Marta Aguiar Sabo Mendes1, Vera L. A. Marinho1, Maria Regina V. Oliveira1,Renata C. V. Tenente1, Maria de Fátima Batista1, Olinda Maria Martins1, Abi S. A. Marques1, Denise Návia1 & Arailde F. Urben1
1 Pesquisadores. Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, CEP 70.770-900, Brasília, DF, e- mail: [email protected]
A maioria dos produtos que fazem parte da alimentação dos brasileiros, como o arroz, o feijão, o trigo e o milho são de origem exótica, embora o Brasil seja o país detentor da maior biodiversidade do mundo (cerca de 20%). A introdução de germoplasma vegetal no país é um processo dinâmico utilizado para se obter variedades mais produtivas, resistentes a pragas e adaptadas às nossas condições edafoclimáticas. Esta atividade permitiu que, nas últimas décadas, o país passasse da condição de importador para exportador de diversos produtos, como por exemplo soja, milho, ervilha, noz-moscada, canela, pimenta-do-reino, forrageiras, espécies florestais, frutíferas e hortaliças. No entanto, a introdução não controlada desse germoplasma vegetal, pode acarretar a entrada espécies invasoras exóticas - EIE ou pragas quarentenárias no país.
Visando minimizar estes riscos a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia realiza quarentena de todo germoplasma vegetal introduzido destinado ao Sistema Nacional de Pesquisa Agrícola - SNPA, sob legislação específica, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – MAPA, de acordo com o Decreto No 24.114 de 12 de abril de 1934 e de Portarias Complementares, entre elas a de No 224 de 3 de maio de 1977. A Portaria No 11 de 15 de fevereiro de 2002, credencia a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia como Estação Quarentenária nível I, para os procedimentos legais exigidos para a introdução de material propagativo no país.
O material vegetal ao entrar na Estação Quarentenária de Germoplasma Vegetal é, analisado nos seus seis Laboratórios (Acarologia, Entomologia, Bacteriologia, Micologia, Virologia e Nematologia) com a emissão do Laudo Fitossanitário. Após esse procedimento, cabe às Superintendências Federais de Agricultura nos Estados (SFA), a liberação ou não do material apreendido, baseada nas informações técnicas contidas no Laudo Fitossanitário.
Este trabalho tem como objetivo descrever as metodologias e resultados das análises fitossanitárias realizadas pela Estação Quarentenária de Germoplasma Vegetal.
Metodologias específicas são empregadas para detecção e/ou identificação de pragas no material intercambiado:
Acarologia: Observação direta sob microscópio estereoscópio; observação
visual com o uso de refletor com lente de aumento e peneiramento de sementes. Identificação: Características morfológicas (bibliografia especializada).
Entomologia: Observação direta sob microscópio estereoscópio;
observação visual com o uso de refletor com lente de aumento. Identificação: Características morfológicas (bibliografia especializada).
Bacteriologia: plantio de sementes em solo esterilizado ou em rolo de papel
germinador, lavagem das sementes e plaqueamento em meios seletivos, sorologia (ID, IF, ELISA), testes fisiológicos e bioquímicos, testes moleculares (PCR) e biotestes.
Virologia: plantio de sementes em solo esterilizado, uso da microscopia
eletrônica, testes de sorologia (ID, ELISA), PCR, RT-PCR, Nucleic Acid Spot Hybridisation (não radioativo NASH) e Electroforese (R-PAGE).
Nematologia: Exame direto sob microscópio estereoscópio, técnica da
bandeja Whitehead, centrifugação de Jenkins, técnica da trituração de raízes ou de sementes, Elutriação de Fenwick, técnica do balão, técnica do papel germinador e funil de Baermann. A identificação é feita através das características morfológicas, morfométricas e fisiológicas ou pelas características de DNA ribossomal (algumas espécies de Ditylenchus)
Micologia: Exame direto sob microscópio estereoscópio, lavagem e
sedimentação, incubação em meio de cultura e plaqueamento em papel de filtro (“Blotter test”). Identificação: Características morfológicas e fisiológicas (bibliografia especializada).
Tratamento para controle e/ou erradicação de pragas em germoplasma vegetal
Todo germoplasma intercambiado na forma de sementes é submetido à fumigação com fosfeto de alumínio (fosfina) por uma ou mais vezes, para a erradicação de insetos e ácaros.
Os produtos contaminados com as demais pragas exóticas, ou de propagação vegetativa, foram submetidos a tratamentos térmicos, químicos e/ou cultura de tecidos, visando à erradicação da praga detectada, dependendo da raridade do produto. Em caso que não tenha sido possível a eliminação da praga, o germoplasma foi então incinerado ou devolvido à instituição remetente, dependendo da decisão do MAPA.
Neste último ano (2004), 66% dos processos de introdução estavam contaminados, sendo que, 156 espécies de pragas foram identificadas. As pragas mais relevantes interceptadas no germoplasma vegetal estão na Tabela 1. Todas essas pragas, se introduzidas no Brasil, poderiam causar danos econômicos muito sérios e, em alguns casos, acarretar perdas irreversíveis à agricultura.
Tabela 1. Pragas relevantes detectadas/interceptadas pelo Laboratório de Quarentena Vegetal do Cenargen, período 1976 a 2005.
Ácaros Hospedeiros (germoplasma vegetal) Países Aculus fockeui (Eriophyoidea) Prunus cerasus Bélgica Daidalotarsonemus sp.
(Tarsonemidae) Psidium sp. Estados Unidos
Oxycenus maxwelli * (Eriophyidae) Oliveira (Olea europaea) Portugal Bactérias Hospedeiros (germolasma vegetal) Países
Burkholderia glumae* Arroz França
Xanthomonas oryzae pv. oryzae* Arroz Filipinas, Colômbia Xanthomonas oryzae pv.
oryzicola*
Arroz China
Fungos Hospedeiros (germoplasma vegetal) Países Tilletia indica* Trigo Uruguai e México Phomopsis tectonae* Tectonae grandis Malásia
Phoma exígua var. foveata* Batata França
Tilletia indica* Trigo Uruguai e México Phyllosticta panizzei *,
Cycoclonium oleaginum*
Oliveira Israel
Insetos Hospedeiros (germoplasma vegetal) Países Palpita unionalis* Olea europaea Portugal
Nematóides Hospedeiro (germoplasma vegetal) País de origem
Anquina tritici* Trigo Estados Unidos
Aphelenchoides bicaudatus* Videira (Vitis spp.) França
Globodera spp.* Batata (Solanum tuberosum) Chile, Holanda Pratylenchus scribneri* Amendoim (Arachis pintoi) Colômbia
* Espécies exóticas interceptadas
O desenvolvimento de novas variedades e cultivares, visando o aumento da produtividade, resistência a fatores bióticos e abióticos, se deve por sua vez à introdução de germoplasma de diferentes regiões do mundo. Nesse novo cenário mundial, a Estação Quarentenária de Germoplasma Vegetal/Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia desempenhou um papel difícil de ser quantificado em termos econômicos, ao impedir que pragas exóticas fossem introduzidas junto ao material intercambiado. A entrada de pragas em áreas de produção agrícola pode levar a conseqüências graves, como o desemprego, aumento nos custos de
produção, a proibição de plantios em terras agricultáveis, desequilíbrio do meio ambiente, dentre outras.
Dessa forma, é importante ressaltar que um país só se torna competitivo e fortalece sua imagem no comércio internacional, se adotar procedimentos transparentes, harmônicos e confiáveis em relação à proteção e saúde animal e vegetal.
Referências bibliográficas
BATISTA, M.F.; FONSECA, J.N.L.; MENDES, M.A.S.; URBEN, A.F.; MANSO, E.S.B.G.C.; TENENTE, R.C.V.; OLIVEIRA, M.R.V.; GUIMARÃES, P.M.; FREITAS, R.D.L.; MARQUES, A.S.A. Quarentena de Germoplasma Vegetal. Comunicado Técnico nº 27, Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia; agosto, 1998. 8.11, 1998.
MARINHO, V.L.A.; MENDES, M.A.S.; TENENTE, R.C.V.; BATISTA, M.F.; OLIVEIRA, M.R.V.; MARQUES, A.S.A; URBEN, A.F.; FONSECA, J.N.L & GONZAGA, V. Procedimentos e métodos utilizados no intercâmbio e
quarentena de germoplasma vegetal. Brasília: Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia, p. 40, 2003. (Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, Documentos, 103 ).
ETAPAS DO PROCESSO DE INTERCÂMBIO NO MINISTÉRIO DA