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A EXPANSÃO DA CULTURA DO TRIGO NO CERRADO

No documento [Anais...]. (páginas 77-80)

Julio Cesar Albrecht1

Pesquisador da Embrapa Cerrado em Melhoramento Genético de Trigo

O trigo é um dos cereais mais produzidos no mundo. Graças ao seu aprimoramento genético, possui atualmente uma ampla adaptação edafoclimática, sendo cultivado desde regiões com clima desértico, em alguns países do Oriente Médio, até em regiões com alta precipitação pluvial, como é o caso da China e Índia.

No Brasil pode ser cultivado desde a região Sul do país até o cerrado, no Brasil Central. A região tritícola do Brasil Central abrange as áreas do cerrado localizadas nos Estados da Bahia, de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal. Seu clima apresenta condições favoráveis e caracteriza-se pela existência de duas estações bem definidas: uma chuvosa e quente e outra seca, com temperaturas mais amenas. Assim permite o cultivo de trigo nos sistemas irrigado e sequeiro “safrinha”, viabilizando duas safras/ano em rotação de cultura, além de otimizar o uso da infra-estrutura disponível, e proporciona, como resultado, a redução dos custos das culturas de verão e o aumento da renda da unidade produtiva.

O cultivo de sequeiro, semeado em fevereiro e março, é de alto risco, pois o potencial de rendimento de grãos está associado à quantidade de chuvas que ocorrerão durante o ciclo da cultura. O trigo nesse cultivo é uma das culturas que melhor cobertura de solo deixa para o sistema plantio direto no Cerrado brasileiro, melhorando portanto a sustentabilidade do sistema agrícola, através da melhoria na retenção de água no solo e de sua fertilidade.

O trigo da safrinha é colhido na entre safra brasileira e Argentina. O que é interessante sob o ponto de vista de mercado, porque garante ao produtor melhor preço e consequentemente melhor renda. Em regiões marginais da Ásia e África, semelhantes ao cultivo de sequeiro no cerrado, o trigo é a melhor opção.

No cultivo irrigado, semeado em abril e maio, por pivô central, o trigo é uma ótima opção no sistema de rotação de culturas, uma vez que o trigo ”quebraria” o ciclo das chamadas “cash crops”, como é o caso do feijão e de algumas olerícolas como alho, cebola, cenoura e batata. A vantagem desse cultivo é que os riscos são mínimos. O potencial de rendimento de grãos é elevado, sendo um determinante importante na lucratividade da lavoura de trigo irrigado.

A pesquisa liderada pela Embrapa vem redirecionando seus objetivos no sentido de compatibilizar as demandas da industria moageira da região com o trigo produzido pelo agricultor. As cultivares criadas pela Embrapa, Embrapa 22, Embrapa 42, BRS 207 e BRS 210 indicadas para cultivo irrigado e BR 18 e Embrapa 21 para cultivo de sequeiro, estão disponíveis no mercado atualmente, e algumas delas como a Embrapa 22, Embrapa 42 e BR 18 possuem qualidade industrial excelente para a panificação, nos mesmos padrões de qualidade dos trigos importados. As cultivares BRS 207, BRS 210 e Embrapa 21 possuem qualidade industrial excelente para fabricação de massas, pão doméstico e biscoitos. Em 2006, a Embrapa lançará duas novas cultivares para o sistema irrigado da região, BRS 254 e BRS 264. Cultivares com alto potencial de rendimento de grãos e excelente qualidade industrial para panificação.

Nas safras 2003, 2004 e 2005 no cultivo irrigado, houve vários triticultores que obtiveram rendimentos de grãos superiores a 7 toneladas/ha utilizando a cultivar

BRS 207. Com a utilização do redutor de crescimento (trinexapac-ethyl) nas cultivares Embrapa 22 e Embrapa 42, os produtores tem alcançado rendimentos de 6 toneladas de grãos/ha. Entretanto a média da região está em torno de 5 toneladas/ha. No cultivo de sequeiro a média é de aproximadamente 1,5 toneladas/ha, as melhores produtividades podem chegar até 3,0 toneladas/ha, em anos que a chuva se estende até finais de abril.

Para a expansão da cultura do trigo no cerrado, há necessidade da pesquisa com o uso da moderna tecnologia, desenvolver maior número de cultivares, pelo uso de marcadores moleculares, mapeamento molecular de genes, aumento da diversidade genética e aprimoramento na técnica de obtenção de genótipos duplo- haplóides. A produção de linhagens “Duplo-haplóides”, reduziu o tempo de criação de novas linhagens de trigo para apenas dois anos. Isso representou um aumento na produção de linhagens para testes visando a indicação de novas cultivares e, também representou maior rapidez na incorporação de novos genes de resistência ou qualidade em cultivares adaptadas. Além do melhoramento a pesquisa deve também aprimorar o manejo do sistema de produção.

Para o sistema irrigado, novos trigos continuam a ser desenvolvidos, anualmente. A melhoria da resistência, do potencial de rendimento de grãos e da qualidade, em novos “ideotipos” de planta, adaptados às condições do cerrado, estão sendo buscados pela pesquisa. Estão sendo desenvolvidas novas linhagens contendo o gene de nanismo (Rht). Este gene diminuí a altura das plantas, tornando os genótipos mais resistentes ao acamamento, mesmo em doses maiores de nitrogênio. Estas novas linhagens tem potencial para produzir em torno de 8 toneladas de grãos por hectare a nível de lavoura. O trigo de sequeiro, como é um cultivo de risco, não permite altos investimentos. Com um rendimento de grãos bem abaixo do irrigado, necessita que a pesquisa desenvolva um pacote tecnológico com cultivares rústicas e tolerantes à seca, eficientes em retirar nutrientes do solo e mais resistentes às doenças fúngicas, principalmente a bruzone. Estes cultivares, aliados à um manejo menos oneroso, diminuiria os custos de produção, garantindo um rendimento, que embora menor que o irrigado, garanta uma rentabilidade ao triticultor.

Nas últimas safras a área semeada com trigo na região, foi em torno de 50 mil hectares no regime irrigado e aproximadamente 15 mil hectares no sequeiro. No curto prazo podemos atingir facilmente uma área de mais de 120 mil hectares somadas as lavouras em regime irrigado e de sequeiro. A região produziria mais de 700 mil toneladas de trigo anualmente, colhido em uma época de escassez de trigo no mercado, de junho a setembro, e quando os preços de mercado geralmente estão com os valores máximos durante o ano.

O Cerrado do Brasil Central tem um grande potencial para a expansão da triticultura nacional. Além, de contar com grande disponibilidade de área viável para o cultivo do trigo, possui um parque industrial instalado com potencial de expansão. A região possui uma capacidade nominal de moagem da ordem de 1,6 milhões de toneladas-ano, distribuída em 14 unidades industriais, abastecida praticamente por trigo importado da Argentina e dos estados do Paraná e Rio Grande do Sul.

Em termos de área, para as condições de sequeiro o potencial de expansão é de 2 milhões de hectares, localizadas em altitudes superiores a 800 metros. Áreas com irrigação via pivô central já somam 300 mil hectares, com potencial de expansão, para chegar a 2 milhões de hectares, em áreas com mais de 500 metros de altitude. Portanto, a região poderia produzir em torno de 6 milhões de toneladas de trigo, 60% da demanda do mercado de trigo no Brasil, que atualmente está em

torno de 10 milhões de toneladas. Atualmente, a produção brasileira representa apenas 50% dessa demanda interna.

A vantagem da produção de trigo do cerrado é a estabilidade em termos de quantidade e qualidade industrial, pois nas condições irrigadas as variações de rendimento de grãos são pequenas e o trigo é colhido no período seco e na entre safra. A região poderia funcionar como reguladora de estoques e uma exportadora de trigo para outros estados e também para outros países.

O consumo per capita anual de trigo também tem potencial para uma maior expansão no Brasil. O consumo de trigo no país apresenta crescimento vegetativo, evoluindo à taxa de aumento da população, equivalente a 100 mil toneladas anuais. No Brasil, o consumo “per capita” de trigo em grão é de 53 quilos por habitante-ano, enquanto na Argentina é de 91 kg, na França 100 kg e no mundo 85kg. O consumo per capita de pão no Brasil é de 27 quilos por habitante-ano, considerada baixa pela organização Mundial da Saúde que tem como meta 60 kg. Na Argentina, o consumo “per capita” de pão é de 73 kg, na Itália de 60 kg, e na França 56 kg.

Para um projeto de expansão da cultura do trigo na região do cerrado brasileiro, são as seguintes as principais justificativas:

- O Brasil é um dos maiores importadores de trigo;

- Gastos de divisas com importação, equivalentes a um bilhão de dólares; - Apoio a política de geração de emprego e renda;

- Otimização do uso de tecnologia e infra-estrutura disponível; - Consumo nacional em expansão;

- Aumento e regularidade da oferta na região central do país; - O trigo é produzido na entre safra do trigo brasileiro e Argentino;

- Capacidade instalada de processamento industrial de 1,6 milhão de toneladas/ano

- Sustentabilidade econômica do produtor pelo cultivo de duas safras/ano; - Defesa ambiental e sanitária pelo uso de plantio direto e rotação de culturas; - Redução dos custos de produção dos cultivos de verão.

No documento [Anais...]. (páginas 77-80)

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