• Nenhum resultado encontrado

A consolidação da sociedade de Informação, baseada no modelo capitalista, implicou no aumento exponencial de demandas produtivas, seja com a produção de bens seja na oferta de serviços, atingindo as relações jurídicas e sociais, centro da alienação social, como meio para se manter o ritmo do mercado de consumo, destacando-se, entre eles, como um dos fenômenos mais crescentes à técnica da obsolescência programada.

Mas, o que seria a obsolescência planejada? Entre outras palavras, é um termo que se refere a vida útil, ou valor de uso, de um objeto que em função do tempo e, no contexto econômico, está associado à depreciação. Ou seja, uma maneira de se trazer ao mercado artefatos, especialmente os tecnológicos, de modo que possam ser substituídos apressadamente por outro, com pequenas modificações, tornando seus antecessores obsoletos. (BAGGIO; MANCIA, 2008)

O termo surge no século XX, como parte uma estratégia para aumentar a lucratividade de empresas atingidas pelos efeitos da 2ª Guerra Mundial, o aquecimento do mercado representaria uma forma de sobrevivência de indústrias, que resistiram a inúmeras crises financeiras com o aumento de sua lucratividade. Considerando que produtos com duração prolongada não atendiam suas necessidades, inaugurou-se, dessa maneira, a era da descartalização e da obsolescência. (MAXIMO, 2016)

Com os reflexos da crise econômica de 1929, Bernard London em 1932, objetivando impulsionar a economia, propôs tornar obrigatória a obsolescência programada a todos os produtos consumíveis, propondo a criação de uma agência estatal, responsável por retirar do mercado (confiscar) produtos que tenham atingido o prazo de sua vida útil que, da mesma forma, seria estabelecida pelo governo, embora estes artigos ainda funcionem. (LÓPEZ, 2012)

London comparou as situações de crise com os períodos de equilíbrio financeiro. Na primeira, o consumidor demonstra-se retraído e deixa de movimentar a economia, pois evita consumir, utilizando seus objetos por um período demasiadamente mais longo; na segunda hipótese, o consumidor não mostra resistência em consumir substituindo seus produtos antes de que não lhe sejam mais úteis ou simplesmente por não estarem de acordo com o que é considerado atual. (CORNETTA, 2016)

A obsolescência planejada serviria para a criação de receita para diversos setores: “[...] o governo, por meio dos impostos; os fabricantes, pela receita da venda de novos produtos; e as pessoas, com a garantia dos salários” (CORNETTA, 2016, p. 36), o que garantiria a previsão de receitas e o seu planejamento, já que previamente definida a vida útil dos produtos. Os consumidores “venderiam” os produtos obsoletos para uma agência governamental e com o valor recebido, adquiririam novos artigos e o que optasse pela manutenção do objeto ultrapassado arcaria com uma taxa pelo uso do bem. (CORNETTA, 2016)

A ideia de London não foi bem-aceita na época e considerada obscura, sendo que a maioria dos empresários não fez uso desta estratégia. Entretanto, em 1924 a

utilização desta técnica deu-se quando um grupo de fabricantes de lâmpadas, conhecido como cartel S.A. Phoebus, atuante nos EUA e na Europa, fizeram com que as lâmpadas por eles produzidas, tivessem seu ciclo de vida reduzido mais da metade (vida útil de 1000 horas, contra 3000 horas anteriormente produzidas), motivo que levava a substituição destes artefatos com maior frequência. Fato é, que a tecnologia da época, permitia a montagem de lâmpadas com vida útil prolongada, sendo que Thomas Edison em 1881, as criou com capacidade superior a designada pelo grupo (1500 horas). (ARAÚJO; CONCEIÇÃO, 2014)

Em 1950, Brooks Steven, designer industrial, retomou sua prática e a defendia com convicção. Segundo Steven os consumidores são livres e conscientes, tendo total liberdade de adquirir ou não os produtos disponíveis no mercado, independentemente da vida útil destes. (BRAGA, 2012)

Nas palavras de Julio Gonzaga A. Neves (2013, p. 04, grifo do autor)

Nos anos 50, a obsolescência programada tem uma substancial mudança qualitativa nas mãos de um afamado designer industrial norte-americano chamado Clifford Brooks Stevens. A proposta de Brooks Stevens diferia daquela do Phoebus e de London pela causa

da obsolescência, que passava a residir não no produto em si ou na

lei, mas na vontade do comprador. A síntese da sua teoria se resumia no “desejo do consumidor de ter algo um pouco mais novo, um pouco melhor, um pouco antes do que seria necessário”, inaugurando em grande medida o american way of life que tanto seduziu (e seduz, ainda) consumidores mundo afora.

Pode-se afirmar que todo objeto possuí uma data de validade, que define sua vida útil e o tempo pelo qual este produto atingirá o propósito para que foi constituído. A utilidade é definida por um conjunto amplo de fatores, que permeiam desde a sua formação física e a qualidade dos materiais utilizados, sua utilidade funcional e sua eficiência em satisfazer as necessidades, ou manutenção e conservação do objeto. (NEVES, 2013)

Como declara Omar Antônio Vega (2012, p. 04),

Es de anotar que la vida útil de los equipos de cómputo se acorta con el aumento acelerado de la oferta de nuevos equipos, y se relaciona con la Ley, aunque haya perdido su efecto original con la evolución tecnológica. Entonces, puede notarse que no siempre se considera la

vida útil verdadera, debido a que la denominada obsolescência artificial lleva a considerar un dispositivo obsoleto aún sin serlo. 8 Todos os produtos assim que passam pela linha de produção já possuem sua vida útil estimada, com o ciclo de duração pré-definido, podendo ser mais curto ou mais longo, mas que sempre é reduzido, o que se evidencia pelo excesso de oferta no mercado de consumo, um grande leque de opções disponíveis ao consumidor, direcionada pela sede de vendas dos fabricantes. (FRANCO, 2014)

Nessa esfera, a obsolescência planejada, representa uma técnica muito utilizada pelos produtores, que atinge não somente a redução da vida útil dos produtos em razão da má qualidade em sua composição, acarretando na deficiência funcional, mas, representa, do mesmo modo, a capacidade de bem atender à necessidade que demanda seu uso (atitude mental do consumidor). (BATISTA,2016)

Nas palavras do Ministro do STJ Luis Felipe Salomão:

Nessas circunstâncias, é até intuitivo imaginar que haverá grande estímulo para que o produtor eleja estratégias aptas a que os consumidores se antecipem na compra de um novo produto, sobretudo em um ambiente em que a eficiência mercadológica não é ideal, dada a imperfeita concorrência e o abuso do poder econômico, e é exatamente esse o cenário propício para a chamada obsolescência programada. (STJ, REsp 984106/SC, Rel. Ministro LUIS FELIPE SALOMÃO, QUARTA TURMA, julgado em 04/10/2012, DJe 20/11/2012).

Um exemplo muito interessante do uso desta técnica é nos aparelhos de telefone smartphones, que possuem em sua maioria preços elevadíssimos, prometem ter uma vida útil considerável, e facilitar a vida do proprietário. Entretanto, ano após ano novos modelos são lançados no mercado, com mínimas modificações, se comparados aos seus antecessores, detalhes são trazidos como inovações, para despertar o interesse do consumidor, que não mais se contenta com o seu antigo aparelho, que é considerado de certa forma ultrapassado.

8 Tradução livre: “Ressalta-se que a vida útil dos equipamentos de informática é encurtada pelo aumento acelerado no fornecimento de novos equipamentos, e está relacionada à Lei, embora tenha perdido seu efeito original com a evolução tecnológica. Então, pode-se notar que a vida real nem sempre é considerada, porque a chamada obsolescência artificial leva a considerar um dispositivo obsoleto mesmo que não seja”.

Outro ponto intrigante, resultado do uso deste instituto, é o fato dos aparelhos “ultrapassados”, perderem seu valor de mercado. Não só aqueles já adquiridos, que perdem significativamente mais seu valor, mas, também, aqueles produtos novos, ainda lacrados, possuem seu preço de mercado reduzido, quando do lançamento de um novo produto similar. Pode-se afirmar que muitos são os casos em que limitações são inseridas propositalmente, as quais são supridas, assim como um milagre, por uma nova versão do mesmo aparelho. (BATISTA,2016)

Fato é, que os produtores encontraram, assim, outra forma de reduzir o tempo de usabilidade de seus produtos, impulsionando, assim, a aquisição de novos aparelhos, pelos consumidores que buscam ter suas necessidades atendidas. Afinal de contas, um cliente totalmente satisfeito não adquire novos produtos.