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A escrita da criança do 1° ano do Ensino Fundamental

PARTE II: Escrita Infantil

1.6 A escolarização da escrita infantil

1.6.1 A escrita da criança do 1° ano do Ensino Fundamental

A criança para ser matriculada no E.F., de acordo com a Lei n° 11.274/2006, deverá ter, no mínimo, 6 anos de idade. Essas crianças, que até então, estavam na

Educação Infantil, nas antigas classes de Alfabetização, deverão frequentar o 1° ano do E.F..

Na pré-escola a criança começa a ter contato com a escrita, através de leituras, livros, primeiros traços das letras. No primeiro ano do E.F. as letras aprendidas se transformarão em sílabas, palavras, textos.

O direcionamento do professor nos primeiros meses para essas turmas deverá ser sensível ao momento da aprendizagem da criança, pois ela ainda não domina com fluência o código alfabético. A imagem a seguir ilustra esse momento, de uma criança de 6 anos em seu primeiro mês na turma do 1º ano E.F.

Como percebemos, o aluno já escreve o seu nome com letras de forma, e faz tentativas para traçar algumas palavras com letra cursiva. Seber (2009) elucida em sua pesquisa que é comum a criança traçar letra cursiva por imitação. A autora, ao questionar uma das crianças que ela analisa sobre o motivo de se escrever com rabiscos, formas não identificáveis, os nomes de seus familiares recebe como resposta: “Eu estou escrevendo como gente grande” (Seber, 2009, p. 82). Geralmente, a letra cursiva é compreendida pela criança como parte do universo

adulto, uma vez que ela é mais comum em seu meio: na letra dos pais, professores e adultos que a rodeiam, e em outros tantos meios.

Observando a escrita das palavras percebemos que os traços (pseudo- letras), ainda que muito primitivos, se assemelham uns com os outros. No exemplo, também, temos a presença de uma escrita pictográfica, que “consiste na utilização do desenho do próprio objeto para representar a palavra solicitada” (Cortini Junior, 2002, p. 64).

Gradativamente, no processo de alfabetização a criança começa a descobrir a força das palavras pela escrita. No entanto, percebemos que muitas vezes o professor dá uma grande ênfase à caligrafia da letra cursiva e se esquece de levar em conta o real significado da escrita para a criança.

Sobre o sistema cursivo Cagliari (2009) nos dá algumas indicações pertinentes. Observemos:

[...] o sistema cursivo é o mais complicado dos sistemas de escrita que existem no mundo, porque varia enormemente, seguindo as idiossincrasias de cada usuário. Para uma criança que está começando a ler, ler o que escreveu ou, pior ainda, o que escreveu um colega, é algo terrivelmente difícil. [...] Sem dúvida, a escrita cursiva é importantíssima, fundamental na nossa cultura, mas não me parece ser a maneira mais adequada de ensinar alguém a escrever. [...] Deve-se ensinar a caligrafia da escrita cursiva. Não cuidar da arte de escrever é um equívoco, um erro da escola, que diz ser moderna. (Cagliari, 2009, p. 84, grifos nossos)

A partir da citação acima vamos analisar o texto de uma criança do 1° ano, que segue abaixo:

O texto desta criança foi escrito em seu quinto mês de frequência em uma classe de alfabetização. Como percebemos, ela já escreve em letra cursiva, mas não consegue nem mesmo formar as sílabas de uma palavra corretamente. Poderíamos dizer que neste texto temos uma marca da prática pedagógica da professora: a preocupação com o traçado da letra, em detrimento da leitura e escrita com fluência. Retomando Cagliari poderíamos dizer que “seria muito mais fácil e simples aprender a escrever e a ler, em primeiro lugar, através da escrita de forma maiúscula. Depois a criança aprenderia a escrita cursiva” (2009, p. 84).

Pelo que observamos algumas crianças, no sétimo mês de alfabetização, já se encontravam em outro momento de sua aprendizagem de língua escrita.

Texto 226

Como vimos em ambos os textos, as crianças começam, agora, a dominar a formação das sílabas. Algumas letras são confundidas pela questão do acústico- auditivo, como por exemplo, o /s/ pelo /z/ em /caza/ (Texto 1); outras letras são suprimidas /coprei/, /copra/ (Texto 2), neste caso devido à nasalização do fonema /oM/ ; também percebemos a marca da oralidade na escrita, como no caso /arois/ (Texto 2), em que a criança troca o /z/ por /is/, como é comum na língua oral. Nos textos acima, também percebemos que os alunos lançam mão de seus conhecimentos para escreverem determinadas palavras, que ainda não aprenderam, devido à complexidade da escrita das mesmas, neste momento de alfabetização, como notamos na palavra “supermercado” (Texto 2), em que a própria professora na hora de corrigir o aluno também erra, escrevendo “supermecado”.

Essas tentativas da criança ao escrever as palavras, nos diferentes textos aqui apresentados, chegam até nós como tentativas de escritas, que devem ser

observadas pelo professor, como ponto de partida e chegada no processo de alfabetização. Logo, o “professor deve colocar-se no ponto de vista do aluno que aprende, para saber verificar como e por que ele pensa e faz a sua escrita [...]” (Bizzotto, Aroeira e Porto, 2010, p. 42).

Em meados do nono mês de alfabetização, algumas crianças se encontravam em outro nível de aprendizagem. Veja-se a seguir:

Como vimos os numerais são comuns nos textos das crianças dessa fase, quantificando os elementos, na função de apenas acompanhar os nomes. A criança que escreve o texto acima não consegue ainda, neste momento de aprendizagem, utilizar os numerais para fazer remissão, anafórica ou catafórica, de um elemento textual. Percebemos, portanto, que há pouca presença de numerais na forma remissiva gramatical livre (Cf. Koch, 2010a). Também, neste período já caminha para o domínio da sílaba. Ainda comete erros ortográficos, que para serem

dificuldades na escrita. As séries subsequentes no ciclo de alfabetização - 2° e 3° anos do E.F. - com certeza trabalharão nesse aspecto.

Fica claro que, em relação à prática pedagógica, o tempo de aprendizagem e o tempo cronológico devem ser respeitados. É evidente que alfabetizar não é uma tarefa fácil, mas requer do educador um trabalho realmente direcionado para o sucesso, tendo como base não um cronograma de conteúdos que deve ser aplicado, e sim, a criança. Não são as letras, sílabas e textos que devem ser o centro da alfabetização; é a criança, com todo o seu interesse, que precisa ser o eixo condutor das ações escolarizadas de alfabetização. Por isso, numa classe de 1° ano o silêncio é inoportuno. As vozes dos alunos e professores devem se cruzar nas suas expectativas de aprendizagem: a do aluno de aprender e a do professor de ensinar e fazer com que seu aluno aprenda.