CAPÍTULO 2 LITERATURA E SUBLIMAÇÃO: REFLEXÕES PSICANALÍTICAS
2.1. A escrita e o compartilhamento de fantasias
No capítulo anterior, apresentei, por meio do trabalho de Penley (1992), uma possibilidade de compreender as fan fictions por um viés psicanalítico. Neste capítulo, aprofundo tal discussão com vistas a esclarecer que questões a teoria psicanalítica, sobretudo a partir da própria obra de Freud, com aportes de Lacan, ajudaria a elucidar a respeito das práticas de escrita e leitura típicas dos fandoms. É sabido que teoria freudiana foi, ao longo de todo o século XX, revista, comentada e ampliada por psicanalistas de diversas vertentes e estendeu- se, desde o próprio Freud, para outros campos que não o da psicologia, com destaque para a literatura, as artes e a sociologia. Para além de tudo isso, penso que este recurso à teoria psicanalítica se justifica ainda, sobretudo, pela materialidade ora analisada, cuja caracterização convoca, a meu ver, a discussão de noções como a de sexualidade infantil e a do chamado complexo de Édipo.
Evidentemente, é preciso recordar que este não é tão-somente um trabalho em psicanálise; ainda assim, esse campo de conhecimentos, mesmo que pensado claramente para a clínica, certamente permite tecer proveitosos comentários sobre as artes e a literatura. O próprio Freud procedeu desse modo em diversos momentos de seus escritos, como se vê, por exemplo, no recurso constante que fez à mitologia grega, bem como em suas análises de peças teatrais e da arte da escrita enquanto prática. Tal potência da psicanálise para a reflexão literária é trazida aqui num recorte específico, que não se destina nem diretamente a elucubrar sobre as emoções ou o caráter dos personagens das fan fictions analisadas, nem a constituir, a partir deles, uma discussão puramente teórica quanto às reflexões freudianas. Assim, considerando a complexidade das articulações entre os conceitos psicanalíticos, penso ser fundamental precisar esse recorte teórico o mais claramente possível, deixando ao leitor os devidos indicativos de minhas referências, para que possa aprofundar-se por outras entradas na teoria, se for de seu interesse.
O ponto de partida para minha reflexão é a percepção, sugerida pelo próprio Freud, de que haveria no fazer artístico uma dimensão inconsciente. Tal perspectiva é visível não apenas nos diversos momentos de sua obra em que discute o valor da arte e das atividades
culturais, mas sobretudo no artigo em que aborda, diretamente, a prática da escrita literária (FREUD, 1908a), em sua dimensão psíquica.
Questionando-se a respeito do antigo problema da inspiração poética, Freud se propõe a tentar compreender “de onde esta singular personalidade, o escritor[17], retira seu
material (...) e como logra nos tocar tão fortemente com ele, provocando em nós emoções de que talvez não nos julgássemos capazes” (FREUD, 1908a, p. 326, nota minha). Para tanto, parte de uma comparação entre a produção literária e a brincadeira das crianças, afirmando que ambas as atividades envolvem a construção, por parte de quem as empreende, de “um mundo próprio”, em que os objetos são reorganizados “numa ordem nova, do seu agrado”, tomada muito a sério e investida de “grandes montantes de afeto” (FREUD, 1908a, p. 327). Ele estabelece, porém, uma diferença entre infantil e adulto nesse cenário: enquanto a criança que brinca mergulha em seu fazer a ponto de misturá-lo profundamente à realidade, o adulto escritor sabe separar sua obra do real, compreendendo-a e apresentando-a claramente como fruto de sua imaginação.
Segundo Freud (1908a, p. 328), isso implica dizer que o adulto, de certo modo, nunca deixa de agir como a criança, embora desvincule com mais clareza, de modo geral, sua atividade imaginativa dos objetos reais, à medida que, em vez de brincar, põe-se a fantasiar. Ao fazê-lo, o adulto envolve-se em devaneios de maior ou menor riqueza criativa, alguns dos quais poderá vir a escrever, por exemplo, caso seja dotado desse interesse e das habilidades correspondentes. Não obstante a admiração que dedicamos à literatura, o ato de fantasiar por si mesmo é considerado culturalmente infantil, e é justamente sobre este ponto que Freud se debruça a partir da noção de fantasia. Em vez de abordar o conceito independentemente, porém, tomo aqui a liberdade de seguir o texto de Freud (1908a), a partir do qual pretendo puxar alguns fios teóricos que melhor esclarecerão o aporte pretendido.
Explica Freud, nesse contexto, que “[d]esejos não satisfeitos são as forças matrizes das fantasias, e cada fantasia é uma realização de desejo, uma correção da realidade insatisfatória” (FREUD, 1908a, p. 330). Dito de outro modo, é como se a fantasia funcionasse como elemento de escape, de amenização em relação àquilo que o devaneador sente como negativo ou desprazeroso, algo que lhe suscita um desejo de modificação, de superação. Ocorre, contudo, que alguns desejos desse tipo podem assumir formas pouco aceitas pela sociedade,
17 Conforme explica a tradução consultada (FREUD, 1908a, p.15), o termo em alemão, Dichter, designa o escritor
de poemas, “poeta”, mas em sentido clássico, como referência àquele que se dedica, de forma mais ampla, à “arte poética”, que, neste trabalho, vejo como correspondente ao que chamei de “a arte da escrita”. Outras traduções empregaram a expressão “escritor criativo”, que preferi não utilizar, por considerar pouco preciso o adjetivo em questão.
por ela condenadas, recriminadas, de modo que o adulto procura (de forma inconsciente ou não) ocultá-las do mundo (e, por vezes, até de si mesmo), através de diversos mecanismos psíquicos de deformação (FREUD, 1908a).
Se acabam por ser tão notavelmente escondidos, como explicar que a expressão de tais desejos constitua, sob a forma de literatura, uma prática cultural valorizada, que produz tanto prazer aos envolvidos e é objeto de imensos investimentos afetivos, como os que se vê até mesmo quanto a formas artísticas menos usuais, como as envolvidas nas práticas de escrita e leitura de fan fictions? Talvez a seguinte reflexão freudiana ajude a ensaiar uma explicação:
(...) na técnica de superar aquele sentimento de choque, que indubitavelmente está ligado às barreiras que separam cada Eu e os demais, é que se acha propriamente a
ars poética. Podemos imaginar dois recursos dessa técnica: o escritor atenua o caráter
do devaneio egoísta por meio de alterações e ocultamentos, e nos cativa pelo ganho de prazer puramente formal, ou seja, estético, que nos oferece na apresentação de suas fantasias. (FREUD, 1908a, p. 338)
Assim, Freud (1908a) relaciona a literatura à constituição de um ordenamento próprio, autônomo, daquilo que é de caráter psíquico. Ao peculiar arranjo de palavras daí resultante, corresponderia justamente a possibilidade de fruição da obra literária. Pode-se entender então que, para ele, o processo de criação literária estaria associado profundamente à dinâmica do desejo, em especial aos desejos não realizados e, muitas vezes, socialmente repreendidos. Nesse sentido, o prazer estético da literatura adviria justamente da possibilidade de experimentar tais desejos proibidos sob véus de seu ocultamento, propiciador de uma “(...) libertação de tensões em nossa psique”. Desse modo, o verdadeiro mérito do escritor seria o de que, com a obra literária, “(...) nos permite desfrutar nossas próprias fantasias sem qualquer recriminação ou pudor” (FREUD, 1908a, p. 338).
Mas fica a questão: se estão originadas em nossos desejos, como explicar que as fantasias que permeiam a escrita literária necessitem ser modificadas, de alguma forma deformadas e disfarçadas, para que possam ser expressas e valorizar? Por que esses desejos seriam motivo de condenação tamanha, a ponto de sua apresentação, mesmo cifrada na escrita, provocar tamanha redução de tensões como a descrita por Freud (1908a)? Responder a essas indagações demanda um aprofundamento em alguns conceitos freudianos, a saber os de inconsciente, recalque, pulsão e sublimação. Para tanto, deixarei em suspenso, por ora, outros pontos igualmente importantes do texto de Freud (1908a) sobre a literatura, ao qual retornarei ao final deste capítulo, a título de uma síntese, empreendida também a partir das reflexões de Suzi Sperber sobre a chamada “pulsão de ficção”.