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A felicidade e o direito: uma análise sobre as dimensões e a necessidade de

3. O DIREITO À FELICIDADE

3.1 A felicidade e o direito: uma análise sobre as dimensões e a necessidade de

Atualmente, utilizando-se o sistema de consulta ao jurisprudencial do Superior

Tribunal de Justiça para rastrear os termos “direito à felicidade”, contabiliza-se 12

respostas. No âmbito do Supremo Tribunal Federal, são 15 acórdãos responsivos aos

termos direito e felicidade, sendo alguns deles pertinentes ao instituto em si, em

questões polêmicas onde serviu de bússola à máxima corte judicial brasileira. Os dados

dispostos servem para demonstrar o direito à felicidade como uma realidade jurídica

brasileira, vez que os tribunais superiores promanaram decisões nele fundamentas ou,

ao menos, com menção à sua aplicação para orientação que serviu para elucidar os

litígios relacionados.

O senador Cristovam Buarque formulou uma PEC

17

– Proposta de Emenda à

Constituição, à qual fora atribuído o número 19/2010, com objetivo de promoção da

alteração na redação do art. 6º da Constituição Federal, onde deveria ser incluído o

direito à busca pela felicidade pelo indivíduo e pela sociedade, mediante a dotação pelo

Estado e pela própria sociedade das adequadas condições de exercício desse direito. Ao

contrário das considerações acerca do status de direito fundamental atribuído em outras

partes do mundo, a PEC tinha por escopo o enquadramento da felicidade como um

direito social. O resultado foi o arquivamento da matéria ao final da 54ª Legislatura, nos

termos do art. 332 do Regimento Interno e do Ato da Mesa nº 2, de 2014.

Por força da resolução número 65/309, a Organização das Nações Unidas, em

julho de 2011, por meio de sua Assembleia Geral, impulsionou, à unanimidade de

membros, a felicidade como verdadeira expressão da qualidade de vida e

desenvolvimento humano. O episódio teve como gatilho o Reinado de Butão, que

adotou, como índice nacional, não o tradicional Produto Interno Bruto, mas a Felicidade

Interna Bruta.

17

Disponível em: https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/97622.> Último acesso em 31 ago 2018.

28

A mudança radical citada acima, publicada pelo portal de notícias UOL

18

, reflete

o cerne da questão Estado x felicidade, incutindo parte da responsabilidade pela

promoção do bem-estar emocional, também, à personalidade de natureza jurídica

representada pela soberania nacional. O direito à felicidade, à busca pela felicidade ou,

ainda, princípio da felicidade, é um dos desdobramentos dos direitos humanos,

diretamente encrustado à dignidade, que confere a prerrogativa individual e também

coletiva de perscrutar um objetivo comum à história documentada do ser humano: de

ser feliz.

O que seria, então, exatamente, este instituto que alcança a esfera abstrata do

desejo humano, tão complexa e única face aos fatores pessoais e sociais presentes no

meio onde está inserido?

Como dispõe em sua tese de doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de

São Paulo o autor Saul Tourinho Leal

19

, o direito à felicidade tem lugar cativo na

história global há considerável espaço de tempo. A Declaração de Independência dos

Estados Unidos (1776) e as constituições do Japão (1947), Coréia do Sul (1948), França

(1958), e do Reino do Butão (2008) já reconheciam a felicidade ou a busca por ela

como um direito humano fundamental.

Para contextualizar o status atribuído à felicidade por estes países, é necessário

discorrer, ainda que brevemente, sobre as gerações de direitos humanos e o que cada

uma delas significou, em diferentes épocas, para as perspectivas da humanidade. Como

de amplo conhecimento aos estudiosos do direito, a primeira geração destas

prerrogativas resultou principalmente da Declaração Francesa dos Direitos do Homem e

do Cidadão, bem como da Constituição americana de 1787, após confronto entre os

administrados e governantes. A mola propulsora foi o Estado absolutista, que sufocava

direitos e garantias individuais da população.

Estas, todavia, não são as únicas fontes que serviram de inspiração aos direitos

humanos de primeira geração, que tratam de garantir liberdades e seguranças

individuais. Servem de imposição de uma conduta negativa ao Estado, que deve se

18 UOL. ONU reconhece busca pela felicidade como objetivo fundamental. Disponível em:

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2011/07/19/onu-reconhece-busca-pela-felicidade-como-objetivo-fundamental.jhtm.> Último acesso em 29 ago 2018.

19 LEAL, Saul Tourinho. Direito à felicidade: história, teoria, positivação e jurisdição. Biblioteca Digital

da Pontifícia Universidade Católica. 2013, p. 138. Disponível em: <

29

abster de atuar naquilo que tange certos aspectos das liberdades pessoais. Como dispõe

Celso Lafer

20

, na obra “A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o

pensamento de Hannah Arendt”:

“Os direitos humanos da Declaração de Virgínia e da Declaração Francesa de 1789 são neste sentido, direitos humanos de primeira geração, que se baseiam numa clara demarcação entre Estado e não Estado, fundamentada no contratualismo de inspiração individualista. São vistos como direitos inerentes ao indivíduo e tidos como direitos naturais, uma vez que precedem o contrato social. Por isso, são direitos individuais: (I) quanto ao modo de exercício – é individualmente que se afirma, por exemplo, a liberdade de opinião; (II) quanto ao sujeito passivo do direito – pois o titular do direito individual pode afirmá-lo em relação a todos os demais indivíduos, já que esses direitos têm como limite o reconhecimento do direito de outro [...]”

Os Direitos humanos de segunda geração surgiram quando diversas liberdades

individuais encontravam-se consagradas. Neste momento, em que as necessidades de

piso se achavam satisfeitas, era necessária, também, a garantia de direitos sociais

capazes de potencializar a disposição destas mesmas liberdades para que as pessoas

pudessem existir no âmbito social. Se, no primeiro momento, cobrou-se do Estado uma

não ação, agora era exigida uma prestação positiva. Estes direitos, ditos sociais ou

prestacionais, objetivavam uma efetiva garantia, que marcou a transição entre os

constitucionalismos liberal e social. São direitos de segunda geração, portanto, dentre

outros, o trabalho, a saúde e a educação. Sua positivação, de acordo com Lafer, na

mesma obra supracitada, materializou-se nas Constituições francesas liberais de 1791 e

1973, com ampliação e reafirmação pela Constituição francesa de 1948.

Na terceira geração, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, as

atrocidades testemunhadas em um dos períodos mais conturbados da história gestaram

uma nova necessidade urgente, que seriam medidas assecuratórias da promoção do

equilíbrio nas relações humanas. Também conhecidos como direitos de solidariedade ou

fraternidade, caracterizam-se pela titularidade coletiva ou difusa. Observe-se que, ao

contrário das gerações anteriores, onde o indivíduo buscava do ente estatal uma omissão

ou ação voltadas à individualidade, aqui os esforços se concentram para o conjunto

destes indivíduos, ultrapassando, assim, a esfera particular de suas necessidades.

Seu período de reconhecimento e positivação tem como marco o processo de

internacionalização dos direitos humanos. Na lição de Ingo Wolfgang Sarlet

21

:

20

LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de Hannah

30 “[...] trazem como nota distintiva o fato de se desprenderem, em princípio, da figura do homem indivíduo como seu titular, destinando-se à proteção de

grupos humanos (família, povo, nação), e caracterizando-se,

consequentemente, como direitos de titularidade coletiva ou difusa. […] Dentre os direitos fundamentais da terceira dimensão consensualmente mais citados, cumpre referir os direitos à paz, à autodeterminação dos povos, ao desenvolvimento, ao meio ambiente e qualidade de vida, bem como o direito à conservação e utilização do patrimônio histórico e cultural e o direito de comunicação. Cuida-se na verdade do resultado de novas reivindicações fundamentais do ser humano, geradas, dentre outros fatores, pelo impacto tecnológico, pelo estado crônico de beligerância, bem como pelo processo de descolonização do segundo pós-guerra e suas contundentes consequências, acarretando profundos reflexos na esfera dos direitos fundamentais.”

Durante muito tempo, tratou-se como o total de três estas ondas de direitos do

homem, que eram reflexos do momento social vivido, por isso conhecidos como

geracionais. Não há pacificação do tema na doutrina sobre o reconhecimento e

aplicação prática da quarta geração. Contudo, aqueles que defendem sua existência a

relacionam com o progresso científico vivenciado a partir da revolução tecnológica.

Estariam aqui compreendidos temas polêmicos como eutanásia, transgenia de

alimentos, sucessão de filhos havidos por inseminação artificial, clonagens e outros

desdobramentos da engenharia genética que modificam bens da vida humana que o

direito se propõe a tutelar.

São salvaguardas de proteção jurídica com vistas a proteger a integridade do

patrimônio genético perante ameaças ligadas ao avanço da biotecnologia. Vale dizer

que, embora o dissenso doutrinário predomine quanto a esta quarta ascensão de direitos,

alguns dos objetos associados a ela já encontram respaldo legal por força do diploma nº

11.105/2005, intitulada Lei de Biossegurança. É um fato de curiosa observação, já que,

diante da ausência de consenso sobre a matéria, observa-se um movimento oposto ao

dos demais, onde a normatização talvez preceda a existência ideológica do direito, que

seria ratificada pelo pacifismo jurídico ainda não alcançado. Ou seja: quando ou se

chegar à unanimidade doutrinaria ou majoritária, a questão já estará parcialmente

positivada no ordenamento jurídico.

Em outra banda, também existe polêmica discussão entre aqueles que defendem

a quarta dimensão. Há entendimento contrário ao conteúdo juridicamente tutelado,

sendo que parte dos doutrinadores afirma serem de quarta dimensão os direitos

21SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. Livraria do Advogado, 1998, pp.

31

relacionados ao processo de globalização e ao futuro da cidadania, como forma de

legitimar a mundialização política e universalizar os direitos fundamentais cujo

reconhecimento já fora pacificado.

O autor Pedro Lenza, no célebre “Direito constitucional esquematizado”,

enquadra a possibilidade de promoção da mudança de sexo como parte dos direitos de

quarta geração, pois, em sua ótica, não configura pretensão de uma mera liberdade

individual, mas uma nova fase de reconhecimento de direitos fundamentais já

consagrados. Por fim, o desarmamento nuclear, a tributação justa materializada na

capacidade contributiva individualizada e o direito de ser diferente são outros vértices

importantes no debate, e que, talvez, servirão de fomento intelectual a futuras

discussões até que se defina de forma mais organizada esta caracterização.

Há, ainda, menção às quinta, sexta e sétima dimensões de direitos fundamentais

do homem. Todavia, para que se mantenha sob perspectiva o tópico central do qual o

capítulo pretende tratar, é necessário protagonizar o direito à felicidade em si e como foi

alçado ao status de garantia fundamental em diversas partes do mundo.

“A sétima dimensão dos direitos fundamentais”, trabalho publicado na sexta

edição da revista jurídica digital “Data Venia”, produzido por Leonardo Alves de

Oliveira

22

, constitui um dos apontamentos que aloca o direito à felicidade ou à busca

pela felicidade como inserido na penúltima geração de direitos fundamentais, definindo:

“[...] seria esta a finalidade precípua da natureza humana, bem supremo que a qualquer pessoa deseja e persegue, como modo de satisfação da própria dignidade da pessoa humana”.

Esta perspectiva que reconhece a felicidade como razão de ser do homem é

particularmente interessante porque se coaduna com ideias filosóficas e psicanalíticas

consagradas. Foi dissecado, a princípio, que a definição de felicidade percorreu um

trajeto longo e complexo e que, ainda que se tenha parâmetros atuais mais abrangentes

que os anteriores, não é possível dizer se serão definitivos, impassíveis de

aperfeiçoamentos ou transformações.

22OLIVEIRA, Leonardo Alves de. A sétima geração de direitos fundamentais. Revista Jurídica Data

Venia, ano 4, nº 06. 2016, p. 407. Disponível em: <

32

Nesta definição, a felicidade, que é definitivamente uma forma de prazer, não

seria, necessariamente, antônimo de desprazer, visto que eventos como a morte

anunciada não significaria obrigatoriamente sua anulação. Se é possível ser feliz apesar

de algumas formas de dor (desprazer), e se é possível compreender a felicidade como

um prazer perseguido pelo homem, é possível, ainda, dizer que o prazer seria a órbita

pela qual nossas ações gravitam.

Foi afirmado que a felicidade, muito provavelmente, é o fim precípuo da

existência humana. Uma teoria inusitada, entretanto, pode abrir novos horizontes sobre

a forma como ela é vista e perseguida. De acordo com o biólogo inglês Jonathan

Balcombe

23,

em sua publicação “The exultant ark – a pictorial tour of animal pleasure”,

não somos os únicos seres capazes de perceber sensações prazerosas. Momentos

simples como sentir a brisa, abraçar membros do mesmo grupo ou a socialização podem

provocar no cérebro de alguns nomes da vida selvagem sensações semelhantes às

nossas. É um levantamento de possibilidades verdadeiramente intrigante, vez que seres

humanos podem sentir prazer ou felicidade exatamente a partir dos mesmos estímulos.

A relevância de trazer a informação de que não se exclui uma possibilidade,

ainda que distante, de os animais sentirem-se felizes ou buscar isto é autoexplicativa:

põe a felicidade, talvez, como razão da vida em si, não apenas a humana, o que explica

quão imensurável é este sentimento. A tese tem o fito de revolucionar o modo como

enxergamos os animais para refrear maus-tratos e abusos perpetrados contra seres

sencientes. É notadamente perspicaz a correlação entre a descoberta do biólogo com o

objeto deste estudo: ainda que não se trate com termos léxicos correspondentes e exatos,

os estudiosos de biologia que se aprofundam por este campo de pesquisa, podem estar,

na verdade, a defender o direito à felicidade animal.

Partindo da premissa de que a felicidade pode ser um fim em si mesmo, uma

necessidade intrínseca ou, ainda, a maximização do bem-estar pessoal e social, da

dignidade da pessoa humana e, talvez, de seres não humanos, expoente máximo da paz

social, relacionada à cultura, ao pluralismo político, religioso e filosófico etc, torna-se

inviável atribuir-lhe uma dimensão apenas. Ora, sendo o máximo objetivo da vida do

homem, é o que justifica, reitera e norteia suas ações e desejos. Razoável seria, portanto,

23 ÉPOCA. Os bichos são felizes? Disponível em: <

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI259009-15257,00.html>. Último acesso em 31 ago 2018.

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compreender o ordenamento jurídico como o conjunto de normas, princípios, diretrizes

e políticas voltadas à garantia de um ambiente indispensável ao desenvolvimento

regular da felicidade.

Assim, estaria o direito de ser feliz ou de tentar ser feliz relacionado a todas as

dimensões, atuais ou vindouras, quando se considera a felicidade como objetivo

universal complexo, constituído por inúmeras garantias fundamentais. Logo, as

liberdades individuais perseguidas quando da primeira geração dos direitos do homem

configuram a retirada de óbices à plenitude da felicidade por meio da abstenção do

Estado.

Da mesma forma, perpassando aos direitos sociais de segunda dimensão, onde se

pleiteou a existência social do indivíduo seja por meio do trabalho ou do direito à saúde,

buscou-se a inserção social, cristalizada pelo reconhecimento do ser em relação ao

meio, desta vez através de uma conduta positiva, propiciando maiores condições ao

homem de sentir-se feliz através da dignidade.

Sequencialmente, os direitos de titularidade coletiva ou difusa, conhecidos como

de fraternidade, relacionam-se a este instituto tão intensamente quanto os anteriores, vez

que na proteção da pluralidade é, também, fator preponderante à felicidade humana.

Aqui vale rememorar as primeiras explanações sobre a natureza social do homem e a

importância da vida social.

Um dos pontos mais relevantes deste trabalho, além de estabelecer o liame

entre a solidão e a prerrogativa da felicidade, é destacar e reconhecer que ser feliz, de

fato, parece a razão de ser de todos nós. Quando se imagina a estruturação dos Estados,

suas soberanias, constituições, normas, mecanismos de controle e contenção, é

facilmente compreensível inferir que se tratam de modificações do indivíduo sobre o

ambiente para que nele seja possível estar ou ser feliz. O ser humano buscou, passo a

passo, ora remover obstáculos ao ideal de ser feliz, hora fomentar a felicidade ou as

condições de buscá-la.

Tourinho Leal promove verdadeira investigação sobre todos os aspectos do que,

a princípio, pode ser visto apenas como um sentimento pessoal, subjetivo, variável e,

talvez, confuso, mas que se relaciona intimamente com os bens jurídicos tutelados pelo

ente estatal. As reflexões postas em questão pela pesquisa, seja do ponto de vista

analítico e histórico, seja pela relação com o direito e, consequentemente, a

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constitucionalização, são deveras eficazes para fazer compreender as razões pelas quais

os tribunais superiores já aplicam o instituto ao plano de vida concreto.

3.2 O direito à felicidade e sua busca sob os vieses liberal e positivo: disposições