4 CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA DO PARQUE E O SEU ENTORNO
4.1 CONSIDERAÇÕES GERAIS
4.11.2 A Estrada do Colono
Recentemente fechada e destruída, a Estrada do Colono, como era chamada à antiga BR 163, que passou ao domínio estadual, recebendo a sigla PR 495, ligava as cidades de Capanema a Serranópolis do Iguaçu. A mesma cortava o Parque no sentido noroeste sudeste, na zona classificada pelo Plano de Manejo do Parque (IBAMA,1999), como zona primitiva, não destinada a esse tipo de utilização. A referida estrada caracterizava-se por uma faixa de desmatamento de 17,6 km de extensão, por 12 metros de largura (IBAMA, 2.000), possuindo o seu leito compactado e macadamizado, tendo o seu início no município de Serranópolis do Iguaçu e após percorrer 17,6 km dentro do Parque, chegava às barrancas do rio Iguaçu, onde a transposição era efetuada por uma balsa, que atravessava os veículos e transeuntes até o outro lado da margem do rio, no lugarejo conhecido como Porto Lupion, no município de Capanema (Fotografia 01, 02 e 03).
Segundo ROCHA (1987, p.04), a Estrada do Colono, originou-se de um antigo caminho indígena, um dos ramais sul caminho do Peabiru, usado pelos índios em suas migrações. O referido ramal era conhecido como Santo Antônio e teria passado mais ou menos no local onde hoje passa a mesma estrada.
FOTOGRAFIA 01 - ENTRADA DA ESTRADA DO COLONO NO PARQUE NACIONAL DO IGUAÇU MUNICÍPIO DE SERRANÓPOLIS DO IGUAÇU.
RICOBOM, A. E. 08.06.01
FOTOGRAFIA 03 – TRAVESIA DA BALSA ENTRE O PARQUE NACIONAL IGUAÇU E O PORTO LUPION EM CAPANEMA-
RICOBOM, A. E. 08.06.01
Quando da criação do Parque Nacional do Iguaçu em 1939 e sua ampliação em 1942, o caminho já existia e era utilizado por fazendeiros e posseiros nos seus deslocamentos. Em 1953, o Governo do Estado do Paraná transforma este caminho em estrada de colonização e porta de aceso dos colonos gaúchos para o oeste paranaense (ROCHA, 1987 p.18).
No mesmo ano de 1953, o Departamento de Estradas e Rodagem do Paraná (DER), executa as obras de ampliação (alargamento, compactação e macadamização) do referido caminho entre Medianeira até as barrancas do rio Iguaçu. (ROCHA, 1987 p.04 e 18).
Em 1954, o Governo do Estado do Paraná inclui a estrada na sua malha rodoviária com o prefixo de PR 495, com objetivo de ligar os centros produtores agrícolas e pecuários do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com os frigoríficos do oeste paranaense.
Até 1986, a estrada era mantida pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagem) do Estado do Paraná e pelos municípios de Medianeira e Capanema.
Segundo ROCHA (1987, p.18), com relação à manutenção da estrada
(...) a água que escoa da rodovia é lançada diretamente na mata, carregada de sedimentos, por canais abertos para este fim, ou diretamente nos cursos de água. O sucessivo trabalho das motoniveladoras sobre a estrada deixava em alguns lugares, pequenos taludes a descoberto, suscetível à erosão. O material retirado da estrada era normalmente lançado desordenadamente dentro da própria floresta.
Em julho de 1986, corre a notícia que o Governo do Estado do Paraná estaria prestes a asfaltar a estrada. Esta notícia foi um alerta para as entidades ecológicas existentes no Paraná que se mobilizaram e pressionaram o governo estadual para que o referido projeto de asfaltamento não se realizasse.
Neste mesmo ano, a Procuradoria Geral da República, com base nas denúncias públicas de ecologistas paranaenses, nos jornais e na mídia em geral, alertou para a eminência do asfaltamento de uma estrada no interior de uma Unidade de Conservação da Natureza (Patrimônio de domínio Público Federal).
Diante disto, o então Chefe da Procuradoria da República, doutor Antônio Fernando, entrou com uma Ação Civil Pública, junto à Justiça Federal, Secção Judiciária do Paraná, contra o antigo IBDF, hoje IBAMA, “por omitir-se no seu dever em preservar o patrimônio público do Parque Nacional do Iguaçu” (ROCHA 1987, p.18).
Segundo ROCHA (1987, p.19), em setembro de 1986, a Justiça Federal, acata e concede liminar, impedindo que a dita “Estrada do Colono” permanecesse aberta e ordena o uso da força policial para o seu fechamento.
A Policia Militar do Estado do Paraná acata a ordem e dias mais tarde da proferida sentença interditou a estrada. Logo após esta ação, chega a determinação do Governo do Estado do Paraná, para que a sua polícia, se retirasse imediatamente do local. (ROCHA, 1987, p.19).
Segundo o mesmo autor (1987, p.19), a partir daí, a Polícia Federal assumiu o controle da área e ficou terminantemente proibido qualquer acesso a esta estrada.
Começam então, as batalhas judiciais, entre o Governo do Estado do Paraná, que sob pressão de fazendeiros e políticos da região, tenta por consecutivas vezes cassar a liminar, sendo os pedidos negados pelo Tribunal Federal de Recursos.
Cria-se na região uma associação que trabalha para a reabertura definitiva da Estrada do Colono. Esta Associação foi denominada de (AIPOPEC) Associação de Integração Comunitária pró-Estrada do Colono, cujo logotipo está representado na figura 05.
AIPOPEC
Associação de Integração
Comunitária pró-Estrada do Colono
A Vida Passa Por Aqui!
FIGURA 05 – LOGOTIPO DA AIPOPEC
Em maio de 1997, a população local, de Capanema e Serranópolis do Iguaçu, revoltada com o fechamento da estrada e com a longa batalha judicial que já perdurava 11 anos sem uma decisão do Superior Tribunal Federal, ocupa a estrada e monta acampamento dentro do Parque (WURMEISTER e PARO, 2001, p.11).
Segundo as autoras acima (2.001, p.11), dezenove dias após a montagem dos acampamentos dentro do Parque, uma Liminar do Juiz Paim Falcão, do TRF (Tribunal de Recursos Federal), determina a reabertura da estrada. Em 19 de junho
de 1997, a referida liminar é revogada. A população concorda com a desocupação da estrada, até que o IBAMA apresente a revisão do novo Plano de Manejo do Parque.
Em novembro de 1998, a população cansada de esperar pela revisão do Plano de Manejo do Parque e alegando que o órgão, não cumpriu o acordo no prazo negociado, apoiados pela AIPOPEC, a população invade a estrada e a reabre para o tráfego, instituindo normas próprias de trafego. (fotografia 04).
FOTOGRAFIA 04 - PLACA DAS NORMAS DE TRAFEGO NA “ESTRADA DO COLONO”
RICOBOM A. E. 08.06.01
Começam aí as discussões nos meios de comunicação do Paraná e do Brasil, além das discussões nos meios ambientalistas internacionais, sobre a presença da ”Estrada do Colono” no Parque Nacional do Iguaçu.
A AIPOPEC contrata peritos para a elaboração de um laudo técnico de impacto ambiental que a estrada pode provocar no Parque. Os mesmos afirmam que “o impacto ambiental causado pela Estrada do Colono é menor que os danos
decorrentes da falta de preservação do entorno do parque” (PARO,2.000, p. 13).
Apesar das discussões, a estrada que corta o Parque permaneceu funcionando, mesmo sem que o IBAMA tenha concluído o plano de manejo ambiental para a área, possuindo um tráfego diário de aproximadamente 300 veículos (PARO, 2.000, p. 13).
Por outro lado, o atual ministro do Ministério do Meio Ambiente, declarou que a estrada fosse fechada enquanto o IBAMA não terminasse o referido plano de manejo, pois o mesmo recebeu neste ano de 1999, uma advertência de uma comitiva da UNESCO, informando da retirada do título de “Patrimônio Natural da Humanidade”, que o Parque recebeu desta entidade em 1986, se a estrada fosse oficialmente reaberta (REVISTA PARANÁ EM PÁGINAS, 1999, p.15).
Como não houve, por parte do Governo Federal, através do seu órgão gestor do Parque, o IBAMA, nenhuma iniciativa própria de fechamento da referida estrada, pois o processo corria no Tribunal Regional Federal, 4a. Região em Porto Alegre, a UNESCO em setembro de 1999, coloca o Parque na lista de “Patrimônios da Humanidade em Perigo”, e estipula um prazo de um ano, para que o Governo Brasileiro resolva o fechamento da dita estrada, caso contrário retirará o título concedido em 1986 de “Patrimônio Natural da Humanidade”.
Em 17 de janeiro de 2.000, a Juíza Marga Tessler, da 4a. Região do Tribunal Regional Federal de Porto Alegre ordena o fechamento definitivo da Estrada do Colono. A ordem não foi cumprida.
Em 14 de novembro de 2.000, o Supremo Tribunal Federal, anula o acórdão do Tribunal Regional Federal da 4a. Região de Porto Alegre, que mandava fechar a estrada e faz valer a Liminar de 1997, do Juiz Falcão, legalizando a abertura da referida estrada.
No dia 11 de junho de 2001, a Juíza Marga Tessler, expede nova determinação, obrigando o fechamento definitivo da estrada, pela Polícia Federal, a qual no dia 13 do mesmo mês, em uma mega operação com ajuda do Exército, envolvendo 350 homens armados, além de helicópteros, tratores e motoniveladoras, ocuparam a estrada, dinamitando a balsa que fazia a travessia do rio Iguaçu e removendo com máquinas o cascalho e o macadame da referida estrada, onde foram plantadas 20 mil mudas de espécies nativa (WURMEISTER, 2001, p. 5).
A ação revoltou os moradores da região, houve confrontos entre manifestantes locais e a polícia. Moradores ameaçaram retomar o controle da estrada, logo após o Exército e a Policia Federal deixarem o local, fato não ocorrido até a data de hoje.
A AIPOPEC entrou com recurso, contra o fechamento da referida estrada, dias mais tarde do seu fechamento, enquanto políticos locais fizeram reuniões com o Governador do Estado do Paraná em Curitiba e em Brasília com o ministro do Meio Ambiente, mas até o momento não se tem notícia de alguma alternativa ou revogação do fechamento.