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4 CIDADE CIVIL E A PREPARAÇÃO PARA SUA MILITARIZAÇÃO

4.3 O ANÚNCIO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

4.3.1 a expectativa entre os moradores da cidade

Em todo o país, a população ouvia as notícias simultaneamente e ouvia, inclusive, os discursos do Presidente Getúlio Vargas, que se tornaram recorrentes. Foi através de um desses discursos que o Brasil soube que precisava iniciar sua preparação para viver o conflito mundial. O Presidente brasileiro anunciou seu governo compreendia que o mundo atravessava “uma hora particularmente inquieta, cheia de ameaças e incertezas que impõem às nações a obrigação de preparar-se para enfrentar quaisquer eventualidades” (TRANSCRIÇÃO..., 1939, p.1)194. A ordem informava que as Forças Armadas nacionais iriam iniciar suas atividades imediatamente, treinar os soldados e preparar a população. O que estava em jogo era a segurança do País (TRANSCRIÇÃO..., 1939)195.

As matérias do Jornal A República antecipavam a expectativa das elites locais, cuja esperança era de que, em pouco tempo, o Governo Federal iniciaria os investimentos para defender a cidade de alguma eventualidade vinda do outro lado

193 TOTA, Antonio Pedro. O imperialismo sedutor: a americanização do Brasil na época da Segunda

Guerra. São Paulo: Companhia da Letras, 2000.

194 TRANSCRIÇÃO do discurso do Presidente Getúlio Vargas por ocasião da sua visita à fábrica de

pólvora e explosivos de Piquete, localizada no Estado do Rio de janeiro. A República, Natal, 19 jul. 1939.

do Atlântico (DEFESA..., 1939)196. Avaliavam que suas iniciativas logo chegaria a Natal pois, diante da possibilidade de algum ataque ao Brasil, esta seria o alvo mais provável, uma vez que a consideravam como o “caminho das lutas. Na estrada mais curta e mais usável de dois mundos” (MELO, 2003, P.40)197.

A apreensão também se espalhou entre os moradores da cidade. Em 1º de setembro de 1939, quando a Alemanha atacou a Polônia, a população de Natal parecia acreditar que a guerra era uma ameaça concreta e a partir de então, sua administração teve que controlar a ansiedade que se espalhou pela cidade, cujas repercussões eram desautorizadas, porém adquiriram dimensões alarmantes.

São os comentadores autorizados, que podem ajudar os leitores dos jornais e os ouvintes dos rádios na trama que se complica todos os dias, aumentando a tragédia européia. Por isso é sempre proveitosa a palestra com os que sabem esclarecer os fatos da guerra. Intoleráveis, porém, se tornam os comentadores de todos os instantes, que andam em todas as partes, amolando a todo mundo. Souberam que a Dinamarca e a Noruega eram países da Europa. [...]. Aprenderam que a Tchecoslováquia era fronteira com a Alemanha e que a Finlândia não pertencia à África (RANÇA, 1940d, p.8)198.

Os desdobramentos do conflito iniciado na Europa eram comentados em todos os lugares da cidade. Pela primeira vez, os moradores recebiam as informações simultaneamente à suas elites, o que demonstrou ser uma situação incômoda. Os jornalistas do Jornal A República desautorizavam essa autonomia e pareciam sugerir que não se fizessem análises e que os moradores da cidade esperassem pela divulgação de suas avaliações. De qualquer maneira, a situação colocava os diversos sujeitos numa nova posição. Cabia aos administradores da cidade manter o medo sob controle, uma vez que, para as elites, ainda não havia

196 DEFESA anti-aérea do Rio: interessante demonstração para a população carioca. A República,

Natal, 10 ago.1939.

197 MELO, João Wilson Mendes. A cidade e o trampolim. Natal: Sebo Vermelho, 2003. 198 FRANÇA. Aderbal. Os entendidos da guerra. A República, Natal, 1 maio 1940d.

indício de que suas apreensões se cumpririam, pois a guerra, em 1939, ainda se encontrava no centro do Continente Europeu.

4.4 A MOVIMENTAÇÃO MILITAR NA CIDADE E OUTRAS OCORRÊNCIAS

A vida diária na cidade estava carregada de expectativas e de pessimismo. Desde os primeiros momentos da guerra na Europa, militares estadunidenses começaram a atuar na região de Natal, o que não foi ressaltado pela historiografia brasileira. Segundo Tronca (1981)199, somente a partir de 1941m seus soldados movimentavam-se com desenvoltura pelas ruas do centro da cidade, hospedavam-se no Grande Hotel, faziam levantamentos de regiões da cidade e enviavam relatórios ao Departamento de Estado de seu país. Além disso, essa presença não figurou nas páginas do jornal A República até 1942.

No entanto, os militares estadunidenses estavam em Natal desde o primeiro ano da guerra e essa presença foi crescente. Por volta de 4 de fevereiro de 1942, antes da assinatura dos acordos entre os Governos Brasileiros e Estadunidenses, existiam 369 estadunidenses residindo em Natal, trabalhando e preparando as ações no entorno da cidade e fazendo a segurança dos militares e das obras, sem contar com os que permaneciam por pequenos períodos.

Ao longo desse período, o conteúdo publicado no Jornal A República tratava de assuntos referentes à guerra, porém descontextualizados do que acontecia na cidade. Os discursos diziam respeito ao momento que o mundo atravessava, do qual a guerra

[...] que empolga a Europa contaminou o mundo inteiro de seu vírus de inquietação, de terror e de morte e na treva em que se fechou a felicidade humana, ninguém consegue vislumbrar as conseqüências da situação que se prepara [...]. Não podemos fugir ao conflito

199 TRONCA, Ítalo. O Exército e a industrialização: entre as armas e Volta Redonda (1930-1942). In:

FAUSTO, Boris (Org.). História geral da civilização brasileira (Tomo III – O Brasil Republicano, v. 3 – Sociedade e Política 1930-1964). São Paulo: Difel, 1981. p.359.

dessas forças que se debatem e que cumprem, no teatro mais augusto da civilização, a eterna lei do dualismo universal. A liberdade e a opressão, a brutalidade e o direito, forças do bem e do mal, céu e inferno, homens escravos contra homens livres, todos se combatem numa aflição de náufragos (BARBOSA, 1939, p.1)200.

A consciência da irracionalidade e da capacidade humana de praticar a crueldade podem melhor contextualizar o olhar das elites locais e, possivelmente, como percebiam a perspectiva para a vida da pequena Cidade do Natal. Alguns registros, no entanto, podem ser considerados como escamoteadores, por um lado parecendo alheios e, por outro, surpresos. Porém, em quase todos predomina a revelação do medo e do estranhamento que sentiam diante da situação.

As elites políticas, apesar de partícipes do processo e embora imbuídas da responsabilidade que a posição de poder lhes dotava, nunca haviam experimentado uma situação semelhante. Nos seus escritos percebe-se como se desejassem que o tempo passasse mais rápido, que as questões se resolvessem com mais clareza ou, simplesmente, que fosse possível estar alheios para não perceberem o que estava adiante e próximo de suas vidas. Para Danilo, especialmente, os fatos se sucediam rapidamente e a cidade tornava-se surpreendentemente distante de sua normalidade. Para este, o que estava em jogo era a sobrevivência da cidade em que morava.

A ameaça da guerra na cidade estava mais próxima e era verificada na intensa movimentação militar que ocorria nas suas ruas – com transferências de novos contingentes, construções físicas e chegada de equipamentos – e na intensa migração de uma população adventícia que alterava rapidamente sua dinâmica urbana.