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3 A CRIANÇA COM CEGUEIRA NA EDUCAÇÃO INFANTIL: O CONTEXTO E A COSNTRUÇÃO DA IDENTIDADE E AUTONOMIA

3.3 CONTEXTO: BRONFENBRENNER E A TEORIA BIOECOLÓGICA DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

3.3.1 A família como um microcontexto de desenvolvimento

A família constitui-se como um ambiente promotor para a construção da identidade e autonomia da criança, apresentada por diversos autores como um dos primeiros contextos de socialização dos sujeitos (BECKER; D’ANTINO, 2009; CIA, 2012; DESSEN; BRAZ, 2005). Dessa forma, conceber a família como sendo fundamental para o desenvolvimento global da criança, significa compreendê-la “como um sistema de interações e relações que se influencia reciprocamente, isto é, qualquer mudança que ocorre nesse sistema afeta a todos.” (CIA, FERRONI, 2014, p. 202).

Dessen e Braz (2005) baseiam-se no conceito de interação e relação social desenvolvidos por Hinde (1979, 1997), e que consolidam os estudos de Dessen (1994, 1997) e Dessen e Lewis (1998). Hinde (1979, 1997) define interação como episódios entre duas ou mais pessoas que ocorrem em um ciclo de tempo limitado. Já a relação é composta por interações que envolvem no mínimo duas pessoas, mas refere-se a contextos mais amplos e por longo tempo, envolvendo o passado, presente e futuro.

Nesse sentido, é a partir das interações e relações entre os membros da família, que as características psicológicas dos sujeitos vão sendo moldadas, pois os mesmos iniciam desde pequenos o contato com os valores, as regras de convívio social, através de ações como recompensa, castigo e outras formas de interação entre o adulto e a criança (COLL; MARCHESI; PALACIOS, 2004; DESSEN; BRAZ, 2005).

Becker e D’Antino (2009, p. 8) afirmam que a família é a micro-estrutura social, como o “berço” do indivíduo, “assim, essa micro-estrutura funciona, ao mesmo tempo, como representante e intermediária das relações sociais mais amplas, possibilitando à criança a formação de sua primeira identidade.” Portanto, o núcleo familiar assume o papel sócio- educacional, pois é a partir da qualidade das interações neste contexto que a criança aprende a se relacionar com o outro no meio extra-familiar.

Estudos comprovam que, quando se trata de crianças público alvo da Educação Especial, as interações e as relações são bastante alteradas (DESSEN; CERQUEIRA SILVA, 2008; PANIAGUA, 2004; SILVA; DESSEN, 2001), isso porque os pais vivenciam inúmeros sentimentos contraditórios, quando nasce uma criança com deficiência, entre elas:

(a) fase de choque, na qual algumas famílias assustam ou ficam paralisadas emocionalmente ao receberem a notícia de que o filho possui algum tipo de deficiência; (b) fase de negação, na qual as famílias negam ou não acreditam que o filho possui deficiência; (c) fase de reação, a qual pode ser expressa na forma de irritação, culpa e depressão; (d) fase de adaptação e de orientação, na qual a família já compreende a deficiência do filho e procura ajuda. (CIA, FERRONI, 2014, p. 203).

Sabe-se que desde a descoberta da gravidez, passando pela fase gestacional até o nascimento da criança, vários sentimentos estão envolvidos em todo o processo, como o medo, a insegurança, a satisfação, a alegria e outros. Já nos casos em que a criança é diferente da esperada, como o nascimento de uma criança com deficiência, outros sentimentos são mais frequentes, como negação, insatisfação, revolta, culpa, tristeza e frustração. “Os pais ao

perderem o filho desejado podem, imersos em seu sofrimento e não elaborando o luto, estarem impedidos de estabelecer um vínculo com o bebê real.” (BUNHARA; PETEAN, 1999, p. 32). Isso porque os pais experimentam a perda das expectativas e dos sonhos, e a condição da deficiência traz consigo uma nova realidade para a família. (PANIAGUA, 2004).

Ao longo do desenvolvimento da criança, a família precisa tomar inúmeras decisões, por exemplo, escolher profissionais especializados, diversos tratamentos médicos e terapêuticos, e outros. Inicialmente, os familiares sentem-se perdidos diante de tantas informações novas, sendo necessária a ajuda dos parentes e pessoas próximas, principalmente, na fase de adaptação.

Vale ressaltar que, pais e mães assumem papéis distintos e contribuem em diversos aspectos para o processo de desenvolvimento e educação dos filhos. Todavia, as pesquisas vêm comprovando que a divisão de tarefas entre pais e mães não é igualitária, e que as mulheres ainda assumem a maior responsabilidade em relação ao cuidado e educação dos filhos (DESSEN; SILVA, 2004). Nos casos em que existe uma criança com deficiência, essa realidade torna-se mais evidente, ou seja, além de assumirem a maior parte das atribuições relacionadas ao cuidado e educação da criança, as mulheres, em sua maioria abdicam de suas carreiras profissionais para se dedicarem aos filhos. (PANIAGUA, 2004).

De acordo com Paniagua (2004), essas famílias vivenciam muitas situações de dificuldades que podem gerar estresse, como: 1) escolha de profissionais e opções educativa; 2) o aumento da dedicação dos pais ao filho com deficiência, por geralmente necessitar de mais cuidados físicos e mais estimulação para o seu processo de desenvolvimento; 3) dificuldade de encontrar pessoas que possam ajudar a cuidar da criança, para que os pais tenham momento de lazer; 4) Gastos enormes em saúde e educação; 5) Preocupação com o futuro do filho.

As famílias, em sua maioria, conseguem aos poucos se adaptar as situações acima citadas, principalmente, se, não somente a criança com NEE, como os demais membros do seio familiar, forem apoiados por profissionais especializados, durante o processo de reabilitação, seja no âmbito médico, escolar, psicológico ou social.

Segundo Cia (2012), diversos estudos nas áreas de Educação Especial e Desenvolvimento Humano vêm destacando a relevância de estudar a família, não meramente por ser um contexto fértil para o desenvolvimento infantil, mas também por se tratar de um

“suporte social” para todos os integrantes, principalmente, nos casos de famílias que possuem crianças com NEE’s.

Conhecer sobre a dinâmica familiar facilita, por exemplo, quando a família decide colocar a criança na escola. São muitas as expectativas diante desse momento novo, alguns pais ficam receosos, sobretudo se o filho tiver alguma deficiência.

A entrada das crianças na Educação Infantil não é importante apenas para as mesmas, mas também para os pais, pois as relações com os profissionais da educação e outras famílias, os ajudam a vencer o medo de deixar os filhos em outro ambiente, sob os cuidados de pessoas inicialmente desconhecidas. Nessa fase, “a criança costuma passar de um meio protetor, ou superprotetor, a um contexto social mais amplo, no qual se prioriza o desenvolvimento da autonomia.” (PANIAGUA, 2004, p. 341).

Ao nascer, o bebê é dependente, e, com o passar do tempo, o mesmo toma consciência de si e de suas capacidades. Ao participar do ambiente escolar, a autonomia da criança vai ser ainda mais estimulada, como executar sozinha as tarefas, se alimentar segurando sua colher, desfraldar-se e solicitar ajuda ao usar o banheiro, entre outras. Além disso, precisa aprender a guardar os brinquedos após usá-los.

Na correria do dia a dia, muitos pais escolhem o caminho mais fácil, como continuar dando a comidinha na boca da criança ou não deixar que façam atividades simples com autonomia. Esses são alguns dos primeiros desafios de suas vidas, que os adultos acabam por privar os filhos de superarem. Por isso, é tão importante a aproximação e o diálogo dos profissionais da educação com a família e vice-versa.

Nessa fase, os professores poderão dar importantes orientações de como a família pode estimular o desenvolvimento da autonomia dos pequenos. Os responsáveis devem valorizar suas atitudes, saber ouvi-los, deixar que participem da tomada de decisões coletivas, estimulá- los a realizar ações por si próprios. Atitudes como tirar a sua roupinha e colocá-la no cesto de roupa suja, trocar-se com o mínimo de ajuda possível, lavar as mãos e escovar os dentes, tomar banho e enxugar-se, ir ao banheiro sozinho e limpar-se, tirar seu prato da mesa, cumprimentar e despedir-se das pessoas, agradecer e solicitar ajuda do outro. Essas ações são fundamentais para a construção da autonomia e da identidade da criança.

As crianças com deficiência visual também precisam ser estimuladas, algumas necessitarão de estratégias ou recursos diferenciados, como as tecnologias assistivas, para alcançar algumas habilidades referentes à autonomia, sendo de extrema relevância a atuação

de profissionais especializados orientando a melhor maneira do professor da escola comum trabalhar com essas necessidades específicas.

Por isso, a relação entre a família e a escola requer um esforço mútuo e colaborativo, mas nem sempre é fácil a atuação conjunta e parceira entre as partes.

Frequentemente, a escola se queixa que as famílias delegam exclusivamente ao meio escolar a educação de seus filhos. Por outro lado, muitos pais sentem que o mundo escolar lhes impõe o que deve fazer com seu filho, sem ouvir seus pontos de vista. (PANIAGUA, 2004, p. 343)

Essas tensões são comuns, principalmente, porque a família e a escola são contextos de desenvolvimento distintos e assumem diferentes papéis na educação da criança, porém, se suas ações forem bem articuladas, as crianças serão as maiores beneficiadas. A confiança dos pais, no que se refere ao trabalho do professor, é fundamental para o processo de ensino- aprendizagem.