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4 DISCUSSÃO DE RESULTADOS E ANÁLISE

4.5 A falência do Estado, as violações dos Direitos Humanos e os

As ideias e os conceitos relativos à capacidade de um Estado fazer face às suas atribuições e responsabilidades de cumprir o papel de fornecer os serviços básicos a população, bem como a garantia de segurança aos cidadãos.Neste tópico será realizada abordagem sobre a situação de falência do Estado e os reflexos

7 Disponível em < https://www.armyupress.army.mil/Journals/Edicao-Brasileira/Artigos-Exclusivamente-On-line/Artigos-Exclusivamente-On-line-de-2017/A-Operacao-Sangaris/>. Acesso em:

11 nov. 17.

advindos dessa situação

De forma contrária, quando o Estado não possui a capacidade de cumprir com essa reponsabilidade pode receber a denominação de ‘Estado Falido’. Denominação esta que, segundo Silva (2012, p.48) os conceitos e ideias iniciais sobre Estados Falidos começaram a ser debatidos por Robert Jackson e Rosberg na década de 1980 e 1990.

Ainda nesse sentido, Silva (2012, p.49), leciona que há Estados que apesar de serem reconhecidos internacionalmente como Estados, há situações, que em tese, não possibilitariam ter a chamada “estabilidade jurídica”, ou seja, não possuiriam plena)”. No caso da RCA, verifica-se os fundamentos dessa teoria, pois o “Estado”

não consegue arcar com as atribuições que lhe são próprias.

A RCA, de acordo com o The Fund for Peace (2017), possui as condicionantes e indicadores que a permitem classificá-la dentro de conceito de falência dos Estados, considerando que a situação de violência agravou-se em 2012, momento em que milícias locais cortavam as gargantas de crianças e jogavam para os crocodilos comerem, segundo matéria publicada no The Guardian, em 22 de novembro de 2013.

Situação de horror, onde milhares de meninos e meninas morreram no meio da luta, sendo forçados a lutar entre os muçulmanos e católicos, conforme mesma matéria.

A situação da violência geral contra os civis e especial contra as mulheres, decorrente dos conflitos armados na RCA, tem ocasionado inúmeras vítimas. O Secretário-Geral das Nações Unidas reiteiradamente apontou a necessidade de proteger a população civil.

De acordo com Bassiouni e Mc Cormick (1996, apud Mello, 1997, p.432) a

‘violência sexual’ pode ser usada com uma ‘arma universal de guerra’. É um método de luta que tem sido usado em diferentes regiões, como a Cachemira, Libéria, Haiti, Ruanda, Vietnã, Birmânia, El Salvador, etc.”

O então Secretário-Geral das Nações Unidas (ANNAN, 2002, p.72) destacava a importância da proteção da mulher nos conflitos armados em seus relatórios.

Incentivava a participação feminina em todos os aspectos do fortalecimento da paz, nomeadamente na prevenção de conflitos e na resolução e reconstrução após os conflitos armados, usando como suporte a Resolução 1325 (2000), do Conselho de Segurança das Nações Unidas, reconhecendo a repercussão especial dos conflitos armados nas mulheres e a necessidade de dispor de mecanismos de proteção.

É oportuno esclarecer que os crimes cometidos contra as mulheres são difíceis de se apurar, pois, em regra, há dificuldades de se identificar as responsabilidades pelos delitos, de acordo com Mello (1997, p 433) “é muitas vezes difícil de se configurar este tipo crime devido ao silêncio das vítimas, que ocorre por medo de alguma retaliação por parte dos autores da violência sexual...”. Outro ponto, ainda segundo Mello, que as mulheres por medo ou talvez por influência dos costumes locais podem se sentir rejeitadas na própria comunidade por adotar uma moral sexual mais rígida.

A proteção para a mulher em países em conflito também encontra amparo jurídico no Protocolo Adicional I na alínea do art. 76 da Convenção de 1949, o qual disciplina que “As mulheres serão objeto de um respeito especial e protegidas em particular contra a violação, a prostituição forçada ou qualquer forma de atentado ao pudor”. Entretanto, essa proteção torna-se difícil de se fazer valer em Estados

“falidos”, como na RCA.

Não basta o estabelecimento de todo um sistema normativo de proteção às mulheres e crianças se o Estado não for capaz de viabilizar a proteção e responsabilizar os infratores e/ou agressores.

Com objetivo de aumentar a proteção, a MINUSCA passou a realizar ações pelo interior do país por meio dos Observadores Militares (MINUSCA, 2014), realizando patrulhas pelo território Centro-africano e estabelecendo áreas de segurança o que favorece a apuração das denúncias e o relato de violações contra as mulheres, bem como dos demais Direitos Humanos ao Quartel Geral das Nações Unidas em Nova Iorque.

Outro crime que ocorre, em tese, na RCA é o decorrente da ação dos grupos armados anti- Balaka e o Ex-Séleka, grupos antagônicos que lutam pelo aumento de suas áreas de influências, por vezes as ações dos grupos podem ser entendidas como uma espécie de limpeza étnica.

Esse tipo de ação já tem histórico de ocorrências em diversos conflitos, como os da antiga Iugoslávia, conforme Mello (1997, p.433) “a ‘limpeza étnica’ foi utilizada

na Croácia (se separou em 1991) e na Bósnia-Herzegovina (se separou em 1992). Na RCA, os grupos muçulmanos e católicos procuram eliminar um ao outro, bem como os simpatizantes do grupo oponente.

Segundo The fund for peace “o Indicador, P3, dos Direitos Humanos, HR, Figura 4, considera a relação entre o estado e sua população na medida em que os direitos humanos fundamentais são protegidos e as liberdades são observadas e respeitadas”. Por meio do indicador P3 “Human Right and Rule of Law, são examinados fatores como “a negação do devido processo consistente com as normas e práticas internacionais para prisioneiros ou dissidentes políticos e se existe um regime autoritário, ditatorial ou militar atual ou emergente....”. O Indicador também considera surtos de violência politicamente inspirada (em oposição a criminal) perpetrada contra civis, destaca-se que esse indicador não é exaustivo, podendo para fins de estudo ser incluído outros fatores.

A RCA no que diz respeito ao indicador P3, HR (human rights), está em terceiro lugar no ranking, o que demonstra as graves violações a que estão submetidas a população civil.

Outra forma de avaliação, numa escala de 10 a 120, onde 10 serve para classificar os países em melhores situações, como os países nórdicos e 120 os países mais frágeis, a RCA encontra-se na última classificação.

Figura 4 - Indicadores de violação de Direitos Humanos

Fonte: The Fund for peace, 2017

Percebe-se ainda da análise da Figura 5, que a partir de 2006 houve um aumento do índice P3, depois no período de 2009 a 2012, houve uma relativa estabilidade com relação aos Direitos Humanos e em 2013 houve um incremento dessas violações o que coincide com o período em que o grupo armado Ex–Seleka se dirigiu para a capital do país com intuito de tomar o poder.

De 2015 a 2017 manteve-se certa estabilidade, mas o índice Human rights continua elevado se for tomado por referência o ano de 2006.

Outra trabalho de pesquisa com relação aos indicadores que objetivavam mensurar as violações aos Direitos Humanos na RCA foi o realizado por Potts, Myer e Roberts (2010) que conduziram entre os meses de junho e julho de 2003 pesquisa na República Centro-Africana que mediu as violações de Diretos Humanos por meio do “Método da vizinhança” onde se buscou entrevistar vizinhos das vilas localizadas próximas às áreas dos conflitos logo após ou mesmo durante, com o preenchimento de questionários a respeito se já tinham sofrido qualquer agressão ou presenciado ou tomado contato com informações de casos de violência abuso sexual, estupro, recrutamento forçado cometidos pelos grupos armados.

A pesquisa revelou graves taxas de violação contra crianças e adultos afetados pelos conflitos. A pesquisa ocorreu em 69 vilas com entrevista de 599 mulheres e 2.370 famílias totalizando 13.669 pessoas. O resultado não apresentou registro de violação de cfrianças com menos de cinco anos, bem como não houve denúncia de estupro ou abuso sexual de homens.

A pesquisa também evidenciou que nenhuma criança foi assassinada durante o período da pesquisa. Violação e sequestros foram os eventos mais frequentemente relatados.

As taxas nacionais para crianças de cinco a 17 anos foram estimadas em 0,98 / 1000 / ano (IC 95%: 0,18 - 1,78) para recrutamento, 2,56 / 1000 / ano (IC 95%: 1,50-3,62) para sequestro, 1,13 / 1000 / Ano (IC 95%: 0,33 - 1,93) por lesão intencional, 10,72/1000 meninas / ano (IC 95%: 7,40 - 14,04) por violação e 4,80 / 1000 meninas / ano (IC 95%: 2,61 a 6,00) por abuso sexual

Conforme os pesquisadores Potts, Myer e Roberts (2010) houve dificuldades para se quantificar os índices de violações dos direitos humanos perpetrados pelos milícias armadas, pois segundo os estudiosos ter acesso a essas informações era uma situação que eles consideravam desafiadora, pois o levantamento de dados era realizado durante os conflitos ou mesmo ato seguido às confrontações, quando a população civil ainda está sob forte estado de estresse, e por muitas vezes ainda de alguma forma sob estado de coação e sem os devidos mecanismos de suporte e proteção que autoridades governamentais poderiam oferecer nessas situações. A falta de proteção contras os abusos dos grupos armados foi um elemento dificultador.

Ainda nesse sentido, Roberts (2010), revela que é necessário o complemento dos dados por via de métodos mistos, com emprego de relatórios qualitativos que fornecem informações sobre a experiência da população civil afetada e o contexto em que a violação ocorrera, devendo ser complementados por métodos quantitativos, com o fim de se avaliar aproximadamente quantas pessoas são afetadas, e quais violações e ou crimes são mais frequentes. Assim, para os pesquisadores existe a necessidade de se desenvolver métodos adequados para capturar esses dados em ambientes de conflitos, que em regra, são inseguros, possuem uma logística desafiadora. Acrescente-se ainda a questão cultural e o ambiente político sensíveis.

Ainda segundo o relatório da pesquisa há menção a preocupação das Nações Unidas com programas de monitoramento da situação de infração aos Direitos Humanos na República Centro-Africana. O interesse seria o desenvolvimento de práticas de Monitoração e relato, os chamados Monitoring and Reporting Mechanism (MRM) para as autoridades competentes dos abusos cometidos contra a população por ocasião dos conflitos entre os grupos armados.

A pesquisa foi materializada por intermédio do levantamento das principais violações que seriam objeto desse monitoramento, principalmente as cometidas

contra crianças, como o homicídio, a mutilação, o sequestro, ataques contra escolas e hospitais, a violação sexual, negação do acesso humanitário, o recrutamento ou uso forçado de crianças-soldados. Os pesquisadores destacam que há diferentes processos de MRM entre os países.

Isso se refere a um sistema de vigilância passiva que se baseia em relatórios de incidentes obtidos por ONGs que trabalham em programas, ou por acompanhamento comunitário liderado por organizações da sociedade civil. Esses incidentes são então confirmados, normalmente por uma agência da ONU, por meio de outras fontes. A coleta de dados baseados na população complementaria esse processo e proporcionaria a ONU e outros atores responsáveis pela proteção de crianças com estimativas mais amplas tanto da escala como da disseminação de violações de direitos em conflito.

A questão humanitária, tomando como exemplo a República Centro-Africana (RCA), que de acordo com a Resolução 2301 (2016) das Nações Unidas tornou imperiosa a proteção a população civil, haja vista que ao longo da fronteira entre Chad, Camarões, República Democrática do Congo havia em 2015, 418 (quatrocentos e dezoito mil) deslocados internos da RCA e 480 (quatrocentos e oitenta) mil refugiados espalhados pela fronteira, exigindo trabalho de todos os integrantes das diversas Agências Humanitárias ligadas e componentes da Missão Multidimensional Integrada para Estabilização da República Centro-Africana ( MINUSCA).

A situação da violação dos Direitos Humanos na República Centro-Africana se agravou nos últimos anos, pois Grupos armados tentaram, de forma violenta, atrapalhar as eleições. Como forma de contenção da violência pelo país, a Defesa da RCA e as forças de segurança lançaram operações militares para retomar territórios ocupados pelos grupos armados. O documento preparado pelo Escritório de Direitos Humanos da ONU e pela Missão das Nações Unidas na República Centro-Africana, MINUSCA, cobre o período de julho de 2020 a junho de 20218.

Acrescente-se a esse problema humanitário, a título de exemplo na República Centro-Africana, o elevado número de ataques aos trabalhadores civis que, conforme relato (OCHA, 2016, p.15), Figura 5, tem proporcionado evasão dessas pessoas em trabalhos nas diversas ONGs. O receio de sofrer com os ataques dos grupos armados

8 Disponível em;< Relatório confirma piora da situação de direitos humanos na República Centro-Africana | ONU News>.Acesso em 15 Out 2021.

por ocasião dos deslocamentos nas rodovias coloca o apoio logístico aos refugiados e deslocados internos em risco.

Figura 5 - Ataques dos Grupos armados às ONG

Fonte: OCHA, 2016, p. 15

Conclui-se parcialmente que os indicadores de violação dos Direitos Humanos na RCA apresentam altas taxas de violência e a não observância dos direitos das pessoas, entre esses os abusos sexuais seja pelo grupo armados ou por certos integrantes das forças de paz é um aspecto que preocupa as instituições, evidenciando o longo caminho a se percorrer para resolução dos conflitos.

No próximo tópico haverá análise da política externa do Brasil e possíveis pontos que podem aproximar e justificar uma missão de Paz na África subsaariana, RCA ou RDC, e possível alargamento do conceito de Entorno Estratégico do país do Brasil.

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