4. Os trâmites para a criação da Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul
4.5 A Legislação, documentos e pedido de reconhecimento
No final dos anos 50, a legislação educacional brasileira estava em fase de reformulação. Os estabelecimentos de Ensino Superior eram regidos pelo Decreto- Lei 421, de 11 de maio de 1938, e os governantes analisavam possíveis mudanças. O pedido de autorização para funcionamento de estabelecimentos isolados de Ensino Superior era composto por uma vasta lista de solicitações e documentos a serem apensados ao processo em tramitação no Ministério da Educação e Cultura. A Mitra Diocesana seguiu os trâmites e encaminhou por várias vezes tudo o que fora solicitado, desde registros documentais, reconhecimento de docentes, declarações de capacidades morais dos professores, currículos profissionais, até esclarecimentos pontuais.
O pedido de reconhecimento da Faculdade de Filosofia de Caxias do Sul, datado de 18 de novembro de 1961, se deu em forma de ofício do Diretor Pe. Plínio Bartelle ao Ministro da Educação e Cultura, Clóvis Salgado da Gama. O artigo 6º do Decreto-Lei 421/38, previa o procedimento. Assim, foi enviado ao Ministério o registro da mantenedora junto a um Cartório de Títulos e Documentos local com exemplar de seus estatutos explicitando os objetivos da entidade e sua participação em criação e manutenção de estabelecimentos de Ensino Superior. Nas provas de capacidade financeira foi apresentada a relação de patrimônio desde bens imóveis até balanço financeiro atualizado. A estrutura física que seria usada para
funcionamento da Faculdade foi destacada com a utilização do prédio da Escola Normal São José. Foi informada ainda a relação de livros da biblioteca, que em seu primeiro ano contava com aproximadamente 500 exemplares. A relação de pessoal administrativo e condições da secretaria também faziam parte das explicações.
Sobre o regimento interno, foi esclarecido que seguia a orientação legal vigente, com currículo mínimo fixado pelo Conselho Federal de Educação; organização didática composta por diretor, congregação, conselhos administrativo e departamental; representação discente na congregação e no conselho departamental; calendário escolar de 180 dias de aulas sem considerar período de provas, exames e férias; e inclusão de artigo referindo a obrigatoriedade de remessa anual de relatórios ao Conselho Federal de Educação.
A relação do corpo docente sugerido atendia as exigências do Conselho Federal de Educação, expondo comprovação das informações apresentadas. Entre os documentos solicitados constavam capacidade técnica, conferida através de diploma de curso superior onde tenha sido estudada a disciplina para a qual o candidato estava inscrito; especialização relativa à mesma disciplina, sendo esta comprovada por títulos; publicações, prova de exercício técnico-profissional ou pós- graduação relacionada; atestado de idoneidade moral firmado por duas autoridades públicas; atestado de residência, não sendo aceito o professor que não tivesse condições de se fazer presente assiduamente pelo menos duas vezes por semana às aulas; e termo de compromisso de regência da disciplina para a qual foi indicado. Para cada cadeira era indicado um professor regente, ou titular, diplomado há cinco anos ou mais, e um professor assistente, diplomado há mais de dois anos. A cada professor era permitido acumular até duas disciplinas afins.
O mesmo documento exigia que as matrículas oferecidas pelo estabelecimento de Ensino Superior fossem quantificadas considerando o espaço físico. Para isso, era necessário avaliar a capacidade das salas de aula considerando quantos alunos eram sugeridos por metro quadrado disponível. A Faculdade atendeu todas as solicitações e o processo tramitou dentro dos prazos junto ao MEC.
A legislação previa ainda o funcionamento por três anos como estabelecimento autorizado para que o reconhecimento fosse concedido. Após cumprir o prazo exigido, através do parecer 385/63, foi solicitada a concessão do reconhecimento. A diretoria de ensino superior instruiu o processo que trazia um
relatório da comissão verificadora formada por três professores da Universidade do Rio Grande do Sul confirmando o funcionamento da Faculdade desde 1960 de forma regular com os cursos de Filosofia, Letras Neolatinas, História e Pedagogia. No documento, consta, como item quarto do relatório:
A Faculdade mantém-se com a renda proveniente das anuidades dos alunos e taxas, suprindo a entidade mantenedora os déficits eventuais, como se verifica do exercício financeiro de 1962 o qual assinala um movimento da ordem de Cr$ 3.532.492,00 (Três milhões e quinhentos e trinta e dois mil e quatrocentos e noventa e dois cruzeiros). A capacidade financeira da entidade é atestada por uma declaração da Mitra Diocesana acusando uma arrecadação anual de mais de trinta milhões de cruzeiros e um patrimônio constando de imóveis cuja avaliação ultrapassa a casa de cem milhões de cruzeiros. (Parecer 385/63, CEDOC-IMHC-UCS, p. 01) O relator, Newton Sucupira, reforçou através de cópia de plantas arquitetônicas e fotografias, que as novas instalações da Faculdade, um prédio de cinco pavimentos construído especificamente para esse fim, apresenta todas as condições necessárias para manter a instituição. Ressalta que no momento da verificação foi confirmada a matrícula de 370 alunos com bom índice de frequência e os professores em atuação já haviam sido reconhecidos pelo Conselho Federal de Educação. O relator salienta que
A cidade de Caxias do Sul, “uma das mais industrializadas do sul do país”, segundo afirma o relatório da Comissão Verificadora, contando com 15 estabelecimentos de nível médio e quatro de nível superior possui condições para o funcionamento de uma Faculdade de Filosofia, considerada, especialmente, em sua função de formar professôres [sic] para a escola de nível médio. Em face da expansão do ensino e da carência de professôres [sic] justifica-se, pelo menos em princípio a fundação destas escolas em centros adiantados, como a cidade de Caxias do Sul. Não é, portanto, uma escola supérflua. (Parecer 385/63, CEDOC-IMHC-UCS, p. 02)
A administração era coordenada pelo diretor, Pe. Dalcy Ângelo Fontanive, tendo como vice-diretora a Madre Marie Eucharistic Daniellou, ou Madre Maria da Eucaristia Daniellou. Na secretaria atuava Eni Tonolli e como tesoureiro o contador Virgílio Cortese. Em 10 de dezembro de 1963 foi expedido o reconhecimento da Faculdade pela Câmara de Ensino Superior do MEC. Contudo, o reconhecimento oficial só veio através do decreto número 55665, de primeiro de fevereiro de 1965, publicado no Diário Oficial da União em 16 de fevereiro de 1965.