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A TRAJETÓRIA DE UM IDEAL: O CAMINHO POLÍTICO DO

Nós nos reuníamos inicialmente no bar, na [Confeitaria] Cometa de quinze em quinze dias. Éramos em trinta ou quarenta, mais ou menos.

Um determinado grupo, o grupo com mais responsabilidade, que eram mais oficiais, eles ... Nós oficiais achamos que devíamos materializar [sic] para que a memória da Força Expedicionária Brasileira se mantivesse na história do Brasil. Inicialmente surgiu [a idéia] de construir uma sede. A idéia foi crescendo. (...) mas onde iríamos buscar recursos? (ítalo Conti)

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tomaram-se freqüentes. Esses encontros, fortaleceram no grupo a preocupação de inserir as memórias da FEB na história nacional. A idéia de materialização da memória febiana pode ser entendida como uma possibilidade de perpetuação e transmissão dessas experiências de guerra a gerações futuras.

Como a informalidade das reuniões não foi o suficiente para desestruturar a hierarquia militar do teatro da guerra, seria justam ente a hierarquia militar que proporcionaria a um grupo específico tomar para si o direito de conduzir essa materialização. Essa postura dentro do grupo de expedicionários paranaenses pode ser interpretada como uma necessidade dele frente às transformações sociais a que eles estavam expostos. Os papéis deveriam ser mantidos. Eram eles que proporcionavam a identificação do indivíduo com a memória que estava sendo construída.

E não apenas no Paraná, como em todo o Brasil, os ex-combatentes se articularam no sentido de pleitear junto à sociedade e ao governo uma continuação dos privilégios financeiros que perderam ao fim da Segunda Guerra. Com essa intenção, os grupos regionais de ex-combatentes foram sendo organizados; as reuniões eram de suma importância para dar consistência ao discurso que estava sendo construído.

Segundo o sr. ítalo Conti, o reconhecimento deveria continuar existindo em fa ce das experiências traumáticas da guerra2 Essas experiências traumáticas, num primeiro momento, moldaram o discurso dos ex-combatentes - não me refiro ao grupo paranaense, mas à FEB em geral - possibilitando aos febianos justificarem os comportamentos inadequados de alguns pracinhas que tinham dificuldades de se adequar às normas sociais, e que devido a isso não eram entendidos. Esses

ex-2 ítalo Conti, ex-combatente, hoje exerce o posto de general e está envolvido com a política paranaense.

combatentes precisavam ser recuperados. Para que tal procedimento fosse possível, era necessário que o governo e a sociedade provessem sua manutenção financeira.

A entidade passou a existir logo após a guerra em 1946, mas em 1945 os ex-combatentes já estavam se reunindo aqui no Paraná, como em todo o Brasil. [...] A primeira reunião foi num quarto de pensão de um companheiro nososo.2companheiro nosso.

As reuniões do grupo paranaense adquiriram caráter mais decisivo, quando se iniciaram as especulações a respeito da organização de uma associação. Os ex-oficiais paranaenses, que se entendiam como responsáveis em materializar as memórias da FEB, passaram a realizar reuniões privadas com o intuito de estabelecer as bases para a formação da entidade. Para Curitiba foi enviado um “companheiro” com a função de auxiliar o “grupo idealizador” 3 na organização da Seção Paraná da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil que tinha sede no Rio de Janeiro, veio o emissário para cá, querendo organizar, querendo ditar normas para que organizássemos aqui uma entidade também [...]. 4

O quarto de pensão em que o sr. Carlos Scliar se hospedava, servia de local para que as reuniões privadas se realizassem. Nesses encontros particulares, o grupo idealizador, junto com o companheiro enviado do Rio de Janeiro, organizava a seção Paraná. É possível perceber que o “companheiro” não tinha uma boa aceitação dentro do grupo paranaense, afinal, segundo o sr. Mário Montanha Texeira, era já uma

2 IW ERSEN, Thom as Wallcr. Entrevista. Curitiba. 29 abr. 1998. A pensão a que se refere sr. Iwersen, na qual foram realizadas as prim eiras reuniões do grupo, ficava na rua Riachuelo, em Curitiba.

3 Assim denom inarei os seis personagens dessa história.

4 TEIXEIRA, M ario M ontanha. Entrevista. Curitiba. 16 ju n . 2000.

sociedade, mas uma sociedade muito íntima,5 e o outro febiano tomou-se um estranho no ninho6.

Ao descrever o grupo idealizador como uma sociedade muito íntima, o Sr.

Montanha aponta para relações sociais que já existiam muito antes da guerra. Para se ter uma idéia, o sr. Montanha era amigo de infância dos Senhores ítalo e Adélio Conti, brincaram e estudaram juntos. Suas famílias mantinham uma estreita convivência.

Dessa forma, era evidente que o grupo sentisse dificuldades de ser conduzido por um indivíduo que não fazia parte dessa intimidade (e que ainda tinha envolvimento com o partido comunista). Apesar das diferenças, foram dados os primeiros passos decisivos para a concretização do que inicialmente era apenas uma possibilidade.

N a organização das primeiras reuniões, como já foi comentado, a hierarquia existente no Exército foi transferida para dentro do grupo de expedicionários paranaenses. O movimento para a constituição da entidade foi conduzido por oficiais - alguns deles encontravam-se na reserva, outros, como era o caso do sr. ítalo Conti, permaneciam no Exército.

Essa situação nos possibilita perceber que a manutenção hierárquica num primeiro momento foi entendida pelo grupo de oficiais como sendo necessária para atingir seus objetivos; como na guerra, é o oficial quem traça os planos para que os comandados obtenham vitórias frente o inimigo. Essa percepção estabelece os parâmetros que nos possibilitam afirmar que a idéia de materializar as memórias da FEB estava diretamente relacionada a um grupo específico,7 o qual a partir de um

" Idem.

6 Apesar de ser febiano, não era paranaense, ou m elhor não era íntimo.

7 Sr. Iwersen, M ário M ontanha, A délio Conti, ítalo Conti

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determinado período, foi acrescido pelos que não possuíam tal responsabilidade.O papel dos comandados estava diretamente relacionado ao apoio à idéia de seus

“oficiais”.

Com a seção Paraná da Associação Nacional organizada, era necessário a manutenção das reuniões, pois elas tinham um função importante: informar o que acontecia a respeito da causa febiana e, ao mesmo tempo, servir como elo de existência do grupo.

A participação cada vez maior de expedicionários nas reuniões obrigou o grupo idealizador a procurar um local que os acomodasse melhor. Coube ao Brithania Sport Club atender aos primeiros pedidos de ajuda dos veteranos, oferecendo sua sede para que fosse realizada a primeira reunião oficial do grupo de ex-combatentes. A partir dessa reunião foram estabelecidos os caminhos que deveriam ser trilhados pelo grupo de ex-combatentes do Paraná; nela foram divulgados os objetivos essenciais que comporiam sua futura associação: “proteção aos camaradas desvalidos e deslocados;

defesa do bom nome e das puras tradições da FEB”.8 Com esses objetivos, o “grupo idealizador” habilmente conseguiu unir os ex-combatentes paranaenses em tomo de si, conduzindo, dessa forma, tudo que estivesse relacionado à causa expedicionária no estado do Paraná.

A preocupação em zelar pelo bom nome da FEB, desde o início, aqui no Paraná já propunha o não envolvimento com a política partidária. Isso possibilitou ao grupo transitar em várias instâncias do poder sem maiores problemas. As “questões políticas”

tomaram-se, para os pracinhas paranaenses, mesmo antes do surgimento da

8 O EXPEDICIONÁRIO. Curitiba, n.2, 195. p.42

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Associação dos Ex-Combatentes do Brasil - Seção Paraná, um peso a ser “carregado”:

sendo assim, não é difícil entender a necessidade cada vez maior desse grupo em se posicionar como sendo uma entidade “apolítica”, mas sempre em prontidão para defender os interesses da Pátria ou do grupo. Com esse objetivo uma nova reunião foi realizada no Brithania Sport Club.

Nessa reunião, que contou com um grande número de expedicionários, foi proposto que se endereçasse um telegrama de protesto ao presidente da Assembléia Nacional, sr. Mello Viana, contra as declarações do senador comunista Luiz Carlos Prestes. Para os febianos paranaenses, a participação do Partido Comunista na Assembléia Nacional era entendida como um perigo a democracia.

A Associação dos Ex-Combatentes da FEB, no Estado do Paraná, conforme deliberação unânime dos seus associados em sessão hoje realizada, vem perante V. Excia lançar o seu mais veemente protesto contra as declarações do chefe fascista vermelho desejoso de acorrentar o Brasil ao totalitarismo moscovita, disposto a trair a própria Pátria caso entrássemos em guerra contra a Rússia. Saiba o secretário do Partido Comunista Brasileiro que a idéia que defendemos nas fraldas dos Apeninos saberemos defender até os Montes Urais. Este alerta lançado à Nação com o pensamento no cemitério de Pistóia representa puro reflexo dos ideais democráticos que animam nossos gestos!”. Felipe Aristides Simão - Presidente9

O protesto enviado ao presidente da Assembléia Nacional não nos deixa dúvidas quanto a visão que o grupo paranaense tinha a respeito dos comunistas:

traidores da pátria, cuja a intenção era acorrentar o Brasil ao totalitarismo soviético. O sentimento de guardiões da democracia delegava-lhes a tarefa de alertar a nação do que poderia acontecer caso o comunismo não fosse contido.

A preocupação em deixar claro, perante a sociedade paranaense e os políticos, que as reuniões dos ex-combatentes tinham um propósito apolítico e que, no Paraná,

9 Idem

esse movimento estava imbuído de “boas intenções”, era imprescindível para o grupo.

A aura do patriotismo estava voltada para estabelecer auxílios ao pracinha necessitado e demonstrar a diferença do ex-combatente paranaense em relação aos demais do país.

Esse procedimento, com o decorrer do tempo, poderia concretizar o ideal do grupo: a edificação da Casa do Expedicionário, que uniria a assistência aos seus associados e marcaria definitivamente a independência do grupo paranaense, pelo menos no que diz respeito a um local onde pudessem se reunir.

Desde o início da formação do grupo, já se percebia sua intenção em ter uma sede própria. Tal necessidade, se faz presente no comentário do sr. Iwersen: [...]

Inicialmente o Sport Club Brithania nos acolheu; a Legião Brasileira de Assistência, na praça Tiradentes em frente a catedral, também nos assistiu e nos deu guarida.

Depois a Sociedade Tiro Rio Branco, que se reunia em barracões onde hoje está o Teatro Guaíra.10 A idéia de construir um local era cada vez mais presente e a cada dia ganhava mais adeptos para esse empreendimento.

Após o desligamento da Associação Nacional, os febianos paranaenses se acomodaram no Círculo de Estudos Bandeirantes, para que divulgassem aos seus associados os novos rumos da entidade. O rompimento proporcionou ao grupo autonomia para conduzir seus associados, agora como legionários, em prol de uma sede própria. Esse intuito tomou-se necessário à medida que as reuniões aconteciam; a dificuldade de conseguir um local para que elas se realizassem obrigava os organizadores a estarem sempre a mercê de um favor. Tanto que nos primeiros anos da Legião, as reuniões ocorriam sempre em lugares diferentes, o que impossibilitava

10 IWERSEN, lTiomas Walter. Entrevista. Curitiba. 26 maio, 1998.

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algumas vezes uma participação maior. Para compreendermos melhor tal situação, a convocação para as reuniões eram feitas de forma artesanal: “de boca em boca”.

Essa situação foi amenizada pelo presidente da Associação Tiro Rio Branco, que, por ser conhecido do grupo, cedeu o espaço para a realização das reuniões.

Segundo o sr. Iwersen, esse local era usado para o ensaio da banda do Tiro Rio Branco. A banda sempre desfilava no Sete de Setembro e acabou cedendo o pavilhão para que o grupo realizasse suas reuniões todas as terças-feiras. O entrosamento entre os dois grupos possibilitou a manutenção das reuniões dos ex-combatentes. Eles puderam se organizar melhor e lançar campanhas através da imprensa para arrecadar

fundos.

A primeira campanha foi para ajudar o pracinha Santos Menon, que se encontrava internado no Sanatório São Sebastião,11 devido à tuberculose que, segundo os febianos paranaenses, teria sido causada pelo inverno rigoroso na Itália, durante a guerra.

Convidada a assistir a reunião, que teve lugar ontem, da Legião Paranaense do Expedicionário, Gazeta do Povo, pelo seu representante poude acompanhar os trabalhos desenvolvidos pelos antigos combatentes da FEB. Em sua sede provisória, localizada numa das dependências do Tiro Rio Branco, teve lugar a assembléia da Legião Paranaense do Expedicionário, que contou com a presença de considerável numero de ex-combatentes. [...]

Dentre os problemas atuais que mais merecem a atenção dos presentes á reunião, cumpre ressaltar aquele que mais de perto falou dos interesses imediatos dos “pracinhas”

desamparados. [...] Estribada nesse princípio de humanidade e filantropia, foi que a Legião Paranaense do Expedicionário lançou a campanha que prossegue vitoriosa, em favor do

“pracinha” Santo Menem. 12

Ao convidarem o jornal Gazeta do Povo para assistir sua reunião, a entidade passou a ganhar maior espaço, nesse jornal. Essa aproximação muito bem articulada

11 GAZE TA IX ) POVO. Curitiba. 27 jul. 1947. p.2.

12 GAZETA IX ) POVO. Curitiba. 13 jun. 1947. p. 4

pelo grupo, já dava indícios de demonstrar a seriedade da entidade. Outro fator importante dessa aproximação era a amizade de Plácido e Silva, diretor do jornal, com o ex-combatente Nelson Justus, o que facilitou a participação da Gazeta do Povo nessa reunião. A relação estabelecida com esse meio de comunicação foi fundamental para lançar outras campanhas junto a sociedade paranaense. Ao perceber as possibilidades trazidas com essa aproximação, o grupo preocupou-se em divulgar o caráter jurídico da LPE conferindo- lhe confiabilidade.

A Legião Paranaense do Expedicionário tinha personalidade jurídica, nós tínhamos uma diretoria eleita em assembléia, nos estruturamos como uma entidade de personalidade jurídica. Nós tínhamos existência jurídica, porque tínhamos estatuto registrado, CPF.

Tínhamos tudo que uma entidade registrada no Conselho Nacional de Serviço Social, no Estado, na Prefeitura. Nós tínhamos registro total. É uma entidade de finalidades assistenciais.13

A existência jurídica da LPE propiciou ao grupo a possibilidade de pedir apoio econômico junto à população e até mesmo ao governo do Estado. Nesse momento, não se tratava apenas de um grupo, mas de uma entidade reconhecida juridicamente, reafirmando-se dessa forma a seriedade e a honestidade das campanhas de arrecadação que pudessem ser realizadas pelos ex-combatentes, não apenas em Curitiba, mas no Paraná e também em Santa Catarina.

Motivados pela arrecadação da campanha em prol do colega Santos Menon, e pelo apoio dos meios de comunicação, organizaram outras campanhas sempre com o intuito de dar assistência aos febianos necessitados, mantendo-se também a idéia inicial de construção de uma sede própria. Essas campanhas de arrecadação eram

13 CONTI, ítalo. Entrevista. Curitiba. 15 jun. 2000.

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organizadas sem perder de vista a questão da seriedade e do patriotismo que o grupo paranaense queria transmitir a população. Era fundamental que essa fosse a imagem do expedicionários.

As campanhas dos ex-combatentes norte-americanos muitas vezes serviam de modelo para o grupo paranaense. Um exemplo foi a realização do avant-premier do filme “Os melhores anos de nossa vida”, exibido em agosto de 1947 para arrecadar fundos para a entidade. Esse filme havia sido exibido nos Estados Unidos, com a mesma finalidade, fato que facilitou o consentimento por parte da produtora Metro Goldwyn M ayer em exibi-lo, em primeira mão, no Brasil.

OS MELHORES ANOS DE NO SSA VIDA

Uma iniciativa digna do melhor acolhimento - A avant-premiére do majestosa filme em Curitiba, reverterá em favor da Legião Paranaense do Expedicionário

[...] Essa película cinematográfica versa, precisamente, sobre os problemas da readaptação dos expedicionários à vida civil. Estuda a situação do ex-combatente, em face dos novos assuntos que lhe deparam, ao deixar a caserna. Filme profundamente humano, que desenvolve um tema dos mais palpitantes e merecedores de atenção, “Os Melhores Anos de Nossa Vida” foi premiado como o maior trabalho cinematográfico do ano.14

Segundo, o sr. Iwersen, essa foi a primeira avant-premiére realizada na capital paranaense e o dinheiro arrecadado proporcionou ao grupo a possibilidade de alugar uma sede mais central,15 partindo assim para ações maiores. Ao alugarem uma sede própria, despediram-se da dependência de estar sempre procurando lugares que pudessem realizar suas reuniões, permitindo-lhes a autonomia nos trabalhos assistenciais para com os colegas desprovidos. Esse passo dado pelo grupo de

ex-14 G A Z E I A IX ) POVO. Curitiba, 7 ago. ,1947. p. 6 13 Na rua José Bonifácio, próxim o à praça Osório.

combatentes projetou o nome da LPE para o interior do Paraná e dessa maneira ampliou seu campo de arrecadação.

As campanhas realizadas pela Legião Paranaense do Expedicionário não se

limitaram aos grandes eventos, mesmo antes de conseguirem alugar uma sede própria,

os legionários paranaenses desenvolveram uma campanha para ampliar seu quadro de

associados; tal postura demonstra que, para continuar existindo, era necessário abrir as

portas não apenas a ex-combatentes, mas também aos simpatizantes da causa. Esses

eram constantemente cooptados pelos jornais que evocavam o civismo do povo

paranaense. Aos poucos, a LPE ampliou seu poder de ação e, conseqüentemente, de

arrecadação.