por igrejas evangélicas, semelhante à situação que Freston (2008, p. 192) encontrou nos EUA.
Por outro lado, há várias razões para supor uma porcentagem mais alta de protestantes do que no Brasil. Primeiro, porque as igrejas evangélicas são geralmente percebidas como de grande utilidade na superação das dificuldades da vida imigrante (como afirma, por exemplo, Levitt 2002b para o caso dos latinos). Esta fama positiva vale tanto para o desafio psicológico de criar e manter uma atitude positiva e uma ética de iniciativa e laboriosidade, essencial para o sucesso e até para a sobrevivência, bem como para a questão prática de estabelecer redes de apoio na busca de moradia e trabalho. Como um dos poucos contextos em que é possível criar redes amplas de (pelo menos relativa) confiança, as igrejas facilitam a vida dos imigrantes em uma série de maneiras práticas.
Assim como no contexto mencionado anteriormente, na Holanda as igrejas também exercem a função de formar e ampliar redes de apoio para os migrantes. Outra característica que fica evidente é a abundante oferta de igrejas evangélicas, principalmente pentecostais, aos brasileiros com cultos em língua portuguesa.
O trabalho de campo revelou que a IURD na Holanda apresenta diferenças significativas em relação às suas estratégias e pregações no Brasil, possivelmente consequência de uma série de fatores tais como: o contexto onde a igreja está implantada e principalmente a
113 Não há estatísticas oficiais, estas informações foram obtidas a partir da minha experiência e vivência com os
membresia. Basicamente uma membresia multicultural formada por muitos migrantes das ex- colônias e brasileiros indocumentados vindos de diversas partes do Brasil, conforme mencionado no capítulo anterior.