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4. REALIDADE E OBJECTIVIDADE

4.1. Eticidade [Sittlichkeit]: um primeiro apontamento

A identidade concreta do Bem, como Ideia, e da vontade subjectiva é a eticidade [Sittlichkeit].

O conceito da liberdade devém mundo real (racional e objectivo) através da consciência auto-consciente da sua identidade103; o conceito de liberdade faz-se real e                                                                                                                

102 «Was wirklich ist, ist vernünftig. Aber nicht alles ist wirklich was existirt, das Schlechte ist eine in

sich selbst Gebrochenes und Nichtiges.», HEGEL, Philosophie des Rechts nach der

Vorlesungnachschrift von D. F. Strauss 1831 mit Hegels Vorlesungsnotizen; Vorlesungen über Rechtphilosophie 1818-1831, ed. Karl-Heinz Ilting, Stuttgart – Bad Canstatt, Frommann – Günther

Holzboog, 1974, vol. IV, p. 923. Este apontamento foi tomado por David Friedrich Stauss, e terá ocorrido na última aula que Hegel proferiu antes de falecer; chega até nós graças ao exaustivo trabalho de Karl-Heinz Ilting.

É decisivo tomar em consideração o contributo de Cieszkowski: «A famosa e famigerada frase de Hegel, segundo a qual todo o racional seria real e todo o real racional, requer ainda a correcção de que tanto o racional como o real são apenas resultados de desenvolvimento, isto é, de que, em determinados estádios do Espírito o racional coincide com o real, para depois dialecticamente um ultrapassa o outro reciprocamente; e daí surgem as épocas da discórdia na história mundial. A realidade torna-se constantemente mais conforme à racionalidade, e este processo de desenvolvimento só separa em dois lados para, num estádio superior, voltarem a coincidir», «Der berüchtigte Satz Hegel’s dass alles Vernünftige wirklich und alles Wirkliche vernünftig sey, fordert noch diejenige Correction, dass sowohl das Vernünftige als auch das Wirkliche nur Entwicklungsresultate sindm d. h. dass auf bestimmten Stadien des Geistes das Vernünftige mit dem Wirklichen zusammenfällt, damit nachher dialektisch eins über das andere wechselseitig hinausgehe; und daraus entstehen die Epochen des Zwiespaltes in der Weltgeschichte. Die Wirklichkeit macht sich beständig der Vernünftigkeit angemessener und dieser Entwicklungsprocess Beider trennt sich nur deshalb in zwei Seiten, um auf einer höheren Stufe wieder zusammen zu fallen.», CIESZKOWSKI, Prolegomena zur Historiosophie, Berlin, Veit, 1838, pp. 145 – 146.

103 HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 142; TW, vol. 7, p. 292.

É importante lembrar que Hegel era um grande admirador da República Romana e da ideia de res

realizado na objectividade de uma vivência concreta e não na subjectividade formalizada (ou imperativa) da idealização de uma esfera possível. Este ponto, sujeito evidentemente a uma crítica materialista ao idealismo que se faça pretender como absoluto, ressalva um aspecto de enorme importância. O que aqui se pretende destacar é o de apreender, pelo pensamento, a realidade presente e viva da realidade. Com consciência de um presente enriquecido pela história, desenvolvido e em desenvolvimento, não se trata de atender ao passado presente na realidade presente, ou à dimensão futura para a qual propende o presente no seu desenvolvimento, mas à realidade viva e actual de um presente desenvolvido e sempre exposto (inerente) ao desenvolvimento.

Os momentos da Ideia, mais não são, para o filósofo, do que as particularidades presentes na própria Ideia; as particularidades tomam forma inseridas na universalidade concreta104. A Ideia é a universalidade, não independentemente

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

absoluto realizado na multiplicidade da consciência existente; ele é comunidade, isto é, no fundo, a res

publica.», «Die sittliche Substanz ist also in dieser Bestimmung die wirkliche Substanz, der absolute

Geist in der Vielheit des daseienden Bewusstseins realisiert; er ist das Gemeinwessen.», HEGEL,

Phänomenologie des Geistes; TW, vol. 3, p. 329.

104 Não só o círculo da filosofia hegeliana se completa, como, para Hegel, também a filosofia é ela um

círculo entre círculos. A dialéctica (idealista) de Hegel é propensa à identidade circular entre o ser e o pensar.

No domínio da Natureza, para Hegel, toda a variação é circular: «o planeta deixa, pois, este e aquele lugar, mas a trajectória total é permanente. O mesmo acontece com os géneros dos animais. A variação é um círculo, uma repetição do idêntico. Tudo se move assim em círculos e só no interior destes, em algo de individual, é que há variação.», «So verläßt der Planet diesen und diesen Ort; aber die ganze Bahn ist beharrend. Ebenso ist es mit den Gattungen beharren. So verläßt der Planet diesen und diesen Ort; aber die ganze Bahn ist beharrend. Ebenso ist es mit den Gattungen der Tiere. Die Veränderung ist ein Kreislauf, Wiederholung des Gleichen. Alles steht so in Kreisen, und nur innerhalb dieser, unter dem Einzelnen ist Veränderung.», HEGEL, Vorlesungen über die Philosophie der Weltgeschichte,

Band I, Die Vernunft in der Geschichte, ed. Johannes Hoffmeister, Hamburg, Felix Meiner Verlag,

1955, p. 153.

Lembremos, quanto à questão do círculo (completo) da filosofia hegeliana, as palavras do poeta Heinrich Heine: «A nossa revolução filosófica está terminada. Hegel fechou o seu grande círculo, nós a partir daí só vemos desenvolvimentos na filosofia da natureza.», HEINE, Para a História da Religião e

da Filosofia na Alemanha (Zur Geschichte der Religion und Philosophie in Deutschland 1835). Heine

referia-se à filosofia da natureza de Schelling. Também a filosofia de Marx iria despertar um grande interesse no poeta alemão.

particularizada mas particularizável (abstractamente) apenas no seio da universalidade concreta.

«A autoridade das leis morais é infinitamente mais elevada pois as coisas naturais só de um modo exterior e isolado apresentam um carácter racional que, aliás, escondem na aparência da contingência»105. Para o filósofo, a Natureza é do domínio exterior. O Espírito sabe-se na consciência, no homem, nos povos; a Natureza não tem consciência, não tem racionalidade, é apenas uma objectivação do Espírito.

«Na simples identidade com a realidade efectiva dos indivíduos, a moralidade objectiva aparece como o seu comportamento geral, como costume»106. Hegel, embora critique o direito consuetudinário por fazer «arrastar» no tempo estruturas (também jurídicas) fixas já não correspondentes a uma realidade efectiva (Wirklichkeit), salienta também a importância do costume em que os povos, os homens, os indivíduos se encontram embebidos. O Espírito vive (livre) nos povos e nos seus costumes, nos seus costumes vivos, actuais e não em costumes obsoletos, mortos.

O §152 das Grundlinien tem uma passagem central na obra: «O carácter moral objectivo conhece que o seu fim motor é o universal, imutável se bem que aberto em suas determinações à racionalidade real». Ou seja, a universalidade imutável, guarda no seu seio, na sua imanência, o constante movimento; o Estado, reflecte-se como a universalidade concreta (com a possibilidade da abstracção dentro): abstracta nas particularizações em si; concreta em si e para si.

Como temos visto, toda a obra que aqui tratamos tem também ela um movimento. A dimensão do movimento das Grundlinien perpassa todo o texto, onde, chegando à eticidade e ao saber consciente na objectividade da realidade efectiva, o saber e a liberdade se fundem numa mesma essência, a plenitude da liberdade107.

                                                                                                               

105 «Die Autorität der sittlichen Gesetze ist unendlich höher, weil die Naturdinge nur auf die ganz äußerliche und vereinzelte Weise die Vernünftigkeit darstellen und die unter die Gestalt der

Zufälligkeit verbergen.», HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 146; TW, vol. 7, p. 295.

106 «Aber in der einfachen Identität mit der Wirklichkeit der Individuen erscheint das Sittliche, als die

allgemeine Handlungsweise derselben, als Sitte.» HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 151; TW, vol. 7, p. 301.

107 Para este ponto é crucial ter em conta: Karl-Heinze ILTING, «Rechtsphilosophie als

Na vivência humana, racional, o Espírito vive nos povos, na sua consciência; os homens movem-se, contradizem-se, erram, alcançam feitos, sofrem, envolvem-se na feitura e transformação do mundo.

O Estado em Hegel funda-se na Ideia108. O Estado é, para Hegel, a universalidade concreta109, a substântia ética autoconsciente110. O filósofo pensa a racionalização do Estado (como estrutura) através da racionalização das leis e das instituições, de forma a tornar possível a liberdade da universalidade no seu interior (de forma hierarquizada, com funções e classes bem definidas).

Para o filósofo, a consolidação do jurídico origina a liberdade viva e fundamentada no seio da vivência do povo, ainda assim, a realidade presente de um presente vivo tornado em leis, logo é ultrapassado na marcha da alteridade do mundo. Esta questão, pese embora a posição mais conservadora de Hegel pelo fracasso da consolidação dos ideais liberais na sua época, não deixa de subentender (algo que tem                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

Horstmann, Stuttgart, 1982, pp. 225 – 254, onde Karl Heinze-Ilting dá conta da dimensão «fenomenológica» da estrutura das Grundlinien.

108 O §153 das Grundlinien denota bem o idealismo político de Hegel: «A um pai que o interrogava

sobre a melhor maneira de educar o seu filho, respondeu um pitagórico (resposta também atribuída a outros filósofos [Sócrates]): «Faz dele cidadão de um Estado cujas ideias sejam boas.», «Auf die eines Vaters nach der besten Weise, seinen Sohn sittlich zu erziehen, gabeein Pythagoreer (auch anderen wird sie in den Mund gegelt) die Antwort: wenn du ihn zum Bürger eines Staats von guten Gesetzen machst.», HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 153; TW, vol. 7, p. 303.

109 «O Estado é a realidade da Ideia ética – o espírito ético enquanto vontade substancial, transparente

de si para si, revelada, que a si mesma se pensa e se sabe e, justamente porque o sabe e na medida em que sabe, se realiza plenamente. Com existência imediata nos costumes é na consciência de si do indivíduo, no seu saber, na sua actividade, que o Estado tem existência mediata, tal como o indivíduo, por esta disposição dos próprios sentimentos, aufere no Estado – que é sua essência, seu desígnio, produto da sua actividade – a liberdade substancial.», «Der Staat ist die Wirklichkeit der sittlichen Idee – der sittliche Geist, als der offenbare, sich selbst deutliche, substantielle Wille, der sich denkt und weiß und das, was er weiß und insofern er es weiß vollführt. An der Sitte hat er seine unmittelbare und an dem Selbstbewußtsein des Einzelnen, dem Wissen und Tätigkeit desselben, seine vermittelte Existenz, so wie dieses durch die Gesinnung in ihm, als seinem Wesen, Zweck und Produkte seiner Tätigkeik, seine substantielle Freiheit hat.», HEGEL, Grundlinien der Philosophie des Rechts, § 257; TW, vol. 7, p. 398.

110 Este ponto é delicado e pode ser tido entre duas perspectivas políticas principais. Do lado das teorias

de direita, estreitas, controladoras e autoritárias, como se reflecte na filosofia de Giovanni Gentile, ou, criticamente, do ponto de vista do marxismo que toma essa universalização da consciência como paradigma eminentemente idealista e burguês.

vindo a ser destacado ao longo do presente texto) a primazia do movimento inscrito na realidade viva.