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4 DISCUSSÃO DE RESULTADOS E ANÁLISE

4.4 Entendendo o conflito

O principal grupo armado responsável pelo início das instabilidades é o Seleka. Inicialmente o grupo que se formou no Nordeste do país, região isolada da RCA (CERIANA, 2014).

Grupo minoritário de origem muçulmana, porém de maior poder militar e político. Em dezembro de 2012 marchou na direção da capital do país para depor o então presidente. Domina a região Leste do país, próximo à fronteira com Sudão do Sul.

Na região Oeste há a presença de outro grupo, de origem cristã, denominado anti-Balaka. A região central do país é uma região de disputa, onde os conflitos entre os dois grupos são de maior intensidade e a população civil sofre as consequências desses embates. situação de violência relacionada a eleição obrigou mais de 30.000 pessoas a fugirem para os países vizinhos como Camarões, Chade, República Democrática do Congo e Congo.

Com o desenvolvimento dos conflitos, as ações dos grupos armados no bloqueio das principais rotas de suprimentos e ataques a comboios civis e humanitários, principalmente os comboios provenientes de Camarões pela região oeste, contribuíram para o agravamento da situação da população em geral.

Nesse cenário a situação na África Central apresenta semelhanças em países, como, a Síria, Sudão do Sul e Somália. A fome causada e/ou agravada pelos conflitos contribui ainda mais para o aumento da violência. O deslocamento das populações por ação dos grupos armados agrava a situação de vida dos centro-africanos, a situação humanitária permanece crítica em um país já frágil pelos conflitos que acontecem há decadas5.

4 Disponível em :<https://www.rtp.pt/noticias/mundo/rca-violencia-eleitoral-causou-mais-de-30-mil-refugiados-e-milhares-de-deslocados_n1287995>. Acesso em 11 Nov 2021.

5 Disponível em:

<https://www.actioncontrelafaim.org/en/headline/car-emergency-response-for-As Missões de Paz podem viabilizar a circulação de bens e riquezas para o comércio do país que geram reflexos positivos para a economia, para a segurança e para o fornecimento de alimentos à população.

A garantia de acesso a população aos alimentos e aos diversos itens de sobrevivência, são indicadores para uma operação de manutenção ou imposição da paz.

Conforme se verifica na Figura 3 as principais rodovias que servem para chegada de suprimento ao país vem de Camarões, pela Main Support Road (MSR), MSR 1. Porém a chegada desses recursos até a Capital da RCA, Bangui, para depois seguirem pela MSR 2 e MSR3 ficam sujeitos às ações dos grupos armados que cobram taxas para a passagem dos comboios humanitários e também dos comboios civis.

Figura 3 - Estradas principais de suprimentos

Fonte: MINUSCA (2015)

A Main Suported Road 2 (MSR2), estrada principal de suprimento, se inicia em Bangui, capital do país, e segue na direção norte para o Chad, país de maioria Islâmica e com fortes indícios de financiamento ao Grupo Ex-Seleka, principal grupo armado da RCA.

As localidades existentes ao longo dessa rodovia são palco de conflitos, sendo

internally-displaced-persons-by-post-electoral-violences/ >. Acesso em: 15 Nov 2021.

marcados por situação imprevisíveis de segurança que geram fortes reflexos para a população civil.

Os ataques não se restringem somente ao saque dos comboios humanitários, mas também provocam reflexos nas mulheres que são sexualmente abusadas próximo aos postos onde são estabelecidos os check points dos grupos armados.

Os abusos sexuais são um grave problema que atinge a população civil. A título de exemplo na MINUSCA, prevenção e o combate aos abusos sexuais6 vale destacar que o conceito de securitização Buzan (2012, p.326) tem sido criticado pela sua incapacidade de identificar o “dilema silencioso da segurança”, o que pode ser verificado pelo fato de que as mulheres vítimas desses estupros ficam mais expostas ao contágio por HIV e mesmo tempo que podem denunciar os abusos podem ter sua integridade física ameaçada pelos agressores.

O “dilema silencioso da segurança” de Buzan se aplica perfeitamente na situação da população existente, no caso em tela, da República Centro Africana. Pois os civis, refugiados e deslocados ficam à mercê dos grupos Armados, Ex Seleka e anti-Balaca que impõem sérias restrições, negando por vezes o acesso aos alimentos e as fontes naturais de água potável. A população não pode reagir ou denunciar a situação, pois fica sob constante ameaça dos grupos armados, sendo o silêncio e a obediência às ordens ilegais a única forma de sobrevivência. O não silêncio obrigatoriamente causa o deslocamento dessas massas populacionais para outras regiões do país, como deslocados internos e mesmo como refugiados para Camarões, Chad, Sudão, Congo Brazzaville e República Democrática do Congo.

Esse é um simples exemplo da complexidade das questões envolvendo conflitos no continente africano. Há possibilidades claras de financiamentos e interesses extracontinentais que justificariam a existência desses grupos armados na República Centro Africana e em outros países. Assim alguns aspectos da Teoria Realista estariam presentes como suporte e encontraria justificativas na região da África Central, umas das mais pobres da África Subsaariana.

6 A MINUSCA colocou em prática medidas de prevenção e combate à exploração sexual e ao abuso (SEA). Após várias alegações de abuso e exploração sexual, o Comandante da Força, Martin Chomu Tumenta, em julho de 2015, instruiu todos os comandantes que garantissem o cumprimento da diretriz de proteção das mulheres e crianças por todos os militares dentro da área de operações e que eles estejam cientes da política de tolerância zero do comando sobre o assunto. Caso contrário seriam pessoalmente responsáveis e responderiam por seus atos. Eles também foram solicitados a relatar semanalmente sobre os progressos realizados para garantir a conformidade, disponível em https://minusca.unmissions.org/en/minusca-reinforces-prevention-and-fight-against-sexual-

exploitation-and-abuse.

A missão militar francesa que atuou na RCA de dezembro de 2013 a junho de 2016, a chamada Missão SANGARIS7, com emprego de um efetivo aproximado de 2.000 soldados, corrobora a tese defendida pelos Realistas que as ações militares estariam ligadas aos interesses e objetivos claros em áreas extracontinentais. Desde a independência da RCA, em 1960, esta foi a sétima intervenção militar francesa no país, o que mais uma vez vai ao encontro do argumento da influência da ex-metrópole nessa importante área de influência, uma vez que a riqueza do subsolo são os diamantes.

Na mesma forma de relacionamento da missão militar com a Teoria Realista, conforme supramencionado, vem agora a missão da União Europeia - EUROFOR- European Rapid Operational Force - em junho de 2014 até maio de 2015, força militar formada por soldados e equipamentos militares do seguintes países: Espanha, Finlândia, Geórgia, Letônia, Luxemburgo, Holanda, Polônia e Romênia, mediante decisão do Conselho de Segurança da ONU para a atuar na RCA.

Ambas as missões SANGARIS e EUROFOR atuaram em conjunto com a MINUSCA, missão da ONU na RCA, o que pode ser analisada aqui a Teoria de Katzenstein, que as ações em prol da Segurança e Defesa podem ser realizadas em prol da segurança individual com o esforço de um país ou mediante o emprego de Instituições Internacionais, como a ONU e a União Europeia. Desta feita é possível se valer do uso da força, mesmo que para fins humanitários com emprego de tropas.

No próximo tópico serão abordadas as consequências dos conflitos na RCA, a situação de falência do Estado e os reflexos humanitários.

4.5 A falência do Estado, as violações dos Direitos Humanos e os reflexos

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