O Programa Escola da Terra insere-se no Eixo I do Programa Nacional de Educação do Campo,9 lançado em março de 2012 pela Secretaria de Educação Continuada, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação e Cultura (Secadi/MEC), prevê a formação continuada dos professores e professoras em cursos de aperfeiçoamento, equipe local responsável pelo acompanhamento pedagógico e disponibilização de conjunto de materiais pedagógicos específicos (Brasil, 2012).
O projeto de formação continuada de professores e professoras que atuam em classes multisseriadas do campo baiano, elaborado e executado pela Universidade Federal da Bahia, por meio da Ação Escola da Terra, considera vital ao trabalho pedagógico o acesso a uma consistente base científica, que permita a elevação do pensamento teórico e que seja capaz de produzir as condições subjetivas à construção de um projeto superador de Educação para o Campo.
É desta perspectiva que o Curso foi estruturado considerando parâmetros teórico-metodológicos do Materialismo Histórico-Dialético, da teoria Psicológica Histórico-Cultural e da Pedagogia Histórico-Crítica enquanto alternativa que desponta da crítica à realidade das Escolas no Campo, às tendências idealistas da Educação e à atual organização do trabalho pedagógico da Escola no Campo,10 buscando avanços na base teórica de formulação e intervenção da realidade.
A Ação Escola da Terra na Universidade Federal da Bahia alcançou um total de mil e setecentos (1.700) professores e professoras, de oitenta e cinco (85) municípios da Bahia, organizados em dez (10) pólos de formação, com a implementação de três edições do Curso de Aperfeiçoamento/Especialização em Pedagogia Histórico-Crítica para as Escolas do Campo: a primeira em 2014, a segunda em 2015-2016, e a terceira em 2016-2017. A quarta versão, em execução 2017-2018, está atingindo mais trezentos e cinquenta (350) professores e professoras, contabilizando, portanto, um quantitativo geral de pouco mais de dois mil (2.000) professores e professoras do campo baiano atendidos pela Escola da Terra,11 ou seja, na Bahia superamos a formação para pouco mais de cinco por cento (5%) do conjunto de professores e professoras interessados(as) em um período de quatro (4) anos.
O Curso foi organizado com caráter semipresencial, modalidade de Alternância,12 com Tempo Universidade e Tempo Comunidade, em quatro
(4) módulos sequenciados de cinquenta (50) horas, sendo dezesseis (16) horas presenciais, o Tempo Universidade, e trinta e quatro (34) horas semipresenciais, o Tempo Comunidade. No Tempo Universidade as aulas foram ministradas por um Professor(a) Formador(a) e no Tempo Comunidade, os(as) professores(as) cursistas foram assistidos(as) por um Professor(a) denominado de Assessor(a) Pedagógico. Registra-se que a formação13 de Professores(as) Formadores(as) e Assessores(as) Pedagógicos foi desenvolvida na sede da Universidade Federal da Bahia, em quatro (4) etapas que antecederam os Tempos Universidade nos polos de formação.
Em cada módulo buscou-se articular o conhecimento necessário a partir da problematização, da análise dos fundamentos, das possibilidades epistemológicas, e das proposições superadoras desenvolvidos através de momentos expositivos e consequente aprofundamento dos estudos em grupos a partir de questões comuns com posterior apresentação e discussão das sínteses no Tempo Universidade coordenado pelo(a) professor(a) formador(a), e no Tempo Comunidade, desenvolveu-se estudos recapitulando o conteúdo do Tempo Universidade anterior e estudando o conteúdo do Tempo Universidade posterior coordenado pelo(a) assessor(a) pedagógico discutindo a alteração da prática pedagógica de cada envolvido a partir dos novos conhecimentos propiciados a partir da abordagem teórica promovida pela formação da Escola da Terra.
No primeiro módulo foram tratados os fundamentos sobre Modo de Produção, do trabalho em geral ao trabalho pedagógico. Os quatro eixos fundamentais são: a Crítica às teorias educacionais e pedagógicas a partir das contribuições de Newton Duarte e Dermeval Saviani, Concepção de Educação do Campo; Projeto Político Pedagógico da Escola no Campo, Organização do Trabalho Pedagógico e Currículo para as Escolas no Campo e o Financiamento das Escolas no Campo. Este material didático, na
forma de Cadernos Didáticos da Educação do Campo, foi elaborado pela própria equipe do Lepel/Faced/UFBA.
O segundo módulo tratou do desenvolvimento do psiquismo e sua relação com a Educação Escolar. As dimensões a serem desenvolvidas da personalidade das crianças. A ontologia do ser social, a teoria do conhecimento e do processo ensino-aprendizagem foram tratados juntamente com a função social da escola, como meio de acesso aos produtos culturais das diferentes áreas do conhecimento.
No terceiro módulo foram tratados os fundamentos e bases do processo de alfabetização e letramento das crianças na multisseriação, tendo como eixo norteador as concepções de desenvolvimento e aprendizagem advindos da Psicologia Histórico-Cultural e da Pedagogia Histórico-Crítica além dos princípios para a organização do ensino, considerando as relações mais gerais trabalho-capital e específicas do trabalho pedagógico nas classes multisseriadas.
No quarto módulo foi recuperado o percurso de estudo até então bem como aprofundado os estudos acerca do desenvolvimento do pensamento.
As orientações no Tempo Universidade subsidiaram a elaboração de relatórios técnico-científicos versando sobre a Pedagogia Histórico-Crítica e o projeto de intervenção na escola com esta base teórica, entregues segundo normas técnicas como requisito para conclusão do curso em nível de especialização.
Em síntese, buscou-se a elevação teórica na formação continuada dos professores e das professoras do Estado da Bahia, que atuam nas classes multisseriadas, nas Escolas do Campo, tratando de conteúdos científicos sobre modo de produção, função social da escola, teorias que explicam o processo de ensino-aprendizagem e organização do trabalho pedagógico em classes multisseriadas. A constatação sobre a assimilação destes conhecimentos foi possível de ser verificada na comparação do domínio do
conhecimento no início e no final do curso expresso nos relatórios dos professores e professoras.