4. REALIDADE E OBJECTIVIDADE
4.2. A Família [die Familie]
A família inaugura a passagem do domínio propriamente subjectivo à comunidade, ao que é comum. Hegel toma o individual como parte do comum: o individual surge do comum e não o comum do individual111.
«A identificação das personalidades, que faz da família uma só pessoa em que os seus membros são acidentes – [a substância é essencialmente a relação dos acidentes a si mesmos – Enciclopédia (§98)], é a eticidade112.»
A família, como fundada no casamento, segundo o conceito, destina-se a durar «em si» e daí que Hegel admita a dissolução do casamento113, pois «para-si» o casamento (a família), porque assente na sensibilidade, deve poder tornar-se dissolúvel. Este é um dos pontos, não o único, para entendermos a família como momento inaugural da eticidade; a família é já vida ética. É no momento de união
111 Ver: HEGEL, Des Manières de Traiter Scientifiquement du Droit Naturel, trad. Bernard Burgeois,
Paris, Librairie Philosophique J. Vrin, 1972.
112 «Die Identifizierung der Persönlichkeit, wodurch die Familie e i n e Person ist und Glieder
derselben Akzidenzen [sind] (die Substanz) ist aber wesentlich das Verhältnis zu ihr selbst von Akzidenzen; s. Enzyklop. der philos. Wissensch., § 98), ist der sittliche Geist, der für sich.», HEGEL,
Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 193; TW, vol. 7, p. 314
113 Este problema era bastante discutido à época. É aqui referido, não para entrar no debate quanto à
temática mas exclusivamente para uma compreensão do movimento do direito na concepção hegeliana. Também o tema da dissolução moral da família: «Provém a dissolução moral da família de que os filhos, ao assumirem a personalidade livre, ao atingirem a maioridade, são reconhecidos como pessoas jurídicas e tornam-se capazes, por um lado, de livremente possuírem a sua propriedade particular e, por outro lado, de constituírem famílias, os filhos como chefes, as filhas como esposas.», «Die sittliche Auflösung der Familie liegt darin, daß die Kinder zur freien Persönlichkeit erzogen, in der
Volljährigkeit annerkannt werden, als rechtliche Personen und fähig zu sein, teils eigenes freies
Eigentum zu haben, teils eigene Familien zu stifen – die Söhen als Häupter und die Töchter als Frauen», HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 177; TW, vol. 7, p. 330.
ética da família, na relação afectiva entre um pequeno grupo de pessoas, que se reflecte o modelo de união entre toda a comunidade viva num Estado.
A família é a união em forma de amor, de sentimento. O Estado é a união na forma da razão. Na família sempre algo há de transitório, sendo esse um dos fundamentos para que o casamento possa tornar-se dissolúvel (tema bastante discutido à época); e os filhos, após a educação têm o dever de se independentizar e constituir suas próprias família. Já no Estado114, a relação é permanente.
A família é já vida ética, embora na sua forma natural, pois que representa a «auto-consciência da individualidade115» sob modo de «unidade sensível, de amor»; o amor116 é a base da relação familiar, do casamento e é também então o que introduz a contradição e por si a soluciona117. O elemento ético da família, o elemento concreto de união ética, é o amor, é assim que o Espírito nela (na família) está presente.
114 Quanto à questão da imobilidade do Estado que permite o movimento, é interessante fazer a
analogia que, embora num contexto histórico, social e político diverso, não deixa de ter algumas relações com certas interpretações da filosofia política hegeliana: «todo o movimento supõe algo de imóvel. [..]. Mesmo nas coisas mutáveis há estados imóveis [...]. E, por isso, nada proíbe que se tenha uma ciência imóvel acerca de coisas móveis.», «omnis motus supponit aliquid immobile. [...]. Rerum etiam mutabilium sunt immobiles habitudines [...]. Et propter hoc nihil prohibet de rebus mobilibus immobilem scientiam habere.», São TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologiae, I, q. 84, a. 1, ad 3.
115 O auto-conhecimento é um tema filosoficamente importante. Remonta já a Sócrates, com conhecida
a frase, por Platão e Xenofonte citada: «conhece-te a ti mesmo», «γνῶθι σεαυτόν».
116 Os aspectos românticos, aliás por vezes presentes na obra de Hegel, dado o contexto histórico, a
convivência com Schelling, Hölderlin, entre outros, estão também presentes no seu pensamento. Porém, manifestar-se-á sempre a necessidade de ultrapassar o romantismo. Não quer dizer que os românticos não falassem em razão, mas falavam de um sentimento íntimo, profundo, que Hegel criticava severamente pois que o fundamento da verdade não poderia residir numa convicção íntima. Para os românticos a razão é como a arte e o modo como a própria filosofia se constrói é semelhante à criação artística, já para Hegel, a própria arte, a religião e a filosofia se subordinam à razão, porque aquilo que é, é a razão: «conceber aquilo que é é a tarefa da filosofia, pois aquilo que é é a razão.», «Das was ist zu bergreifen, ist die Aufgabe der Philosophie, denn das was ist, ist die Vernunft.» HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, Vorrede; TW, vol. 7, p. 26.
Os românticos, politicamente, arrumavam do lado contrário ao de Hegel. A predominância do Histórico – não do desenvolvimento na História, mas do historicamente edificado – era como que um fundamento majestoso e cristalizado das concepções da política no romantismo alemão.
117 «O amor é, portanto, a contradição mais formidável, [uma contradição], que o entendimento não
pode solucionar, na medida em que não há nada mais duro do que esta pontualidade [a condição de ponto] da autoconsciência que é negada e que eu, contudo, devo ter por afirmativa. O amor é,
A consideração da família como primeiro momento de união ética é também um dos elementos que fazem de Hegel um pensador da instituição. Embora referindo o sentimento e não a racionalidade como base, assegura já a unidade como carácter principal da família e também do Estado. A família baseia-se no amor e está por isso
simultaneamente, o produzir, e a resolução, da contradição: enquanto resolução, ele [o amor] é a união ética.», «Liebe heißt überhaupt das Bewußtsein meiner Einheit mit einem anderen, so daß ich für mich nicht isoliert bin, sondern mein Selbstbewußtsein nur als Aufgebung meines Fürsichseins gewinne und durch das Mich-Wissen, als der Einheit meiner mit dem anderen und des anderen mit mir.» HEGEL,
Grundlinien der Philisophie des Rechts, § 158, Zusatz; TW, vol. 7, p. 307. Tradução de José Barata-
Moura.
Recorde-se o §166 das Grundlinien: «É assim que, numa das suas mais sublimes representações, a
Antígona de Sófocles, o amor é expresso, antes de tudo, como a lei da mulher. É a lei da
substancialidade subjectiva sensível, da intrinsecidade que ainda não alcançou a sua plena realização, a lei dos deus antigos, dos deuses subterrâneos, a imagem de uma lei eterna que ninguém sabe desde quando existe, e que se representa em oposição à lei manifesta, a lei do Estado. Esta oposição é a oposição moral suprema, portanto a mais essencialmente trágica. Não são individualizadas a feminilidade e a virilidade.», «Die Pietät wird daher in einer der erhabensten Darstellungen derselben, der Sophokleischen Antigone, vorzugsweise als das Gesetz des Weibes augesprochen und als das Gesetz der empfindenden subjektiven Substantialität, der Innerlichkeit, die noch nicht ihre vollkommene Verwirklichung erlangt, als das Gesetz der alten Götter, des Unterirdischen, als ewiges Gesetz des Staates dargestellt – ein Gegensatz, der der höchste sittliche und darum der höchste tragische und in der Weiblichkeit und Männlichkeit daselbst individualisiert ist.», HEGEL,
Grundlinien der Philosophie des Rechts, §166; TW, vol. 7, p. 319.
Antígona, na peça de Sófocles, arriscaria a sua vida, numa prova de amor, dignidade e justiça (divina) para que o destino de seu irmão defunto Polinices, tivesse as merecidas honras funerárias, algo que fora proibido pelo rei Creonte, o senhor das leis da cidade. Antígona arriscava ser condenada, embora isso não a demovesse já que considerava estar a cumprir um dever sagrado, um dever dos mortos – já que aos mortos serviria bem mais que aos vivos, pois com os mortos descansaria para sempre – fazendo valer, uma mulher, contra a lei da cidade a lei divina, a lei de Zeus, a lei dos subterrâneos, a própria Justiça inscrita em leis eternas não escritas.
«Antígona diz na obra de Sófocles: os mandamentos divinos não são de ontem nem de hoje, não; vivem sem fim, e ninguém saberia dizer de onde vieram. As leis da eticidade não são contingentes, mas constituem o próprio racional.», «Antigone beim Sophokles sagt: die göttlichen Gebote sind nicht von Gestern, noch von heute, nein, sie leben ohne Ende, und niemand wüßte zu sagen, von wannen sie kamen.» HEGEL, Vorlesungen über die Philosophie der Weltgeschichte, Band I, Die Vernunft in der
Geschichte, ed. Johannes Hoffmeister, Hamburg, Felix Meiner Verlag, 1955, p. 112.
Para o tema do amor na filosofia do direito e da política de Hegel, é também interessante ver: Adriaan T. PEPERZAK, Modern Freedom, Hegal’s Legal, Moral and Political Philosophy, Dordrecht, Kluwer Academic Publishers, 2011, pp. 410 – 419.
sujeita a desvanecer. A sociedade civil vive no conflito, estando assim sujeita (como universalidade empírica com controlo administrativo e corporativo) à racionalidade do Estado.
Hegel, ao desenvolver no §181 das Grundlinien, o trânsito da família à sociedade civil, expressamente refere: «de um modo natural e, essencialmente, de acordo com o princípio da personalidade, divide-se a família numa multiplicidade de famílias que em geral se comportam como pessoas concretas independentes e têm, por conseguinte, uma relação extrínseca entre si», ou seja, dá-se com as famílias o mesmo que com as pessoas singulares, elas entram numa conflitualidade emergente na sociedade civil.
A verdadeira substância ética, toda ela é racional, ao passo que a família tem em si, guardada no âmago da união, o impulso do sentimento.
Na família, o homem deixa de ser abstracto, passa a ser membro de uma unidade viva e no seu amor reconfortante, leva uma existência concreta que é existência livre, uma existência baseada no consentimento. Todavia a família, que tem os seus fundamentos na natureza, no dado imediato da individualidade biológica e no acaso do afecto da pessoa, não dura para sempre, e a morte dos pais (ou a autonomização do sujeito pela sua emancipação) transforma o descendente adulto em pessoa privada (num marco universal e concreto) que prossegue os seus próprios fins. Nesse processo de emancipação, a noção do trabalho aparece novamente com preponderância. É pelo trabalho que o homem entra numa rede social118, o trabalho119
118 «Assim como o singular no seu trabalho singular completa já inconscientemente um trabalho universal, ele volta também a completar o [trabalho] universal como seu objecto consciente; o todo
devem, como todo, obra sua, pela qual ele se sacrifica e, precisamente por isso, é ele próprio, em troca, mantido por ele.», «Wie der Einzelne in seiner einzelnen Arbeit schon eine allgemeine Arbeit
bewusstlos vollbringt, so vollbringt er auch wieder die allgemeine als seinen bewussten Gegenstand;
das Ganze wird als Ganze sein Werk, für das er sich aufopfert und eben dadurch sich selbst von ihm zurückhält.» HEGEL, Phänomenologie des Geistes; TW, vol. 3, p. 265. Tradução de José Barata- Moura.
119 «A essência moderna e metafísica do trabalho foi antecipada no pensamento da Fenomenologia do Espírito de Hegel como o processo que a si mesmo se instaura, da produção incondicionada, isto é, da
objectivação do efectivamente real pelo homem experimentado como subjectividade.», «Das neuzeitlich-metaphysische Wesen der Arbeit ist in Hegel’s Phänomenologie des Geistes vorgedacht als der sich selbst einrichtende Vorgang der ubendingten Herstellung, das ist Vergegensständlichung des
é a natureza da mediação social entre os homens, o seu meio de relação entre si e com a natureza120.
Na família a realidade exterior é mantida numa propriedade e, caso esta propriedade seja uma fortuna, nela tem a sua personalidade substancial121. Hegel, trata assim a personalidade com relação à propriedade atribuindo, através do direito sucessório e da herança, o «estatuto» à família em função da sua fortuna.