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De retorno à questão eleitoral, inúmeros autores e autoras ao analisar o assunto no Brasil notam o período 1860-1870 como o momento de sistematização das críticas ao sistema eleitoral indireto – em dois graus. Manoel Rodrigues Ferreira afirmou em A evolução do sistema eleitoral brasileiro que a partir de 1860 formou-se um movimento em defesa do voto direto. Rodrigues Ferreira localizou em 1862 a publicação de um livro por parte do Bacharel recifense Antônio Herculano de Souza Bandeira que reunia diversos trabalhos em defesa da eleição direta. Desta feita, Rodrigues Ferreira evidencia ser na década 1860 o inicio da crítica sistemática ao processo eleitoral brasileiro. (FERREIRA, M. R., 2001, p 198).

José Murilo de Carvalho, em o Teatro das Sombras, indicou que desde a instalação o sistema de eleições em dois graus – onde o votante elegia o eleitor e este por sua vez votava no deputado – a insatisfação se fazia presente. Na análise de Murilo de Carvalho a presença de analfabetos no processo eleitoral – eles podiam ser votantes –, o alto grau de poder de intervenção do governo das eleições, no resultado delas, eram elementos criticados tanto por liberais quanto por conservadores e republicanos. E isso se dava em momento anterior a Falla do Throno mencionada há pouco. Para Murilo de Carvalho o marco da crítica ao sistema eleitoral imperial em dois graus se deu com aprovação da Lei do Ventre Livre, em 1871. Pois, logo após sua aprovação, o deputado conservador Francisco Belisário Soares de Souza lançou em 1872, Systema Eleitoral no Brazil; Como funciona, como tem funcionado, como deve ser reformado, tratado que, no entender de Murilo de Carvalho define o tom da crítica ao sistema eleitoral – a Câmara dos Deputados não representaria os interesses do país, mas os do Governo, pois os deputados dependiam dele. A Lei do Ventre Livre seria de interesse do Governo e não do país, ela teria sido aprovada em função da dependência dos deputados para com o Governo.

A dependência - apontada por Soares de Souza e discutida por Murilo de Carvalho - se dava tanto pela interferência do governo no processo eleitoral, garantindo a vitória dos candidatos a ele interessantes, quanto por serem muitos deputados funcionários do Governo. Tal situação seria a explicação de Soares de Souza para uma Câmara conservadora ter aprovado a Lei do Ventre Livre,

possivelmente contrariando interesses de muitos eleitores conservadores, especialmente, do Rio de Janeiro. José Murilo de Carvalho nota neste momento marco importante da crítica ao sistema eleitoral. (CARVALHO, J. M., 2008a p 391-417). José Murilo de Carvalho foca esses temas em outros momentos, por exemplo, em a Cidadania no Brasil: o longo caminho tais questões são retomadas, mas sem grande variação daquilo apresentado no Teatro das Sombras. (CARVALHO, J. M., 2008b).

A crítica generalizada ao sistema eleitoral em dois graus também fora percebida por Sérgio Buarque de Holanda e discutida na obra do Império à República da, já clássica, coleção História Geral da Civilização Brasileira, cuja primeira edição data de 1972, ou seja, três anos antes de José Murilo defender sua tese de doutoramento, de onde emerge anos mais tarde o livro O teatro das sombras (a primeira edição é de 1988). No referido texto de Buarque de Holanda é perceptível que a crítica ao sistema eleitoral imperial já se mostrava intensa na década de 1860.

A queda do Gabinete de Zacarias Góes de Vasconcelos, após o atrito com Caxias, em 1868 teria, na visão de Buarque de Holanda, motivado os liberais a estruturarem toda uma argumentação sobre o Poder Moderador. De modo a ser o Poder Moderador entendido, na visão dos liberais, sobretudo, como o Poder Pessoal do Imperador. A partir desta leitura do Poder Moderador, o Partido Liberal passou a defender a mudança do sistema eleitoral e tomou como bandeira fundamental o voto direto, admitido como uma forma de atenuar e ou impedir ação do Imperador e do Governo no processo eleitoral. Daquilo proposto por Buarque de Holanda ainda é viável notar que tanto os conservadores quanto liberais e republicanos viam o processo eleitoral indireto como marcado pela fraude e pela violência, sendo o constrangimento físico ao votante e ao eleitor praticamente uma regra do processo eleitoral, situação que passou a ser notada nas décadas de 1860-1870 como algo a retirar a legitimidade dos eleitos como representantes do país. (HOLANDA, S. B., 2008). Circunstância igualmente destacada por Murilo de Carvalho. (CARVALHO, J.

M., 2008a). Buarque de Holanda e Murilo de Carvalho concordam, em grande medida, que as pessoas envolvidas com a política imperial, liberais e conservadores denunciavam a prática da coerção aos votantes, as fraudes no alistamento, na apuração dos votos. E os autores destacam também que tanto liberais quanto

conservadores, quando no Poder, no Governo lançavam mão de tais práticas para garantir resultados favoráveis nos pleitos.

Mircea Buescu segue também o caminho de perceber que a década 1870 é o marco na sistematização da crítica ao processo eleitoral do Império. (BUESCU, M.

1981a; 1981b). Em princípios da década 1980 em função do centenário da Reforma Eleitoral de 1881, a Lei Saraiva, Buescu dedica dois estudos a ela publicados na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. As investigações realizadas por Jairo Nicolau em seus trabalhos acerca da participação eleitoral no Brasil também permite pensar que a crítica ao sistema de dois graus já estava a circular anteriormente à Falla do Throno de três de maio de 1880. (NICOLAU, J. M, 2001;

2004a; 2004b; 2012).

Nicolau destacou que:

De acordo com a legislação de 1824, 15 dias depois da eleição em primeiro grau, os eleitores escolhidos em diversas paróquias da província deviam se reunir em uma cidade, cada uma delas formando um colégio eleitoral, para escolher seus representantes. Por exemplo, a província do Rio de Janeiro tinha quatro colégios eleitorais: São Sebastião, São João Marcos, Santo Antonio de Sá e Macaé. Os eleitores votavam em tantos nomes quantos fossem os deputados da província na Câmara dos Deputados. Como o Rio de Janeiro elegia oito deputados, o eleitor listava oito nomes (acompanhado da ocupação e lugar de moradia de cada um). Para ser deputado, era necessário receber uma renda anual de 400 mil réis. Os votos de cada colégio eleitoral eram apurados e enviados para a Câmara Municipal da capital, onde era feita a contagem final. Os nomes mais votados em toda a província eram eleitos deputados. Este sistema foi utilizado para a eleição cadeiras, sem espaço para a representação das minorias. (NICOLAU, J. M., 2004 p 18).

A constituição das câmaras unânimes estaria diretamente vinculada ao sistema de fraudes que teria se estabelecido no processo eleitoral. Assim, nem mesmo,

As permanentes alterações dos sistemas eleitorais (em 20 anos, entre 1855 e 1875, foram introduzidas três mudanças) não atingiram os resultados esperados, sobretudo o de fazer com que as minorias estivessem representadas no legislativo. Aos poucos, o voto direto passou a ser visto como a única forma de estabelecer a verdade das urnas. (NICOLAU, J. M., 2004 p 22).

Das análises produzidas por Jairo Nicolau evidencia-se que desde pelo menos a década de 1850 constituiu-se uma crítica sistematizada ao processo eleitoral imperial, preocupada, de início, com a minimização das fraudes, o que facilitaria a representação das minorias e que lentamente transita para o questionamento ao sistema indireto chegando à defesa da eleição direta.

(NICOLAU, J. M., 2004 p 10-26; 2012 p 13-45).

Maria Emilia Prado também destacou que a sistematização das críticas ao processo eleitoral em dois graus, já era mais do que pauta política no início da década de 1870. Seu marco para a generalização das críticas ao sistema eleitoral imperial é semelhante ao de Murilo de Carvalho. (PRADO, M. E, 2001; 2005). A autora indicou que:

Os debates realizados ao longo dos anos 1870 centram-se em duas direções: a predominância do Poder Moderador e o sistema de eleições indiretas, como responsáveis pela ficção cotidianamente representada nas sessões do parlamento imperial. (PRADO, M. E., 2001 p 180).

Os anos 1870 como marco da crítica sistemática ao processo eleitoral imperial são igualmente assumidos por Alexandra do Nascimento Aguiar. (AGUIAR, A. N., 2009). Ela também destacou como o voto direto tornou-se uma bandeira suprapartidária e como o votante foi constituído como o grande culpado das possíveis falhas do sistema eleitoral.

Na concepção dos grupos de poder no Brasil, a ignorância do povo tornava seu voto produto para venda e possibilitava a influência do governo nas eleições. (...) Durante a década de 1870, houve manifestações de liberais e conservadores pelas eleições diretas com o intuito de restringir o direito de voto. Francisco Belisário e Tavares Bastos, respectivamente, conservador e liberal, em artigos publicados para defender a reforma eleitoral, possuíam visões comuns sobre os grupos pobres como responsáveis pela degeneração das eleições. (AGUIAR, A. N., 2009 p 5-6).

O voto direto naquele contexto, ao contrário do que poderia se pensar em um primeiro momento, não significa expansão do direito de voto, como destaca a autora. Alexandre de Oliveira Bazilio de Souza, no texto, Reformas eleitorais no final do Império: a reinvenção do cidadão brasileiro (1871-1889), também dá destaque à crítica generalizada que o sistema eleitoral imperial passa a receber já na década de 1860, recuando dez anos o marco de Maria Emilia Prado, e alinhando-se àquele colocado por Sérgio Buarque de Holanda. (SOUZA, A. O. B., 2011). No tocante a

quais seriam as reclamações acerca do sistema eleitoral o autor pontua igualmente a fraude, a violência, a percepção dos atores do falseamento da representação que se dava no parlamento. Diz o autor:

A falsa representação estava ligada à ideia de que aqueles que eram eleitos não eram legítimos representantes dos interesses de todo eleitorado.

Poderia ser discutida em âmbito da verdade eleitoral, no sentido de que o voto não correspondia à vontade daquele que participava do pleito. Uma de suas causas eram as fraudes, mas poderiam ser também o desinteresse, a dependência ou a ignorância do votante. Nesse aspecto, a participação eleitoral do analfabeto era o grande alvo das críticas. Por outro lado, a representação da minoria era outro assunto englobado nessa discussão.

Nesse caso, o debate girava em torno da escolha do melhor sistema de apuração dos votos. (SOUZA, A. O. B., 2011 p 4).

Desta feita, a literatura acerca da temática permite inferir que o pronunciamento de Dom Pedro II em três de maio de 1880, mais que uma tentativa da Coroa impor sua vontade sobre o Parlamento, revela a equalização do Imperador com algo que já era ponto de pauta recorrente do debate político. Com efeito, a intenção desta seção foi indicar que na década de 1870 a mudança do sistema eleitoral, com a instalação do voto direto, vai se consolidando numa demanda comum a liberais e conservadores, ademais foi possível notar a Falla do Throno de três de maio de 1880 mais na condição de uma condensação de uma demanda do que de uma imposição da Coroa.