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Capitulo II: O agir intelectual e as teorias raciais

2.3 A noção de raça como parte da linguagem e do agir do intelectual

2.3.3 Teorias raciais no “paraíso da miscigenação”

As teorias raciais correntes no século XIX eram, em sua maioria, detratoras da miscigenação. E esta situação se configurava em uma questão bastante complicada para as elites intelectuais e políticas brasileiras dispostas a dialogar com o racialismo, uma vez que boa parte da população do país podias ser entendida como mestiça. O “problema” da miscigenação era bastante importante para quem se dispusesse a pensar o Brasil tendo as teorias raciais como base de análise.

Entretanto, no universo das teorias raciais existiam caminhos outros para pensar o processo de miscigenação. De modo a ser possível até mesmo construir caminhos menos condenatórios ao processo de miscigenação. E este foi o caminho adotado por alguns intelectuais oitocentistas, caso de Sílvio Romero nos anos 1880. Fazer uso dos elementos presentes nas teorias raciais de modo a que eles permitissem

tratar da miscigenação de forma mais positiva era algo intelectualmente e politicamente interessante porque criava uma alternativa para além da conclusão direta de que não haveria solução para um povo mestiço.

A atitude de Romero pode ser interpretada com base nas considerações de Skinner e, especialmente, de Pocock, que postulam ser tanto o conteúdo quanto a forma das ideias como uma linguagem. Linguagem esta que seria apropriada conforme sua capacidade de responder a questões práticas. (SKINNER, Q., 2002;

POCOCK, J. G. A., 2003). O caminho aberto por esta perspectiva teórica colabora na compreensão de movimentos como o promovido por Sílvio Romero, que utilizou as teorias raciais para valorar positivamente a miscigenação (nos anos 1880). A ação de Romero que poderia ser interpretada como um equívoco passa a poder ser entendida como o uso das teorias, das ideias disponíveis para responder aos seus problemas e demandas. Ou seja, o ajuste das ideias para explicar situações empíricas postas e não o inverso. Ademais, é pertinente ter no horizonte que teorias científicas também podem agir como projetos políticos, portanto maleáveis, plásticas o suficiente para moldarem-se às necessidades vigentes.

Tais necessidades seriam em parte aquelas apontadas por Mariza Corrêa, Wlamyra Albuquerque e Maria Clementina Cunha: dar vestes científicas às hierarquias sociais brasileiras num ambiente onde as mesmas não mais se poderiam sustentar-se pelo Direito. (CORRÊA, M., 2001; ALBUQUERQUE, W., 2009; CUNHA, M. C. P. 2009). Admitem-se, então, as teorias científicas e seus discursos podendo colaborar na composição daquilo denominado por Pierre Bourdieu de efeito de teoria. Para ele:

A descrição científica mais estritamente constatativa corre sempre o risco de funcionar como prescrição capaz de contribuir para sua própria verificação, ao exercer um efeito de teoria tendente a favorecer o acontecimento daquilo que anuncia. (BOURDIEU, P., 2008c p 123- 124).

Assim, a intelectualidade brasileira ao pensar a miscigenação também a constrói, estabelecendo suas possibilidades e limites. Tal ação da intelectualidade colaboraria para dar uma leitura e sustentação científica (o racismo cientifico) à pirâmide social brasileira, pois

Tudo leva a supor que o efeito de teoria – podendo ser exercido na realidade por agentes e organizações capazes de impor um princípio de

divisão, ou melhor, de produzir ou reforçar simbolicamente a tendência sistemática para privilegiar certos aspectos do real e ignorar outros – será tanto mais poderoso e sobretudo duradouro quanto mais a explicitação e a objetivação estiverem fundadas na realidade, fazendo com que as divisões pensadas correspondam exatamente às divisões reais. (BOURDIEU, P., 2008c p 125).

Pensar o Brasil dos oitocentos e mesmo do início dos novecentos sem problematizar a miscigenação não fazia sentido por ser esta categoria central à organização social da sociedade, portanto, um tema político e científico simultaneamente.

Os temas do mestiço, da miscigenação, da mestiçagem perpassam o pensamento social brasileiro há muito tempo. E desde meados do século XIX é possível perceber estes tópicos sendo tratados dentro de certa retórica racial – das teorias raciais – tanto para explicar quanto para justificar o Brasil. O Romantismo Indianista de José Martiniano de Alencar, Antonio Gonçalves Dias (1823-1864), Domingos José Gonçalves de Magalhães (1811-1882) é significativo nesta direção, notadamente a obra de Alencar. A argumentação posta a indicar a formação do país em função do encontro, da junção, da confluência de diferentes raças perpassa os oitocentos brasileiros. E mui provavelmente foi o naturalista bávaro Karl Friedrich Phillip Von Martius quem melhor organizou o modelo, a fórmula que explica a formação do Brasil pelo encontro das três raças, escrevendo anos antes de Alencar, Magalhães e Dias. (MARTIUS, K. F. P., 1844).

De pronto, se põe uma questão: por que o modelo proposto por Martius foi tão bem aceito? Dentre os autores e autoras que se dedicaram ao texto do naturalista bávaro e buscaram discutir esta questão, optou-se por se utilizar aqui as posições de Rodrigo Turin presentes em Narrar o passado projetar o futuro: Sílvio Romero e a experiência historiográfica oitocentista. (TURIN, R., 2005).

A hoje ilustre dissertação de Martius, Como se deve escrever a História do Brasil, foi

(...) motivada por um concurso promovido pelo IHGB, proposto em 14 de novembro de 1840. Esse concurso reflete o esforço já mencionado da Instituição em estabelecer os parâmetros mais apropriados para uma escrita da história capaz não apenas de traçar um perfil para o Brasil, dando-lhe uma individualidade histórica, mas também de inseri-lo num espaço civilizacional mais amplo, referenciado pelas nações europeias. (TURIN, R., 2005 p 39).

O concurso do Instituto Histórico e Geográfico do Brasileiro, IHGB, teve por concorrentes, segundo Turin, duas pessoas, Karl Friedrich Phillip Von Martius e Henrique Julio de Wallenstein. A dissertação aceita pelos membros do IHGB foi à elaborada por Martius, sendo rejeitada a oferecida por Wallenstein. Segundo Rodrigo Turin a rejeição à dissertação de Wallenstein se deu porque a sua proposta não estava em sintonia com a prática historiográfica oitocentista. (TURIN, R., 2005 p 40). Turin observou que o modelo proposto por Wallenstein consistia em narrar os fatos acontecidos dentro do sistema de décadas, alocando os eventos dentro de períodos certos. Este modelo não responderia à demanda estabelecida pelos proponentes do concurso, não se desejava naquele momento a construção de uma cronologia. (TURIN, R., 2005 p 40). O intuito dos membros do IHGB era o da construção de um nexo, a ligação necessária a amarrar as diferentes partes daquele Brasil num todo. (TURIN, R., 2005 p 39-46). Assim,

A proposta de Martius, por sua vez, coloca-se sob a perspectiva filosófica como desejada pelo Instituto. Ela visava a totalidade, apresentando como nexo comum a questão da formação do povo brasileiro tendo em vista a presença de três raças diversas. (TURIN, R., 2005 p 42).

A inovação de Martius, não compactuada pelos indianistas que escreveram posteriormente a ele é que o bávaro contava com a população negra no modelo. O naturalista tinha conhecimento das possíveis repercussões da proposta. Pois, “a presença do elemento negro fere a sensibilidade do europeu, e por isso Martius já sabia que feriria também a sensibilidade do brasileiro.” (TURIN, R., 2005 p 45). Por isso ele se sustenta naquilo que o IHGB estava a procurar, por que

(...) no que diz respeito a uma história filosófica e científica, essa presença incômoda deveria ser tematizada. Afinal, inserir as raças inferiores significaria dotar o conhecimento histórico da possibilidade de ser útil.

Nesse sentido, segundo a concepção do naturalista-historiador, integrar as alteridades indígena e negra a um campo universal de saber é uma forma de poder agir sobre ou em relação a elas. (TURIN, R., 2005 p 45).

Assim,

Essa percepção e mesmo insistência de Martius em destacar as diferentes raças, incluindo o negro, pode ser buscada na sua experiência de naturalista e de estrangeiro, cujo olhar se depara com uma realidade estranha. Munido de uma visão de mundo iluminista, a presença de uma

população negra é, para Martius, uma marca forte de alteridade, que chama sua atenção e seu olhar. (TURIN, R., 2005 p 44).

Com efeito, é possível inferir que a boa recepção da proposta de Martius está no nexo fornecido, bem como na postura aberta colocada, em grande medida, inclusiva, maleável e hierarquizante. Nos últimos anos do século XIX a elite intelectual brasileira buscou explicar e/ou compreender a sociedade brasileira segundo a fórmula da tríade formadora, porém submetendo-a as teorias raciais.

Essas compunham uma possibilidade científica de pensar o país. Tais teorias foram utilizadas não só para legitimar a posição das elites, mas também para autorizar sua ação política. (política imigratória, ausência de investimentos na população nacional, etc.). E ao mesmo tempo mantendo certo diálogo com o modelo de Martius, e somado à flexibilidade imposta à noção de raça em terras brasílicas, criar um sistema particular de inclusão – inclusão hierárquica – intimamente ligado à figura do mestiço e da miscigenação.

Se por um lado como indica Rodrigo Turin, em diálogo com Angela Alonso, não é possível tratar uma figura como Sílvio Romero como representativo da sociedade brasileira, por outro se acredita aqui ser ele bastante representativo da intelectualidade do Brasil naquele momento. (ALONSO, A., 2002; TURIN, R., 2005).

Portanto, mostra-se útil perceber como ele refletiu acerca da raça, da miscigenação.

E fazendo uso de uma postura bem romeriana observou-se a produção intelectual e política que fez eco. (ROMERO, S., 2002a p 84). Este fazer eco é admitido como a produção que ressoou tanto em seu momento quanto na posterioridade.

2.3.4 A diferenciação nacional: o mestiço e a mestiçagem em Sílvio