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5 A PRESENÇA MILITAR NA CIDADE DO NATAL: OS

5.2 A CHEGADA DOS MILITARES NORTE-AMERICANOS A NATAL

5.3.2 A Liga de Defesa Passiva de Natal

Em setembro de 1942, quando o Governo do Brasil declarou oficialmente sua entrada na guerra e iniciou a arregimentação dos militares para enviá-los para as batalha na Europa, a Cidade do Natal poderia ser considerada como preparada para enfrentar uma guerra. As Forças Armadas haviam montado uma estratégia para manter os moradores em permanente estado de alerta. Em pouco tempo, todos poderiam deixar de ser pacíficos observadores e passar a ser “francos elementos de beligerância” (FILGUEIRA FILHO, 1942, p.7)282. Foi fundada a Liga de Defesa Passiva de Natal que pretendia ajudar a “preparação psicológica e material” da população, a fim de que pudesse “suportar as dolorosas contingências da guerra a que estamos sujeitos” (FUNDADA..., 1942, p.8)283.

Mesmo com a notícia de que a guerra estava recuando sobre os territórios conquistados da África, o Jornal A República informava que as Forças Armadas e as elites locais ainda consideravam a possibilidade de um ataque a Natal.

281 MARANHÃO, Petracha. Natal. A República, Natal, 31 maio 1942. 282 FILGUEIRA FILHO. Black-Out. A República, Natal, 18 nov. 1942.

A Liga de Defesa Passiva de Natal era a responsável pela manutenção da atenção e controle da tensão que se espalhava entre os moradores, pois “o êxito na luta depend[ia] fundamentalmente do estado psicológico da população civil, pois ela representa também uma linha de combate” (FUNDADA..., 1942, p.8)284. Uma das primeiras iniciativas do Governo Federal foi cumprir a portaria 271 do Ministério da Educação e Saúde que, entre outras, determinava a organização de cursos de defesa para professores das escolas públicas. Em Natal, os cursos foram ministrados no Teatro Carlos Gomes por militares do Exército e intelectuais norte-rio- grandenses, entre eles Luis da Câmara Cascudo, e seu objetivo era formar “Alertadores” da Defesa do País.

O primeiro grupo de “Alertadores” foi formado por “senhoras e senhoritas da sociedade local” que tinham por missão ajudar “junto aos lares, às pessoas de suas relações, estabelecer uma verdadeira rede de fiscalização relativos ao escurecimento, abrigos, incêndios, educação moral em face do perigo” (AS ALERTADORAS..., 1942, p.4)285, além de agir como socorristas, na remoção de feridos, assim como de outros procedimentos emergenciais caso a cidade sofresse algum ataque.

Outra formação que estes cursos fizeram foi a de bombeiros voluntários. Sua ação deveria se dar juntas das “alertadoras” e ambos seriam imprescindíveis no momento do ataque inimigo. Para as elites políticas, as defesas gerais e particulares precisavam ser organizadas porque os alemães poderiam utilizar bombas incendiárias,

Pesando de dois a cinco quilos apenas, as bombas incendiárias são atiradas aos milhares sobre o objetivo. São extremamente perigosas pela quantidade e amplidão das áreas que se transformam em fogueiras crepitantes. Se, ao ataque incendiário, alia-se o pavor, então este age sem obstáculo, semeando a destruição que desorganiza a vida normal da população. O essencial é esperar o

284 Idem.

assalto e antecipar a preparação da defesa, anulando o golpe dos nossos implacáveis inimigos (PARA..., 1942, p.3)286.

As notícias sobre as bombas eram publicadas cheias de detalhes minuciosos. Eram citadas as bombas incendiárias, fabricadas com substâncias betuminosas, que se projetariam depois da explosão; as carregadas com fósforo, que provocariam chamas esverdeadas; e as com líquidos inflamáveis que poderiam ser apagadas com extintores de incêndio. No entanto, eram as de “Termite” (óxido de ferro e alumínio) e as de “Electron” (alumínio e magnésio) que mais causavam preocupações, pois produziriam um calor fortíssimo e deveriam ser combatidas com máscaras. Dentre as orientações, era sugerido aos moradores que conservassem “alguns caixotes com areia, terra solta, pás, uma picareta” em suas casas e estivessem dispostos “a uma luta sem trégua, com as armas da inteligência, da calma e do sangue-frio, fatores que são decisivos para essas batalhas” (PARA..., 1942, p.3)287.

A cidade foi submetida a esse estado de tensão durante todo o ano de 1942, porém os moradores davam sinais de que estavam tornando aquela situação numa rotina, na qual tratavam os procedimentos de defesa com displicência. Mesmo que sua obediência continuasse sendo exigida, estes davam sinais de exaustão e relaxamente na disciplina. Mesmo alguns jornalistas d’A República davam sinais de impaciência com a demora do Estado de assumir sua responsabilidade de, por exemplo, construir os abrigos antiaéreos.

Sei que você desejou perguntar-me: “Onde estão os abrigos?” Não lhe falta razão para isso. Porque você, como todos nós, procura os abrigos com os olhos e não com o instinto. E sobretudo porque não temos ainda abrigos. Nem para as nossas vidas, nem para os nossos ideais e as nossas convicções. Ainda não compreendemos que há valores muito mais importantes do que a vida. [...]. Os abrigos estão em nós, em nossos nervos, na força dos nossos instintos, em nossa

286 PARA combater o incêndio. A República, Natal, 10 nov. 1942. 287 Idem.

vontade de vencer, na calma com que nos conduzirmos. Mas, eles devem estar também nas ruas, nas oficinas, em toda parte, em forma concreta. É muito mais difícil vencer a guerra do que fazer abrigos para proteger os exércitos da segunda frente. Nós, o povo, teremos de fazê-los (PINHEIRO, 1942a, p.3)288.

Embora as elites locais continuassem afirmando que os abrigos antiaéreos seriam construídos, até meados de 1942, o Governo Federal não autorizou a liberação dos recursos. No Jornal A República foram observadas manifestações dos que não aceitavam as desculpas que eram repetidas. A apreensão se espalhava principalmente entre os setores das classes médias e comerciantes. Estes últimos começaram a construir seus próprios abrigos nas suas residências, enquanto a maioria da população cidade continuou vulnerável, sem proteção e dependendo de iniciativas individuais.

Era certo que precisavam de abrigos e que estes deveriam ser construídos antes que as bombas começassem a cair. “Não duvidamos que algum dia os teremos. Desejamos apenas que não cheguem tarde demais” (PINHEIRO, 1942a, p.3)289. O governo estadual, juntamente com o Comando da Guarnição Federal, diante da pressão, tomou algumas iniciativas e construiu valas (ou fossos) em diversas ruas da cidade.

Em Natal, o abrigo-fôsso, aparentemente primitivo e desprotegido, é o mais aconselhado pela técnica, provado pela observação de militares e resultados em Londres, Chung-King, Malta, etc. [...]. Estamos em guerra! A conservação, higiene e segurança dos abrigos públicos é uma condição de vitória, um elemento de vida ou de morte. Defenda o Abrigo Público! Talvez esteja defendendo um lugar humilde que o livrará da mutilação ou da morte! (DEFENDA..., 1942, p.3)290.

288 PINHEIRO, Rivaldo. Abrigos. A República, Natal, 9 set. 1942a. 289 PINHEIRO, Rivaldo. Op. Cit. 1942a.

As valas eram buracos estreitos e rasos com sessenta centímetros de largura, onde podia deitar-se uma pessoa. A iniciativa do Governo foi considerada uma afronta e foi imediatamente rejeitada pelos moradores. Os protestos se manifestavam na depredação ou destruição dos buracos. Esta repercutiu no surgimento uma alternativa que encontrou boa recepção, inclusive, nas páginas do Jornal A República. Eram adaptações do modelo apresentado pelo Comando da Guarnição que utilizavam materiais de construções baratos e, embora se tratasse de uma alternativa, eram considerados tão seguro quanto os que foram construídos em concreto armado e aço:nas residências dos comerciantes locais.

A minha simpatia partiu irresistivelmente para a benemérita iniciativa do Sr. Carlos Serrano, presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio do Rio Grande do Norte, fazendo expor na sede dessa instituição, onde poderá ser observada por todos os interessados, a planta de um daqueles modestos abrigos. Não preciso muito recurso para construir um deles, e há até pessoas que os construíram dotados de comodidades surpreendentes, com uma despesa relativamente ínfima. Eles servirão da mesma forma para dar uma agradável sensação de segurança, certamente igual a que oferece o sólido abrigo de aço construído em sua residência pelo Sr. Ismael Pereira, e que tive ontem a ocasião de visitar.

Este é uma bela construção de concreto armado, revestida por dentro com uma grossa placa de aço, dotada de grande conforto, provida de todos os requisitos urgentemente solicitados no lar, de iluminação elétrica e de um sistema de ventilação natural. Felizmente tudo parece indicar que o Sr. Ismael Pereira, que dessa forma dá um exemplo digno de ser imitado, não terá necessidade de refugiar-se no seu abrigo com o pensamento dolorosamente preso à destruição e à miséria que se propagam lá fora (PINHEIRO, 1942b, p.11)291.

A proposta podia significar que os moradores da cidade tomaram para si a responsabilidade de se protegerem contra os bombardeios aéreos. As

construções, a partir de meados de 1942, parece que foram adotadas por muitos setores da sociedade, fossem empresários, trabalhadores, sindicatos classistas ou escolas particulares (FRANÇA, 1943c)292. Nesse meio tempo, as instruções e normas de defesas continuavam sendo divulgadas e exigidas seu cumprimento diariamente. Era uma realidade que mais parecia uma ficção, que deve ter deixado marcas profundas e precisariam ser mais bem investigadas posteriormente por outros trabalhos.