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As várias perspetivas do conceito de risco

No documento UNIVERSIDAD AUTÓNOMA DE MADRID (páginas 88-94)

PARTE I ENQUADRAMENTO TEÓRICO

3 A DIVULGAÇÃO DOS RISCOS EMPRESARIAIS 1 Conceito de risco

3.1.2 As várias perspetivas do conceito de risco

O risco pode ser entendido numa só direção, visando apenas as perdas potenciais ou pode ser entendido em duas direções visando identificar tanto as perdas potenciais como os ganhos potenciais. A primeira conceção tem estado subjacente ao controverso princípio da prudência e do conservadorismo (Lopo 1999), foi adotada por Boritz (1990) no seu relatório para o Canadian Institute of Chartered Accountants (CICA) e na Statemant of Position (SoP) 94-6 Disclosure of Certain Risks e Uncertainties, da American Institute of Certified Public Accountants (AICPA)

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45 (Carlon, Loftus et al. 2003) e está subjacente a algumas normas contabilísticas, como a SFAS 105, de 1990 (Schrand e Elliot 1998).

O grupo de trabalho que elaborou o relatório Financial Reporting of Risk (Hodgkinson, Anderson et al. 1997), publicado pelo ICAEW, referia que havia duas maneiras de abordar o risco; o risco de algo de mau acontecer (downside risk) e o risco associado à incerteza (volatility risk), que significa que tanto há oportunidade para um ganho como para uma perda potencial. Os autores, embora reconhecendo que há uma tendência para que o reporte financeiro dê mais ênfase às más notícias, defendem a adoção do conceito de risco de incerteza (volatility risk) pois os mercados poderão ficar com informação deturpada se apenas se reportar o que pode acontecer de mal. O ICAEW (1999) refere um conceito de risco com estas características e inclusivo, no sentido de abarcar todos os tipos de risco que podem afetar uma empresa. Ou seja, os investidores não estariam adequadamente protegidos se uma predominância pessimista de reporte os levasse a vender os seus títulos subvalorizados.

Linsley e Shrives (2006) salientam que os conceitos de risco e de incerteza, como hoje são entendidos na teoria financeira, traduzindo um conjunto de possíveis resultados de uma decisão aos quais podem, ou não, ser afetadas probabilidades, resultam de uma realidade localizada na era moderna posterior à revolução industrial, o que leva o conceito a ter uma vertente positiva (upside risk) e uma vertente negativa (downside risk) e a identificar-se com o conceito de risco em sentido lato (Dobler 2003). Esta conceção contrastaria com a visão pré moderna, em que o risco era identificado exclusivamente com a vertente negativa, que se pode entender como risco em sentido restrito (Dobler 2003).

No âmbito da teoria financeira, em especial no contexto da teoria das carteiras (portfolio theory) (Markowitz 1952; 1991), há riscos comuns a todas as empresas que têm origem em circunstâncias da envolvente económica e política e que não são diversificáveis – risco sistémico – e há outros riscos que têm origem nas circunstâncias específicas de cada empresa, que, na perspetiva dos investidores e num mercado eficiente, podem ser evitados por meio de carteiras diversificadas de títulos – risco específico ou risco idiossincrático6.

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Refira-se que, segundo Holton, G. A. (2004). "Defining Risk." Financial Analysts Journal 60(6): 19-25., Markowits nunca teria chegado a definir o conceito de risco, tendo-se limitado, cautelosamente, a identificar algumas das suas métricas.

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46 Ainda que haja empresas mais sensíveis ao risco sistemático do que outras, este tipo de risco nunca pode ser evitado por se dever a fatores comuns ao mercado levando os detentores de ações com maior risco sistemático a ter a expectativa de ser compensados com maiores retornos. Logo, na presunção de eficiência dos mercados, em que os investidores procuram maximizar o seu rendimento, a constituição de carteiras diversificadas de títulos elimina o risco idiossincrático e valoriza o risco sistemático. Os investidores, adversos ao risco, exigiriam retornos superiores de investimentos com maior risco e, usando carteiras bem diversificadas, apenas estão sujeitos ao risco sistemático, pelo que obteriam retornos superiores.

A relação entre o comportamento de um título e o comportamento global do mercado avaliada pela relação entre as volatilidades (entre o título e o mercado) é dada pelo indicador . Um = 1 significa que a performance do título é igual à do mercado global, um > 1 significa que o título tem uma volatilidade maior do que a do mercado e um <1 significa que o título tem uma volatilidade inferior à do mercado. O fator é, pois, uma medida da sensibilidade de um título a variações no mercado e, portanto, uma medida do risco sistemático associado a cada título.

Assim sendo, nos pressupostos do modelo CAPM baseado nas assunções do modelo dos mercados eficientes, o preço de um título não é afetado pelo risco não sistemático e títulos com superiores terão preços inferiores a títulos com inferiores.

O modelo CAPM revelou-se importante na teoria da contabilidade porque permitiu desenvolver estudos que comparavam os resultados esperados com os resultados reais das empresas e analisar se as diferenças verificadas estavam relacionadas com informação divulgada pelas empresas (Schroeder e Clark 1998).

Esta abordagem ao risco, como sistemático e não sistemático, tem em conta apenas uma perspetiva global do investidor relativamente aos riscos de um portefólio de investimentos financeiros no mercado de capitais. Como assinala Lopo (1999), a sensibilidade dos títulos relativamente aos mercados pode vir afetada por características próprias da empresa, recolhidas, em muitos casos, por indicadores ou informação contabilística.

Uma vez que nem todos os utilizadores da informação financeira estão em condições de conseguir eliminar o risco idiossincrático relacionado com os seus interesses nas empresas, a problemática da divulgação do risco coloca-se em termos de risco total, sistemático e não

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47 sistemático, sendo essa a perspetiva que muitos dos reguladores têm adotado (Ryan 1997; Carlon, Loftus et al. 2003).

De acordo com Solomon et al (2000) a nova teoria das carteiras sugere que a melhoria do relato do risco permitirá aos investidores lidar de forma mais efetiva com o problema da diversificação do risco. Os investidores institucionais, que consideram preferencialmente no seu trabalho de investigação por representarem o grupo de investidores de maior peso nas empresas inglesas, mais preocupados com o longo prazo, tenderão a requerer informação sobre os riscos não sistemáticos de modo a poderem construir um perfil de risco abrangente das empresas em que investem e a definir as sua expectativas relativamente à sua continuidade.

Uma outra classificação dos riscos refere-se aqueles que as empresas enfrentam, independentemente dos resultados das ações que possam tomar para os mitigar, como a cobertura de risco ou o recurso a seguros, e que se designa por “risco bruto”, diferenciando-os daqueles que, de forma residual, permanecem mesmo após o efeito dessas práticas de gestão e que se designam por “risco líquido” (Hodgkinson, Anderson et al. 1997).

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Quadro 1 – Diferentes classificações de risco

Classificações de risco Elementos considerados na classificação

Risco em sentido lato/sentido restrito

Avalia tanto o sentido positivo, possibilidade de ganhos, como negativo, de perdas, ou refere-se exclusivamente ao sentido negativo, logo, apenas possibilidade de perdas.

Risco sistemático/idiossincrático

Avalia se os fatores de risco são comuns a todas as empresas e determinados por circunstâncias não controláveis por elas – este risco não é diversificável – ou se os fatores de risco respeitam a circunstâncias específicas de cada empresa – este risco é diversificável.

Risco bruto/líquido

Avalia os riscos no seu efeito potencial antes de ser mitigado por ações de gestão de risco e/ou transferência (seguro) ou apenas no seu efeito residual após considerar as ações de gestão de risco e/ou transferência.

Risco total/parcelar

Avalia todos os fatores de risco que podem afetar as empresas ou apenas alguns desses fatores de risco. Em muitos casos a distinção de risco total é usada por oposição à avaliação exclusiva dos riscos de mercado. Noutros casos a distinção é usada para diferenciar a abordagem conjunta ao risco sistemático e idiossincrático ou apenas ao risco sistemático, não diversificável, no âmbito do CAPM.

Fonte: Elaboração própria a partir da bibliografia

Sendo o conceito de risco de difícil definição e podendo ser abordado em diferentes perspetivas, a observação das abordagens usadas pelos autores e organismos que trataram o tema pode permitir localizar os usos mais correntes e identificar em que termos mais tem sido utilizado na investigação da sua divulgação. Em muitos dos trabalhos de investigação sobre a divulgação do risco que revimos, assume-se a necessidade de o reportar sem que, contudo, se faça uma clara definição do conceito.

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Quadro 2 – Conceito de risco utilizado por alguns autores

Autor Conceito de Risco

(Boritz 1990) Possibilidade de perda agravada pela incerteza da decisão. (Miller 1992) Imprevisibilidade das variáveis do resultado das empresas.

(Cea García 1995) Incerteza que rodeia o processo de obtenção do resultado operacional.

(Hodgkinson, Anderson et al. 1997)

Risco de volatilidade. Incerteza quanto ao montante dos resultados que podem ter exposição tanto ao ganho como à perda. Risco como incerteza quanto aos resultados que um negócio proporciona ao conseguir os seus objetivos e estratégias.

(Solomon, Solomon et al. 2000)

Incerteza associada quer a ganho potencial, quer a uma perda potencial.

(Lopo 2001) Risco de obtenção do resultado. Engloba tanto as possibilidades de perdas como as possibilidades de ganhos.

(Holton 2004) Exposição a uma situação sobre a qual há incerteza.

(Lajili e Zéghal 2005) Risco entendido nos sentidos positivo (upside risk) e negativo (downside risk)

(Linsley e Shrives 2006) Risco entendido tanto como uma oportunidade como uma ameaça, perigo ou exposição.

(Papa 2007)

Incerteza associada quer com ganhos potenciais, quer com perdas potenciais. Volatilidade dos resultados ou fluxos de caixa futuros esperados, que dependem quer dos riscos diversificáveis, quer dos riscos não diversificáveis.

(Dobler 2008)

Refere que o risco pode ter duas perspetivas: Uma baseada na incerteza e outra baseada num objetivo. A última consiste num potencial desvio relativamente a um alvo predeterminado. A primeira refere-se à distribuição de resultados futuros. Adota a primeira mas considera a segunda indispensável à definição de ganho potencial (upside risk) e de perda potencial (downside risk).

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Quadro 3- Conceito de risco utilizado por alguns organismos

Organismo Conceito de Risco

ASB, 1994 (FRS 5) Incerteza quanto ao montante dos resultados. O termo inclui ambos o potencial para o ganho e a exposição à perda.

ICAEW (Hodgkinson, Anderson et al. 1997)

Risco de volatilidade. Incerteza quanto ao montante dos resultados que podem ter exposição tanto ao ganho como à perda. Risco como incerteza quanto aos resultados que um negócio proporciona ao conseguir os seus objetivos e estratégias.

(IASB 2009b) – IAS 37 Variabilidade dos desfechos

(ICAEW 1999)

Risco como incerteza e volatilidade. Risco como incerteza quanto aos fluxos de caixa (cash flow) futuros. Upside risk é probabilidade de ganho. Downside risk é probabilidade de perda. Risco numa abordagem inclusiva que se concentra em todas as possíveis fontes ou fatores de risco e não apenas nos financeiros

(ICAEW 2011)

Reconhece os vários sentidos do risco, ou só em sentido negativo ou tanto em sentido negativo, como em sentido positivo. Dado que muita da divulgação do risco, em termos práticos, é em sentido negativo, segue predominantemente esta abordagem.

Fonte: Elaboração própria a partir das fontes referidas

Verifica-se, assim, que, pese embora o facto de se utilizarem diferentes perspetivas, os autores que referem o conceito no âmbito dos seus trabalhos de investigação fazem-no maioritariamente em sentido lato, numa forma bidirecional de risco positivo e risco negativo, sempre associado à incerteza quanto ao futuro, o mesmo se verificando com os diferentes organismos.

Se tivermos em consideração que muitos dos riscos colocados às empresas são, de facto, incertezas, por não ser possível afetar-lhes probabilidades (Knight 1921), teremos de concluir que a sua quantificação pressupõe sempre um grau razoável de subjetividade e discricionariedade.

No documento UNIVERSIDAD AUTÓNOMA DE MADRID (páginas 88-94)