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CAPÍTULO IV: EDUCANDO PARA A CIDADANIA: FORMAÇÃO DA

4.2. As esferas da existência humana

4.2.2. A esfera do simbólico

Pela própria condição de ser subjetivo, o homem não pode realizar-se plenamente se não estabelecer também relações simbólicas com o meio em que vive. Trata-se de relações permanentes com a esfera dos valores culturais, âmbito de abrangência da subjetividade. A apropriação e o usufruto da vida cultural, das vivências subjetivas, não constituem apenas

19 Entendemos o conceito de alienação a partir do pensamento de Hegel e sua continuidade em Marx. Hegel

supõe que a consciência pode perceber-se como separada da realidade à qual pertence, sendo esta realidade consciência de realidade, a separação citada é separação de si mesma. Surge então um sentimento de perda, de desunião, de desposessão, de alienação. O termo é usado aqui no sentido do estado no qual uma realidade se encontra fora de si, em contraposição ao ser em si. É assim como Marx entende a alienação do homem através do trabalho. É quando o homem não mais pertence a si porque o seu trabalho não lhe pertence.

um complemento supérfluo da existência humana. Como diz Severino: “a dimensão da

subjetividade é um elemento fundamental, imprescindível e insubstituível para a constituição da cidadania como qualidade de vida” (1992: 11).

O universo simbólico é tão importante quanto o dos bens materiais, pois são os símbolos as mediações de que nos servimos para relacionar-nos com os elementos materiais, com os outros sujeitos, com as situações e inclusive com os outros símbolos. Assim como os termos, as palavras, são símbolos que representam os conceitos, as imagens mentais e conseqüentemente, os próprios objetos. Se a palavra, que distingue o homem de todos os outros seres vivos, se encontra enfraquecida na possibilidade de expressão, é o próprio homem que se desumaniza. Segundo Ernst Cassirer o homem é um animal simbólico, é característica endógena do ser humano conferir significado ao seu mundo. Perder essa capacidade é tornar-se menos humano.

O conjunto de representações simbólicas e de procedimentos apresentados pelos homens, que são um produto resultante da ação do homem sobre a natureza, constituem o que se chama cultura. A cultura é um processo de auto-libertação progressiva do homem, o que o caracteriza como um ser em mutação, um ser em projeto, que se faz à medida que transcende o próprio meio, que ultrapassa suas fronteiras, que se lança além dos limites de sua própria existência. A cultura é a capacidade do homem produzir sua própria história.

Uma comunidade cria para si a sua cultura, que é válida para todos os seus membros. Mas numa sociedade dividida em classes isso não é possível, e as diferentes classes sociais produzem culturas diferentes e mesmo antagônicas. Por esse motivo é que as sociedades conhecem um fenômeno não existente nas pequenas comunidades: a ideologia. A ideologia é o resultado da imposição da cultura dos dominantes à sociedade como um todo. Ou seja, a cultura dos que dominam é aceita como cultura de todos. A ideologia é uma das formas pelas quais as sociedades históricas procuram passar a idéia de uma cultura única e de uma única história, ocultando as diferenças, a dominação, a manipulação, a discriminação e mesmo a exploração de uns homens sobre outros.

(1960: 52) a alienação é um conceito que define a condição de um ser que se encontra privado de sua essência, seja porque se encontre dela separado ou porque não realize plenamente a sua essência. Mas em sentido mais restrito, histórico e social, diz o autor que a alienação se refere ao estado do indivíduo, ou da comunidade, que não retira de si mesma, de seus fundamentos objetivos o seu rol de significações. Ou seja não extrai de seu próprio “mundo” a sua cosmovisão – para usar uma expressão gramsciana. A pessoa ou a comunidade alienada recebe os motivos, os determinantes com que constitui sua consciência passivamente de fora, de outros indivíduos ou comunidades – para os quais são válidos – e adota esses motivos e determinantes como se fossem seus, como se os tivesse elaborado estabelecendo significado a suas próprias experiências existenciais. Nesse estado o homem perde sua autonomia, sua capacidade criadora de si, material e culturalmente. É por isso que,

“a consciência alienada não se sente ligada à sua realidade autêntica ( a seu

ser nacional), à sua condição na sociedade, e sim se comporta como indiferente à sua realidade ou alheio a ela, e se transporta em pensamento a um mundo que não é o seu, ao qual passa a pertencer, adotando suas atitudes, seu estilo de vida, seus valores, etc. É a transferência imaginária do indivíduo para um mundo alheio, no qual vai buscar inspiração para seus atos e suas idéias desprezando o autêntico fundamento de sua realidade (que lhe parece pobre, feia, atrasada, suja, enferma, etc.)” (Pinto, 1960: 52).

Nessa situação, mesmo quando alguém é um reformador, suas pretensões de modificar a realidade estão amparadas em idéias e procedimentos que não foram elaborados a partir de seu próprio mundo e sim importados de realidades sociais e culturais alheias.

A forma como compreendemos a realidade da cidadania contemporânea e os direitos correspondentes ao status de cidadão, principalmente os direitos de 3ª geração, são dependentes das relações de poder vividas em situações relacionadas a classe, gênero, raça e política internacional. Contudo a manutenção e a expansão dos direitos de cidadania estão vinculados à luta pelo controle sobre as formas de poder características da sociedade

semiótica20. Já que muito do poder exercido na arena política é simbólico, a arena cultural é necessariamente espaço e meio de luta política. Como diz Gilbert,

“A cultura está profundamente implicada na forma como as relações sociais de dependência estão estruturadas nas formações de classe e gênero, bem como em outras formações; a cultura é analisada não apenas como uma forma de vida, mas também como uma forma de produção pela qual grupos dominantes e subordinados lutam para definir e compreender suas aspirações através da produção, legitimação e circulação de formas particulares de significado” ( 1995: 43).

Não estamos aqui reduzindo o político ao cultural, mas compreendemos que a luta política pelos significados e pelo conteúdo da expressão cultural é crucial para as relações de poder e conseqüentemente deve fazer parte da agenda de conquistas a serem alcançadas. Assim sendo torna-se elemento fundamental no processo educativo: a conquista dos bens simbólicos. O tornar-se sujeito do universo simbólico. Vencer, ultrapassar, a ideologia.