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O período brasileiro de Ditadura Civil-Militar teve seu início com o Golpe Militar de 1º de abril de 1964, derrubou o governo de João Goulart - eleito diretamente em 1960 - e durou até 1985, quando se deu a posse do governo civil de José Sarney, então vice-presidente de Tancredo Neves, ambos eleitos indiretamente pelo Congresso Nacional para dar início à “redemocratização do país”. Antes da posse Trancredo Neves falecera, e José Sarney assumiu o governo com o compromisso de organizar as próximas eleições para presidente da República de forma direta.

A volta das eleições diretas para presidente ocorreu em 1989, e simbolizou a demarcação entre dois projetos político-econômicos que tinham uma configuração de classe de nível mundial, porém ambos tinham seus fundamentos na única economia política vigente: a economia do livre mercado. Foi muito significativa a disputa entre o projeto socialdemocrata - alinhado mais à esquerda e com apoio de ampla parcela da classe

trabalhadora, representado pelo hoje Presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, e o projeto neoliberal - representado por Fernando Collor de Mello e apoiado pelo poder econômico nacional e internacional, constituído pelo capital industrial, financeiro e agroindustrial, que investiu na candidatura de Collor para a desregulamentação da economia nacional e a consequente abertura total do país ao mercado globalizado.

Em acirradíssima disputa, Collor se elegeu como primeiro presidente civil eleito após a ditadura, “diretamente pelo povo”, em um processo definido como “democrático”, se for comparado ao período ditatorial. Em 1992 - dois anos após ter sido eleito-, Collor de Mello foi impedido (processo de Impeachment) de continuar governando, por estar envolvido em corrupção. Esse governo, que se apresentava como pós-moderno, representava o que era de mais conservador na política brasileira. De um lado, estavam os representantes do poder do capital, da elite nacional, nas suas configurações clássicas: coronéis, usineiros, latifundiários, representantes da estrutura burocrática do Estado, e o poderio midiático conservador que eram concessionários do sistema de TV, rádio-difusão e da imprensa escrita e falada. Do outro, estavam os que representavam também o capital (internacional), que investiu em sua candidatura para que Collor abrisse as portas do país de vez, eliminando todas as regulamentações para uma livre concorrência do mercado mundializado sob os princípios do neoliberalismo.

O conjunto de promessas que fundamentava sua plataforma econômica de campanha baseava-se, praticamente, em duas vertentes, uma moral e outra econômica. Apresentou-se como o “salvador da pátria” que, disparando um tiro só, acabaria com a inflação. Apresentando-se, também, como “o novo” na política - jovem, forte, ousado, adequado para o momento mundial global pós-moderno -, punha em contraste seu adversário Lula, que representava, segundo a mídia, o ultrapassado, velho e caduco do Socialismo de Estado que recém viera abaixo com a queda do Muro de Berlim. Com forte discurso moralista, Collor prometeu a moralização da política; com forte apelo à ideologia da modernização administrativa do Estado, apresentou-se, também, como candidato ético que resolveria a corrupção estrutural e burocrática dominante no Estado brasileiro, elegendo como símbolo e alvo o funcionalismo público. Além da promessa de pôr fim à inflação, no bojo da sua plataforma econômica estava a modernização econômica do país, alinhada às políticas neoliberais, tais como: a minimização da interferência do Estado na economia; a eliminação dos controles burocráticos da política econômica; a abertura da economia ao capital internacional. Também, prometia à elite investimento nas empresas brasileiras para estas se

adequarem aos novos tempos de globalização do mercado, tornando-as mais eficientes e competitivas para elas se fortalecerem na disputa da concorrência mundial.

A plataforma de candidatura de Collor de Mello, portanto, foi baseada nas bandeiras defendidas pelo neoliberalismo, ou seja, a defesa da eficiência do setor privado para gerir os negócios e os serviços sociais contra a incapacidade e ineficiência da gestão pública. Para pôr em prática esse pensamento, estrategicamente o candidato criou um inimigo interno, analogamente à metodologia adotada pela Ditadura Civil-Militar (ALVES, 1989), para justificar sua plataforma eleitoral e o desenvolvimento com segurança. Para os ditadores, os inimigos internos foram os comunistas; para Collor, então com o discurso de modernizar o Estado para sua eficiência e incluí-lo no desenvolvimento econômico mundial, os funcionários públicos tornaram-se o ícone da ineficiência e do atraso da nação, ou seja, os

inimigos internos que impediam a modernização das estruturas do país. Este recebeu o apoio

forte da mídia e do poder econômico, que promoveram alto índice de consenso social ao divulgar altos salários que recebiam alguns funcionários públicos beneficiados pela estrutura, generalizando como se todos recebessem esses mesmos salários. Por conta desta cruzada Collor recebeu o título de caçador de marajás, o que foi muito ovacionado pela mídia. Os marajás eram os funcionários públicos, nos quais se colocava toda a culpa dos problemas sociais.

Por meio dessa estratégia, estabeleceu as bases para o processo de privatização do serviço público, com o seu Plano Nacional de Desestatização, usando como propaganda a ineficiência do serviço público e a defesa do encolhimento do Estado (Estado Mínimo), traduzido no ajuste econômico, na redução dos investimentos públicos para políticas públicas na área de saúde, educação e assistência social. Esse discurso, atualmente, é mais conhecido como a política econômica favorável ao ajuste fiscal, convencionada de déficit primário e adotado para diminuir a todo custo os investimentos no setor público, priorizando o pagamento da dívida externa, que é uma forma de transferência de riqueza do social para o privado. Assim, deixa-se para a iniciativa privada a assistência, tal como previdência, saúde e educação, tornando-as mercadorias. Nesse momento, iniciava-se a campanha em favor da privatização das empresas estatais, para transferir ao privado o que era prerrogativa da iniciativa pública e, assim, resultar na diminuição do investimento do Estado em políticas públicas de toda ordem.

Collor teve uma campanha política milionária, substancialmente financiada pelos representantes do sistema do capital - entre eles o capital monopólico internacional, os grandes industriários nacionais e o capital financeiro internacional - e com forte apelo

midiático conduzido pelo monopólio da indústria cultural brasileira, personificado principalmente pela Rede Globo de Televisão e pelos jornais impressos de grande circulação. Dando autenticidade ao senso comum, o discurso de Collor dissimulava as verdadeiras intenções, a campanha difamatória que desqualificava os serviços públicos e, de modo geral, os funcionários públicos, tinha como meta a ofensiva privatizante desses serviços, que fora estrategicamente planejada de antemão sob os princípios do neoliberalismo. Com essa campanha, Collor de Mello foi também ovacionado pela imprensa internacional da época, com ênfase no seu qualificativo de caçador de marajás. Esse título foi incorporado e posto como uma das âncoras da campanha eleitoral e, no governo, deu início ao desmonte do Estado e à rapinagem dos bens públicos, levados a efeito também por meio de seus asseclas, o que resultou no seu Impedimento.

Como se observa, a desregulamentação da economia brasileira dentro do conjunto de regras ditadas pela capitalcracia mundial, no que se convencionou chamar de neoliberalismo, ocorreu com o consenso das elites econômicas nacionais de um modo geral e configurou-se no projeto do governo Collor de Mello. Esse governo adotou a pragmática neoliberal de forma agressiva e imoral, usando as instituições do Estado para propagar a ideologia da classe dominante e impor os interesses econômicos dos grupos que Collor representava, impactando diretamente na classe trabalhadora. Além da diminuição dos gastos públicos, como vinha sendo defendido pelos personificadores do ideário neoliberal, a desregulamentação econômica para a total abertura do país ao mercado mundial, a privatização das empresas estatais e a flexibilização das leis trabalhistas foram outras características fundamentais desse imperativo de acumulação do capital.

Com a crise dos anos 70 surgiu o neoliberalismo, posto em experiência pela primeira vez no Chile articulado com o golpe do general Pinochet, e logo após implementado na Inglaterra, sob a batuta de Margaret Thatcher e, nos EUA, com o republicano Ronald Reagan. No Brasil, caracterizou-se a partir de 1990, com o governo Collor de Mello (1990-1992) e consolidou-se com os governos de Itamar Franco (1992-1995), de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-). Ao aderir ao neoliberalismo, o governo de FHC transferiu volumosas riquezas sociais para a iniciativa privada, empresas estatais com alta lucratividade foram doadas, como demonstra o levantamento feito por Aloysio Biondi, apresentado em seu livro O Brasil privatizado: um balanço do desmonte do

Estado (1999). Desde então, os governos que sucederam Fernando Henrique Cardoso se

empenharam na pulverização da organização sindical dos trabalhadores ou de seu aparelhamento à estrutura estatal para evitar contestações e, assim, poder implementar, com

“certa tranquilidade”, as políticas de desregulamentação econômica e de flexibilização dos direitos trabalhistas. Na avaliação de Antunes (2004, p. 14-15),

Foram de grande monta as transformações ocorridas no capitalismo recente no Brasil, particularmente na década de 1990. Mutações políticas, com o advento do receituário e da pragmática neoliberais, desencadeando uma onda enorme de desregulamentações nas mais distintas esferas sociopolíticas. Houve também transformações no plano da organização sociotécnica do universo produtivo, redesenho da divisão internacional do trabalho, metamorfoses no mundo do trabalho e no espaço da organização sindical, reterritorialização da produção, dentre tantas outras conseqüências.

É importante ressaltar, aqui, que a Constituição de 1988 foi elaborada para estabelecer as leis máximas para a redemocratização do país em substituição às leis editadas no período ditatorial. Ressalta-se que, para o pensamento de esquerda da época, como para o Partido dos Trabalhadores (PT) - do hoje Presidente Lula, que, com seus 16 parlamentares constituintes participaram da elaboração da referida Constituição – porém, não a assinaram pelo fato de os avanços para a classe trabalhadora na Constituição não teriam sido satisfatórios. Afirmavam que os interesses do capital tinham sido privilegiados e os direitos sociais foram deixados para regulamentações futuras. Por conta disso, para a classe trabalhadora e a bancada petista, apesar de esta última ter participado da elaboração e articulado a participação popular, não era possível assinar a nova Constituição. Mas, hoje, o PT não só defende a Constituição Federal como também aderiu fortemente ao neoliberalismo e prossegue fazendo novas adaptações à CF para incorporar as regras do comércio internacional e as desregulamentações necessárias para participar da nova divisão social do trabalho em escala mundial, obedecendo às regulamentações neoliberais de um lado e, de outro, os preceitos do Estado de Bem-Estar Social, investindo em políticas públicas compensatórias e focais, convergindo sua ação política em um hibridismo de concepções de Estado Keynesiano e Capitalismo de Estado.

Neste capítulo, detalha-se mais a questão da flexibilização do trabalho, aspecto da realidade socioeconômica e política que mais interessa para se analisar aqui a intensificação da exploração da classe trabalhadora sob a gestão científica da produção para a valorização do capital e sua acumulação por meio da extração da mais-valia, e para os capitalistas disputarem, com maior poder, a concorrência intrínseca do mercado mundial, a qual é vista, pelos liberais e neoliberais, como lei justa e absoluta para gerir a produção, o consumo e a distribuição da riqueza. Na realidade, o que se observa não condiz com o que é defendido, pois os capitalistas se dão bem com o aporte das instituições nacionais e internacionais que regulam politicamente as leis gerais da concorrência, como se observou na reunião da OMC do dia 29 de julho de 2009, conhecida como Rodada de Doha. Nessa rodada, em Genebra,

Suíça, iniciada em Doha, Qatar, em 2001, os interesses econômicos prevaleceram mais uma vez sobre o da solidariedade social entre nações. Como sempre ocorrem, as tentativas de acordo para o “livre comércio mundial” foram inglórias. A Índia e a China, como países emergentes, não cederam às exigências econômicas dos EUA, que queriam manter seus mecanismos de proteção por meio de subsídios agrícolas aos seus produtores internos em detrimento da abertura dos mercados nacionais dos países ricos aos países mais pobres e emergentes. “O objetivo era manter um equilíbrio entre a redução das barreiras agrícolas dos países ricos e a abertura industrial nos emergentes.” (NINIO, 2008) Com o fracasso em nível do comércio mundial, os países terão que negociar suas políticas econômicas nos acordos bilaterais.

Como se vê, a integração do Brasil à economia mundial foi um processo de submissão e de articulação da classe capitalista nacional a essa ordem, ditada pelas burguesias dos países hegemônicos com o poder econômico do Capital, ou seja, da capitalcracia, que se utiliza da denominação de democrático, mas que no fundo quem tem o poder não é o povo, no sentido etimológico e real que isso significa, e que o que está por trás desse discurso são interesses privados dos personificadores do capital. Estes que se organizam em empresas capitalistas (monopólios ou oligopólios) ditam as regras da economia mundial e política organizando-se no político que exercem no Estado e que os tornam hegemônicos. Nesse contexto, a política vem sendo cada vez mais privatizada, ou seja, a decisão que deveria ser da ordem pública se restringe a segmentos empresariais privados que acabam tendo maior influência nos processos decisórios da sociedade.

3.5 A ABERTURA NEOLIBERAL: A EMERSÃO DO BRASIL NO COMÉRCIO