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A ESCOLHA DO TERRENO: UM LUGAR ESPEC IA L

Fica o Poder Executivo municipal autorizado a doar uma área de terreno, de preferência na Praça do Expedicionário Paranaense, - conforme o previsto e assegurado na Constituição Estadual do Paraná, e que será um imperecível monumento a honrar a memória dos paranaenses que se sacrificaram pela dignidade do homem e pela grandeza da Pátria. [art.2° da Lei municipal n 23,22/03/ 1948],

(Diário Oficial)

Concluída a fase de escolha de projeto para a construção da Casa do Expedicionário, foi aberta a licitação para as obras propriamente ditas. A empresa vencedora, Construtora Copara, ficou aguardando a definição do local em que o tão desejado “monumento” fosse edificado.

A doação do terreno para a edificação da Casa do Expedicionário já havia sido

conseguida desde março de 1948, por intermédio de lei sancionada pelo prefeito de

Curitiba, Ney Leprevost. A mesma lei, em seu artigo Io, concedeu o título de cidadão

honorário da cidade de Curitiba ao marechal Mascarenhas de Morais, além de incluir

um dispositivo que determinava a colocação de uma placa na Casa do Expedicionário com os seguintes dizeres: “Homenagem do povo curitibano ao Expedicionário do Paraná, que combateu sob ordens do Marechal Mascarenhas de M oraes”. Atrelar a inauguração da “Casa Monumento” a Mascarenhas de Moraes significou também a divulgação nacional dos feitos dos febianos paranaenses.

Segundo o sr. Iwersen, a escolha do terreno teria acontecido quando ele e um companheiro febiano, o sr. ítalo Anderson, percorreram todo o arquivo de terrenos da prefeitura de Curitiba para localizar uma área que fosse de interesse para o grupo construir a Casa. Inicialmente, eles tiveram a idéia de construir no local onde hoje está estabelecido o Centro Cívico da capital paranaense, mas como já se cogitava construir o palácio do governo e outros órgãos públicos naquele local, acabaram por desistir:

Procuramos por outras áreas e chegamos a essa aqui. [...] Nós fomos vendo pela cidade e achamos, o ítalo e eu, que a colocação era privilegiada, no alto. Em Curitiba ainda não existiam os prédios em volta, tinha o belvedere, uma vista sobre a cidade.36

Ao relembrar o momento em que procuravam um local para construir a Casa do Expedicionário, o sr. Iwersen nos remete a dois momentos de suas lembranças. Ao se recordar que ele e o sr. ítalo Carmeno Anderson, juntos, optaram por um espaço que lembrava um belvedere, ele se utiliza de um referencial atual para descrever a região como desprovida de prédios, e que ainda proporcionava, naquele momento “uma vista sobre a cidade”. O presente, manifestado pelos atuais prédios, contrasta-se com o passado de uma paisagem ainda marcada pelos largos espaços: quase em linha reta,

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36 IWERSEN, Thomaz Walter. Entrevista. Curitiba. 26 mai. 1998.

seguindo pela rua Marechal Deodoro, desde o centro da cidade, um suave aclive conduziria o olhar do curitibano em direção à Casa do Expedicionário.

A escolha do terreno esteve diretamente relacionada com a preocupação em não apenas construir o monumento, mas em definir um local que tivesse uma boa visibilidade, afinal “quem não é visto, não é lembrado”. Mas, não bastaria ao grupo ser visto, era preciso também ser visitado; portanto, ao escolherem a localização da Casa, a preocupação era que o terreno pertencesse a uma área nobre da cidade.

[...] nós achamos que o local era muito bom [...] Tinha a rua Ubaldino do Amaral que era movimentada. O Alto da Rua Quinze era uma zona, de certa forma, privilegiada de Curitiba.

[...] A localização valorizava, porque se fosse num local muito distante haveria dificuldade de acesso. Ali é muito fácil, tem passagem de ônibus, tem tudo. Nós fomos muito felizes nessa escolha do lo cal.37

Após encontrarem o local que consideraram apropriado para a construção da Casa, foram á Prefeitura Municipal, e lá receberam a informação de que o terreno estava embargado. A prefeitura não poderia ceder o terreno, que pertencia à família Scott Murray, pois, segundo o sr. Iwersen, era parte de uma propriedade maior que estava sendo loteada e o local escolhido havia sido doado à prefeitura para que ali fosse construída uma praça. Porém, a família embargara a doação quando soube que ali não seria construída a tal praça. Restava aos pracinhas pedir auxílio aos “políticos amigos” para resolverem tal questão.

Recorreram ao prefeito Lineu Ferreira do Amaral, que fora engenheiro da Rede Viação Paraná-Santa Catarina e que trabalhara com o coronel Machado Lopes. Essa coincidência possibilitou que o grupo, juntamente com a prefeitura, intercedesse junto

37 CONTI, ítalo. Entrevista. Curitiba. 15 jun. 2000.

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à família que, na época, residia no Rio de Janeiro. Enviaram um oficio para a família Scott Murray, escrito pelo sr. Mario Montanha:

[...] professor de oratória, advogado, secretário da LPE na época, fez um belíssimo oficio para a família dizendo do que se tratava, qual a finalidade, qual a intenção. A família de imediato telegrafou, informando que se fosse para essa finalidade indicada eles levantariam o embargo.

E de fato eles levantaram o embargo e com isso a prefeitura fez a doação.38

Assim, mais uma vez, os laços de amizade desenvolvidos pelo grupo fundador da Legião colaboravam para que as dificuldades encontradas pelo caminho fossem sendo superadas. Iniciou-se, então, a construção do “templo aos heróis”.

Mas, a doação do terreno não foi suficiente para que a construção desse

“templo” saísse do papel; foi necessária uma maior contribuição. E ela veio através de leis sancionadas em benefício do grupo, não apenas pelo município de Curitiba mas, também, pelo governo do Estado. Pela Constituição Estadual vigente na época, o Estado do Paraná era obrigado a contribuir com a importância mínima de 25% sobre o valor da construção. Tal quantia ficaria sob a administração da LPE, que já era reconhecida legalmente como sendo de utilidade pública, pelo art. 19 do Ato das Disposições Transitórias.39 Dessa maneira, foi aberto um crédito para atender as despesas com a construção da casa.

Apesar de terem conseguido fundos que ultrapassavam o montante de oito centos mil cruzeiros, esse valor não cobriria as despesas com o ajardinamento, decoração e mobiliário da futura casa. E, nesse s.entido, o Estado deveria qontribuir mais uma vez, com “a grandiosidade da obra” .

38IW ERSEN, Thom az W alter. Entrevista. C uriliba. 26 mai. 1998.

39 ld.

Será mais um monumento a embelezar nossa capital e também Curitiba será pioneira em todo o Brasil em reconhecer o esforço dos brasileiros que combateram em defesa da Pátria e ainda, em retribuir esse esforço com benefícios aos que efetivamente hoje padecem em conseqüência dos males e desajustamentos oriundos da maior guerra mundial dos nossos tempos, onde o Brasil se cobriu de glórias. Hoje o estado contribuirá com Cr$ 533.500,00 para o benefício dos ex-combatentes necessitados, mas amanhã sua Capital será ornamentada com um marco imperecível da grandeza se seus filhos e ainda receberá esse edifício gratuitamente. Daí propomos 50% sobre o valor da construção.40

Com esse discurso, a entidade, muito bem representada pelo deputado estadual e ex-combatente sr. José Machuca, conseguiu modificar e aprovar na Assembléia Legislativa Estadual uma lei que na concepção do grupo febiano, seria também importante para a sociedade paranaense. Assim, foi sancionada a lei que mudava a participação do Estado de 25% para 50% nas despesas com a construção da Casa. Ao que parece, na concepção do grupo, seria uma modesta contribuição do Paraná para a história do Brasil, e ela só traria benefícios: o reconhecimento de seus heróis perante o Brasil, o pioneirismo de uma atitude na concretização de um prédio em louvor à memória da FEB e, além disso, garantia-se a construção de uma futura escola que contribuiria para o desenvolvimento do povo. Importante frisar, tudo isso

“gratuitamente”, como tão bem argumentou o deputado José Machuca.

40 Justificativa da Lei n° 397 de 14/10/1950 leita pelo ex-com batente deputado estadual José Machuca.

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2.7 O GRANDE DIA CHEGOU: A INAUGURAÇÃO

Uma visita ao templo dos ex-combatentes do Paraná - Solucionado, definitivamente, em nosso Estado o problema dos 'pracinhas' deslocados - Valeu a pena lutar na Itália? - Dia 15 de novembro, inauguração da monumental obra transformada em realidade pela Legião Paranaense do Expedicionário - Primeira realização, no gênero que se concretiza no Brasil (O Estado do Paraná)

Com a inauguração da Casa do Expedicionário, em 1951, foi possível perceber a materialização do casamento perfeito entre poderes públicos, ex-combatentes e a sociedade. Cada segmento civil, militar e religioso esteve representado naquele momento, e não poderia faltar a tal evento o homem que possibilitou sua concretização, como narra o Sr. Iwersen:

Depois de construída a sede, nós a inauguramos. Fizemos uma inauguração em 15 de novembro de 1951. Na ocasião trouxemos o então já General Machado Lopes, que veio especialmente do Rio [de Janeiro]. Inauguramos com solenidades. O povo aqui presente, a praça lotada. A casa ficou cheia de autoridades civis e militares, o governador estava presente.

Bento Munhoz da Rocha, muito nosso amigo, ele participava [...] a todo momento estava aqui na casa, visitando, acompanhando a construção da casa. Passando por aqui ele desembarcava e entrava, interessado. 41

A data para a inauguração da Casa do Expedicionário foi atrelada a uma data histórica nacional, 15 de Novembro, em que se comemora a Proclamação da República. Esse procedimento, aliás, foi constantemente estabelecido pelos expedicionários, que sempre souberam utilizar-se das datas do calendário oficial para reafirmarem seu papel na sociedade.

41 IWERSEN, Ihomaz Wailer. Entrevista. Curitiba, 26 maio 1998.

A inauguração tomou-se, para a Legião Paranaense do Expedicionário, o momento oportuno não somente para homenagear seus colaboradores, mas também para que a entidade ampliasse um círculo de contatos influentes, tanto civis quanto militares. A presença de representações diplomáticas na lista de convidados trouxe bons frutos para a Legião. Foram convidados para cortar a fita de inauguração da Casa o Coronel Machado Lopes e o Marechal Mascarenhas de Morais, este não pode comparecer.

Foram realizadas, anteontem, por ocasião do aniversário da proclamação da República, as solenidades de inauguração da Casa do Expedicionário, monumento erigido, nesta Capital, em homenagem aos que lutaram na Itália, durante a última guerra. Ao ato compareceram as mais altas autoridades civis e militares: o governador do Estado, o comandante da Região Militar, o presidente da Assembléia Legislativa, O Prefeito Municipal de Curitiba, o representante do Arcebispo Metropolitano, representações diplomáticas, além de grande número de pessoas convidadas. Naquela oportunidade, foi descerrada, à frente da Casa Monumento, uma placa oferecida pela cidade de Curitiba, ao Expedicionário do Paraná.

(Gazeta do Povo)

Apesar de descerrada a placa oferecida pela cidade aos seus heróis,42 não se tem menção de uma participação efetiva da população em geral no evento. Porém, desde antes da inauguração, os curitibanos eram insistentemente estimulados a conhecer o “templo aos heróis” . Na Gazeta do Povo de 15 de junho de 1951 lia-se:

Interessante é registrar entretanto, que muito embora os curitibanos saibam desse empreendimento e tenham cooperado decisivamente para a sua concretização, nem todos o conhecem de perto e nem siquer avaliam a beleza dessa obra magestosa, num dos pontos mais altos da cidade, domina-a pela sua elevada significação. 43

42 ESTADO DO PARANÁ. Curitiba. 28 out.., p. 7, 1951.

43 GAZETA IX ) POVO. Curitiba. 15 jun., p.3, 1951.

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Para o grupo, era necessário que a população freqüentasse a Casa e a compreendesse como um monumento importante para a sociedade paranaense. Tal procedimento contribuiria para divulgar o espírito patriota do povo, numa demonstração cívica que serviria para exaltar o pioneirismo do Paraná aos demais estados da federação. Esse pioneirismo, à propósito, recebia grande impulso da imprensa, que, em determinados momentos, se referia à edificação denominando-a de Casa do Expedicionário Brasileiro e, em outros, como Casa do Expedicionário. Essa alternância em denominar a Casa está intimamente ligada ao discurso do grupo paranaense, que procurava elevar a importância daquele espaço, nacionalizando - ou até internacionalizando - sua função.

Algumas vezes, personalidades militares de outros países, em visita ao Brasil, eram gentilmente convidadas a conhecer a Casa do Expedicionário. Manter-se em evidência era fundamental para o grupo paranaense. Para eles não existiam fronteiras, era importante divulgar a existência do monumento a eles erguido, ou melhor, aos heróis brasileiros da Segunda Guerra Mundial.

Domingo último, a Casa do Expedicionário, na Rua Ubaldino do Amaral, esteve de festas com a visita alvissareira de Comitiva Militar, da qual fazia parte o General norte-americano RAYMOND LEE, que se fazia acompanhar de outros generais de nosso Exército. A visita que foi demorada, levou ao coração de nossos Expedicionários a garantia da amizade sincera que emana do povo estadunidense representado pelo bravo oficial. Na oportunidade se fizeram ouvir vários oradores, que recordaram as passagens épicas da 2a Guerra e os episódios mais ligados à Força Expedicionária Brasileira, que na Velha Itália, cobriram de glória a Nação brasileira.44

Nada mais glorioso para os ex-combatentes do que receber a visita de um general norte-americano. Nessa visita, além das, comemorações, a preocupação do

44 ESTADO DO PARANÁ. Curitiba, 12 dez., p. 5, 1951.

grupo em rememorar os episódios da guerra foi o assunto principal. Afinal, mais importante que as dificuldades e rejeição que sofreram no regresso da guerra, era lembrar a gloriosa FEB, aquela que embarcou para a velha Itália. Os assuntos internos continuariam a ser tratados através de seus representantes ou dos “políticos amigos”45.

O discurso construído pelos expedicionários paranaenses no primeiro momento foi, aos poucos, se reestruturando. Agora, a manutenção da memória deveria ocupar seu lugar de fato e seria através dela que outras campanhas viriam. A Casa do Expedicionário foi sendo utilizada também para mostrar o poder dos febianos paranaenses aos colegas de outros estados. Quando nós inauguramos a Casa e realizamos o primeiro Congresso de âmbito nacional, trazendo companheiros de todo o Brasil para um congresso extraordinário 46

Esse foi o momento em que definitivamente o grupo paranaense passou a ganhar poder de influência dentro da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil.

Apesar de estarem distantes, e serem uma entidade independente, construíram um lugar de honra para o ex-combatente na comunidade nacional. E importante ressaltar que o grupo paranaense conseguiu, mesmo estando fora da associação nacional, realizar um Congresso Extraordinário no Paraná, com a participação das seções estaduais.

Durante os três dias do Congresso, contaram, inclusive, com a presença do

“político amigo”, governador Bento Munhoz da Rocha.

45 “Os políticos amigos eram com panheiros nossos que estavam na época exercendo liinção

parlam entar. Tinham sido eleitos para C âm ara dos D eputados e aqui para nossa A ssem bléia Legislativa; esses eram os políticos amigos. E outros, ligados a eles, que se tornaram nossos am igos.” IW ERSEN, Thom az Walter.

Entrevista. Curitiba, 21 de Jun. 1999.

46 IW ERSEN, Thom az W alter. Entrevista. Curitiba, 26 maio, 1999.

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No segundo governo dele diversos companheiros nossos trabalharam. Ele sempre esteve muito ligado a Legião. Em 1953, quando fizemos um congresso extraordinário, ele participou intensamente: Congresso Extraordinário dos Ex-Combatentes do Brasil.

Reunimos companheiros de todo Brasil. A Legião independente trouxe companheiros de todo Brasil e fizemos um congresso muito grande, muito bonito. Em 1953, justamente quando do aniversário da Emancipação Política do Estado do Paraná, fizemos um congresso em homenagem ao Paraná, e o Bento [Munhoz da Rocha], como governador, participou nas três noites de sessões aqui na casa. Participou e deu sempre a sua mensagem. Era historiador, um homem extraordinário, de capacidade.47

O governador do Paraná era peça importante, pois a vinda dos ex-combatentes para o congresso seria apadrinhada por ele.48 Assim, não se tratava apenas de um congresso comum, mas de um evento que homenageava a Emancipação Política do Paraná, fato que justificava qualquer colaboração financeira por parte da administração pública. Esta disponibilidade do governador em colaborar com o Congresso Extraordinário de Ex- Combatentes do Brasil seria premiada, cabendo a ele o discurso de abertura desse evento. Há que se considerar que, em se tratando de um congresso febiano, outras opções existiam para o discurso de abertura, como, por exemplo, o Marechal Mascarenhas de Morais, que também participou desse encontro. Essas gentilezas demonstram o bom relacionamento dos febianos paranaenses com o poder local.

Mas o congresso não se resumiu apenas a discursos em prol dos feitos febianos. As festas e “cantorias” também estiveram presentes; as lembranças não estavam ligadas apenas aos campos de batalhas, mas também ao que acontecia com os

47 Id.

48 Relatório da D iretoria da L.P.E 24/06/1953, publicado na Revista do Expedicionário o qual re la ta : Os prim eiros passos para a organização do Congresso e propaganda em tom o do m esm o j á foram dados, tendo em.

vista ter esta diretoria conseguido da C om issão de Festejos do centenário um a verba de C r$ 200.000,00 para as despesas decorrentes com o Congresso, bem como o com prom isso da referida C om issão em conseguir as acomodações necessárias às representações que se farão presentes.