A Proclamação da República afirmou o Exército como elemento constitutivo do Estado brasileiro contemporâneo. Para Martins (1986), ele acabou sucedendo o rei no papel da defesa da unidade nacional contra a ordem privada, personificada nos oligarcas e nos grandes proprietários rurais, herdada do tempo colonial. Essa contradição tornou- se evidente, sobretudo a partir da eclosão da revolta tenentista, herdeira do “florianismo jacobinista”40 dos primórdios da República, que se aliou com Getúlio Vargas na Revolução de 1930.
Quando o acordo oligárquico que sustentava a República Velha começa a se romper, demonstrando a fragilidade de seus pactos políticos, setores do Exército, personificados nos tenentes, surgiram na arena e, depois de praticamente uma década de revoltas, instauraram um governo, chefiado por Getúlio Vargas, claramente centralizador, que fortalece o Estado e promove a modernização e a industrialização do país em um ambiente de restrições à participação política. Como aponta Medeiros
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Le monde diplomatique, abril de 2003, , de Mark Davis, “A grande fome do século XIX e a origem do Terceiro Mundo”.
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Paulo Ribeiro da Cunha, em seu livro sobre Nelson Werneck Sodré “Um olhar à esquerda” (2002) utiliza-se a definição de jacobinismo, de Michael Lowy, para quem seria “a ala esquerda da pequena burguesia, combinação específica de democracia plebéia e de moralismo romântico (de Rosseau) e tende a entrar em conflito com a ideologia e a prática liberal individualista da grande burguesia". No caso brasileiro, durante o governo de Floriano Peixoto, “jacobinismo” tornou-se sinônimo de “florianismo” e constituiu-se como um efêmero projeto de esquerda nacionalista que foi assumido por alguns parlamentares no governo de Peixoto. Este movimento avançou pouco politicamente, não se firmando como uma proposta conseqüente para as gerações futuras, ainda que sua ressonância perdurasse por algum tempo, sobretudo nas Escolas Militares. Na verdade, floresceu enquanto esteve personificado no poder por Floriano Peixoto, e talvez, tenha sido essa a sua maior fragilidade e uma das explicações de seu desaparecimento. Apesar de seu prestígio pessoal, o Marechal de Ferro (Floriano Peixoto) afiançou a sucessão oligárquica e, ao final, mais uma vez o poder político demonstrou o seu condicionamento ao poder econômico.
(1991), os tenentes, assim como o PCB, trouxeram o tema do “latifúndio” para o debate político que ocorria no país durante a década de 20. O próprio Getúlio Vargas no lançamento da plataforma da Aliança Liberal, em 2 de janeiro de 1930, apontou o latifúndio como “causa comum do desamparo em que vive o proletário rural, reduzido à condição de servo da gleba” (Stein, 1991 apud Medeiros 1995, p. 64)
Logo após “o Movimento do 3 de outubro”41, as velhas oligarquias foram de fato combatidas e muitos “coronéis” do sertão foram presos pelos revolucionários vitoriosos. Mas esse conflito contra os potentados locais logo foi abandonado e alguns dos tenentes interventores acabaram reproduzindo, de certo modo, as velhas práticas clientelistas dos chefes políticos regionais. Mais tarde, nos debates da Constituinte de 1934, os deputados tenentistas elaboraram um programa de reconstrução nacional onde constava a necessidade de se fazer uma “reforma agrária radical”, através da ação forte do Estado, que viabilizasse a modernização da agricultura, prevendo inclusive a taxação progressiva das terras não cultivadas e das arrendadas. Entretanto, fora os quatro membros da bancada classista dos empregados, participantes da Constituinte, que defenderam o reformismo agrário até o fim, estas bandeiras foram deixadas de lado até mesmo pelos próprios tenentes. Deste modo, a Carta Magna de 1934 deixou a União sem capacidade de legislar sobre direito rural e realizar desapropriações, além de não regulamentar o direito associativo e não apresentar uma legislação trabalhista para o campo, “o que indicava as dificuldades políticas de intervir sobre esse terreno” (Stein, apud Medeiros, 1995, 64).
Após a instauração do Estado Novo, Vargas manteve a possibilidade de distribuição da propriedade da terra na Constituição de 1937, que previa o instrumento da desapropriação por interesse social dos latifúndios improdutivos, em particular os ociosos para fins de especulação, mediante indenização prévia, mas não necessariamente em dinheiro, ou seja, o pagamento poderia ser feito com títulos da dívida pública (Ribeiro, 2001). Para Getúlio, o fato de existirem grandes extensões de terras públicas às quais o governo poderia recorrer não justificava a adoção da desapropriação como regra geral ou como prioridade de uma política fundiária. Para tanto, desenvolveu e incentivou a “Marcha para o Oeste”, projeto governamental de colonização, cuja ocupação foi feita através de pequenas propriedades. Seus núcleos coloniais mais importantes foram Dourados (MS) e Ceres (GO).
De qualquer modo, na visão de Martins, durante seu primeiro governo, Getúlio Vargas “não quis, ou não pôde enfrentar os grandes proprietários de terra e seus aliados” estabelecendo as bases de um pacto político tácito, válido até hoje, em que a oligarquia rural “não dirige o governo, mas não é por ele contrariada” (1994, p.72). Por outro lado, em seus famosos discursos do Primeiro de Maio, Vargas defendia sempre a necessidade de estender os direitos trabalhistas para o meio rural como forma de evitar o êxodo rural e o superpovoamento das cidades. Segundo Medeiros (1995), ainda em 1937, o governo apresentou à Câmara um projeto voltado para “a regulamentação de direitos e obrigações relacionadas às atividades rurais”. Entretanto, esse debate arrastou-se sem chegar a qualquer conclusão.
Somente em 1941 foi constituída uma comissão interministerial para o estudo do enquadramento da agricultura na organização sindical. O debate dado em cima do anteprojeto elaborado por um órgão subordinado ao Ministério da Agricultura tinha a participação dos organismos de classe do patronato rural como a Sociedade Nacional da
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Os levantes militares que desencadearam o que ficou conhecido como “Revolução de 30” começaram no dia 3 de Outubro de 1930. Para os veteranos dessas lutas, membros da “Aliança Liberal” e historiadores deste episódio, como Barbosa Lima Sobrinho, autor de “A verdade sobre a Revolução de Outubro” (1946), esse processo ficou conhecido como “Movimento 3 de Outubro”.
Agricultura (SNA) e representantes dos aparelhos de Estado (Medeiros, 1995). Mas, enquanto o representante do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio defendia a necessidade de se constituir um sindicato dos trabalhadores da agricultura, os representantes do Ministério da Agricultura e da SNA defendiam um sindicato misto que agregasse em uma mesma entidade os “patrões” e os “empregados” (Ibid, p. 70). Este debate acabou saindo do cenário político, mas retornou em 1944, quando o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio apresentou um novo anteprojeto defendendo a criação de sindicatos diferentes para os empregados e os empregadores do meio rural, acabando por vencer a posição da SNA, em favor do sindicato misto. Assim, o decreto de sindicalização rural, datado de novembro de 1944, garantiu “a representação paralela para patrões e empregados”. No entanto, a solicitação de investidura sindical requisitava documentos como “prova de boa conduta firmada por autoridade policial competente” e “prova de exercício efetivo da atividade ou profissão desde um ano antes” a tornavam praticamente impossível frente às condições de trabalho vigentes no campo, onde os trabalhadores eram submetidos a uma intensa jornada de trabalho e, além da dependência clientelística, vicejava o mandonismo patronal com casos, inclusive, de existência de prisões particulares nas fazendas. Apesar de todas estas limitações para a organização sindical dos trabalhadores agrícolas, um ano depois, foi baixado um outro decreto que atendia a visão do patronato rural representado pela SNA, curiosamente sem revogar o primeiro nem a portaria de regulamentação que o sucedeu (Medeiros, 1995, p. 72).
Apesar disso, por terem suprimido as eleições, os 15 turbulentos anos do primeiro governo Vargas enfraqueceram as bases clientelistas dos grandes proprietários de terra, que ficaram sem sua principal mercadoria para a troca de favores e para a manutenção das lealdades políticas: o voto. Além disso, seu papel político e econômico foi enfraquecido pela industrialização, pelo crescimento das populações urbanas e pelas migrações do campo para as cidades. Mas esse cenário se modificou com a abertura política de 1946, que restaurou as bases do clientelismo. Apesar de a oligarquia ter saído enfraquecida politicamente pelo Estado Novo, seus interesses sustentados na propriedade da terra voltaram a pesar novamente na política. Não por acaso, embora tenha sido a primeira no Brasil a colocar que a terra deveria cumprir uma função social, a Constituição de 1946 alterou a de 1937 no quesito desapropriação, determinando que a indenização prévia ao fazendeiro desapropriado fosse feita em dinheiro, o que inviabilizou, na prática, essa medida.
Notabilizado por ter reconhecido e proclamado os direitos trabalhistas dos operários e trabalhadores urbanos, Getúlio Vargas anunciou sua intenção de estendê-los aos trabalhadores rurais em sua campanha eleitoral para a presidência em 1950. Além disso, é em seu segundo governo que Vargas define uma política agrária, evitando usar o termo “reforma agrária”, por motivos, “táticos”, segundo um de seus biógrafos. Em 25 de julho, Dia do Trabalhador Rural, de 1951, o presidente criou a Comissão Nacional de Política Agrária, cuja proposta prioritária era a distribuição gratuita de terras públicas, ou seja, um programa de colonização que previa, como instrumento paralelo, a desapropriação por interesse social de terras particulares improdutivas. Criticado por Carlos Lacerda que o acusava de “desviar-se dos rumos de uma prometida reforma agrária”, os anteprojetos dessa Comissão e desta Lei Agrária “inofensiva”, segundo o arquiinimigo de Vargas, ficaram paralisados no Congresso, dominado por representantes da oligarquia rural.
Segundo Darcy Ribeiro (1997), baseando-se em uma revelação que Gilberto Freyre teria feito a um jornalista argentino, Vargas teria chamado o autor de Casa
1954. O presidente queria a colaboração de Freyre na reforma agrária que pretendia deslanchar. “É você quem vai organizá-la”, teria dito Vargas. “Você se sentará em um escritório perto do meu, e trabalharemos intensamente no projeto”.