PARTE I Caracterização do Inatismo Chomskyano
2. O INATISMO LINGUÍSTICO DE CHOMSKY
2.3. A Faculdade da Linguagem e a natureza da linguagem
Tendo como ponto de referência a psicologia individual, a resposta dada por Chomsky à questão de o que constitui o conhecimento da língua é a de que este é um conhecimento gramatical interiorizado; uma língua é assim concebida como um sistema de princípios computacionais e um léxico, radicados na mente humana. Sendo o conhecimento da língua assim caracterizado, a pergunta nuclear que se impõe é a de saber como ele se implementa na mente dos seus utentes. No âmbito do programa chomskyano, esta questão é respondida com aquilo que ele denominou “gramática gerativa particular”.
Na economia geral de sua teoria, este conceito se ocupa do estado da mente/cérebro do indivíduo que conhece uma língua particular. Esta circunscrição dos aspectos a serem estudados pela gramática gerativa é o que realmente possibilita a alegada mudança na abordagem dos problemas que envolvem a linguagem, isto é, é o que faz com que o objeto de estudo da linguística consista, em última instância, em algo enraizado na mente humana, e não em propriedades ou comportamentos linguísticos, quaisquer que sejam eles. Não há, portanto, qualquer interesse pela análise das expressões linguísticas consideradas em si mesmas, separadas das propriedades mentais que estão envolvidas em sua produção e compreensão. Nem há qualquer interesse pelos aspectos sociais que envolvem as variadas comunidades linguísticas; o foco se restringe aos aspectos mentais dessas línguas.
Assim caracterizada, pode-se dizer que o estudo da gramática gerativa de uma língua particular se ocupa com os aspectos psicológicos da linguagem. O conjunto destes aspectos é determinado pelo que Chomsky denominou de “faculdade da linguagem”, que é concebida como sendo uma componente cognitiva inata, independente, e biologicamente determinada na espécie humana. Trata-se, no fundo, de um alegado dispositivo comum a
todos os seres pertencentes a essa espécie, e que se caracteriza como sendo o “estágio inicial” do sistema linguístico que lhe é peculiar. Como é evidente, a linguagem seria, deste ponto de vista, uma necessária consequência fisiológica do aparelho biológico humano.
Assim caracterizada, a faculdade da linguagem é concebida como um módulo independente na psicologia humana. O que na verdade suporta a concepção de uma tal faculdade é a pressuposição de que a mente humana está dividida em diversos compartimentos, e cada um destes é responsável por um dos aspectos da vida mental. A ideia aqui defendida é a de que, assim como possuímos regiões cerebrais distintas para a produção e controlo das emoções, ou mesmo para o uso da memória, também há regiões cerebrais autónomas que são responsáveis pela atividade linguística. Uma forte evidência para a hipótese de uma localização cerebral específica de um módulo mental que é responsável pela linguagem pode ser encontrada no modo como, empiricamente, se concebe algumas desordens no exercício da linguagem como a afasia e a disfasia.
Neste sentido, então, a faculdade da linguagem pode ser considerada como um “órgão linguístico” no mesmo sentido em que, na ciência, se fala em órgãos biológicos como: o coração, o rim, o baço etc. Assim compreendida, a linguagem é, com efeito, um subsistema de uma estrutura mais complexa, cuja compreensão depende não só da compreensão particular de cada um dos órgãos que compõem tal estrutura, mas também de como eles interagem entre si. Convém notar que, diferentemente desses outros órgãos biológicos, crê-se que a faculdade da linguagem está fisicamente presente no cérebro, mas a sua posição nele ainda nos é desconhecida.
Uma das consequências imediatas desta maneira de pensar a natureza da linguagem é a de que as línguas naturais são adquiridas e faladas apenas pelos membros da raça humana, porque apenas eles possuem o tipo de estrutura mental que as torna possíveis.
Ao tomar a linguagem como um atributo biológico, a perspectiva de Chomsky revela-se como uma concepção naturalista de linguagem. Porque ela tem como base a suposição de que a linguagem é uma faculdade mental específica, a preocupação básica de Chomsky é a de caracterizar os estados desta faculdade, isto é, os vários estágios de seu desenvolvimento. Cada um destes estágios corresponde a cada uma das etapas de desenvolvimento da língua-I de cada indivíduo. Cada um desses estágios é, assim, o conhecimento linguístico presente na faculdade da linguagem de um certo falante, num determinado momento.
Um dado que merece ser já aqui ressaltado é o de que, para Chomsky, é só quando confrontada com as experiências linguísticas vivenciadas por um utente da linguagem dentro da comunidade verbal em que ele está inserido que a faculdade da linguagem dá origem ao conhecimento da língua. Repare-se que, neste sentido, ainda que seja essencialmente fundamentada numa perspectiva individual, a posição aqui defendida admite e sustenta a ideia de que, de certa forma, as línguas humanas são um empreendimento de carácter necessariamente social e intersubjetivo. Mais concretamente, assegura-se que é só na interação com um ambiente linguístico que a faculdade da
linguagem se desenvolve e passa a configurar os variados estágios da língua-I. Como os
utentes da linguagem experienciam diferentemente estas interações e o desenvolvimento linguístico apresentado por cada um deles depende de como interagem singularmente com os seus respectivos ambientes linguísticos, é importante destacar que o conhecimento linguístico internalizado de cada um desses falantes lhe é peculiar. Quanto a isso, convém salientar que, diferentemente do que concluíram os empiristas, behavioristas e até pragmatistas, isto não implica dizer que os princípios organizadores da linguagem são resultado da experiência vivida. Pelo contrário, tais princípios são biologicamente inatos, e, sem eles, nenhuma experiência linguística seria possível.
Neste contexto, uma das tarefas do linguista consiste precisamente na explicitação destes princípios. Devido aos pressupostos inatistas, ao se procurar uma descrição da gramática desta língua, o linguista fará, então, uma ciência natural de um módulo da mente, a faculdade da linguagem. Entretanto, a ideia da existência de uma faculdade da
linguagem concebida como uma componente da mente humana, que dá origem ao
conhecimento da língua, dada a experiência vivida, é uma ideia que o próprio Chomsky reconhece ser não pouco controversa. Do seu ponto de vista, porém, a faculdade da
linguagem existe, e a questão que resta saber é a de se ela é uma propriedade inerente à
condição humana, distinguindo os homens dos outros animais, ou se é apenas um mecanismo de aprendizagem mais eficaz. A sua resposta é a primeira, e ele espera que os progressos científicos consigam demonstrar a sua veracidade.