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A objetivação do Outro

No documento A SUPERAÇÃO DO SOLIPSISMO EM SARTRE (páginas 51-55)

2. PAPEL DETERMINANTE DO OLHAR

2.3. O papel petrificador do Olhar do Outro

2.3.3. Uma nova ameaça do solipsismo

2.3.3.6. A objetivação do Outro

Sartre diz que é “a partir desta presença a mim do outro-sujeito, na e por minha objetividade assumida, que podemos compreender a objetivação do Outro como segundo momento da minha relação com o Outro.” (SN, p. 366). Reconhecendo o meu ser-Para-outro como meu ser-Objeto, posso ainda recuperar a mim mesmo como livre ipseidade. Nada pode limitar-me a não ser a alteridade. Todavia, se eu assumir isso livremente eu me faço também responsável pela existência do Outro: “sou eu, pela afirmação de minha livre espontaneidade, que faço com que haja um Outro, e não simplesmente uma remissão infinita da consciência a si mesmo.” (SN, p. 367). Neste estágio, o Outro já não me transcende sugando meu ser até ele e petrificando-me. Agora, o Outro depende de mim e me aparece como alteridade ou presença degradada. Para isso, é necessário sair do estado afetivo do medo, orgulho ou vergonha, para encarnar uma motivação mais autêntica ou de boa fé, como ele diz.

O medo, por exemplo, presume que eu apareça a mim mesmo como ameaçado e não me deixa ser responsável de que haja um mundo e que eu não me arruíne nele. O medo faz ressaltar a minha objetidade sujeita a possíveis que não são os meus. Devo arremessar-me em direção às minhas próprias possibilidades para superar o medo. Isso requer considerar a minha condição de ser-visto ou petrificado como não essencial. Para isso, devo me apreender como responsável pelo ser do outro. Segundo o autor, reconquistar o meu ser-Para-si como centro de irradiação perpétua de infinitas possibilidades requer transformar as possibilidades do Outro em mortipossibilidades (Cf. SN, p. 368), impregnando-as com o caráter de não-vivido-por-mim, ou seja, de algo simplesmente dado.

A vergonha, de modo análogo, é o sentimento original de ter meu ser do lado

de fora, dependente e comprometido por outro ser. É a experiência de estar caído

no mundo e necessitar da mediação do Outro para ser o que sou. A nudez simboliza a nossa objetidade sem defesa: “Vestir-se é dissimular sua objetidade, reclamar o direito de ver sem ser-visto, ou seja, de ser puro sujeito.” (SN, p. 369). Para vencer a vergonha é necessário compreender o pensamento ou o Olhar do Outro como reduzido a uma interioridade relativa, que não interfere nem interessa ao que eu sou e quero ser. O conhecimento que o Outro tem de mim já não me atinge nem me importa, pois se trata de uma imagem de mim, nele. Assim, a subjetividade alheia se degrada de possibilidades a propriedades desgastadas e objetivas. Só assim eu posso vencer a vergonha e reforçar a minha consciência de “ser-eu-mesmo”.

O orgulho é uma reação de má fé diante da vergonha. Para ser orgulhoso de

ser isto é necessário primeiramente que tenha me resignado a não ser mais que isto. Isso envolve uma certa fuga às minhas possibilidades e não me ajuda a deixar

de ser objeto frente ao Outro, a quem tento “afetar” com a minha objetidade. Eis o falso orgulho ou vaidade: querer chamar a atenção do Outro a partir da própria aparência. Para livrar-me disso é necessário ter um reto orgulho: afirmar a minha liberdade frente ao Outro e apreender-me como projeto livre pelo qual o Outro chega a ser-outro. Quer dizer, se eu assumo a responsabilidade de que o Outro possa crescer nas suas possibilidades, então eu me faço mais autêntico e não temo ditas possibilidades alheias, pois eu as quero ver realizadas.

medo e orgulho para motivar-me a constituir o Outro como objeto e deixar de vê-lo como sujeito fora de alcance. Chegando a esse ponto, o Outro não se petrifica nem se transforma num ser-Em-si, conforme explana o autor: “Este Outro-objeto que de repente me aparece não permanece como pura abstração objetiva. Surge diante de mim com suas significações particulares. Não é somente objeto cuja liberdade é uma propriedade como transcendência transcendida.” (SN, p. 372). Trata-se de uma realidade contemplada e transcendida rumo a meus próprios fins, mas diante da qual estou comprometido e vinculado. Não estou, na verdade, diante de um simples objeto, mas perante Outro que é alguém para mim. Eu faço com que ele

seja no meio do mundo.

A diferença de princípio entre o Outro-sujeito e o Outro-objeto consiste unicamente em que o Outro-sujeito não pode ser conhecido de forma alguma e, por isso mesmo, não existe um possível problema do conhecimento do Outro-sujeito. Donde provém a certeza de sua existência para evitar o perigo do solipsismo? Segundo Sartre: “o ideal do conhecimento do Outro permanece como a explicitação exaustiva do sentido do escoamento do mundo.” (SN, p. 374). Tal escoamento radical do meu mundo produz também a minha objetidade, a minha petrificação e esvaziamento da minha dimensão subjetiva. Experimentando-me como ser-Em-si é que percebo a existência necessária do Outro, apreensão que se faz “de relance” (SN, p. 374). É também de forma tangencial, mas evidente, que posso atingir o Outro como objeto, enquanto volto a captá-lo como totalidade-objeto co-extensiva à totalidade do mundo.

Essa percepção tangencial se produz em relevo como formas sobre o fundo de mundo. Sartre propõe o seguinte exemplo para explicar esse fato:

À volta deste homem que não conheço e está lendo no metrô, o mundo inteiro está presente. E não é apenas seu corpo – como objeto no mundo – que o define em seu ser: é sua carteira de identidade, é a linha do metrô que ele tomou, é o anel que tem no dedo. (...) Se somente sei que ele é no meio do mundo, na França, em Paris, lendo um livro, apenas posso supor que se trata de um estrangeiro, caso não veja sua carteira de identidade. (...) Contudo, esta carteira de identidade está dada a mim, por princípio, no meio do mundo. (SN, p. 374-375)

A partir dessa perspectiva, o Outro não é mais um objeto do mundo, mas um centro de referência autônomo e intramundano. Contudo, está sob controle, porque forma parte do meu mundo. Segundo Sartre, essa é a única “defesa” que posso

apresentar para sair da minha objetidade:

...fazer com que o Outro compareça frente a mim a título de tal ou qual objeto. A esse título, ele me aparecerá como um “este”, ou seja, sua quase-totalidade subjetiva se degrada, tornando-se totalidade-objeto co-extensiva à totalidade do Mundo. Esta totalidade revela-se a mim sem referência à subjetividade do Outro: a relação entre o Outro-sujeito e o Outro-objeto revela-se a mim pelo que é, e não remete senão a si mesmo. Simplesmente, o Outro-objeto é tal como me aparece, no plano da objetidade em geral e em seu ser-objeto; sequer é concebível que eu possa referir um conhecimento qualquer que tenha dele à sua subjetividade, tal como a experimento por ocasião do olhar. (SN, p. 377).

Dentro desta “dialética do outro”, como Sartre a chama, não há possibilidade de instalação ou acomodação. Não é fácil cuidar que o Outro seja sempre objeto para mim. Em qualquer momento, os seus olhos se tornam um Olhar novamente e me petrificam mais uma vez. Assim, sou remetido uma e outra vez “de transfiguração à degradação e da degradação à transfiguração” (SN, p. 378), sem poder jamais formar uma visão de conjunto desses dois modos de ser do outro. De fato, cada um deles basta a si mesmo e só remete a si mesmo, porque cada um tem instabilidade própria e desmorona-se para que o outro surja de suas ruínas.

No documento A SUPERAÇÃO DO SOLIPSISMO EM SARTRE (páginas 51-55)