2. PAPEL DETERMINANTE DO OLHAR
2.1. A existência do outro
Sartre busca, então, um modo pelo qual o Outro se nos apresente como sujeito com a marca da evidência irrefutável. Ele acredita encontrar este meio na experiência do olhar, pela qual a consciência percebe-se como objeto da atenção do outro, que o petrifica com a sua presença. Dita vivência não é cognitiva, pois aborda uma modalidade da presença do Outro que não é objetiva nem, portanto, meramente provável. Sartre chama esta relação fundamental de ser-Para-outro. Percorrendo uma minuciosa análise fenomenológica, o existencialista francês
descobre e postula: “se o outro-objeto define-se em conexão com o mundo como objeto que vê o que vejo, minha conexão fundamental com o outro-sujeito deve poder ser reconduzida à minha possibilidade permanente de ser visto pelo outro.” (SN, p. 331). Nesta “experiência dialética” não há possibilidade de uma relação nem de sujeito-sujeito nem de objeto-objeto. Dependendo do ato de olhar ou de ser olhado, a consciência percebe-se empiricamente a si mesma como sujeito diante de um objeto ou como um objeto diante de um sujeito. De Sartre: “se apreendo o olhar, deixo de perceber os olhos” (SN, p. 333).
2.1.1. A existência objetiva do Outro
A certeza fenomenológica da existência do Outro é algo que fica fora de toda dúvida. A objetividade da consciência alheia é uma modalidade verdadeira da presença do Outro para mim. Sartre oferece o seguinte exemplo: “Esta mulher que vejo andando em minha direção, este homem que passa na rua, esse mendigo que ouço cantar de minha janela são objetos para mim, sem a menor dúvida.” (SN, p. 326). Porém, está claro que a certeza ontológica da existência do Outro não “permanece meramente conjetural”. Assim o expressa em O Ser e o Nada:
Ora, não é somente conjetural, mas provável, que esta voz que ouço seja a de um homem e não o canto de um fonógrafo, é infinitamente provável que o transeunte que vejo seja um homem e não um robô aperfeiçoado. Significa que minha apreensão do outro como objeto, sem sair dos limites da probabilidade e por causa desta probabilidade mesmo, remete por essência a uma captação fundamental do outro, na qual este já não irá revelar-se a mim como objeto, e sim como “presença em pessoa”. (SN, p. 327)
Nas teorias clássicas, tanto realistas como idealistas, o problema da alteridade tem sido encarado geralmente como se a relação primeira, pela qual o outro se revela, fosse a objetividade. Então, o outro se revelaria primeiro a nossa percepção e logo, por uma espécie de intuição obscura e inefável, se atingiria a subjetividade do outro, que seria uma espécie de númeno kantiano (Cf. SN, p. 327). O idealismo soa mais simpático, aos ouvidos de Sartre, quando estabelece uma relação fundamental e direta da minha subjetividade com a do outro sujeito. Essa relação seria do mesmo tipo de meu ser-Para-outro. Entretanto, ele não concorda com que dito contato imediato seja alguma experiência mística ou algo
inefável, pois é na realidade cotidiana que o outro nos aparece e sua probabilidade se refere à existência cotidiana. Assim, Sartre precisa ainda mais o foco do problema solipsista: “será que existe na realidade cotidiana uma relação originária com o outro que possa ser constantemente encarada e, por conseguinte, possa me ser revelada fora de toda referência a um incognoscível religioso ou místico?” (SN, p. 328). Para responder essa questão, Sartre recorre a algumas análises fenomenológicas que tentam revelar a relação certa da própria consciência com a do Outro.
Primeiro, descreve a própria presença num jardim público. Nele tem gramado, assentos e um homem que passa perto. Esse homem é captado como objeto entre os demais objetos. Por isso, a existência do Outro conserva um puro caráter de probabilidade:
...primeiro, é provável que este objeto seja um homem; segundo, mesmo na certeza de que se trate de um homem, permanece somente provável que ele veja o gramado no mesmo momento que eu o percebo: pode estar pensando em outra coisa, sem tomar consciência nítida do que o cerca, pode ser cego, etc. (SN, p. 329) A mera probabilidade da existência do Outro já o torna um centro de referência autônomo dentro do meu mundo percebido. Aqui surge uma primeira ameaça à minha subjetividade e ao meu controle das coisas que me rodeiam. A presença alheia faz com que se produza uma brecha no meu campo de experiência que me é desconhecido, justamente porque se trata de outra consciência que vê a totalidade de forma diferente da minha.
2.1.2. O escoamento interior
A aparição desse homem no meu universo tem o caráter de uma fuga e de uma desintegração. Mesmo que seja apenas provável que o outro esteja vendo as coisas do meu espaço, isso já significa que as coisas do mundo devem estar relacionadas com ele também. A estátua, o castanheiro, o gramado, etc., se reagrupam em relação a esse novo observador. Dou-me conta que todos os objetos que povoam meu universo me escapam e escoam em direção a ele. Agora se convertem em seres-Em-si referenciados a ele. Assim, de súbito, apareceu um objeto-homem que me roubou o mundo. Sartre descreve essa experiência como se
o mundo tivesse “uma espécie de escoadouro no meio do seu ser”, onde todas as coisas escorregassem perpetuamente através desse orifício. Todavia, esse homem e o fato do escoamento desintegrador continuam sendo objetos do meu universo, pois tudo isso está aí para mim. Por isso, trata-se de um escoamento puramente virtual. Mas não deixa de ser uma experiência forte de fuga rigorosamente consolidada e localizada. Sartre diz que esse tipo de objetividade particular tem muito a ver com o que Husserl designava como “ausência” (Cf. SN, p. 331). Contudo, ele também afirma que esta relação de fuga e ausência do mundo com relação a mim é apenas provável.
Dita relação de fuga e ausência remete a um Outro-objeto-provável. Agora, Sartre deduz que tal objetividade implica necessariamente uma subjetividade, um Outro-sujeito. Assim, ele raciocina:
...se o outro-objeto define-se em conexão com o mundo como objeto que vê o que vejo, minha conexão fundamental com o outro- sujeito deve poder ser reconduzida à minha possibilidade permanente de ser visto pelo outro. É na revelação e pela revelação de meu ser objeto para o outro que devo poder captar a presença de seu ser-sujeito. Porque, assim como o outro é para meu ser-sujeito um objeto provável, também só posso descobrir- me no processo de me tornar objeto provável para um sujeito certo. (SN, p. 331)
Sartre vislumbra aqui a existência ontologicamente certa de um sujeito-outro. De fato, o outro não pode ser um objeto que me veja como outro objeto, pois só um sujeito pode perceber um objeto e conhecê-lo. Então, se eu tenho a certeza fenomenológica de que sou um objeto para o Outro, não tem outra possibilidade senão conceder a esse Outro a qualidade de ser sujeito com existência certa e não mais provável. Ele afirma: “Sublinhei que eu não poderia ser objeto para um objeto: é necessária uma conversão radical do outro, que o faça escapar à objetividade.” (SN, p. 331).
Como sujeito que conhece o mundo, eu sou o princípio pelo qual tudo existe, isto é, me experimento como subjetividade certa. Mas a minha experiência de ser- Em-si, quer dizer, de ser objetividade, também é um fato evidente. Essa experiência não pode resultar para mim da objetividade do mundo. Só pode provir de um Outro-sujeito que me faz experimentar que sou visto por ele. Com efeito, se percebo que o Outro-objeto é um homem, devo também admitir que ele é um
homem que se define com relação ao mundo e com relação a mim. Para Sartre, “é este objeto do mundo que determina um escoamento interno do universo, uma hemorragia interna; é o sujeito que a mim se revela nesta fuga de mim mesmo rumo à objetivação. (...) Se o outro é, por princípio, aquele que me olha, devemos poder explicitar o sentido do olhar do outro.” (SN, p. 332).