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DESIGUALDADE SOCIAL

O filósofo Hegel partia do pressuposto de que a exploração de classe ou a relação entre senhor e escravo era o resultado de um processo lógico construído a partir da condição dada, e não cronológico, portanto, não histórico. Contrariamente a ele, Marx e Engels demonstraram, revolucionando a concepção epistemológica predominante na Filosofia, que a existência dessa relação hierarquizada e assimétrica constituíra-se no processo histórico da humanidade. Portanto, ninguém nascia senhor ou escravo por não existir uma natureza humana dada a priori.

Uma coisa, entretanto, está clara. A natureza não produz, de um lado, possuidores de dinheiro ou de mercadorias, e, de outro, meros possuidores das próprias forças de trabalho. Esta relação não tem sua origem na natureza, nem é mesmo uma relação social que fosse comum a todos os períodos históricos. Ela é evidentemente o resultado de um desenvolvimento histórico anterior, o produto de muitas revoluções econômicas, do desaparecimento de toda uma série de antigas formações da produção social. (MARX, 1988a, p. 189)

Essa condição de desigualdade social se deu pelo poder econômico na luta imposta pela necessidade de sobrevivência e, consequentemente, pelo poder político na vida real, concreta e histórica da produção dos meios de existência dos homens. Hegel descreveu a sociedade representando a desigualdade social numa anterioridade racional em relação à materialidade, por meio de seu constructo lógico; assim, representou abstratamente, portanto, na mente, a luta travada entre consciências (subjetividade → objetividade) que dela resultou na consciência servil e escrava existente concretamente na sociedade. A explicação de Hegel resumia-se na reprodução da ideologia dominante na Alemanha. Segundo o filósofo, o escravo sucumbiu-se diante do senhor na guerra das consciências, para não perder a vida, se sujeita ao trabalho diante da imposição do senhor, que exige para si o reconhecimento moral, portanto, enquanto senhor, por isso o mantém vivo. “[...] A dialética do senhor e do escravo pensa o trabalho como necessidade imposta na luta pelo reconhecimento: o trabalho é posto como violência e sujeição.” (SANTOS, 1993, p. 11)

Diante dessa desigualdade, na perspectiva de Hegel, o trabalho é visto como algo positivo que o escravo precisará desenvolver como sendo a forma de realizar sua completude, sua realização por meio do processo dialético entre exteriorização e interiorização, e, assim, recuperar a liberdade perdida por intermédio das leis do Estado que terão o papel de harmonizar o conflito entre essas classes sociais. Segundo Hegel (1992, p. 10), no parágrafo

10 da Filosofia do Direito: “O homem, que é racional em-si (potência), deve completar a produção de si mesmo pelo trabalho, através da saída de si, mas deve também tornar-se real (para-si) mediante o retorno à própria interioridade.”

Nos primórdios da humanidade, parcialmente ainda submetidos aos desígnios da natureza, existia uma igualdade natural entre os agrupamentos humanos que viviam em tribos. Mas a convivência em comum e a proteção da tribo impunham a necessidade de dividir funções por competência no âmbito da coletividade, dando origem aos primeiros indicadores de formação de classes sociais. Engels afirmava que ao se desligarem do reino animal os homens entravam na história ainda meio animalizados e brutos, quase impotentes diante da natureza, apenas um tanto mais produtivos que as bestas. Apesar disso, reinava, naqueles dias, certa igualdade de níveis e de posição social, embora ainda não a divisão de classe que hoje aparece na sociedade. E, também, havia naquelas coletividades determinados interesses comuns como a administração da justiça, repressão de atos ilegítimos, inspeção do regime de água e uma série de funções religiosas.

Tais fenômenos de distribuição de competências se encontram, nas coletividades naturais de todas as épocas, como já ocorria na sociedade antiqüíssima dos marks alemães e como ainda hoje se observa na Índia. Trazem consigo, como é lógico, uma certa amplitude de poderes e representam as origens do Estado. Pouco a pouco, as forças produtivas se vão intensificando, a densidade cada vez maior de população cria interesses, ora comuns ora formados entre as distintas coletividades, de modo que, agrupando-se num todo superior, fazem nascer uma nova divisão do trabalho, criando os órgãos necessários para cuidar dos interesses harmônicos e para defender-se contra os interesses hostis. Tais órgãos, que ocupam já, como representantes dos interesses comuns de todo o grupo, uma posição especial frente a cada coletividade particular, até mesmo inclusive inimiga, vão adquirindo dia a dia maior independência, devido, em parte, ao caráter hereditário de suas funções, caráter quase evidente num mundo em que tudo se desenvolve de um modo elementar e em parte, à proporção em que se vão tornando indispensáveis pela multiplicação dos conflitos em outros grupos. [...] A única coisa que nos interessa é patentear que a hegemonia política teve por base, em todas as partes, o exercício de uma função social em que se fundamentava. Muitos foram os déspotas que passaram pelo poder, na Pérsia e na Índia, mas todos eles sabiam perfeitamente que sem irrigação não se podia fazer ali agricultura. (ENGELS, 1979, p. 156-157, grifo do autor)

Engels explica que, nesse processo de constituição de classes sociais, ocorre paralelamente o processo de divisão do trabalho. A exploração da terra, por cultivo de lotes individuais, promoveu a produção agrícola em grandes proporções, a força de trabalho no seio da tribo atingira a produção além do necessário, produzindo um excedente. Assim, a tribo já contava com meios para manutenção de novas forças de trabalho, bem como os que dariam ocupação a elas. Nas palavras de Engels (1979, p. 158), “A força de trabalho adquiriu um

chegou ao nível da hostilidade, causando guerras entre eles, e os estrangeiros que fossem derrotados não eram mais assassinados, mas sim deixados vivos para o trabalho. Assim, a violência foi posta a serviço do econômico e dessa forma foram lançadas as bases da instituição da escravidão. Mas, lembra Engels, também aí, no seio da família lavradora, se deu o regime elementar de divisão de trabalho, o que permitiu certo bem-estar e a incorporação de novas forças alheias a essa divisão, principalmente onde o solo já estava degradado e exigia um esforço coletivo. Nesse momento já se produzia mais do que se precisava, embora ainda não houvesse uma força de trabalho excedente, essa só possível por meio da guerra. É aí que também os prisioneiros passaram a representar um valor.

Haviam sido lançadas as bases da instituição da escravidão. Não tardou esta em converter-se na forma predominante da produção em todos os povos que já haviam ultrapassado as limitações das comunidades primitivas, para terminar por ser uma das causas principais de sua ruína. Foi a escravidão que tornou possível a divisão do trabalho, em larga escala, entre a agricultura e a indústria, e foi graças a ela que pode florescer o mundo antigo, o helenismo. Sem escravidão, não seria possível conceber-se o Estado grego, nem a arte e a ciência da Grécia. Sem escravidão não teria existido o Império Romano. E sem as bases do helenismo e do Império Romano não se teria chegado a formar a moderna Europa. Não nos deveríamos esquecer nunca que todo o nosso desenvolvimento econômico, político e intelectual nasceu de um estado de coisas em que a escravidão era uma instituição não somente necessária, mas também sancionada e reconhecida de um modo geral. Podemos, nesse sentido, afirmar, legitimamente, que, sem a escravidão antiga, não existiria o socialismo moderno. (ENGELS, 1979, p. 158, grifo do autor)

Ao desfecho da guerra, a tribo que perdesse a contenda fazia com que seus membros sucumbissem diante da tribo vencedora para preservarem suas vidas. A vencedora os mantinha vivos como propriedade de si, como propriedade privada, como escravos, bem como se apoderava de todos os bens da tribo vencida, inclusive de seus meios de produção, tais como os instrumentos de trabalho e a terra, dando início aos impérios, o que Marx denomina de expropriação originária. O senhor destinava ao escravo o trabalho mais hostil e dessa época em diante o trabalho passou a ser realizado por aqueles que perderam a liberdade e foram expropriados dos seus meios de produção. Surgia, assim, a exploração do homem

pelo homem, resultando na configuração das classes sociais e a exploração de uma classe

sobre a outra. De um lado, proprietários dos meios de produção e, de outro, escravos expropriados de liberdade e de meios de produção. Essa condição de desigualdade sócio- histórica se ampliou nas lutas entre impérios e recebeu os contornos universais sob o império capitalista.

Marx se pergunta de onde provém esse fenômeno singular no mercado onde, por um lado, encontramos um grupo de compradores que possui terras, maquinaria, matérias-primas e

meio de vida, e, por outro, um grupo de vendedores que nada têm e que só têm a vender sua força de trabalho, braços laboriosos e cérebros. Conclui ele que

A investigação deste problema seria uma investigação do que os economistas chamam “acumulação prévia ou originária”, mas que deveria chamar-se expropriação originária. E veremos que esta chamada acumulação originária não é senão uma série de processos históricos que resultaram na decomposição da unidade originária existente entre o homem trabalhador e seus instrumentos de trabalho. [...] Uma vez consumada a separação entre o trabalhador e os instrumentos de trabalho este estado de coisas se manterá e se reproduzirá em escala sempre crescente, até que uma nova e radical revolução do sistema de produção a deite por terra e restaure a primitiva unidade sob uma forma histórica nova. (MARX, 1977, p. 358-359, grifos do autor).

A expressão “acumulação prévia ou originária” Marx também define n’O Capital como “acumulação primitiva”.

Na Ideologia Alemã, Marx e Engels narram que, no transcorrer da história, observam- se diversos tipos de propriedade. Segundo eles, a primeira forma de propriedade é a

propriedade da tribo, que correspondia a um tipo rudimentar de produção baseada na caça, na

pesca, na criação de gado e em uma agricultura incipiente. A divisão do trabalho se dava de forma natural no âmbito da família e a estrutura social era uma extensão da estrutura familiar: no topo estavam os chefes da tribo patriarcal, seguidos dos membros da tribo e, por último, os escravos. “A escravatura latente na família só se desenvolve pouco a pouco com o crescimento da população, das necessidades, e das relações exteriores; e, quanto a estas, quer se tratasse de guerra ou de comércio.” (1974, p. 20-21). A segunda forma é baseada na

propriedade comunitária e na propriedade do Estado que existiam na antiguidade e que

correspondiam na reunião de várias tribos numa única cidade, por contrato ou por conquista, e na qual subsistia a escravatura. (MARX; ENGELS, 1974, p. 21). A terceira forma de propriedade era a propriedade feudal ou propriedade por ordens, na Idade Média. “Tal como a propriedade da tribo e a da comuna, aquela repousa por sua vez numa comunidade em que já não são os escravos, como acontecera no sistema antigo, mas sim os servos da gleba que constituem a classe directamente produtora.” (MARX; ENGELS, 1974, p. 23).

No mundo capitalista, a forma de propriedade e do trabalho mudou significativamente. A propriedade capitalista se transformou em propriedade dos meios de produção e, ao invés de o capitalista ter a posse da pessoa como escrava, ele tem a liberdade legal de comprar tempo (horas, dias, meses e anos) determinado de força de trabalho de um ou de um conjunto de indivíduos “livres” para produzir mercadorias. Porém, não se deve esquecer que, durante a ascensão histórica do sistema capitalista, por meio do processo de colonização de muitos

povos, o uso do trabalho escravo, que já tinha sido utilizado em várias regiões da Europa sob diversos impérios, como, por exemplo, o Império Romano - que possuía milhões de escravos, e a Grécia Clássica, onde a maioria da população era constituída de escravos. Após esse período, com a instituição dos feudos, essa condição humana foi substituída pela condição de servo da gleba. Mas o instituto da escravidão foi revigorado e amplamente utilizado nas colônias, sob o domínio dos impérios europeus capitalistas, principalmente nos continentes africano e americano, o que contribuiu para um grande acúmulo do capital e a concentração da riqueza nas metrópoles.

A divisão do trabalho entre proprietários e não proprietários dos meios de produção decorre, então, da divisão entre trabalho intelectual e braçal, surgindo a hierarquia social por intermédio da divisão social do trabalho. Segundo Engels, a origem de classe surge a partir das relações de poder e vassalagem. Cabe aos escravos que perderam suas liberdades o trabalho. E, àqueles que possuem a propriedade dos meios de produção, dos quais se apropriaram como resultado das relações exteriores decorrente de guerras e comércio entre tribos, cabe a administração do trabalho. Dessa necessidade concreta surge a desigualdade

social. A desigualdade social origina-se na desigualdade de gênero, no âmbito familiar, como

instituto latente de primeira propriedade privada na forma de escravatura das mulheres e crianças que foram propriedades do homem. Mais tarde esse tipo de propriedade é ampliada para toda a tribo e para uma reunião de tribos decorrente de guerras, que depois deu origem ao Estado.

Esta divisão do trabalho, que implica todas estas contradições e repousa por sua vez sobre a divisão natural do trabalho na família e sobre a divisão da sociedade em famílias isoladas e opostas implica simultaneamente a repartição do trabalho e dos seus produtos, distribuição desigual tanto em qualidade como em quantidade; dá portanto origem à propriedade, cuja primeira forma, o seu germe, reside na família onde a mulher e as crianças são escravas do homem. A escravatura, decerto ainda muito rudimentar e latente na família, é a primeira propriedade, que aqui já corresponde aliás à definição dos economistas modernos segundo a qual é constituída pela livre disposição da força de trabalho de outrem. De resto, divisão do trabalho e propriedade privada são expressões idênticas – na primeira, enuncia-se relativamente à actividade o que na segunda se enuncia relativamente ao produto desta actividade. (MARX; ENGELS, 1974, p. 38-39, grifo dos autores)

Como Marx e Engels definiram que a primeira forma de propriedade é a da tribo, dela se desmembra, mais tarde, a divisão de trabalho entre senhores e escravos e os antagonismos de classes sociais, tendo como consequência a exploração de classe por meio do trabalho. Na luta pela sobrevivência decorre a desigualdade social e, sob esse sistema de produção, os proprietários das terras e dos meios de produção se apropriam também dos produtos do trabalho. O senhor não mata o escravo por carência de reconhecimento no campo da moral

enquanto senhor, como defendia Hegel, mas sim preserva a vida do escravo por necessidade de pô-lo a realizar as tarefas mais hostis de que a tribo necessita. Assim, se dá a origem da escravidão. Nisso, o trabalho que antes propiciava o desenvolvimento da essência humana individual e social, portanto, a subjetividade humana, desse momento em diante adquire esse aspecto negativo para uma crescente parcela da população que, evolutivamente, vem sendo expropriada de liberdade e dos seus meios de produção até os dias atuais e é explorada até a exaustão ou até a perda de suas próprias vidas na produção de mercadorias para acumulação privada.

A propriedade privada evolui constantemente de forma mais sofisticada e ampliada e a divisão do trabalho será também potencializada em escala mundial. Primeiramente, a divisão do trabalho se dá de forma natural no aspecto gênero, com as atividades desenvolvidas por homens e mulheres a partir de suas forças físicas; no segundo momento, entre senhores e escravos, o que corresponde à primeira divisão mais geral entre trabalho intelectual e braçal, correspondentemente entre expropriadores e expropriados. Mais tarde a divisão se dá entre cidade e campo e entre Estados e, assim, a divisão vai se especializando também em setores da economia. Entre os Estados, a divisão do trabalho se especializa de acordo com a da produção do campo ou do comércio marítimo e da indústria. E, na produção industrial, a divisão se especializa nos diferentes setores da economia.

Os vários estádios de desenvolvimento da divisão do trabalho representam outras tantas formas diferentes de propriedade; dizendo de outro modo, cada novo estádio na divisão de trabalho determina igualmente as relações entre os indivíduos no que toca ao material, aos instrumentos e aos produtos do trabalho.” (MARX; ENGELS, 1974, p. 20)

A divisão do trabalho só surge efectivamente a partir do momento em que se opera uma divisão entre o trabalho material e intelectual. A partir deste momento, a consciência pode supor-se algo mais do que a consciência da prática existente, que representa de facto qualquer coisa sem representar algo de real. E igualmente a partir deste instante ela encontra-se em condições de se emancipar do mundo e de passar à formação da teoria “pura”, teologia, filosofia, moral, etc. Mas mesmo quando essa teoria, essa teologia, essa filosofia, essa moral, etc., entram em contradição com as relações existentes, isso deve-se apenas ao facto de as relações sociais existentes terem entrado em contradição com a força produtiva existente; aliás, o mesmo pode acontecer numa determinada esfera nacional porque, nesse caso, a contradição produz-se não no interior dessa esfera nacional mas entre a consciência nacional e a prática das outras nações, quer dizer, entre a consciência nacional de uma determinada nação e a sua consciência universal. (MARX; ENGELS, 1974, p. 37)

Essa concepção de propriedade privada de Marx e Engels, por exemplo, difere significativamente do romântico Rousseau quando esse tratou no “Discurso sobre as origens e os fundamentos da desigualdade entre os homens” (1754/1988) que os problemas sociais

decorriam de uma demarcação territorial como propriedade privada, dando origem aos ricos e pobres. Seguindo outra hipótese da origem da desigualdade social, o anarquista Proudhon escreveu dizendo que “a propriedade é um roubo” (1840/1998). Esses autores, mesmo partindo de concepções distintas de propriedade privada, trabalham dentro de um consenso, o de que a origem da desigualdade social tem como causa a propriedade privada, diferentemente da concepção liberal da economia política burguesa que fundamenta sua visão social na positividade decorrente da propriedade privada. Por isso Marx e Engels defenderão a supressão da propriedade privada dos meios de produção como solução das mazelas sociais por meio da revolução social.

2.5 A CONSEQUÊNCIA DA PROPRIEDADE PRIVADA É A ALIENAÇÃO NO