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6. Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul: professores, alunos e comunidade

6.3 A Faculdade de Filosofia para Caxias do Sul

Entre os documentos que foram pesquisados a participação da comunidade está sempre presente formatando o interesse comum em prol de uma educação de nível superior. A Igreja, enquanto promotora do ensino, fundando e mantendo escolas em diversas localidades, tanto de Ensino Primário, Secundário ou Superior, fortaleceu sua importância como instituição reconhecida, principalmente pelo Governo brasileiro, por ter alcançado tal conquista. Após muitas discussões houve uma união de esforços para conquistar o Ensino Superior. Como a educação se dava partindo de iniciativas particulares, a Mitra Diocesana se lançou, primeiramente com a Faculdade de Economia atendendo os anseios dos comerciantes e das indústrias que se instalavam no município. “As lideranças econômicas de Caxias do Sul, alguns católicos, disseram que o desenvolvimento local era grande, uma realidade marcada pela economia, por isso pretendiam a Faculdade de Economia” (MIGOT, entrevista em 17/11/2014, p. 2). O professor Migot salienta que a intenção primeira de Dom Benedito era pela Faculdade de Filosofia, mas ele atendeu o pedido das forças da comunidade.

Em seguida, com a Faculdade de Filosofia acolhe também seus próprios interesses. Além de qualificar os professores do Ensino Secundário, forma os

estudantes do Seminário Nossa Senhora Aparecida, visando à vocação sacerdotal. Todos os estudantes que pretendiam ser padres deveriam concluir o Ensino Secundário e cursar Filosofia. Com o foco no acesso ao Ensino Superior, “a Igreja não apenas criou as Faculdades de Economia e de Filosofia, mas ofereceu a infraestrutura para que elas pudessem funcionar” (MIGOT, entrevista em 17/11/2014, p. 3). A Faculdade foi mantida nas instalações da Mitra Diocesana até ser incorporada pela UCS, em 1967. O professor salienta que alunos e professores se mantiveram unidos com a sociedade regional. Explica que já havia um grupo que procurava trazer para Caxias do Sul uma extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mas que essa discussão não alcançou êxito e a união de todos com a iniciativa do Bispo alavancou o Ensino Superior para toda a região. Certeau (2003 e 2008) refere à importância do significado para que os fatos sejam registrados e perpetuados. Por isso remeto a importância da Faculdade pela leitura que faço dos apontamentos deixados como registros. Acredito que os documentos trazem a intenção de quem os produziu. Retomando Bacellar (2010), a pesquisa leva a uma narrativa e um olhar para o objetivo em estudo. Apesar de recheado de emoções o relato oral traz fatos importantes para uma pesquisadora historiadora com foco específico.

Na perspectiva da História Cultural é possível entender que esses sujeitos construíram história. Além da fundação, era preciso manter o Ensino Superior tão almejado. A falta de recursos foi um dos problemas encontrados e muitos professores chegaram a trabalhar sem receber seus benefícios para que a Faculdade permanecesse. “Nós lecionávamos sem nenhum direito trabalhista nas férias de julho e de final de ano [...] não tínhamos Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS [...] o objetivo era o ensino e nós lecionávamos para fortalecer a Faculdade” (MIGOT, entrevista em 17/11/2014, p. 7). Apesar de ter a iniciativa, oportuna e decisiva, Dom Benedito Zorzi não agiu sozinho. Chartier (2002) reforça que é preciso pensar como as relações se organizam com lógicas específicas. As forças da comunidade se mostram nos documentos pesquisados e nos relatos orais colhidos. Além de agradecimentos constam congratulações pelas iniciativas da Mitra Diocesana e parabenizações por conquistas alcançadas. Também estão presentes os esforços do corpo docente. Os entrevistados mostram que muitas reuniões e discussões foram feitas para manter a instituição além de envolvimento com cursos de qualificações. Isso demonstra a importância da Faculdade para docentes,

gestores, alunos e comunidade.

Essa micro história pode estar diretamente relacionada ao pensamento do representante direto da Igreja na região serrana gaúcha. Dom Benedito Zorzi, Bispo Diocesano, buscando valorizar os interesses do coletivo e mantendo a Antropologia como viés para outros estudos, fundou a Faculdade de Filosofia. Segundo Dom Nei Paulo Moretto, Bispo Emérito de Caxias, “tudo o que é humano naturalmente, é base ou fundamento também da Doutrina Católica” (MORETO, entrevista em 18/12/2014, p. 2). Ressalta que Dom Benedito valorizou a importância do provocar o pensar buscando o que é a verdade, reforçando o entendimento da Igreja no Ser Humano. Salienta que o Ensino Secundário era muito importante na época por ser ele o formador da mão de obra que supria as indústrias locais. Mais uma vez é possível perceber que a Faculdade de Filosofia selava um marco para a cidade e região.

Dom Paulo explica que Caxias cresceu muito e se transformou em cidade grande e isso trouxe diferentes formas de pensar e agir. Além da cultura, a educação também sofreu modificações. Antes, a produção da cidade e da região era através da vinicultura e da agricultura, e no final dos anos 50 as empresas cresceram e tornaram a cidade num polo industrial. Com isso as diferenças se fizeram presentes. Tanto as diferenças locais quanto das pessoas que vieram para a cidade em busca de trabalho e condições de vida melhor. Dom Paulo retrata que Dom Benedito era muito aberto, permitiu que debates fossem instalados em prol de escolhas pela comunidade. Entre essas discussões e a participação de diversos segmentos, a instalação do Ensino Superior foi o mais cobiçado. Comenta ainda que foi apreciado o todo da sociedade caxiense, se adaptando às diversas realidades, “valorizando o que já existia e que houvesse soma de forças” (MORETTO, entrevista em 18/12/2014, p. 7). Hunt (1992) salienta que muitos podem ser os focos de leitura, depende do leitor estabelecer a relação do momento, do objetivo pelo qual procede tal leitura.

A Mitra manteve a instituição com apoio da comunidade e engajamento de seus docentes e alunos. Tanto que mesmo depois de ser incorporada à Universidade era referida. Consta no Arquivo Histórico Municipal uma fotografia de alunos do curso de História da turma de 1965 em uma palestra proferida pelo historiador caxiense João Spadari Adami em 22 de novembro de 1967, nas dependências da Faculdade. Não há identificação de autoria da imagem, contudo, pode-se entender que se refere aos alunos, professores ou mesmo do próprio

historiador. A participação efetiva demonstra o objetivo focado no aprender.

Figura 24: Alunos do curso de História em palestra proferida por João Spadari Adami em 1967

Autoria: Não identificada Acervo: AHMJSA

Como não consta a autoria da fotografia não foi possível identificar quem são os alunos presentes na imagem. Contudo, é possível perceber que são estudantes concentrados e atentos ao que estava sendo tratado. Também podemos observar a presença de uma religiosa, reforçando a participação da Igreja nos diversos cursos. A imagem nos mostra ainda que o curso de História era formado em sua maioria por mulheres.

Atendendo a expectativa de toda uma comunidade a Faculdade de Filosofia de Caxias formou professores em diversas áreas do conhecimento, expandiu o universo de possibilidades de acesso ao Ensino Superior de toda uma região e contribuiu para o crescimento da cidade.