O governo Collor começou sem o menor interesse de regulamentar a nova legislação constitucional referente à reforma agrária, o que, na prática, bloqueava as desapropriações. Desde 1988, não havia desapropriação de terra, sob a alegação de que não havia lei que regulamentasse esse procedimento. Mas, além do bloqueio
esperança de um triunfo que virá/ Forjaremos desta luta com certeza/Pátria livre operária e camponesa/ Nossa estrela enfim triunfará!”
institucional, uma cortina de silenciamento caiu sobre esta questão, e os sem-terra enfrentaram um dos períodos de maior repressão desde a redemocratização do país. Pelo menos quatro secretarias do MST sofreram “batidas” com apreensão de documentos por parte da Polícia Federal e foram decretadas prisões preventivas para centenas de lideranças dos trabalhadores rurais. Para complicar, um violento conflito ocorrido em Porto Alegre, entre os sem-terras e a polícia militar gaúcha, cuja vítima fatal foi um policial, ajudou a carregar ainda mais as tintas na imagem de violência associada aos sem-terra, veiculada pela mídia em geral65.
O “padrão brasileiro de desenvolvimento”, que norteou a industrialização do país a partir da década de 30, sob o manto do chamado “pacto conservador”, manteve intocável a estrutura fundiária e os interesses do capital agromercantil, promovendo “um elevado dinamismo econômico com o mais vergonhoso descaso social” (Quadros, apud Coletti, 2004, p.144) que acabou por agravar as carências sociais, a miséria e a marginalidade urbana. A crise deste projeto desenvolvimentista a partir dos choques do petróleo e da dívida externa, na década de 80, associada à volta dos exilados, à luta pela democratização e à ação da Igreja progressista favoreceram a agitação política de modo irregular, mas sempre intensa, abrindo espaço para a expansão de muitos movimentos sociais, entre eles o MST, que, no entanto, sofreram uma derrota política com a eleição de 1989.
Com a eleição de Collor, este Estado desenvolvimentista em crise foi sendo suplantado por políticas neoliberais que tiveram continuidade no governo de Itamar Franco e foram aprofundadas no Governo de Fernando Henrique Cardoso. No campo, isto implicou uma drástica redução de gastos do governo não só em termos de crédito rural, já reduzido pelos ajustes macroeconômicos impostos pela crise da dívida externa, como também na entrega das tarefas de comercialização e escoamento da produção para a iniciativa privada, bem com a extinção da Embrater (Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural).
Uma análise dos gastos públicos em agricultura em relação aos dispêndios totais da União mostra que essa relação situou-se, no período de 1980 e 1988, em média, em 6,64%. Já no período de 1990 a 2001, o gasto público em agricultura foi, em média, de 2,17% do gasto total do governo federal. Em 2000 e 2001, essa relação foi de 1% e 1,13%, respectivamente (Gasques e Villa Verde, apud Coletti, p.161).
Tendo em vista que o Ministro da Agricultura desse governo era Antonio Cabrera, um fazendeiro ligado à UDR, além da intensa repressão que se abateu sobre o MST, um dos grandes empecilhos para o avanço da luta na época era a falta de regulamentação de alguns artigos constitucionais. Conjugada com a má vontade do Poder Judiciário, isso impedia que se realizassem desapropriações de terra. Diante da discrepância de números apresentados sobre os assentamentos criados, oriundos do Incra e de três outros estudos, Colletti chega à conclusão de que não é possível apontar qual seria o número mais preciso. O fato é que o MST, diante dessa conjuntura adversa
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No dia 8 de agosto de 1990, o centro de Porto Alegre foi tomado por uma batalha campal entre policiais militares que, sem ordem de despejo por parte do governador do estado, desalojou os sem-terras acampados em frente ao Palácio Piratini, sede do governo estadual. Fugindo da polícia, alguns desse “colonos” depararam-se com um policial militar em plena Esquina Democrática, então palco tradicional de manifestações políticas na cidade. No conflito que se seguiu, este policial foi morto com uma arma branca, uma mulher e pelo menos dois homens foram baleados. O evento causou forte comoção pública no Rio Grande do Sul e no país, pois além de ser um conflito forte ocorrido em uma capital como Porto Alegre, a mídia divulgou que o PM havia sido morto “degolado com uma foice”. Para mais informações (Lerrer, 2005).
e da cortina de silenciamento da mídia que caiu sobre ele, optou por voltar-se para dentro, concentrando-se em fortalecer economicamente seus assentamentos, através da construção do Sistema Cooperativista dos Assentados, do qual surgiu, em maio de 1992, a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab). Esta nova estrutura visava articular a representação dos assentados ligados ao MST e coordenar a organização da produção de seus assentamentos, baseando-se, sobretudo, na construção de grandes cooperativas de trabalho coletivo para gerar estruturas de produção que rivalizassem com as grandes empresas rurais. Em suma, diante da dificuldade institucional que cercava a luta pela terra, o Movimento decidiu concentrar-se no “produzir” presente em uma de suas mais conhecidas palavras de ordem lançadas na época: “Ocupar, Resistir e Produzir”.
A Concrab surgiu como fruto da compreensão de que era necessário organizar os assentamentos, preferencialmente em cooperativas, porque a experiência em algumas áreas já desapropriadas indicava que o acesso à propriedade da terra era insuficiente para viabilizar a produção. O MST, em suma, queria desenvolver um mecanismo para ter acesso a recursos financeiros, condições favoráveis de produção e comercialização, bem como a técnicas de produção mais desenvolvidas que estavam ao alcance dos grandes proprietários, mas não dos pequenos produtores. Mais tarde, diante dos inúmeros fracassos e falências das cooperativas de produção totalmente coletivizadas, motivadas em grande parte por questões culturais e sociais e pelos entraves presentes dentro de sua própria “metodologia” - os “Laboratórios Organizacionais de Campo” - o MST adotou maior flexibilidade nesta política, passando a incentivar a formação de cooperativas de consumo e de comercialização (Brenneisen, 2002)66.
Na medida em que o governo Collor foi se enfraquecendo, no mar de denúncias de corrupção que vinham à tona sobre o presidente e seus colaboradores, os projetos de regulamentação dos dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária e ao rito sumário, apresentado no início de 1991 e engavetado por mais de um ano no Congresso, começaram discretamente a andar, com apoio da bancada de oposição. Sua aprovação ocorreu um mês após a posse de Itamar Franco, que assumiu o cargo depois do
impeachment de Collor. Envolvidos na crise institucional, os sempre vigilantes
parlamentares da bancada ruralista abaixaram a guarda, deixando a brecha para que a Lei Agrária fosse aprovada e a reforma desse um passo adiante (Vigna, 1996), viabilizando-se o retorno das desapropriações. Com a lei regulamentada, o governo de Itamar - primeiro presidente a receber a direção do MST em audiência - gerou uma atmosfera política que permitiu que o Movimento voltasse a investir intensamente em ocupações, já que haviam sido retomadas as desapropriações de terra. Coletti, com base em dados do Incra e da CPT, demonstra que houve um aumento de 42% das ocupações de terra e de 32% das famílias envolvidas em 1994, em relação aos dados de 1992, portanto, do fim do governo Collor.
O período do governo Fernando Henrique Cardoso marca um salto para o MST. Segundo Coletti, ele foi o movimento social que mais cresceu na década de 90, quando passou a se constituir “no principal foco de resistência política ao projeto neoliberal”(Coletti, 2005, p.203). Durante esse governo, a reforma agrária voltou a ocupar espaço significativo no cenário político nacional. Sua presença nos jornais, no Congresso e até em uma novela do horário nobre da TV Globo, espécie de “consagração” para o tema, foi resultado de uma confluência de fatores. Entre eles, deve-se considerar que o próprio Presidente da República reconheceu o MST como
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Nos últimos anos, o Movimento começou a criticar o modelo agrícola baseado no uso intensivo de insumos e na mecanização, passando a incentivar a agroecologia e as práticas agrícolas mais tradicionais.
interlocutor, quando aceitou receber seus líderes em uma audiência, no encerramento do III Congresso do Movimento, no dia 27 de julho de 1995. Este gesto de Fernando Henrique ganhou especial relevância porque, na semana anterior, ele havia se recusado a receber os líderes do “Caminhonaço”, protesto promovido por grandes produtores rurais contra a crise agrícola provocada pelo Plano Real.
De acordo com Caldart (2004), este encontro em Brasília inaugurou o “terceiro momento” da história do MST, quando o Movimento se inseriu “na luta por um projeto popular de desenvolvimento para o Brasil”, instituindo também a bandeira de luta “Reforma agrária: uma luta de todos”. Para a autora, este momento, que ainda estaria vigente, se caracterizaria pela mobilização dos sem-terra em torno das grandes questões nacionais, tornando-o mais próximo do que Touraine (1978) classifica de movimento social, por então entrar na disputa política por orientações mais gerais da sociedade67.
Citando Stédile e Fernandes (1999), Coletti aponta também o III Congresso do MST como tendo marcado a decisão do sem-terra de combater o modelo econômico neoliberal, abrindo caminho para mobilizações como as promovidas contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce. Neste livro, Stédile analisa que a nova palavra de ordem refletia a idéia de que a reforma agrária dependia de mudanças na economia e, para que ela pudesse avançar de fato, era necessário que toda a sociedade a abraçasse como uma luta legítima. Em sua periodização sobre a história do MST, Fernandes (2000) também se refere ao III Congresso como tendo contribuído para reforçar e ampliar o debate a respeito da questão agrária para diversos setores da sociedade (Fernandes, 2000, p.251).
É importante considerar também que grande parte da visibilidade da questão agrária na época deve ser creditada ao fato de que o sucesso do plano de estabilização monetária se assentou no uso da agricultura como “âncora verde” e na abolição dos juros subsidiados ainda disponíveis aos grandes proprietários rurais, o que agravou a situação no campo. Ao estabilizar a moeda, o Plano Real congelou o preço dos alimentos e barateou produtos importados. Apesar de controverso, há dados de que somente nos dois primeiros anos do governo Fernando Henrique, 450 mil famílias de pequenos proprietários perderam suas terras para os bancos68. Também causou grande impacto na opinião pública os massacres de trabalhadores rurais sem-terra. Na madrugada do dia 9 de agosto de 1995, policiais militares, autorizados por um juiz, efetuaram um despejo violento de famílias sem-terra que ocupavam a fazenda Santa Elina, em Corumbiara, Estado da Rondônia. Ao todo, foram mortos 11 trabalhadores rurais, entre eles, uma menina de sete anos que levou um tiro nas costas enquanto fugia (duas das vítimas morreram em conseqüência da chacina alguns meses depois). O outro massacre, cujas imagens iniciais registradas por uma equipe de TV se espalharam pelo mundo, ocorreu no dia 17 de abril de 1996, em Eldorado dos Carajás, no Pará. O despejo da estrada bloqueada pelos sem-terra, autorizado pelo governo estadual e efetuado pela Polícia Militar, resultou no assassinato de 19 trabalhadores rurais. Segundo o laudo de necropsia, 12 foram executados após terem sido dominados.
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É interessante observar, no entanto, que o MST passou de fato a sofrer mais ataques políticos quando tomou esta opção, até mesmo de seus outrora aliados.
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Dado baseado no resultado do Censo Agropecuário 1995/1996, divulgado por Guilherme Dias, na época Secretário Nacional de Política Agrícola do governo Fernando Henrique. José Eli da Veiga, pesquisador da USP, afirma que na verdade houve uma mudança no ano de referência da pesquisa que, antes era o ano civil e passou a ser o agrícola justamente neste Censo. Também, segundo ele, houve uma mudança nos critérios da pesquisa porque mudaram a definição de estabelecimento rural. E, portanto, não houve esse desaparecimento de pequenas propriedades rurais apontado por esta pesquisa. Suas considerações estão publicadas em artigo publicado no jornal “Estado de São Paulo”, 05/06/99.
Outro fator que colaborou para o aumento da visibilidade pública concedida às lutas do MST foi o fato de que as ocupações de terras realizadas na região oeste de São Paulo, no Pontal do Paranapanema, receberam constante atenção dos jornais, TVs e revistas de Rio de Janeiro e São Paulo, adquirindo um caráter nacional e desencadeando tanto medidas governamentais, como judiciárias69. Essa visibilidade midiática do MST - com destaque em jornais televisivos, capas de publicações da dita “grande” imprensa, assim como em uma “Novela das 8” teve um grande papel na ampliação da força política do MST nesta época. É importante observar que a busca por espaço nos meios da comunicação para divulgar suas ações e denúncias já fazia parte da estratégia de ação dos sem-terra desde seus primórdios, como atesta Gehlen (1985). Segundo Comparato (2003), que descreve a amplitude do espaço político obtido pelo MST nesta época, o que incomodava mais o governo Fernando Henrique Cardoso era sua dificuldade em combater a habilidade do MST para “aparecer na mídia” (Comparato, 2003:140). Por esta razão, este autor sustenta que o então governo definiu uma estratégia em que, ao invés de combater diretamente o MST, procurou minar sua imagem e popularidade junto a opinião pública (Ibid., p. 62), através de reportagens veiculadas na mídia que deslegitimavam o MST.
Conforme depoimento de dois dirigentes sulistas que atuam no Nordeste, o fato de as ações dos sem-terra em São Paulo estarem sendo divulgadas em cadeia nacional estimulava a formação de acampamentos em outras regiões, do mesmo modo, e talvez até com mais eficácia, do que o Jornal Sem Terra tinha conseguido fazer até então nos seus mais de 15 anos de sua história. O papel do JST sempre fora tentar imprimir uma unidade e um caráter nacional para a luta do MST, divulgando suas ações e seus pontos de vista, para estimular outros sem-terra a entrar nas ocupações. Assim, como o “Terra Livre”, do PCB, nos anos 50 (Medeiros, 1995), ele ajudava a quebrar o isolamento físico e simbólico da luta destes camponeses. Funcionava, portanto, como um material de mobilização, cujas informações demonstravam aos sem-terra que eles não estavam sozinhos, isolados no meio de um acampamento embrenhado no interior de alguma região do país. Foi mais ou menos esse o papel cumprido involuntariamente pela mídia brasileira nessa época. Mesmo abordando conflitos, dando versões muitas vezes negativas para as ações do MST, “aparecer na TV” conferia importância a esses pobres do campo que empunhavam uma bandeira vermelha, estimulando outros, que se viam nas mesmas condições, a integrar suas fileiras.
O processo de “descoberta” do MST pela mídia começou justamente no III Congresso Nacional, em 1995, que ganhou grande repercussão nos principais jornais do país, até porque haviam tornado-se alvo de grande atenção dos jornalistas de Brasília, então enfrentando a escassez de pautas típicas do recesso parlamentar70. Participar do
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Desenvolvo esta análise em artigo publicado na revista NERA, dezembro de 2005. 70
Já há uma grande literatura disponível sobre como os jornalistas e a mídia podem se tornar atores associados-rivais dos movimentos sociais, estabelecendo uma associação ambígua (Neveu, 2005). A construção midiática dos movimentos e problemas sociais é produto de uma rede de interações que estruturam o trabalho jornalístico. Portanto, muitas vezes a proeminência de certos temas pautados em um determinado momento pelos veículos de comunicação mainstream não atendem necessariamente à ideologia de seus controladores e promovem impactos diretos e indiretos nem sempre previstos tanto por aqueles que procuram chamar atenção da mídia, como os movimentos sociais, como pelos profissionais que nela trabalham. Para compreender isso, acho particularmente interessante o conceito de “discurso público” desenvolvido por Mellucci (2001), campo no qual a palavra dos movimentos sociais pode ser ouvida. Para esse autor, esse campo não é só produto das mídias, onde costumeiramente se enxerga tantos casos de “manipulação”. Segundo ele, o discurso público é um “produto resultante de um complexo jogo de interações, na qual intervêm, certamente, os objetivos e os interesses dos grupos no poder e dos aparatos políticos, e para o qual contribuem com um papel não subalterno seja as competências
Congresso e vivenciar suas “grandiosidadade”, segundo um dos depoimentos colhidos, também serviu de estímulo para que, pouco depois do evento, um grupo de famílias que estava se organizando no Vale do São Francisco, em Pernambuco, realizasse uma das maiores ocupações ocorridas naquele estado, reunindo mais de duas mil famílias e tornando-se um marco na história da organização do MST no Nordeste.
Foi neste cenário político e midiático favorável que o MST promoveu a “Marcha Nacional por Reforma Agrária, Emprego e Justiça”, iniciada em 17 de fevereiro de 1997. Composta por três colunas que saíram de três pontos do país - São Paulo (SP), Governador Valadares (MG) e Rondonópolis (MT) – a marcha demorou dois meses de caminhada para alcançar a capital federal, onde os sem-terra foram recebidos, no dia 17 de abril, por aproximadamente 100 mil manifestantes, convertendo-se na primeira grande manifestação popular realizada contra o governo Fernando Henrique Cardoso.
Além de reivindicar urgência na reforma agrária, a Marcha Nacional do MST exigia a punição para os responsáveis pelos repetidos massacres de trabalhadores rurais, com destaque para o de Eldorado dos Carajás, que fazia um ano naquela data e cujas imagens também se imortalizavam ao percorrer o mundo no mesmo período, através de uma exposição, lançamento de um livro e de um CD organizados pelo notável fotógrafo Sebastião Salgado, com a colaboração do Nobel da Literatura, José Saramago, e do astro da música popular brasileira, Chico Buarque de Holanda.