PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO
3 A DIVULGAÇÃO DOS RISCOS EMPRESARIAIS 1 Conceito de risco
3.1.1 A falta de unanimidade sobre o conceito de risco
A falta de consenso numa definição tem origem, desde logo, nas diferentes aceções do conhecimento, estremadas, do ponto de vista ontológico (a natureza da existência) e epistemológico (a natureza e valor do conhecimento), entre o positivismo e o construtivismo (Rosa 1998).
O conhecimento científico é obtido, atualmente e em particular no que às ciências sociais diz respeito, à luz de três principais paradigmas que têm subjacentes diferentes perspetivas da realidade.
1) O paradigma positivista assume a perspetiva ontológica realista, de que a realidade é exógena ao indivíduo e que o objeto do conhecimento tem uma essência própria e objetiva, independente do observador e do contexto, dependendo o valor do conhecimento obtido do grau de confirmação ou da possibilidade de refutação.
2) O paradigma interpretativista assume a perspetiva ontológica fenomenológica de que existe uma interdependência entre a realidade e o observador, sendo a essência do objeto do conhecimento múltipla e subjetiva, dependente da interpretação do observador e do contexto, estando a validade do conhecimento obtido sujeita à verificação da sua credibilidade e transmissibilidade.
3) O paradigma construtivista assume, igualmente, a perspetiva ontológica fenomenológica, mas defende que a essência do objeto do conhecimento não pode ser obtida ou nem
A DIVULGAÇÃO DOS RISCOS EMPRESARIAIS
41 mesmo existe, dependendo a validade do conhecimento obtido da sua adequação aos fins que visa e da capacidade de ser ensinado. Se bem que alguns autores dos diferentes paradigmas considerem, seguindo uma postura isolacionista, que as diferentes abordagens são inconciliáveis, outros, adotando uma postura integracionista, defendem uma abordagem multi-paradigma4.
Seguindo Rosa (1998), muito do esforço que tem sido colocado na compreensão do risco tem incidido no debate sobre os méritos e deméritos dos diferentes paradigmas o que, sendo característica de um campo de investigação ainda incipiente, não deixa de ser uma restrição ao desenvolvimento de um conhecimento acumulado do risco.
Na perspetiva positivista localizam-se a análise de risco (Shrader-Frechette 1985), que pressupõe a sua prévia identificação e estimação, aplicando as normas da investigação científica e partindo de uma definição de risco em que este é o resultado do produto de uma consequência pela sua probabilidade de ocorrência, pressupondo um mundo real onde o risco reside e pode ser medido e compreendido como um produto neutro da ciência sem qualquer influência de juízos normativos ou de valores. Ainda na perspetiva positivista pode ser incluída a abordagem do ator racional
(rational actor approach) que propõe um modelo de tomada de decisão assente na maximização
da utilidade de pessoas racionais.
Na perspetiva construtivista situa-se a teoria cultural (Cultural Theory) que identifica o risco com os perigos que a sociedade define como problemáticos (Douglas e Wildavsky 1982; Douglas 1992) e que, porque o processo de identificação desses perigos é eminentemente social, os mesmos não constituem uma realidade objetiva, existindo apenas na consciência coletiva relacionados com a cultura e com o posicionamento social.
Na teoria cultural de Douglas e Wildavsky (1982) a forma como os diferentes tipos de estrutura social se relacionam com as perceções do risco resultam de uma matriz em que se combinam os diferentes graus de autonomia que o indivíduo tem sobre a seleção do seu papel na sociedade (por ex. género, raça, idade) com os diferentes grupos sociais (Linsley e Shrives 2008).
4
Para uma abordagem mais estruturada sobre os fundamentos epistemológicos do conhecimento, ver Martine Girod- Seville e Véronique Perret em Thietart, R. A., F. Allard-Poesi, et al. (2001). Doing management research - a comprehensive guide. London, SAGE Publications, Ltd.
A DIVULGAÇÃO DOS RISCOS EMPRESARIAIS
42 Numa perspetiva possível de classificar como integracionista, definida como de realismo reconstruído, Rosa (1998) define risco com uma situação ou acontecimento em que algo com valor humano é posto em causa e em que o resultado é incerto. Para além dos elementos objetivos que têm a ver com os factos em causa, a avaliação e perceção da incerteza e a forma como a incerteza tem impacto nos indivíduos depende de perceções condicionadas por fatores sociais, culturais e políticos5.
Neste debate é relevante a avaliação da natureza objetiva ou subjetiva do conceito de probabilidade implícita na formulação do conceito de risco introduzido por Knight (1921).
Na perspetiva positivista, as probabilidades podem ser descobertas por processo lógico ou estimadas por análise estatística e, portanto, são reais e independentes do avaliador. Nas perspetivas interpretativista ou construtivista, logo subjetivas, as probabilidades são crenças humanas e não são intrínsecas à realidade, apenas caracterizando o grau de incerteza dos humanos (Finetti 1937).
De acordo com Knight (1921) as probabilidades podem ser obtidas por um processo apriorístico, como no caso do lançamento de um dado, ou por um processo estatístico através da análise de dados homogéneos. Na ausência de qualquer destas modalidades de determinação das probabilidades, apenas se pode estimar a incerteza de forma imprecisa, de acordo com uma qualquer avaliação pessoal. Na presença de probabilidades determináveis estar-se-ia perante “incertezas mensuráveis” ou probabilidades objetivas, enquanto na sua ausência estar-se-ia perante “incertezas imensuráveis” ou probabilidades subjetivas. Na presença das primeiras, estaríamos numa situação de risco e na presença das segundas estaríamos numa situação de incerteza.
Este é o bem divulgado conceito de risco de Frank Knight que, não obstante, é alvo de críticas na medida em que, sendo o risco, em sentido comum, a combinação da incerteza com as possíveis consequências (exposição), a abordagem apenas se referiria à incerteza, não abarcando completamente o conceito de risco (Holton 2004).
5 Para uma abordagem à noção de “Perceção do Risco” ver a revisão da literatura de Ricciardi, V. (2004). "A Risk
Perception Primer: A Narrative Research Review of the Risk Perception Literature in Behavioral Accounting and Behavioral Finance." SSRN eLibrary.
A DIVULGAÇÃO DOS RISCOS EMPRESARIAIS
43 A incerteza, enquanto desconhecimento de um indivíduo quanto ao facto de um acontecimento poder ser verdadeiro ou falso ou lhe ser indiferente, e a exposição, enquanto avaliação que um indivíduo autoconsciente poderá fazer do facto poder ser verdadeiro ou falso, são as duas componentes essenciais da definição de risco proposta por Holton (2004) em que este seria a exposição a um acontecimento acerca do qual não há certeza. Na medida em que as duas noções, de incerteza e de exposição, podem ser apenas relativas, o conceito de risco não existiria em termos absolutos apenas podendo ser expresso em termos da perceção que cada indivíduo tem da sua incerteza e do possível grau de exposição (que importância daria ao facto de o acontecimento poder ser verdadeiro ou falso, se disso tivesse consciência), resultando, então, que o risco é apenas a perceção que temos dele. A perceção que temos do risco, seja verdadeira ou falsa, é que condiciona o comportamento (Corby 1994). Em termos da prática financeira, o que fazemos é adotar métricas de risco (por ex. a variância do retorno) para definir aspetos específicos do risco percebido (Holton 2004).
De acordo com Dobler (2003) o risco identifica-se com a falta de informação para atingir os objetivos pretendidos, sendo a falta de informação resultante da natureza indeterminada da relação causa e efeito das componentes, enquanto os objetivos pretendidos são essenciais para a análise do comportamento económico.
De acordo com Helliar, Lonie et al. (2002) o conceito de risco baseado nas probabilidades objetivas e subjetivas, nos termos definidos por Knight (1921) e que integra as definições da maior parte dos manuais de finanças, é considerado de pouco valor prático, uma vez que os decisores, de acordo com investigações levadas a cabo por inquérito (March e Shapira 1987), tendem a valorizar, sobretudo, a parte negativa da distribuição, a possibilidade de algo mau acontecer e o encaram como um conceito multidimensional que não pode ser capturado facilmente por um única métrica.
No momento de reagir a situações de incerteza, envolvendo julgamentos complexos e probabilidade estatística, os decisores tenderiam a seguir apenas regras práticas e a adotar estratégias heurísticas, que consistem em atalhos mentais motivados, entre outros aspetos, por experiências passadas, pela autoconfiança, por aversão à perda, etc.. (Ricciardi 2004). Mais do que classificar os padrões de comportamento face ao risco como irracionais e aberrações relativamente ao comportamento normal implícito no paradigma neoclássico das finanças, o que
A DIVULGAÇÃO DOS RISCOS EMPRESARIAIS
44 se tornaria essencial seria a identificação e explicação desses padrões de comportamento (Tversky e Kahneman 1991).
Na atividade das empresas poucas são as situações suscetíveis de serem determinadas probabilísticamente por processo lógico apriorístico (como o do lançamento de um dado) mas em algumas situações podem ser calculadas probabilidades através da observação de grandes séries históricas de acontecimentos, como nos casos de verificação de ocorrência de defeitos na produção. Mesmo segundo Knight (1921), muitas das situações dos negócios referem-se a probabilidades subjetivas e são, na essência, incertezas (Holton 2004; ICAEW 2011).
Este facto reveste-se de grande importância no âmbito da temática da divulgação dos riscos pois determina que muitos deles não são suscetíveis de mensuração e a sua divulgação apenas se pode fazer de forma qualitativa ou, ainda que quantificados, com uma quantificação subjetiva de âmbito restrito (ICAEW 2011).
De facto, as funções probabilísticas construídas a partir do registo de séries históricas de acontecimentos, como acontece na quantificação do risco de mercado, permitem evidenciar as frequências dos desvios relativamente a um objetivo esperado, ou seja, a volatilidade histórica dos preços, e são usadas como medidas dos riscos financeiros, mas só poderão ser entendidas como medidas da volatilidade futura na medida em que o futuro verifique um comportamento idêntico ao do passado recente de onde essas medidas foram derivadas (ICAEW 2011).
A noção de risco como variabilidade esperada do resultado, muito usada na gestão de riscos financeiros, assenta, assim, numa perspetiva que não pode deixar de se considerar subjetiva na medida em que o comportamento futuro dos preços é sempre uma incerteza não quantificável.